A chuva dera uma trégua no domingo de manhã. Apenas uma garoa fina molhava os jardins do colégio. Cecilia aguardava sentada em frente a sala da Superiora, esfregando as mãos nervosa, enquanto sua mentora não chegava. Era muito cedo, pensou. Ouviu passos e se levantou...

— Cecilia...O que faz de pé tão cedo no domingo? — perguntou a Madre Superiora, estranhando a presença da noviça. Os horários no colégio não eram tão rígidos aos finais de semana, para que as irmãs também pudesse descansar.

— Eu gostaria de falar com a senhora Madre...Eu preciso falar com a senhora...- disse Cecilia, ansiosa.

— Tudo bem...tudo bem...vamos, entre...- disse a Madre, abrindo a porta e dando passagem a noviça. Já imaginava do que se tratava. Há tempos observava a mudança de comportamento de Cecilia. Tentara afastar a jovem do que poderia confundi-la ou faze-la sofrer, mas tinha certeza que em algum momento isso partiria da própria — Sente-se...Sobre o que deseja conversar? — disfarçou.

— Madre...eu...a senhora... — engasgou Cecilia.

— Não tenha medo Cecilia...Estou aqui para ouvi-la...

— Sim senhora...Madre a senhora sabe que para mim sempre existiu somente um caminho...- começou, tomando coragem.

— Sim...eu a conheço desde muito jovem...Lembro quando um padre de uma eucaristia em Minas me ligou...dizendo que uma jovem saída de um orfanato religioso, gostaria de servir a Deus...

— Sim...é verdade...a senhora me recebeu aqui...eu estudei para dar aulas as meninas...e eu realmente sempre acreditei que a minha vocação era...era...

— Inabalável? — perguntou a Madre.

— Isso...

— Entendo...Esse foi o único mundo que conheceu Cecilia... É natural que acreditasse que esse era seu destino até então. Até começar a ter sentimentos que nunca foram despertados...ou que nunca tiveram a oportunidade de despertar...correto?

— Madre...

— Cecilia...Você sabe que eu gosto muito de você, muito mesmo. E por isso também me angustia vê-la lutar o tempo todo contra algo que não é nenhum pecado...

— A senhora tem razão...Por isso vim lhe pedir permissão para me afastar do colégio...pelo menos durante um tempo...Até que eu organize meus pensamentos e decida que caminho seguir...Posso Madre?

— Eu esperava que viesse me pedir...foi por isso que desisti de envia-la para outro colégio, pois cheguei a conclusão que não poderia forçar essa decisão...

— Desculpe Madre...

— Não precisa se desculpar...O noviciado é exatamente para isso...Para que reflita...Há outras maneiras de servir a Deus, Cecilia... — esclareceu a Superiora — Quando pretende ir?

— Eu não sei Madre...Não pensei nisso...

— Já sabe onde vai ficar?

— Por enquanto com a minha irmã... — respondeu a noviça.

— Então sugiro que faça isso hoje mesmo...- disse a Madre. Cecilia arregalou os olhos assustada — Fique tranquila Cecilia, não estou te expulsando do colégio...É uma sugestão...É melhor que seja quando as meninas não estiverem aqui, ou não conseguirá partir...eu sei...

— Certo Madre...Partirei hoje mesmo. Só preciso ligar para a minha irmã e avisa-la...

— Vou deixa-la a sós então para que providencie isso...- disse a Superiora levantando-se — Cecilia...

— Sim Madre?

— Posso te dar um abraço? — pediu a Madre sorrindo. Cecilia aproximou-se e abraçou aliviada aquela que, apesar de rígida, era como a mãe que ela nunca conhecera.