Notas iniciais
Bom, até aqui foi mais uma introdução rsrs...agora a coisa começa a se desenrolar...

Fátima colocava suas coisas em uma bolsa pequena com agilidade.Estava atrasada para uma entrevista de emprego. Abriu a porta, esbaforida e deu de cara com a irmã mais nova com a mão fechada, prestes a bater.

— Cecilia! — exclamou surpresa — O que faz aqui? — Perguntou.

— Estou te atrapalhando? — perguntou a mais nova, baixinho — Não quero te atrapalhar e...

— Não! — interrompeu Fátima, ao ver o semblante triste da irmã — Claro que não maninha! Você nunca me atrapalha! — acrescentou ao ver que Cecilia carregava uma pequena mala.

— Tem certeza Fa? Eu posso esperar...

— Não não...eu estava indo até o mercado, mas posso ir depois! — mentiu Fátima. Nem queria trabalhar atrás de uma mesa de escritório mesmo. Dane-se a entrevista, pensou. Sua irmã mais nova era mais importante.

Não poderia deixar Cecilia para trás quando ela parecia ter um problema grave. Arrependia-se todos os dias de ter casado tão jovem e ido morar em outra cidade. Um casamento que não funcionou! Deixara sua irmãzinha sozinha em uma cidade que na época lhe era estranha.

Apesar da distância entre as irmãs, o laço que as unia era forte. Cecilia tinha apenas quatro anos quando perderam o pai em um acidente, e a mãe ela nem chegara a conhecer. Fátima tinha doze. Não tinham outros parentes próximos, e ninguém para lhes dar abrigo. O pouco dinheiro que restara das economias do pai, foram para as dividas e o velório. Em poucos dias estavam em um orfanato de irmãs em Minas Gerais, onde poderiam viver até os dezoito.

Fátima fez o melhor que pode durante sua passagem pelo orfanato. Cuidava da irmã como uma filha. Ficava ao lado de sua cama quando Cecilia ficava doente, mesmo contra a vontade das freiras. Contava histórias felizes quando se sentiam sozinhas e com saudades dos pais. E todo ano escrevia uma carta para Cecilia em seu aniversário, mesmo estando no mesmo lugar que a mais nova.

Quando completou dezoito anos, Fátima teve que deixar o lugar. Lembrou-se que Cecilia sofreu muito nessa época. Então, começou a trabalhar em uma lanchonete, onde pegou gosto pela cozinha. Quando recebeu seu primeiro salário, a primeira coisa que comprou foi uma boneca para irmã. Ao completar dezenove anos, conseguiu emprego em um restaurante famoso na cidade, onde conheceu o futuro marido. Logo se casou. Quando a irmã estava com dezesseis, mudou-se para Recife. Não queria, mas fora obrigada pela trabalho e marido.

Retornara à cidade poucas vezes desde então, a última há cinco anos quando Cecilia também deixava o orfanato. Foi então que a irmã lhe contou que pretendia seguir a vida religiosa. Fátima não era a favor. Achava que a irmã tinha um mundo de coisas para conhecer, mas não se opôs, era justo que Cecilia aprende-se a seguir seus próprios caminhos, cometer seus erros e acertos na vida.

Porém, ver sua irmã tão aflita lhe doía, pois apesar de adulta, era um ser humano inocente, que acreditava no bem entre as pessoas e não no sofrimento...

— Quer beber alguma coisa? — Ofereceu.

— Não, estou sem sede...Fátima...E-eu vim para ficar uns dias...se você não se importar...- revelou Cecilia.

— Maninha! Me importar de ter você tão pertinho depois de tanto tempo separadas? Claro que eu não me importo! Será maravilhoso! Como se ainda fossemos crianças! — sorriu Fátima — Mas me conte...por que isso agora? O que aconteceu lá no colégio?

— Eu pedi a Superiora para sair, ficar um tempo longe para colocar minha cabeça no lugar...eu te disse que ultimamente tenho tido muitos dúvidas com relação à minha vocação religiosa...

— Sim...por causa do pai da Dulce Maria que despertou o amor no seu coração...- afirmou a mais velha.

— É...mas isso é impossível Fátima...eu tenho que esquecer tudo e seguir com a minha vida...

— Impossível por que? Você é uma mulher linda, doce, inteligente e que ama a filha dele como uma mãe. Diga-me, cadê as impossibilidades?

— Ele me vê e sempre me verá como a noviça, professora da Dulce...

— Irmãzinha vem cá... — disse Fátima, colocando um braço em volta dos ombros da irmã — deixa eu te contar um segredo sobre a vida...Quando uma mulher e um homem se apaixonam, essas barreiras não existem! Eu tenho certeza que se você decidir seguir seu caminho aqui fora, uma hora ou outra o Gustavo vai esquecer que um dia você foi noviça!

— Ai Fátima, não fale bobagens! — riu Cecilia.

— Por que você não deixa essas coisas lá dentro, toma uma ducha, troca essa roupa por algo diferente e vem as compras comigo? — incentivou Fátima.

— Não! Eu não posso tirar o hábito, não quero, até que eu decida o que fazer! — protestou a noviça.

— Tudo bem...tudo bem...mas venha, vou te ajudar com a mala! Bem vinda ao lar maninha! — riu Fátima, apertando Cecilia novamente num abraço.