Para nós, todo o amor do mundo...
28 Silêncio
Notas iniciais
Os Lários chegaram na cobertura no inicio da noite. Silvestre e Franciely discutiam algo sobre o cardápio do jantar, mas se calaram ao verem a cara do patrão, quando se sentou no sofá bufando...
— Vai Estefania! Pode falar, me xingar...eu sei que o caminho todo você estava louca para fazer isso — comentou o empresário, diante da prima e do amigo.
— Eu deveria te bater Gustavo! Isso sim! — exclamou a estilista indignada — Você parece um menino mal criado!
— Eu sei...- suspirou Gustavo, abaixando a cabeça.
Naquele momento Gabriel saiu da cozinha, comendo uma pedaço de bolo.
— O que aconteceu? — perguntou o padre.
— Foi muito injusto o que você disse para Cecilia...ela não merecia ouvir aquilo...- continuou Estefania, sem responder Gabriel — Há poucos dias você a levou no restaurante favorito da Teresa, dizendo que ela era a única que merecia estar ali e depois você grita em alto em bom som que ela não tem o direito de agir como mãe da Dulce?
— Eu sei...eu sei...- repetiu o empresário — E-eu não sei o que deu em mim...
— Péssimas palavras meu amigo...- pontuou Vitor.
— Alguém pode me explicar o que aconteceu? — insistiu Gabriel.
— Resumindo, a Dulce aprontou uma das grandes no colégio por influência das coleguinhas. A Cecilia estava lá e a defendeu...nosso amigo aqui ficou bem bravo com isso e foi meio...duro...- explicou Vitor.
— Francamente Gustavo! — começou o padre — Nem sei se fico surpreso!
— Eu sei...estou errado, não vou discutir com vocês e tentar me defender...- disse o empresário.
— Imagino como a Cecilia deve estar se sentindo agora...- continuou Estefania — Fazem mais de três anos que ela cuida da minha sobrinha com um amor que só uma mãe tem por um filho...um amor que também a tirou do caminho que tinha escolhido...ouvir essas coisas logo de você...ah primo...foi muito cruel...
— Eu estava muito nervoso! — afirmou o rei do café se levantando. Começou a andar de um lado para outro — Vocês viram o que a Dulce Maria aprontou! Eu não queria interferências! A Cecilia sempre a defende! Não sei o que deu em mim! Eu senti tanta raiva! Eu queria afasta-la! E...
— Eu só não vou te esculachar mais primo, porque sei o que é isso que está sentindo...- sorriu tia Perucas, aproximando-se.
— Sabe? — perguntou Gustavo.
— Todos sabemos meu irmão...- completou Gabriel.
— É medo...- afirmou Estefania — Você está com medo do caminho para o qual a vida está te levando...Está com medo de se permitir amar a Cecilia porque tem medo de perde-la como perdeu a Teresa...
— Não fale besteiras...eu já me relacionei com outras mulheres ao longo desses anos...- rebateu o empresário.
— Sim, mas não estava apaixonado por nenhuma delas...você agride a Cecilia para afasta-la...por que já a ama, é a maneira que você encontrou para não sofrer...- afirmou novamente a estilista, recebendo um aceno de aprovação de Vitor — Abra seus olhos primo...antes que seja tarde...
— Eu vou atrás dela...vou procura-la para pedir desculpas...- decidiu, caminhando até a porta.
— Não! — pediu Estefania — Vá descansar, refletir um pouco...enquanto você não admitir para si mesmo o que para todos nós já é obvio e se permitir sentir isso, você só vai magoar mais e mais a Cecilia...
— Tudo bem...- concordou, vencido — Eu vou tomar um banho e me deitar...o dia foi longo, com licença...e fiquem a vontade...
...
Aquela fora uma noite difícil para pegar no sono. Gustavo levantara três vezes para beber água. Os eventos daquele dia martelavam em sua cabeça. Sentou-se na cama pensando nas afirmações de Estefania. Será que usava mesmo a raiva para afastar seus medos? Sorriu. Cecilia era alguns anos mais jovem que ele, mas era corajosa, reconheceu, desafiava-o o tempo todo quando se tratava de defender Dulce Maria. Estava confuso, como sempre. Entretanto, não podia ficar totalmente imune ao fato de que a tristeza dela ao ouvir aquelas palavras duras, e as lágrimas que surgiram naqueles olhos azul-claro em contrate com a palidez do rosto lhe davam um ar de frágil beleza e vulnerabilidade que faziam seu coração bater duas vezes mais rápido.
— Sou um idiota! — falou para si mesmo, passando as mãos no rosto
...
Gustavo acordou inesperadamente. Estava habituado a acordar as seis da manhã, mas sempre com a ajuda do despertador. Não tivera uma boa noite. Estava ansioso. Vestiu uma camisa azul e um terno cinza e desceu para tomar café. Pegou uma fatia de pão com geléia, deu um gole num copo de suco, pegou sua maleta e saiu apressado, sem falar com ninguém.
Chegou ao escritório, aparentemente antes de todos, mas logo ouviu uma batida na porta.
— Entre...
— Bom dia Gustavo...- cumprimentou Cristovão — Trouxe aquele contrato dos representantes da Europa para você assinar...
— E eu achando que cheguei cedo...- riu o empresário — Dormiu aqui?
— Tive que deixar minha mãe numa consulta médica e acabei chegando cedo...- esclareceu o advogado.
— Ela está bem?
— Sim, apenas um exame de rotina....Quem não parece bem é você...Não dormiu?
— Não...problemas e problemas...- suspirou Gustavo, olhando para o relógio. Tirou o celular do bolso, procurando o número da casa de Fátima e discando — Alo? — chamou. Cristovão colocou os documentos na mesa, percebendo que talvez aquele não fosse um bom momento para discutir os negócio da Rey Café. — Bom dia Fátima...Desculpe ligar tão cedo...Gustavo Lários, a Cecilia está?
— " Está, mas com certeza você é a ultima pessoa com quem ela quer falar..." — respondeu a cozinheira, do outro lado da linha.
— Você já sabe o que aconteceu...- afirmou o empresário — Eu só quero falar com ela...pedir desculpas...
— " Acho que não é o melhor momento. Eu no seu lugar esperaria. Minha irmã é uma flor, mas pode ter muitos espinhos quando precisa se defender..."
— Entendi...Avise que eu liguei, tudo bem? Obrigado Fátima...Tchau...
...
O ar estava muito frio, por causa da queda de temperatura. Finalmente havia parado de chover e o céu estava firme. Porém, todos na cidade andavam agasalhados e curtiam o fim do inverno. Duas semanas haviam se passado e durante todos aqueles dias, Cecilia ignorara todas as tentativas que Gustavo fizera de qualquer tipo de contato ou aproximação. Dulce Maria não estava nada feliz com a situação. Era sábado de manhã e a pequena se juntava a familia na sala de estar, após dormir algumas horas a mais. Vestia um pijama felpudo e carregava uma pelúcia colorida nos braços...
— Bom dia titia...bom dia papai...
— A cama estava quentinha minha flor? Dormiu bastante...- disse Estefania.
— Eu estava sonhando titia...sonhei bastante...- explicou a menina, agarrando-se ao pai.
— Sonhou o que minha princesa? Com a mamãe? — perguntou Gustavo.
— Não papi...com a Ceci...estou com saudades...Você brigou com ela e ela nunca mais veio me ver...fica de bem com ela papai...por favor...- pediu Dulce, carente.
— Já tentei Dulce...mas quando adultos se desentendem, eles precisam de tempo para refletir...colocar os pensamentos no lugar...- explicou o empresário.
— Quanto tempo? Esse tempo já está tempo demais...- observou a pequena, fazendo os adultos rirem — Papi...fica logo de bem da Ceci, senão quem vai ficar de mal de você sou eu! — reclamou Dulce, indo para cozinha atrás de Franciely.
— Você ouviu o recado primo...você ouviu...- riu Estefania.
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