— Tio Vitor! — gritou Dulce, correndo para abraçar o rapaz, que vinha da cozinha para cumprimentar a família Lários que acabava de chegar.

A mistura de temperos, impregnava o ar com um cheiro de comida boa e a casa esteva cheia de flores coloridas da estação. Silvestre que chegara mais cedo, ajudava Solange, todo solicito, a separar os talheres e pratos. Franciele logo se juntou a eles, irritando o mordomo.

— Oi princesa! Nossa que abração gostoso! — riu Vitor, feliz.

— Esse é só para os titios cozinheiros! — explicou a menina.

— Oi tio! Minha mamãe já chegou? — perguntou Emilio, olhando para os lados.

— Já estou aqui meu super herói! — exclamou Rosana, que aproveitara a porta aberta ao chegar logo em seguida.

— Hashtag quanta melação! — retrucou Juju, ciumenta.

— Oi meu amor! Tudo certinho por aqui? — perguntou Estefânia ao namorado.

— Tudo certo...elas já devem estar chegando...- disse baixinho, referindo-se à Fátima e Cecilia — Vamos beber um vinho? — perguntou, caminhando até a adega.

— Eu também posso tomar vinho tio? — questionou Emilio.

— Não pode Emilio! O papai disse que essa bebida é de gente grande e que criança toma suco! — explicou Dulce ao amiguinho.

— É isso mesmo Dulce...- afirmou Gabriel — Nossa, mas o cheiro está muito bom!

— Uma receita especial, que estou preparando especialmente para o dia de hoje...- disse o rapaz.

Poucos minutos depois, quando todos se acomodavam na sala, com taças de vinho nas mãos, a campainha tocou.

— Opa! Eu atendo! — disse Estefânia, levantando-se rápido e colocando um ponto de interrogação no semblante de todos.

Quando tia Perucas abriu a porta, apenas Fátima aguardava do lado de fora...

— Oi Fátima! Seja bem vinda! — disse, abraçando a nova amiga — Não vai me dizer que a Cecilia não veio...- perguntou baixinho.

— Veio sim...Só tivemos que estacionar meio longe e ela esqueceu a bolsa...- respondeu a cozinheira, cúmplice.

— Entre, entre...- pediu Estefânia — Olha quem acabou de chegar! — anunciou.

— Fátima que surpresa! — disse Gustavo, levantando-se para cumprimentar a moça. Em seguida, olhou para Estefânia e Vitor, surpreso e confuso.

— A Fátima é minha mais nova ajudante! Começa a trabalhar lá no foodtruck na segunda...- disse Vitor.

— Oi tia Fátima! — cumprimentou Dulce, aproximando-se.

— Oi fofurinha! — sorriu a cozinheira — Recebeu o presente que te enviei há alguns dias? — perguntou, referindo-se a carta.

— Sim pirilim! — respondeu a menina.

— Tenho uma supresa maior ainda para você hoje! — continuou Fátima.

— Surpresa assim surprezona?! — perguntou a garotinha, abrindo os braços.

— Surprezona! — riu Fátima — Eu vou lá buscar rapidinho...- disse saindo.

— Acho que você vai amar esse presente minha bonequinha...- disse tia Perucas. Ansiosa por ver a reação de Dulce, com o que preparara.

— O que está aprontando prima? — perguntou Gustavo, desconfiado.

— Nada primo...Talvez seja uma surpresa para você também...- completou.

— Olha só quem veio especialmente para te ver Dulce! — disse Fátima, entrando com Cecilia na sala.

Gustavo foi o primeiro a arregalar os olhos, surpreso, fixando-os à ex-noviça. Ficou um tanto chocado, não só pela presença da moça, mas porque Cecilia estava bem diferente da imagem que ele mantinha em sua cabeça. Então resolvera largar o hábito? Estefânia com certeza sabia e não lhe contara nada. Conversaria com a prima depois, pois naquele momento estava imóvel. Sempre apostou que os cabelos de Cecilia eram escuros, longos e brilhosos sob aquele véu. Sem querer, o empresário abriu um sorriso luminoso. Sua imaginação não fizera jus a ex-noviça. Ela ficava ainda mais linda sem aquela roupa, pensou. Os olhos mais azuis e cheios de luz. O sorriso doce que lhe trazia sempre uma sensação de paz.

Cecilia estava de mãos dadas com a irmã e parecia nervosa. Mas logo sorriu ao ver Dulce à sua frente. Abaixou-se de joelhos, para ficar na altura da menina. Fora o segundo mais longo da vida de Cecilia. A primeira reação de Dulce, foi o silêncio, estranhando a nova aparência de sua protetora.

— Cecilia! — exclamou no segundo seguinte, se jogando nos braços da ex-noviça que a abraçou forte. — Você voltou! Você voltou! — afirmava, emocionando a todos que assistiam.

— Voltei sim minha pequena...Não aguentava de tanta saudade...- respondeu Cecilia, com a voz embargada — Me perdoe...eu não queria ficar longe de você...- jurou.

— Agora você voltou e está juntinho de mim! — respondeu Dulce, limpando uma lágrima que rolara do rosto da moça — Promete que nunca mais vai embora?

— Eu prometo meu amor...prometo que juro! — riu Cecilia — Agora me dê mais um abraço! — declarou, apertando a menina nos braços.

— Você ficou diferente...- observou Dulce — Agora eu posso ver o seu cabelo...

— É! Pode sim...

— É bonito! Eu gostei do seu cabelo! — afirmou a carinha de anjo — E cadê aquela roupa que você sempre usava?

— Eu não usarei mais, minha pequena...Não posso...

— Mas e as outras irmãzinhas do colégio? Elas vão ficar tristes se não puderem usar essa sua roupa nova...e a Madre pode brigar...

— Ela não vai brigar meu amor...Eu só vou vestir roupas assim agora...

— Igual as mulheres femininas?

— Igual as mulheres feminas — riu a ex-noviça — E você também precisa saber que eu não poderei mais dar aulas no colégio...- contou Cecilia, alisando as madeixas loiras de Dulce.

— E como eu vou te ver? — perguntou a menina, fazendo bico.

— Eu vou te ver todos os dias se você quiser...Não se preocupe...Acredita em mim?

— Sim pirilim! — sorriu Dulce, abraçando Cecilia novamente.