Notas iniciais
Esse capítulo é um gancho para os próximos :)

Quando Estefânia retornou ao apartamento, encontrou-o na penumbra, silencioso. Caminhou até a mesa de jantar, onde apoiou sua bolsa para guardar seus óculos escuros. Assustou-se quando viu uma silhueta no escuro...

— Caramba primo! Nem te vi ai! Quer me matar do coração? — exclamou. Gustavo não respondeu, olhava para frente, sentado no sofá, com uma xícara de café cheio nas mãos. — Gustavo? — chamou, sentando-se ao lado dele, e pegando a xícara.

— Oi Estefânia...Fale...

— E a Dulce? — perguntou.

— Dormiu assim que chegou, mais tarde ela faz o dever...- explicou — Não ia para casa do Vitor?

— Desisti...Fiquei preocupada contigo, então resolvi vir lhe fazer companhia...

— Preocupada comigo? Por que? — indagou o empresário.

— Sei la...te achei tão nervoso agora na saída do restaurante...Não gostou do almoço?

— Não é isso...eu adorei o almoço...- respondeu, em poucas palavras.

— Hum...ok...me explique uma coisa Gustavo, que história é essa de empregar a Cecilia lá na empresa?

— Foi só uma idéia que tive...para ajuda-la...- disse Gustavo, levantando-se.

— Sei....ajuda-la ou vigia-la? — sugeriu a estilista.

— Vigia-la?! Que motivos eu teria para vigiar a Cecilia? — perguntou, reativo.

— Não sei...talvez você não queira outros olhos em cima dela...como os do doutor André por exemplo...- riu Estefânia.

— Está sugerindo que estou com ciúme da Cecilia é isso?! — irritou-se o empresário. Começou a andar de um lado para outro sem perceber — Nada a ver prima! Você tem cada idéia!

— Acho que o André não será o primeiro e nem o único a cair de amores por ela...- continuou tia Perucas — Assim que aparecer o homem certo, tenho certeza que a Cecilia se casará com ele...

— Você acha mesmo? — perguntou Gustavo, sentando-se novamente.

— Acho...a vontade de ter uma familia foi o que a fez largar a vida religiosa...Ela é jovem, bonita, doce. Terá uma fila de homens para escolher... — provocou.

— Discordo...eu acho que...que não será bom esses marmanjos pavoneando em torno dela...- discordou o rei do café — Ela provavelmente nunca se envolveu amorosamente com ninguém e eles podem querer se aproveitar disso e...ela aceitou a jantar com o André! Você viu?! Eu acho melhor eu conversar com a Fátima e...

— Quem tem que querer isso ou não é ela, primo...Não envolva a Fátima nisso, e você também não pode se intrometer no que não lhe diz respeito!- sorriu Estefânia. Seus planos caminhavam bem, mas talvez precisasse de um ajudinha.

— Mas...- começou Gustavo.

— Ela é a adulta e saberá se cuidar...- interrompeu Estefânia — Tonto é o cara que não valorizar uma pessoa como a Cecilia...mas não acho que seja o caso com o doutor André...ele é um bom rapaz e sabe de uma coisa? Eles até que formariam um belo casal! — afirmou rindo da cara que o primo fazia — Bom...eu vou tomar um banho e pode deixar que mais tarde ajudo a Dulce no dever...- disse saindo e deixando Gustavo pensativo.

...

Era fim de tarde quando Dulce acordou. Tomou leite com biscoitos preparados por Franciele e pegou a mochila, caminhando até o quarto da tia.

— Titia...estou pronta para você fazer nossa lição! — disse, subindo na cama.

— Nananinanão...- riu Estefânia — Eu ajudarei e VOCÊ fará a sua lição, espertinha...deixe-me dar uma olhadinha nesse caderno e depois vamos lá embaixo, porque cama não é lugar para estudar...- a estilista começou a folhear o material da sobrinha. Todos os deveres de português estavam incompletos ou errados. Preocupou-se. A Madre Superiora já alertara sobre a queda no rendimento escolar de Dulce, e que precisaria de uma carga extra. Mas tudo acontecera durante a ausência de Cecilia. Imaginou que com o retorno da ex-noviça, a sobrinha tinha superado tudo. Condenou-se por não prestar mais atenção a educação da menina. — Meu amorzinho...por que a maioria das suas lições estão incompletas?

— É que tudo é difícil titia...Eu não entendo nadinha...

— Mas isso não acontecia antes...está tudo bem no colégio?

— Simpirilim...agora eu até tenho que ficar na classe sozinha para fazer esforço com as irmãzinhas...- explicou Dulce.

— Reforço...- corrigiu tia Perucas — E não está ajudando? — Dulce deu de ombros, confusa — Teremos que conversar com seu pai sobre isso...

— Mais o papai vai ficar bravo titia! E essa semana tem prova!

— Por isso mesmo, minha bonequinha...como você vai fazer a prova se está com dificuldades na matéria? Precisa estudar...

— Você vai estudar comigo? Estudo de mulher com mulher?

— Hum...você me deu uma idéia...melhor e mais eficiente! — respondeu Estefânia, pegando o celular.

...

Na manhã seguinte, Gustavo levantou cedo, tomou café e foi correr no parque. Precisava daquele exercício matinal para ter mais energia ao longo do dia e colocar a cabeça no lugar. Retornou cansado e suado, precisava tomar um banho e pensar em alguma coisa para fazer com a filha. Entrou distraído em casa, ajustando o relógio que usava para medir seus batimentos, e encontrou Cecilia sentada a mesa de jantar. Alguns livros e cadernos espalhados na mesa indicavam que Dulce estava ali, apesar da cadeira ao lado estar vazia. Ela sorriu ao vê-lo, mas logo desviou o olhar.

— Bom dia Cecilia...- cumprimentou — O que faz aqui? — perguntou, surpreso, mas feliz.

— A senhorita Estefânia não te falou? Eu vim ajudar a Dulce...- explicou. Observando a camisa suada que se colava ao corpo do empresário, modelando-o. Repreendeu-se mentalmente.

— Ajudar com o que? Aconteceu alguma coisa? — questionou, alheio a tudo.

— Ela está com dificuldades nas lições e como tem prova essa semana, vim ajuda-la a se recuperar e estudar...

— Entendi...ótimo então! — respondeu o empresário, sorrindo. Perguntaria para prima depois o que estava acontecendo. — E cadê a Dulce?

— Foi pegar um livro que pedi...

— Sim...bom...eu vou tomar um banho e...fique a vontade...- pediu Gustavo, sorrindo.

Cecilia e Dulce passaram a manhã e o inicio da tarde estudando juntas. Gustavo resolvera ficar na sala, com a desculpa de ler alguns papéis que precisava revisar. Não lera uma letra, pois perdia o foco quando ouvia uma risada da filha, ou Cecilia comemorando o progresso de Dulce. Seus pensamentos divagavam entre observar a jovem com a maior paciência do mundo, ensinar uma, duas, quantas vezes fosse necessário até que a pequena absorvesse o que precisava, ou analisar os traços da ex-noviça, imaginando, por exemplo, como seria afundar o rosto na curva do pescoço dela para capturar sua essência. O empresário agradeceu mentalmente a ausência de Estefânia. Não lhe agradava a maneira com que a prima conseguia saber exatamente o que se passava em sua cabeça.

— Pronto Dulce...acho que você pode fazer a prova com tranquilidade que se sairá bem...- concluiu Cecilia, ajudando a menina a guardar tudo.

— É porque você ensina tudo direitinho Ceci...

— Mas as irmãs do colégio também ensinam...vem cá...- disse, pegando a menina no colo — Promete que vai se concentrar mais e estudar bastante para continuar essa menina inteligente que é?

— Simpirilim!

— Agora você precisa aproveitar o restinho do domingo para brincar e descansar essa cabecinha para amanhã...- disse Cecilia, carinhosa.

— Eba! Brinca comigo? Tem um montão de bonecas pra gente!

— Eu não posso minha pequena...Prometi que ajudaria minha irmã lá em casa...Por que você não brinca com seu papi?

— O papai não sabe brincar de boneca...ele sempre estraga o cabelo de todas! — explicou Dulce, rindo.

— Poxa filha...Isso não é verdade...- riu Gustavo, largando tudo no sofá e se aproximando — Ok...talvez seja um pouquinho...

— Eu já vou indo...tchau minha menina...tchau Gustavo...- Cecilia despediu-se de Dulce com um beijo e ia saindo quando a garotinha a segurou pela mão.

— E o beijo do papi? — perguntou — Você não vai se despedir dele?

— Dulce! — repreendeu o empresário — É...bom...eu te levo em casa Cecilia...pode ser?

— Não é necessário...- recusou a ex-noviça.

— Por favor Cecilia, você ficou a tarde toda aqui ajudando minha filha...é o mínimo que posso fazer...vamos? — completou, não dando tempo da jovem pensar.

— Tudo bem então...vamos...