Para nós, todo o amor do mundo...
1 Capítulo 1 - Confissões
Notas iniciais
Era um dia de chuva no Colégio Doce Horizonte. Tudo estava silencioso, sem os costumeiros passinhos e gritos tão comuns durante a semana. O vento castigava as janelas e faltava energia. Os corredores estavam escuros e os cômodos iluminados pela luz de velas. Cecilia rezava, ajoelhada em frente ao pequeno altar no quarto das noviças. Lágrimas brotavam em seus olhos azuis quando Irmã Fabiana entrou correndo, assustada com o estrondo forte de um trovão...
— Aaaaah! Odeio trovões! — disse Fabiana, escondendo o travesseiro no rosto — Ainda bem que é fim de semana e as meninas estão em casa! Elas ficariam assustadas com esse tempo feio de hoje! Sabe que quando eu era pequena...- percebendo que se tratava de um monólogo, Fabiana parou e observou que a amiga mal prestara atenção ao que dizia — Cecilia? Cecilia!
— D-desculpe Fabiana...não vi que estava ai...- disse a irmã, levantando-se enquanto disfarçadamente secava uma lágrima que molhava seu rosto.
— Ei ei! Que carinha triste é essa Cecilia? A Madre já desistiu da idéia de transferi-la! Achei que ficaria feliz agora que tudo acabou!
— Não é isso Fabiana...- disse Cecilia, sentando-se ao lado da amiga.
— O que é então? Mude essa cara! Alegria, minha amiga! Alegria! — sorriu a noviça — Pense que agora vai poder ficar juntinho da Dulce como sempre esteve! Nossa! Ela está tão feliz! Eu também! Todos estamos! — Fabiana tagarelou novamente.
— É exatamente por isso que...que eu...ai Fabiana...você antes de ser minha colega aqui no colégio, é minha amiga, minha irmã...eu preciso que você entenda essa angústia que me corroí...- disse Cecilia, segurando o pingente que todas as irmãs do colégio carregavam.
— De que angústia você está falando? Está chateada porque a Madre proibiu o senhor Gustavo de ficar andando aqui pelo colégio? — interrogou Fabiana, observando as expressões de Cecilia.
— É...não! É que...Fabiana...Eu acho que devo deixar o colégio...É isso... — confessou Cecilia.
— Como assim? E ir para onde? Está pensando em abandonar o noviciado? — surpreendeu-se Fabiana.
— Não...eu só preciso pensar...e para isso eu não posso ficar perto da minha pequena e nem de ninguém...A Madre tem razão...
— Cecilia você está se ouvindo?! Era exatamente por isso que sofria alguns dias atrás! E agora você quer o que não queria? Não estou te entendendo...
— Fabiana a Madre tem razão...Como professora aqui no colégio a minha tratativa deve ser a mesma com todas as alunas. Eu não posso tomar partido pela Dulce como sempre faço só porque...porque...
— Por que a ama como uma filha?
— Exatamente...- suspirou Cecilia, abaixando a cabeça — Eu amo a Dulce Maria como se eu fosse sua mãe...eu...é como eu me sinto...mãe dela!
— E qual o problema em amar uma criança tão doce?
— O problema é que isso me desperta sentimentos que antes eu não tinha! — exclamou Cecilia, levantando-se — Sentimentos maternos que como noviça não posso ter...
— E esses sentimentos são só maternos ou algo mais? — Fabiana também se levantou, aproximando-se da amiga e colocando as mãos em seus ombros para encoraja-la a dizer o que temia — Algo que nunca sentiu, mas sente agora pelo pai da Dulce?
Cecilia olhou para Fabiana aflita, mas sem conseguir desviar o olhar da amiga.
— Então Cecilia? Acha que essa confusão de sentimentos pelo senhor Gustavo é só porque se sente mãe da Dulce, ou é outra coisa? Mais forte? — Perguntou novamente Fabiana — Você é como se fosse uma irmã para mim...e dói vê-la assim sofrendo em silêncio...Vamos...Desabafe comigo...O que sente pelo senhor Gustavo é amor?
— É...- confessou Cecilia — Eu acho que sim...eu nunca senti nada assim antes Fabiana...e eu já entendi que não tem nada a ver com a minha relação com a Dulce...eu...eu acho que estou apaixonada...
— Ai Meus Deus do Céu...- sussurrou Fabiana, abraçando a amiga.
— O que eu faço? — perguntou Cecilia, agradecida pelo conforto que Fabiana lhe proporcionava.
— Siga seu coração Cecilia...só ele vai te dizer o que deve fazer...Deus estará contigo e eu também...para o que der e vier...
— Obrigada...- sorriu Cecilia — E-eu acho que...que está na hora de ter uma conversa séria com a Madre...
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