Notas iniciais
Oi meninas! Lá. Lá vai mais um!

A sala de espera do hospital era puro silêncio com o chegar da madrugada. Eram quase duas da manhã e nenhum médico aparecera para dar notícias de Cecilia. Fátima rezava em um canto do sofá, abraçada por Victor, enquanto Gustavo andava de um lado para o outro, com a cabeça fervilhando de possibilidades. Aquela angústia o perturbava. Queria notícias, mesmo que fossem ruins. Quando Tereza falecera tudo acontecera tão rápido que a dor da perda logo o abatera, mas aquela expectativa de saber se enfrentaria novamente um dos piores pesadelos de sua vida o deixava maluco. O que estava acontecendo naquela sala? Por que ninguém trouxera informações? Agora que sua vida começava a entrar nos eixos, levava uma rasteira. O que diria a Dulce Maria se o pior acontecesse? Não queria que sua garotinha perdesse outra pessoa que amava.

— Gustavo...vou pegar alguma coisa para comermos lá na cafeteria...- informou Victor.

— Não estou com fome...- respondeu simplesmente.

— Você não vai aguentar ficar aqui a noite toda se não comer nada...- insistiu o cozinheiro — Eu já volto...

— Ela vai ficar bem...vai ficar bem...- começou a murmurar para si mesmo, quando o amigo saiu.

— Vai sim...- concordou Fátima — A Cecilia parece frágil, mas é muito forte...já passamos por muita coisa nessa vida...

— É sim, temos que ter fé...- afirmou o empresário, tentando ser positivo — E essa demora hein?

— Nem me fale...Gustavo, eu sei que não é o momento, mas...eu preciso te perguntar...o que você sente pela minha irmã? — questionou a cozinheira, preocupada.

— Eu amo sua irmã...- respondeu, diretamente — Era isso que queria ouvir?

— Era sim...Já disse isso a ela? A Cecilia sofreu calada tanto tempo pelo que sente por você e...

— Era exatamente sobre o que falávamos antes...antes disso tudo acontecer....parece até um castigo!

— Meu coração diz que tudo vai ficar bem...O médico chegou! — exclamou, levantando-se assim que viu alguém se aproximar.

— Doutor! Como ela está?! Está bem?! — começou Gustavo.

— Vocês são os familiares de Cecilia Santos?

— Somos sim...- afirmou Fátima — Doutor diga logo, como está minha irmã? Não nos deixe nessa angústia!

— O acidente foi grave...tivemos que opera-la para conter uma pequena hemorragia provocada pela batida forte na lateral do abdômen...mas ocorreu tudo bem e ela parece estável agora. A situação ainda é de risco, pois temos que esperar que ela acorde sozinha, sem ação de medicamentos. Então ficará em observação para acompanharmos o progresso...- informou o médico.

— Graças a Deus! Podemos vê-la?! — perguntou Gustavo.

— Ainda não...talvez ao amanhecer...eu os atualizarei sobre o estado dela assim que eu fizer mais alguns exames...

— Obrigada doutor...- agradeceu Fátima.

— O que você achou? — indagou o empresário, depois da saída do médico.

— Ele não me pareceu tão preocupado, acho que tudo ficará bem...temos que aguardar e rezar para que minha irmã acorde logo...

— Vou ligar para Estefânia...

...

Quando o dia amanheceu, Gustavo cochilava, sentado em um dos sofás. Usava a mesma roupa da noite anterior. A gravata estava pendurada no pescoço por um nó frouxo, e o paletó que emprestara a Cecilia, cobria seu peito. Victor mexia no celular, quando sentiu um beijo quente em seu rosto...

— Oi meu amor...- sorriu ao ver Estefania.

— Bom dia meu amor...- respondeu a estilista — Eu tive que trazer...- continuou, quando o chef indicou Dulce com a cabeça — Ela não me deixava sair...

— Papi...- chamou a menina, aproximando-se de Gustavo que acordou assustado.

— O que? Ah...oi minha filha...o que faz aqui? — perguntou confuso.

— Eu quero ver a Ceci...

— Já podemos ve-la? — quis saber Estefania,

— O médico só deixou entrar uma pessoa por vez...a Fátima está lá com ela...- respondeu Victor.

— Papai...A Ceci vai embora que nem a mamãe foi? — perguntou Dulce, triste.

— Não minha filha! C-claro que não! — afirmou Gustavo — Ela vai ficar bem e juntinho de você...- completou, abraçando a menina.

— De você também né papi? Agora que a Ceci não é mais uma freirinha, ela pode ficar com você também e ai ser minha mamãe...não pode? — começou, esperançosa.

— Pode sim filha...e...- pensou por um instante, antes de avaliar se seria correto criar expectativas em Dulce Maria. A menina estava tão assustada e sabia que aquele era o maior desejo do seu coraçãozinho. Não conseguiu resistir. — É o que faremos...ficaremos os três juntos, para sempre...

— De verdade?! — exclamou feliz.

— Prometo que juro...- respondeu o empresário, sorrindo.

— Iupiiiii! O papi vai casar com a Ceci, o papi vai casar com a Ceci...- começou a garotinha, cantarolando e arrancando risadas dos demais.

— Calma filha...nós falamos disso depois , ok? — pediu o rei do café.

— Sim pirilim...agora eu quero ver a Ceci...- pediu.

— Temos que esperar um pouco meu amor...daqui a pouquinho podemos ve-la ok?

— Ta papai...seus olhinhos estão cansados...- observou a pequena.

— É porque eu dormi pouco filha...mas já vai passar...e você? Dormiu direitinho?

— Sim pirilim, mas eu tive sonhos feios...- explicou Dulce.

— São pesadelos minha florzinha...- disse Estefânia — Acontecem quando estamos preocupados ou assustados com algo...tenho certeza que depois que ver a Cecilia, terá sonhos lindos essa noite...ai vem a Fátima...- exclamou a estilista.

— Oi gente...bom dia...- disse a cozinheira.

— Como ela está? — perguntou Gustavo, levantando-se e pegando a filha no colo.

— Parece bem, mas continua inconsciente...o médico autorizou sua entrada...

— Será que a Dulce pode ir comigo?

— Acho que sim...eu vou até a minha casa pegar algumas coisas para Cecilia...

— Eu te levo Fátima! — ofereceu Victor proativo.

— Vamos filha...vamos ver a Ceci...- animou-se o empresário.

...

Gustavo se sentiu aliviado quando o médico liberou a visita de Dulce sem resistência. Caminhou com a filha através dos corredores brancos e vazios, até chegarem aonde a ex-noviça se encontrava. Somente os sinais dos aparelhos de monitoramento quebravam o silêncio. Cecilia dormia, vestia uma camisola branca com o logotipo do hospital na lateral da manga e o nariz e a boca estavam ligados a um respirador. O empresário se aproximou, segurando uma das mãos da jovem e respirou fundo quando a sentiu morna.

— Que horas a Ceci vai acordar papai? — perguntou a menina leiga sobre a situação.

— Não sei filha, ela precisa descansar...- respondeu paciente.

— Me pega no colo papi, quero ver a Ceci de pertinho! — pediu erguendo os braços. Prontamente foi atendida — Posso dar um beijinho nela para sarar logo?

— Beijinho para sarar? — indagou Gustavo.

— É papi...assim sara rapidinho...- Gustavo sorriu. Dulce aproximou o rostinho até Cecilia e depositou um beijo em sua bochecha — Agora é sua vez papi...o seu beijinho é mais poderoso!

Gustavo concordou com a cabeça e colocou a menina no chão. Acariciou o rosto de Cecilia com as pontas dos dedos. Não queria que o primeiro beijo que trocassem fosse daquela maneira. Afastou o cabelo dela e colou os lábios em sua fronte, demorando alguns segundos. Não queria se afastar, até que sentiu cócegas no queixo, provocadas pelo tremer dos cílios escuros que lentamente se separaram, dando lugar ao azul brilhante.

Cecilia, piscou algumas vezes acostumando-se com a claridade. Acordou com uma sensação de completa desorientação. Levou alguns segundos para perceber onde estava. O que estava fazendo ali? Tentou puxar a mascara de oxigênio do nariz, mas uma mão grande e quente a impediu.

— Não...

Ouviu o sussurro. Fechou e abriu os olhos novamente, gemendo baixo quando sentiu uma leve dor na lateral direita do corpo.

— Cecilia...- chamou Gustavo, atento.

Cecilia, que reconheceria de longe o tom daquela voz, sorriu levemente.

— Graças a Deus...- declarou Gustavo, voltando a acariciar o rosto dela — você acordou, graças a Deus...

— Viu papi! Seu beijinho de sarar é muito mais forte que o meu! — afirmou Dulce, piscando para o pai.