Para Te Encontrar
32 Capítulo 31 - For Loving You
Notas iniciais
— Calminha que tudo será respondido. Mas a questão principal é que posso ajudar a tirá-lo da cadeia. De modo efetivo e seguro. Mas para isso você terá que fazer uma coisa.
— O que?
— Terá que terminar seu namoro com o Edward...
Eu ri, foi um gesto involuntário, provavelmente cadenciado pela falta de sono e tensão que estou passando, mas foi inevitável não rir diante da proposta descabida que Irina acabou de fazer.
— Não entendo o motivo do riso. – Falou. – Entenderia se começasse a chorar, mas rir? Não vejo razão para rir.
— Eu ri porque você fez uma piada. – Afirmei. – Afinal de contas, você só pode estar brincando ao sugerir que termine meu namoro.
— Não Isabella, não estou brincando. Na verdade minha oferta é muito séria e se fosse você começaria a tratá-la como tal.
— Você é completamente louca. Acha que conseguirá algo com essa chantagem barata?
— Chame como quiser, mas minha proposta é a única esperança que Edward e você têm para livrá-lo da cadeia sem mais dificuldades.
— O Edward já tem um advogado cuidando de tudo e ele o tirará de lá. – Pontuei. – Pois o Edward é inocente e tão pouco tenho dúvida da competência do advogado que meu pai contratou.
— Seu pai pode ter contratado um bom advogado, talvez o melhor do país. Mas existem questões por trás dessa situação que talvez você, como estrangeira, não conheça. – Bufei diante do seu comentário preconceituoso. – Mas não se preocupe, esclarecerei tudo a você. A Inglaterra é um país muito rígido em questões legais, especialmente no cumprimento das mesmas. Assim o Edward se encontra em uma situação muito delicada, pois como foi confirmado que ele estava alcoolizado...
— Vocês sabe que isso não é verdade! – Praticamente gritei. – Você sabe que ele não estava bêbado.
— Eu não sei de nada disso. E mesmo que soubesse, não é isso que a justiça acredita. Já que ele foi incriminado por tal prática infratora.
— Você é realmente muito cínica! – Exasperei. – Você que estava bêbada noite passada e por isso o Edward fez o favor de levá-la embora. Ele não queria arriscar sua vida e de outras pessoas com a sua imprudência, por isso se ofereceu. Agora acha que ele próprio faria algo assim? O Edward não bebe! Nunca! Imagina se agiria de modo imprudente sendo que seus pais faleceram porque uma pessoa ignorante não pensou nos outros antes de pegar o carro estando alcoolizado?! – Declarei novamente a verdade.
— Ouça, não sou eu que o estou acusando. Estou apenas apontando os fatos e com isso explicarei como posso ajudar a solucionar as coisas. – Voltou a falar como se tudo que falei não significasse nada. – A questão é que ele está sendo acusado de dirigir alcoolizado e ainda ter causado um acidente por conta disso. Nesse caso ele tem uma acusação pública por ter realizado tal imprudência dentro dos limites da cidade, mas também uma acusação particular.
— Acusação particular? Como assim?
— Ele bateu o meu carro e arriscou a minha vida. Desse modo também foi indiciado por essas questões.
— Você prestou uma queixa contra ele? Como pôde?!
— Eu não prestei nada. A polícia abriu o inquérito e como vítima da situação, apenas esclareci os fatos. Mas é por conta disso que sei que posso tirá-lo da cadeia.
— Isso é um pesadelo. Só pode ser um maldito pesadelo. – Passei a caminhar pelo quarto sem acreditar no que está acontecendo. – Você teve o cinismo de acusá-lo, por algo que sabe que ele não fez, somente para me chantagear depois, não é? Isso se não tiver premeditado tudo.
— Premeditado o que?
— O acidente. A coisa toda. – Acusei. – Não sei como pode ter feito, mas o que sei sem sombra de dúvidas é que o Edward é inocente. E se só estavam vocês dois no carro, de algum modo você deve tê-lo desnorteado a bater, não sei. Mas essa história está muito mal contada. E agora de repente você chega com esse trunfo na manga dizendo que pode inocentá-lo?
— Ah não, pelo visto você não está me ouvindo bem. Eu não posso inocentá-lo. O que falei é que posso tirá-lo da cadeia. Mas de todo modo o processo continuará correndo. Com a minha ajuda ou do seu advogado, o Edward continuará sendo processado pelo que fez, até que se prove o contrário.
— Então porque acha que me rebaixaria ao seu nível e aceitaria essa chantagem barata?
— Ai é que está. – Sorriu. – O advogado que o seu pai contratou pode ser o melhor do país, mas eu duvido que ele consiga a permissão de soltura do Edward apenas com pagamento de fiança. Como disse, nosso país é bem rígido quanto a essas questões e podem alegar que ele é um risco a sociedade, portanto, não merece a liberdade condicional mediante pagamento. Nesse caso seu advogado teria que recorrer a um pedido de habeas-corpus, mas esse também pode não ser fácil de conseguir. Não após o juiz se inteirar do assunto, da recusa de soltura mediante fiança e sabendo que a vítima do acidente é neta de um dos políticos mais influentes do país...
— Você não vê o quanto isso é doentio? Tudo que está falando? Insinuando? – Perguntei realmente chocada.
— O que vejo é que a situação do Edward não é das melhores, mas ainda pode piorar. – Afirmou. – Pois quanto mais tempo permanecer preso, mais prejudicado ficará. Ele pode vir a perder o emprego no escritório em que trabalha, porque ninguém quer empregar uma pessoa que comete esse tipo de delito, você sabe, não é? Mas não só isso, essa situação pode prejudicar até essa pousada se a notícia se espalhar pela mídia. E falando nisso, vocês não estão se preparando para concorrer a uma bolsa na RAM? Você acha que eles continuarão com a oferta se souberem do caso?
Minhas pernas cederam, mas por sorte consegui chegar até a cama para sentar.
Com o turbilhão de acontecimentos em tão pouco tempo é óbvio que questões assim não rondaram minha mente, mas por mais que saiba que Edward é inocente, ainda não temos como provar...
Assim tudo que Irina acabou de falar pode acabar acontecendo de um jeito ou de outro...
— Vejo que agora você está começando a pensar. – Voltou a falar me tirando do transe. – Muito bem, vamos continuar. Vou deixar claro novamente que não estou prometendo inocentá-lo. Mas se retirar a queixa da minha parte Edward terá apenas as alegações públicas. Assim, se o advogado que o seu pai contratou for realmente tão bom, conseguirá soltá-lo com um pouco mais de tranquilidade, talvez alegando o histórico de bom moço do Edward. Desse modo, ainda que enfrente o processo, não será tão pesado.
— Mesmo sabendo de tudo isso você não o fará se eu não ceder?
— Isabella, nada na vida vem de graça, você já deveria saber disso. – Desdenhou. – Mas agora que já entendemos todos os pormenores, vou reiterar minha oferta. Eu converso com meu avô e retiro as queixas da minha parte, até posso pedir que ele intervenha e ofereça respaldo ao advogado para que o Edward saia da cadeia o mais rápido possível, mas só farei tudo isso se você aceitar terminar o namoro com ele.
— Por quê? — Sussurrei.
— Porque o que?
— Porque está fazendo tudo isso? Porque quer tanto nos prejudicar?
— Pelo contrário, estou oferecendo meios de ajudá-lo, justamente porque gosto dele. Mas para entrar no jogo, preciso de você fora do meu caminho. – Pude sentir o escárnio e a repulsa no seu tom de voz. – Edward é certinho demais para aceitar ficar comigo enquanto ainda está com você. Mas estando livre, será fácil mostrar a ele que sou uma escolha muito melhor.
— Mesmo que por ventura aceitasse essa insanidade. A escolha de ficar ou não com você é dele.
— Não se preocupe. Ele não demorará a perceber as vantagens de ficar comigo. Mas já que estamos formulando as questões, quero pontuar que para manter minha parte do acordo você tem que cumprir o que prometer.
— O que quer dizer?
— Que você precisa terminar com ele de verdade. — Sentenciou. – E que nossa conversa jamais chegue aos seus ouvidos. Não quero saber de você contando a ele o que combinamos para que juntinhos armem contra mim. Que diante de todos finjam estar separados, mas aqui na pousadinha da vovó continuem brincando de casinha como se nada estivesse acontecendo. – Prosseguiu. – Pois se souber de qualquer coisa desse tipo, volto atrás no acordo no mesmo instante.
Simplesmente não aguentei mais, não diante de tanta porcaria.
— Você é maluca! Insana! Completamente louca! — Esbravejei. – Edward não é um brinquedo. Ele é uma pessoa, com sentimentos, princípios e escolhas. E você está aqui falando sobre ele como se pudesse simplesmente manipulá-lo ou a mim. – Esclareci olhando firmemente em seus olhos. – Você até pode estar certa sobre tudo que falou referente à situação dele, mas seja como for, lidaremos com tudo juntos e ao lado da justiça. Provaremos que ele é inocente e ele sairá da cadeia, sem qualquer interferência sua!
— Pelo visto você ainda não entendeu realmente como as coisas são. Mas tudo bem, de todo modo o recado está dado. Deixarei que pense no que conversamos e me procure quando mudar de ideia.
— Não conte com isso.
— Bella, eu... – Mamãe abriu a porta interrompendo nosso impasse. – Ah, me desculpe, não sabia que estava acompanhada.
— Tudo bem, Esme, não é? – Irina comentou e mamãe assentiu. – Eu já estou de saída. Já falei com a Bella tudo que preciso. Com licença.
— Quer que a acompanhe até a saída? – Mamãe ofereceu.
— Não precisa, eu sei o caminho. – Falou já passando pela porta, mas antes de deixar completamente o cômodo, completou. – Estarei esperando seu retorno muito em breve Bella, tchau.
— O que ela quis...?
A pergunta da mamãe ficou no ar, pois no instante em que ficamos sozinhas, me joguei em seus braços começando a chorar.
— Bella, meu amor. O que houve?
— Uma coisa horrível mamãe. A pior coisa que poderia acontecer.
— Bella, você está me assustando. Me conte o que aconteceu.
— O Edward foi preso mamãe.
— O que? Como? Mas, por quê? – Não consegui responder por conta do aumento do choro. – Calma minha querida, tenta se acalmar. Vem, vamos sentar. – Me guiou até a cama. – Vou pegar um copo de água e então você me conta tudo.
Esperei sua volta e após beber um pouco da água contei o que aconteceu.
Pela carga emocional parece que passou muito tempo, mas não, mal posso acreditar que nossas vidas deram uma guinada desse tamanho em tão poucas horas.
— Meu Deus do céu, Bella. Porque não me ligou quando ficou sabendo? Eu teria ficado ao seu lado e do Edward.
— Ah mamãe, na hora só pensei em falar com o papai. Imaginei que ele poderia nos ajudar e de fato está ajudando muito.
— Imagino que sim, mas de toda forma você deveria ter me avisado.
— Eu não quis incomodá-la justo no dia que estava com meus avós. E só conseguia pensar no Edward, desculpe.
— Não se desculpe. – Afagou meu rosto. – O importante é que estou com você e com ele também. É claro que ele é inocente. Posso não conhecer sua versão adulta há tanto tempo, mas confio plenamente na índole dos filhos que a Mary e o Anthony criaram, sem contar o respaldo da Elizabeth. Ele jamais seria capaz de fazer algo imprudente assim.
— Eu sei disso mamãe. Porém acreditarmos nele não é o suficiente, a justiça também precisa acreditar. – Pontuei. – Mas com essa história de terem encontrado álcool em seu sangue. Não sei como poderemos provar sua inocência.
— Tenha fé minha querida. Uma hora ou outra a verdade virá à tona. E nesse caso muitas pessoas estão empenhadas em procurá-la. Pense positivo, tudo ficará bem e logo o Edward estará livre.
Como um presságio das suas palavras meu telefone tocou e não demorei a atender ao ver o nome do papai na tela.
— Oi papai.
— Oi minha filha. Como você está? Conseguiu dormir?
— Não muito. Mas isso não importa. O senhor tem notícias do Edward? O advogado já falou alguma coisa?
— Sim Bella, por isso estou ligando.
— E o que ele disse? O Edward vai ser solto quando?
— Bella, infelizmente a situação não aconteceu como esperado...
— Não... – As lágrimas voltaram a rolar pelo meu rosto.
— Garrett solicitou que o Edward fosse solto através do pagamento de fiança, mas a mesma foi negada. Desse modo teremos que aguardar até amanhã para que ele possa fazer o pedido formal de habeas-corpus com o juiz.
— Não papai. – Solucei. – O Edward não pode passar um dia todo preso. Ele já está lá há horas, mas não pode passar um dia e noite completos. Isso não pode ser. Não é justo. Ele é inocente.
— Eu sei querida, eu sei disso. Mas infelizmente as coisas são mais complicadas do que pensamos a princípio. Garrett continuará cuidando do caso durante o dia e quem sabe consiga algo, mas, por enquanto, teremos que aguardar.
Não consegui respondê-lo com o choro irrompendo o meu peito, desse modo, mamãe pegou o celular continuando a conversa.
— Carlisle, sou eu Esme.
— Oi Esme.
Ao continuar ouvindo-o percebi que ela deixou a chamada no viva voz.
— Não queria fazer nossa filha chorar.
— Não é sua culpa. Pelo que entendi o Edward não será solto hoje, é isso?
— Sim. O advogado tentou o que pôde, mas por hora essa é a resolução que temos. A qualquer mínima novidade ele prometeu entrar em contato. Mas é provável que só consiga algo amanhã de manhã.
— Isso é realmente horrível. Não tenho a menor dúvida que ele é inocente.
— Eu também não. Queria poder fazer mais.
— Você já fez o bastante contratando um bom advogado e apoiando nossa filha.
— Era o mínimo que podia fazer. Ele não é apenas o namorado da Bella, mas também o filho da Mary e do Anthony.
— Sim, ele é.
A ligação ficou muda por alguns segundos.
— Esme?
— Sim?
— Você acha que devo ir a pousada conversar com a dona Elizabeth pessoalmente? Ajudá-las a contar sobre as informações do advogado.
— Não, é muita gentileza, mas não precisa. Bella e eu contaremos a ela e Alice. Se precisarmos de algo mais ligamos, mas não é necessário vir aqui.
— Muito bem. Mas não hesitem em ligar se precisarem de algo, estou totalmente à disposição de vocês.
— Eu agradeço. Até logo Carlisle.
— Até Esme.
Ouvi a chamada ser encerrada, então mamãe me puxou para um meio abraço, pois apesar de ter conseguido controlar um pouco o choro, os soluços ainda não pararam.
— Vai ficar tudo bem filha, acredite em mim. Esse foi só um contratempo, mas o Edward será solto em breve, você vai ver.
Quero acreditar em suas palavras e no seu conforto, mas em meu íntimo as palavras de Irina não param de rondar minha mente.
— Tente se acalmar, pois precisamos falar com a Elizabeth e Alice. – Ergui a cabeça do seu ombro, enquanto ela passa a secar minhas lágrimas. – Não podemos nos deixar abater, temos que nos unir e criar forças juntas.
— A senhora tem razão. Elas precisam de mim e o Edward também. Não posso fraquejar diante do primeiro obstáculo.
— Isso mesmo. Além do que, você não está sozinha. Enfrentaremos o que vier juntas.
— Obrigada mamãe. Estou muito contente que a senhora está aqui.
— Eu também querida. Eu também. Agora vamos descer? – Assenti.
Mesmo sem estar totalmente preparada sei que precisamos contar às notícias a Alice e a vovó, ainda que não sejam as que esperávamos...
Foi realmente muito difícil falar para elas que Edward não sairá hoje e que o amanhã não é uma certeza, apenas uma possibilidade.
A manhã passou de modo horrível, após nossa conversa vovó se isolou em seu quarto, então Alice, mamãe e eu assumimos os afazeres da pousada, ainda que nenhuma de nós estivesse com a cabeça no lugar.
Durante esse tempo Alice e eu decidimos contar aos nossos amigos o que houve, obviamente eles ficaram chocados e não acreditaram de forma alguma na culpabilidade de Edward e prontamente ofereceram ajuda com o que for necessário.
Jasper quis vir passar o dia com Alice, mas ela recusou, porém foi confortante saber que podemos realmente contar com seu apoio.
No horário do almoço mamãe conseguiu fazer com que a vovó descesse para comer, mas não tenho dúvida que a refeição não foi apreciada por nenhuma de nós.
Se os hóspedes notaram o clima estranho, foram educados o suficiente para não comentar, um bônus dos ingleses, a suprema discrição.
Sabendo que não dormi nada, mamãe praticamente me obrigou a subir e tirar um cochilo depois do almoço, vovó já se retirou novamente e Alice falou que está bem para continuar tomando conta de tudo com minha mãe, desse modo acabei subindo para o quarto.
Pensei que não conseguiria dormir, mas o cansaço físico se sobrepôs ao mental e acabou me dominando...
Porém preferia não ter adormecido, já que apenas acordei mais cansada após o cochilo, pois durante o mesmo fui acometida por uma série de pesadelos, com cenários onde Edward continua preso por muito tempo e me culpa por tudo de ruim que está acontecendo em sua vida.
Também vi nosso futuro completamente destroçado e entre os vislumbres de memórias notei uma mulher grávida chorando bastante. Não consegui ver seu rosto, mas sei que de algum modo seu sofrimento também é minha culpa.
Desse modo ao levantar não hesitei em ir ao quarto do Edward, a procura de algum alívio ou sinal de que tudo não passou de um sonho ruim, que daqui a pouco o terei de volta ao seu espaço, ao lugar que pertence.
Mas a caminho do mesmo não pude deixar de ouvir um som vindo do quarto da vovó, apesar da tentativa de esconder o sofrimento, seu choro foi possível de ouvir e foi o que bastou para terminar de me quebrar.
Assim que entrei no quarto fechei a porta recostando contra a mesma e desabando mais uma vez. Assustada, preocupada, com medo, sendo acometida por uma enxurrada de sensações, mas nenhuma capaz de transmitir alívio.
Praticamente me arrastei até a cama e abraçada ao seu travesseiro me permiti chorar por mais um tempo, o último tempo antes de tomar a decisão necessária para reverter o sofrimento de todos...
Não sei se passei minutos ou horas na mesma posição, mas quando levantei foi decidida a agir.
De volta ao meu quarto procurei meu celular e agradeci internamente ao papai por ter feito a gentileza de informar os números de Carmen e Irina, para que se algum dia precisasse entrar em contato com ele e não conseguisse poder procurar notícias suas com elas.
Assim não pensei, apenas apertei o botão de iniciar a chamada.
— Alô.
— Irina sou eu, Bella.
— Não direi que é uma surpresa receber sua ligação.
— Eu não tenho tempo para joguinhos. – Enfatizei. – Só estou ligando para dizer que você deve cumprir o que prometeu, pois cumprirei a minha parte. Mas o Edward tem que ser solto ainda hoje, não importa a hora. Mas ele não pode passar mais uma noite preso.
— Olha, eu não posso prometer nada.
— Você pode sim. — Praticamente rosnei. – Você falará com o seu avô, chorará diante da polícia, não me importa. Mas a retirada da sua queixa tem que fazer com que ele seja solto hoje, entendeu?
— Entendi. Eu darei o meu melhor.
— Ótimo.
— E você cumprirá com a sua parte?
— Sim, quanto a isso não se preocupe. – Respirei fundo. – Quando o Edward voltar para a pousada, farei o necessário.
— Maravilha. Foi ótimo falar com você Bella.
— Tchau Irina.
Encerrei a ligação jogando o aparelho na cama, por conta da força bateu e caiu para o chão, mas não me importei, a partir de agora só uma coisa importa...
Obviamente não contei a ninguém sobre a decisão tomada, apenas aguardei uma ligação do meu pai ou qualquer notícia do tipo.
A tarde foi embora trazendo a noite consigo...
Comecei a me desesperar, ao mesmo tempo em que tento manter a confiança, pois é domingo e se o advogado tentou libertar Edward sem sucesso pela manhã, não imagino que seja tão fácil fazê-lo novamente, mas tenho que acreditar, tenho que pensar que minha escolha percorrerá o caminho certo...
Novamente passamos pelo horário da refeição de modo mecânico e após o mesmo mamãe subiu com a vovó, enquanto Alice e eu permanecemos entre o balcão e a sala de estar, observando as interações dos hóspedes, mas sem realmente participar de nada.
De repente ouvi o barulho da porta da frente, mas não dei bola, imaginando ser um hóspede saindo ou chegando, porém o ofego de Alice chamou minha atenção.
Quando ergui o rosto quase não acreditei, mas ao ver Alice correndo para abraçar o irmão compreendi que é real.
Que ele está mesmo aqui.
Não mais preso injustamente, mas aqui na pousada, na sua casa, em seu lugar de direito.
— Edward.
— Oi Alice.
Os poucos presentes na sala não se manifestaram diante do abraço dos irmãos.
Enquanto só consigo permanecer congelada, temendo até ter parado de respirar.
— Bella? Você está bem?
Reparei que meu pai e o advogado estão atrás de Edward.
— Sim. – Respondi ao papai a um fio de voz.
Porém essa simples palavra parece ter chegado a Edward também, já que ele deixou o abraço de Alice fazendo menção de vir em minha direção.
— Bella...
— Eu vou chamar a vovó.
Nem pensei realmente no que disse, apenas fiz meu corpo se mover de forma rápida em direção as escadas.
Então longe das vistas de suas vistas procurei tranquilizar minha respiração e assim caminhar até o quarto da vovó, em frente à porta bati sutilmente ouvindo um entre.
— Vovó, a senhora tem que descer até a sala. O Edward está aqui. – Falei sem rodeios.
— Edward Anthony está aqui?
— Sim.
— Ah, meu bom Deus. Eu preciso vê-lo.
Com agilidade impressionante levantou da cama com minha mãe ao seu lado e partiu quase correndo a caminho da sala.
— Mas como ele está aqui? – Mamãe perguntou.
— Eu não sei. O papai e o advogado também estão lá embaixo, imagino que nos explicarão tudo.
— Certo. Vamos lá. – Assenti seguindo.
Pois mesmo temendo o momento, não posso simplesmente me esconder.
Quando mamãe e eu chegamos à sala avistamos a emocionante cena da vovó prendendo Edward em um abraço fortíssimo.
— Ah, meu filho, graças a Deus você está aqui conosco.
— Sim vovó. Pode ficar tranquila que já está tudo bem.
— Inocentaram você? – Alice perguntou.
— Então...
— Desculpe interromper, mas teria um lugar mais privado para conversarmos? – O advogado questionou.
— Podemos ir para a sala do piano. – Sugeri. – Não tem ninguém lá.
Ninguém contestou desse modo seguimos até o outro cômodo.
Nesse meio tempo minha mãe também se aproximou de Edward para abraçá-lo, enquanto parei ao lado do meu pai e mais próxima ao advogado a uma distância segura dele.
— Muito bem, permitam-me apresentar-me. Sou o doutor Garrett Pace, advogado do doutro Cullen há muito anos e agora estou cuidando do caso do senhor Masen.
— É um prazer conhecê-lo doutor. Eu sou Elizabeth Masen, avó do Edward Anthony e essa é minha outra neta, Mary Alice.
— Muito prazer em conhecê-las.
— E eu sou Esme Swan, mãe da Bella.
— Muito prazer, senhora Swan? – O tom de dúvida ficou no ar.
— Acredito que sim. Esse é meu sobrenome de solteira, mas já não tenho idade para ser chamada de senhorita. – Mamãe respondeu com bom humor.
— Então a senhora e o doutor Cullen nunca foram casados?
— Não, apenas tivemos uma filha juntos. – Esclareceu.
— Entendo.
— Sim Garrett, agora conte sobre a situação do Edward, por favor. – Papai pediu.
— É claro. Imagino que todas saibam que tentei a solicitação de liberdade do senhor Masen pela manhã através do pagamento da fiança, porém a mesma foi negada. – Assentimos. – Muito bem, desse modo tentaria o contato com o juiz amanhã para pedir um habeas-corpos, porém no fim do dia recebi a notícia que uma das queixas prestadas contra o senhor Masen havia sido retirada.
— Como assim? Quais são exatamente as acusações contra o meu neto?
— Sra. Masen, por conta das circunstâncias que levaram ao acidente, o senhor Masen foi indiciado pública e particularmente. Nesse caso, pela cidade de Londres e pela senhorita Irina Denali.
— O que? A Irina teve coragem de denunciar o Edward? Você sabia disso Bella? – Alice disparou, mas por sorte o advogado tomou a palavra antes de respondê-la.
— Srta. Masen, esse é o procedimento padrão. A senhorita Denali, aos olhos da justiça, foi à vítima da situação, desse modo ela apenas seguiu com os proclames legais. Porém para nossa sorte resolveu retirar a queixa, além de declarar que não acredita na culpabilidade do senhor Masen. Assim consegui reverter à situação informada pela manhã e libertá-lo sob fiança.
— Então meu neto ainda não está totalmente livre?
— Não vovó, mas não se preocupe, pois vou sair dessa.
— Exatamente dona Elizabeth. Pode confiar que Garrett continuará cuidando do caso e vamos fazer tudo que estiver ao nosso alcance para provar a inocência do Edward. – Papai prometeu.
— Ao menos Edward está em casa e isso já é um grande alívio. – Mamãe pontuou.
— Sim, sim, é claro. Ter meu menino aqui diante dos meus olhos e ao alcance das minhas mãos é o que importa. – Vovó o puxou para um novo abraço.
— Isso mesmo. – O doutor Pace falou retomando a atenção. – Edward, você tem meu contato e também o manterei informado sobre tudo, assim como ao Carlisle. A qualquer novidade aviso.
— Muito obrigado doutor Pace, não sei como agradecer.
— Não tem de que rapaz. Agora tenho que ir e você descanse, siga sua vida normalmente.
— Obrigado. – Eles trocaram um aperto de mãos.
— Eu também já vou. – Papai informou. – Nem preciso dizer que podem me ligar a qualquer hora e para o que precisar certo?
— Muito obrigado Carlisle. Pode não ser em breve, mas o pagarei por tudo.
— Não diga isso Edward, você não tem que me pagar nada. Tudo que fiz e faço é porque você merece. Apenas se cuide. – Os dois trocaram um abraço.
— Eu os acompanho até a porta. – Ofereci.
Deixei a sala acompanhando-os até a porta principal, troquei um leve adeus com o advogado, então me despedi do papai.
— Muito obrigada papai, por tudo.
— Não precisa me agradecer Bella. Espero que logo possamos inocentar o Edward completamente para que possam seguir com suas vidas como se deve.
— É o que também espero.
— Você está bem? Parece um pouco estranha.
— Estou bem sim, não se preocupe. Estou apenas processando tudo.
— Certo. Até logo filha.
— Tchau papai.
Após a despedida aguardei alguns segundos no batente da porta antes de entrar, ao fazê-lo encontrei Alice sozinha no balcão.
— Cadê todo mundo? – Perguntei não querendo questionar diretamente sobre ele.
— Vovó e sua mãe estão na cozinha arrumando o jantar para Edward e ele subiu para tomar banho.
— Entendi. Eu vou subir também.
— Vou avisar ao Jas que o Edward voltou.
— Sim. E se puder avisar Rose e Emm também.
— É claro. Imagino que Edward não queira ver ninguém hoje, mas mesmo assim os avisarei.
— Certo. Com licença.
Segui até meu quarto e ao entrar aproveitei para tomar meu banho também.
Tentei dispersar das preocupações durante o mesmo, mas é claro que não consegui. Quando terminei apenas enrolei a toalha ao redor do corpo voltando ao quarto.
— Edward, que susto.
Comentei assim que o vi prostrado dentro do cômodo.
— Desculpe.
— Não o esperava aqui. Alice falou que você ia tomar banho e jantar.
— Descerei daqui a pouco, mas antes queria te ver.
— Ok. Vou só me trocar.
Peguei meu pijama e fiz menção de voltar ao banheiro, mas fui interrompida por seu questionamento.
— Você vai se trocar no banheiro?
— Vou. Será rápido.
— Quer que eu saia?
— Não precisa, eu já volto.
Não o deixei contestar mais entrando no cômodo adjacente.
Me vesti rapidamente e sabendo que não poderei adiar nossa conversar por mais tempo, voltei ao quarto.
— Pronto.
— Eu quero te agradecer. – Falou se aproximando.
— Não precisa.
— É claro que preciso. – Disse a centímetros de mim. – Não sei como você fez isso, mas não tenho dúvida que é a responsável por Irina retirar a queixa.
— Não, não sou. – Desconversei. – É provável que ela tenha apenas se tocado que era errado manter a queixa sendo que você é inocente. De madrugada tudo foi muito confuso, mas imagino que ela tenha pensado bem e visto que era o certo a fazer.
— Olha você, pensando em argumentos lógicos até para ela. Você não existe.
— Não estou fazendo nada demais, apenas imagino que tenha sido isso. Porém o importante é que você está em casa.
— Graças a você. — Envolveu meu rosto com as mãos e meu corpo estremeceu.
— Não. – Refutei. – Talvez graças a mim você tenha passado por isso, mas não fui a responsável por libertá-lo.
— Bella para. – Encostou nossas testas. – Não quero que fale essas coisas e tão pouco que pense nisso. Você não tem culpa de nada.
Não aguentei nossa proximidade, então o abracei.
Eu preciso disso, desse último contato, um contato singelo, especial, mas sem riscos.
— Tudo bem. Não vamos mais falar sobre isso. – Prometi.
Ficamos em silêncio alguns segundo aproveitando o momento.
— Foi apenas um dia, mas eu senti tanto a sua falta. – O apertei forte para não responder.
E por sorte bem nessa hora seu estomago roncou, me dando a desculpa perfeita para nos afastar.
— Você tem que descer para jantar. Vovó está te esperando.
— Ok. Você não vem comigo?
— Não. Já jantei, mas você deve ir, está com fome e precisa se alimentar.
— Certo. Ainda nos veremos hoje?
— Acho que não. Você precisa descansar, então é melhor dormir sozinho. Nos falamos amanhã.
— Está bem. Boa noite.
Conhecendo seus movimentos, me antecipei beijando seu rosto antes que ele beijasse meus lábios.
— Boa noite. – Percebi que estranhou o gesto, mas não contestou.
Em silêncio e com um último aceno deixou o quarto.
Me controlei muito para não desabar em choro, pois a qualquer momento mamãe deve entrar e não quero ter que explicar nada a ela também.
Mas agora é isso, não posso voltar atrás.
Porém sei também que não posso simplesmente terminar tudo com Edward, não sem uma explicação fundamentada, ele jamais deixará que encerre tudo de modo banal.
Não.
Se quero fazer isso de modo definitivo, preciso fazer do jeito certo.
Assim não serei eu a terminar com ele, ao invés disso, farei com que ele queira terminar comigo.
Iniciando um afastamento gradativo, entre outras ações, para que ele entenda por si que não é mais possível continuarmos juntos.
Eu conseguirei fazer isso. Por ele, eu conseguirei...
***
— Bella, está tudo bem?
— Sim papai. Por quê?
— Porque eu pedi o açúcar e você passou o sal.
— Desculpe. Eu me confundi. – Comentei passando o recipiente correto.
— Tem certeza? Sei que estamos construindo nossa relação, mas você pode conversar comigo também.
— Eu sei papai. Foi apenas uma distração. Acho que estou prestes a gripar. – Mudei de assunto.
— Porque acha isso? – Comentou colocando a mão na minha testa.
— Porque acho que mamãe e Rose vão gripar também. E não sei se alguma delas pegou e acabei passando para a outra ou apenas é da época. Mas não é nada sério, não se preocupe.
— Ok, de todo modo beba bastante líquido e se os sintomas delas persistirem peça para que procurem um médico. É sempre bom estar atento a qualquer tipo de doença.
— Pode deixar doutor Cullen, passarei as recomendações a elas. – Pisquei.
Ele sorriu e com isso continuamos a preparar o jantar...
Seu convite veio no melhor momento possível, pois está sendo bem difícil à permanência na pousada com minhas constantes tentativas de evitar Edward.
Na segunda-feira tentamos convencê-lo a ficar em casa e não ir trabalhar, mas ele foi irredutível em discordar e ir para o trabalho mesmo assim.
Com isso acabei não conseguindo evitar a carona de bicicleta e foi extremamente difícil me manter firme enquanto sentia não só seu corpo tão próximo ao meu, como também seu carinho constante transmitido através não só de gestos, mas também de palavras.
Foi com júbilo que recebi a notícia que o Antiquário terá outra exposição no fim do mês, assim pude usar a desculpa de não ter horários fixos por esses dias para rejeitar suas caronas antes ou depois do trabalho.
O que me motivou a trabalhar muito mais, desse modo também não tenho chegado à pousada no horário costumeiro. Nos últimos dias cheguei depois do horário do jantar, comi sozinha e logo fui me trancar no quarto.
A situação de Rose e mamãe também serviu para manter o afastamento geral, já que desde o início da semana ambas não estão muito bem de saúde. Assim na pousada não preciso inventar desculpas para ficar apenas no quarto com a minha mãe, já que até sabermos ao certo o que ela tem, é melhor não ficar transitando pelos ambientes comuns.
E nos momentos que foram inevitáveis cruzar com Edward, mantive o plano de aos poucos fazê-lo entender que o melhor será terminar comigo.
Está sendo uma verdadeira tortura não ficar ao seu lado, abraçá-lo, demonstrar meus sentimentos e lhe dar apoio em meio a tudo. Mas sei que não posso fraquejar, pois meu esforço é crucial para o seu bem-estar.
E não importa se no fim eu for à única prejudicada.
Contanto que ele fique bem, seguro e livre, tudo valerá a pena...
Papai e eu terminamos de preparar o jantar e por estarmos a sós, comemos na cozinha mesmo.
Ele comentou novamente sobre a minha dispersão, mas também percebi que parece preocupado e apesar do convite para jantar não ser algo tão incomum, ainda sim, sinto que dessa vez tem algo a mais por trás.
— Pai?
— Sim?
— O senhor também parece preocupado, distraído. – Comentei. – Está tudo bem? No seu trabalho? Com a Carmen? – Ele engoliu em seco.
— Na verdade Bella, realmente algo aconteceu e preciso contar a você.
— Pode falar papai, seja o que for o senhor tem meu apoio.
— Obrigado. – Ele deixou o jantar um pouco de lado e o imitei prestando total atenção. – Carmen e eu terminamos.
— O que? – Questionei realmente em choque. – Mas vocês não estavam noivos?
— Bella, você sabe que até casamentos se desfazem. – Justificou.
— Eu sei disso, mas não posso evitar ficar surpresa.
— É compreensivo. Porém de fato já não estamos mais juntos.
— Foi ela quem terminou? – Questionei.
Mesmo tendo a suspeita de que Carmen jamais abriria mão da relação com o meu pai.
— Não, fui eu.
— Nossa. Eu sinto muito. E porque o senhor quis terminar?
— Por uma série de motivos e por nenhum em especial. Apenas percebi que a relação não tinha mais futuro. Nunca fui realmente apaixonado pela Carmen, mas passamos bons momentos juntos, porém entendi que a relação chegou a um ponto de estagnação e precisei encerrar tudo.
— Muito maduro da sua parte. – Pontuei.
— Não sou mais um jovem inconsequente. – Brincou. – Os anos nos fazem amadurecer em certos aspectos.
— E como ela reagiu?
— Acredito que no fundo ela tinha a mesma sensação que eu e ao seu modo compreendeu que o melhor foi realmente encerrar tudo.
— Espero que os dois fiquem bem com o término.
— Eu também. – Sorriu. – Ela disse que ia viajar para sair um pouco da cidade, acho que será bom para ela.
Com essa conclusão voltamos a comer e logo terminamos de jantar.
Então em meio à arrumação das coisas, comentei.
— O senhor e a Carmen se conheciam há muito tempo, não é?
— Praticamente desde jovens. – Informou. – Sempre tive maior contato com Eleazar, mas consequentemente tive proximidade com a Carmen também, por quê?
— Só estava pensando, no porque de não terem ficado juntos quando jovens. Depois que você e a mamãe terminaram. – Esclareci. – Talvez em um universo paralelo o senhor poderia até ser o pai da Irina.
— Não, isso seria impossível. – O olhei intrigada por tal afirmativa. – Carmen já estava com o pai da Irina quando sua mãe e eu terminamos. Na verdade vocês devem ter pouca diferença de idade, pois me lembro do Eleazar comentando sobre a gravidez da Carmen e que esse foi o motivo do casamento prévio. – Explicou. – O Eleazar nunca gostou do pai da Irina, mas o aceitou como genro pelo tempo em que ficaram juntos.
— A Carmen é viúva, não é?
Soltei relembrando uma das conversas que tive com a minha agora ex-madrasta.
— Sim. Faz uns sete anos que o marido faleceu. Então ela e Irina passaram a morar com o Eleazar e somente após esse tempo voltamos a ter contato.
— Entendi. E o senhor acha que o senhor Denali ficará chateado ao saber do término?
— Eleazar é um homem entendido e apesar de apreciar meu relacionamento com sua filha, compreenderá que essa foi a melhor decisão para nós.
Terminamos de arrumar as coisas na cozinha e seguimos para a sala, apesar do horário ainda não quero voltar para a pousada e aproveitando o momento de conversas sinceras, arriscarei falar sobre outro tópico.
— Pai. Porque o senhor e a mamãe terminaram?
— Bella, é melhor não falarmos sobre isso.
— Porque não? – Refutei. – Esse assunto é literalmente toda minha história. Tudo que aconteceu foi porque vocês tomaram decisões que afetaram nós três. E eu acho que mereço saber as razões.
Ele suspirou, olhou em meus olhos, mas não desviei o olhar.
— Tudo bem, você tem razão. – Suspirou. – Não temos porque manter esse assunto intocado, não quando temos você. E também sua mãe e eu estamos tentando manter uma convivência civilizada.
— Obrigada. – Agradeci sincera. – Agora me diz. O que aconteceu para vocês terminarem?
— Eu não lembro exatamente de todos os pontos, durante os anos tratei de nublar essas lembranças, pois não me traziam bons sentimentos. – Começou. – Mas pouco antes de terminarmos sua mãe estava distante, fria. Lembro-me de questioná-la sobre algo estar acontecendo, mas ela não me falou. Além de estar sempre muito ocupada quando a procurava.
— O senhor acha que ela já sabia da gravidez e estava receosa em contar?
— Na época não tinha essa informação, então não pensei nisso. Mas talvez sim. – Ponderou. – Porém uma coisa que realmente me marcou na época foi algo que fiquei sabendo, pouco antes da nossa última conversa, ou melhor, discussão.
— E o que foi?
— Eleazar contou que disseram ter visto Esme na companhia de um rapaz. Um rapaz desconhecido e não apenas uma vez, mas em ocasiões distintas. Que estavam sempre conversando, mas de modo muito próximo, íntimo até.
— O que? – Tive que controlar o tom de voz. – O senhor acha que a mamãe estava te traindo?
— Não sei de fato. – Deu de ombros. – Eleazar tão pouco disse isso, apenas transmitiu os comentários que chegaram até ele.
— E o senhor simplesmente acreditou? E quem teria visto a mamãe conversando com esse rapaz? E porque contar a ele e não a você? – Despejei.
— Eleazar estava próspero na política na época, então tinha bastante pessoas trabalhando para si. E todos me conheciam, pois nossa família era próxima a sua por apoiarmos seu caminho político. Acredito que algum de seus empregados viu tudo e falou com ele no intuito de que o assunto chegasse a mim.
— Eu não posso acreditar. Foi por isso que o senhor e a mamãe terminaram?
— Não, ao menos não de fato. – O olhei confusa. – Na última vez que sua mãe e eu nos vimos, ela disse que queria conversar, sobre nós e nossa relação. Que sabia que não estávamos bem, mas que aquela situação teria que chegar ao fim. Eu conclui que ela estava falando sobre terminarmos, então o fiz primeiro. – Informou. – Acredito também ter insinuado que ela estivesse com outro ou a procura de outro. Isso deve tê-la insultado de algum modo, pois sua mãe não hesitou em ir embora sem de fato terminar nossa conversa.
— Eu não posso acreditar nisso papai. Então tudo não passou de um mal entendido?
— Refletindo sobre, não me orgulho da maneira como agi. Mas eu era jovem, nós dois. Erámos até mais novos do que você. E acredito que sua mãe e eu não tínhamos um terço da maturidade que você tem. – Tentou justificar. – Mas aquele não foi o fim concreto para mim. Eu percebi que poderia ter agido de modo impulsivo e fui atrás dela, logo no dia seguinte, mas foi ai que descobri sobre sua partida. Fiquei sabendo que ela não contou nem ao pais para onde tinha ido. Então conclui que ela realmente pretendia terminar comigo e que talvez de fato estivesse com alguém ou pretendesse começar algo com outra pessoa, mas longe daqui.
— E o senhor acredita nisso até hoje? – Enfatizei. – Que a mamãe possa ter estado com outra pessoa? Digo, antes de ir embora e vocês terminarem?
— Não sei. Acho que não. – Pareceu refletir um pouco. – Talvez ela realmente tivesse um amigo na época que não comentou comigo, pode ter sido apenas um amigo, colega, conhecido, enfim. Isso já não importa mais. – Afirmou. – Sei que agi de modo impulsivo, levado por receios, ciúme, imaturidade. Mas sua mãe também errou e muito mais do que eu. – Contrapôs. – Pois ela deliberadamente escolheu ir embora sabendo que estava grávida e sem me falar. Mesmo que eventualmente acabássemos terminando, ela não tinha o direito de partir esperando um filho meu sem falar nada. Sem me dar o direito de decidir sobre algo que nós dois éramos responsáveis.
— Nesse ponto o senhor tem razão. – Ponderei.
— Nossas escolhas nos conduziram a direção que tomamos? Sim. Muitas delas foram erradas? Também. Mas desse modo, só nos restou conviver e aceitar o caminho que o destino traçou.
Não consegui respondê-lo, por estar refletindo sobre tudo que ouvi.
Em certos pontos ele realmente tem razão, mas apesar de ouvir sua versão dos fatos, muitas coisas parecem não fazer sentido.
O quebra-cabeça da relação dos dois ainda têm muitas peças faltando e preciso encontrá-las para decifrar exatamente o que aconteceu.
Apesar da insistência do papai, recusei sua oferta de carona, alegando ser ilógico ele ir me deixar na pousada só para voltar depois, porém aceitei que chamasse um táxi. Assim despedimo-nos com a promessa de nos rever no fim de semana.
Já dentro do carro fixei minhas ideias em todos os pontos que sei sobre o passado dos meus pais, mas compreendendo que não chegarei a lugar algum sem conversar com a outra protagonista de tudo, minha mãe.
Entrei na pousada seguindo sem rodeios até o meu quarto, pronta para conversar e se necessário, confrontar minha mãe.
Porém hesitei quando entrei no mesmo ouvindo sons de vômito vindos do banheiro.
— Mãe?
— Só um minuto Bella. Já vou sair.
— Mãe, acho melhor irmos ao hospital. Acho que a senhora deve estar com virose. Acredito que a Rose também esteja. Então é melhor se consultar logo antes que fique pior. – Informei, porém ela não respondeu.
Quando deixou o banheiro sua expressão me preocupou ainda mais.
— Mãe, não seja teimosa. Vou chamar um táxi e vamos ao hospital agora. Precisamos saber o que a senhora tem.
— Não precisamos ir ao hospital para descobrir o que tenho Bella.
— Como não? Por quê?
— Porque já sei o que eu tenho.
— E o que é?
— Eu estou grávida...
CONTINUA.
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