Para Sempre
3 "Tu magoaste-me tanto!"
Notas iniciais
O dedo delicado de Flaky apertava o botão do elevador que descia. Carregou várias vezes seguidas na tentativa de aliviar o stress. Suspirou baixo e a porta do elevador abriu. Entrou e ficou a olhar a porta fechar lentamente. Fechou os olhos num sinal de descontração. Ele não tinha decidido segui-la.
Flippy conduzia a uma velocidade rápida demais para o que era permitido. Desviava-se facilmente dos outros carros. Afrouxou subitamente, parando na frente de um bar. Desligou o motor do carro e abriu a porta para sair. O seu carro de cor verde bem escura brilhava na luz do sol. Flippy encarou o seu reflexo no carro e sorriu. Entrou no bar, sentou-se num dos bancos altos e ficou por ali até se fazer horas para se encontrar com a ruiva.
O tempo passava rapido demais do que Flaky queria. Acabou por acordar em encontrar-se com o rapaz, mas no fundo ela não queria. Queria agarrar nas suas coisas e refugiar-se em casa. Longe do mundo e do problemático Flippy que já lhe tinha dado vários problemas no passado. 17 horas se fizeram. O sinal de saída soou e Flaky deitou a cabeça sobre a secretária.
–Tem de ser mesmo.
Flippy pousou o copo com brusquidez no balcão.
–Enche de novo.
A garota de cabelo azulado, que já conhecia o homem de à um tempo, colocou a mão na anca e resmungou para ele.
–Estás a exagerar de novo. Vais ter com a Flaky com esse hálito insuportável a alcoól.
Ele bateu com a palma da mão furiosamente, fazendo Petunia dar um pulinho para trás.
–Que eu saiba eu sou cliente aqui ! Enche de novo o copo se fazes o favor.
Ele levantou do banco enquanto Petunia enchia o copo com vodka. Flippy bebeu de uma vez e mordeu os lábios com o desagrado do sabor. Deixou uma nota em cima da mesa, pegou nas chaves do carro e saiu do estabelecimento.
–Tsc.. que desagradável.
Flaky descia o elevador agarrando nas mãos uma pasta roxa com papéis do seu trabalho. Ela era secretária. Trabalha demasiado para poupar para tentar mudar de vida. Mas parecia que nunca mais o conseguia e o seu passado voltava para a aturmentar. Chegando ao piso 0, a porta do elevador abriu.
Na frente da porta, o rapaz de cabelo esverdado apareceu. Flaky se assustou com o vulto, mas quando viu que o conhecia acalmou.
–Francamente. Pensei que o combinado era eu ir ter contigo.
A ruiva falou apressando o passo para sair do elevador. A ideia de ficar com ele em lugar demasiado fechado a assustava.
Ele a seguiu sem nada falar. Apenas a ter por perto já o deixava feliz.
–Estiveste a beber? Não precisas de responder. Nota-se pelo cheiro.
–Sim estive a matar tempo.
A ruiva abafou a gragalhada sarcástica.
–Existem várias maneiras de matar tempo. Não precisavas de beber para isso.
Flippy de longe abriu o carro com a chave autómatica. Abriu a porta do lado do passageiro e fez sinal com a cabeça para a ruiva entrar. Ela hesitou por um segundo. Mas sabia que se não fosse com ele, ele iria persegui-la para sempre. Não a iria deixar em paz nem respirar como devia ser, até que aquela conversa nao acontecesse.
Ela entrou no carro, ajeitou o vestido. Ele entrou em seguida e ligou o motor.
–Tens 10 minutos. Não mais que isso.
Ela falou, ao qual ele apenas acenou com a cabeça. Flippy dirigia, desta vez com mais calma, fazendo tudo certo. A quantidade de bebida que estava no seu sistema não o tinha afetado na capacidade de conduzir.
Finalmente chegaram. Flaky arregalou os olhos, não queria acreditar no que via diante de si.
–Acho que 10 minutos nem serão precisos.
Flippy abriu a porta do carro desligando o motor. Saiu e esperou que a ruiva saisse, e assim que ela o fez ele começou a falar.
–Ali na frente foi onde te conheci. Estavas tão engraçada com aquele vestidinho de menina mimada.- Ele sorriu e então falou sério de novo. — Naquela árvore ali.
Ele apontou para uma grande árvore, e já com alguma idade. As suas folhas mexiam suavemente ao sabor da brisa que passava.
–Tinhas agarrado num passarinho que tinha caído do ninho, então feita valente tentaste coloca-lo de novo. Mas infelizmente o teu pé escorregou no musgo da árvore e tu caiste.
Flaky revivia a cena na cabeça dela. O passarinho nas suas mãos, o musgo nos seus sapatos. O vestido manchado com o sangue que escorreu do seu braço. Ela arrepiou e envolveu os braços em si mesma.
–Eu encontrei-te ali enconstada a choramingar. Estavas suja, com o cabelo na frente da cara a tapar-te os olhos. Lembras-te desse dia certo?
Ele falou encarando de seguida a ruiva. Sim, ela lembrava. Cada segundo daquele dia tinha sido mais importante para ela. E ela estes anos todos os tinha guardado no coração. E eles voltaram para a alegrar de novo. Ela sorriu docemente e respondeu:
–Lembro sim. Tu chegas-te e nem me ajudas-te, apenas desvias-te o meu cabelo da frente e exclamaste...
– "O que não te mata, torna-te mais forte. Porque não tentas de novo?"
Falaram em unissono. Flippy aproximou-se da árvore e encostou a testa nela. Tinha sido ali que as suas histórias tinham começado.
–Dai eu tentei subir de novo. E consegui.
Ele sorriu e encarou-a. Ao visionar a cara da ruiva, ele se surpreendeu. Ela chorava. Mas não queria esconder isso. Queria que ele visse como ele a deixou emocionalmente. Ela ainda se recordava dos momentos que viveram juntos, mas ele tinha mudado, e parecia que ele em si não se lembrava de nada.
–Se esse dia foi tão importante para ti porque me fizeste aquelas coisas horriveis? Tu magoaste-me tanto mas tanto!
Ela falava enquanto apertava o vestido no sitio do seu coração. As lágrimas escorriam pelo rosto perfeito dela. E ele apenas a encarava espantado. Depois do espanto, Flippy desviou o olhar para o chão e desanimou. Ele sinceramente sabia que a tinha magoado. Mas não porque quis, ele apenas tinha aqueles lapsos. Ele queria esquecer aquele rosto de Flaky a suplicar para que ele parasse. Queria deter o seu corpo naqueles momentos, mas algo sobrenatural tomava conta dele e ele simplesmente não sabia explicar. Então para não a voltar a maguar, ele abandonou-a na pior das situações e decidiu prestar serviço militar fora do país.
–Os teus 10 minutos passaram. Vamos embora.
Flaky virou costas e entrou dentro do carro enxugando as lágrimas com a mão. O rapaz seguiu a ruiva e entrou no carro sem nada falarem.
O caminho feito até casa de Flaky foi feito em silêncio. Ele mantinha o olhar na estrada mas a sua mente vagava pelo passado. E aos poucos pequenos flashebacks invadiam a mente dele. Aquela noite, aquela casa. Os olhos castanhos de Flaky a perderem o brilho. Ele fechou os olhos e sacudiu a cabeça para afastar os pensamentos. O tempo diminuiu até casa de Flaky. O carro estanciou na frente e ela saiu.
–Obrigada pela boleia.
Fechou a porta do carro e entrou dentro de casa sem olhar para trás.
A porta fechou e à medida que ela fechava o corpo de Flaky caia no chão sem forças. Ela soluçava e limpava em vão as pequenas e brilhantes lágrimas cristalinas que escorriam pelo rosto.
Depois do choro sessar, Flaky apoiou as mãos na parede e levantou-se. Caminhou em passos arrastados até à casa de banho.
Em frente ao espelho, o seu rosto era refletido. Ela despiu o vestido e encarou-se durante vários minutos seguidos.
Ela odiava seu corpo desde aquele dia. Aquela horrenda cicatriz teimava em ficar ali para sempre. No seu ventre, aquele rasgo de pele estava ali, fazendo-a relembrar daquele passado horrendo que tanto ela queria esquecer. Mas sempre vinha algo para a lembrar e persistir que ela nunca iria ser feliz.
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