Notas iniciais
Esta fanfic se passa num futuro alternativo, seis anos depois dos eventos de Supremacia Alienígena, e portanto nossos heróis já estão crescidos. Como eu comecei a escrevê-la pouco depois do episódio O Retorno de Ben 10 000, com aquele Ben adulto que só usava os poderes dos aliens sem se transformar, de início era assim que o Ben de 20 anos aparecia aqui. Mas, no fim de SA, Ben ganhava outro Omnitrix - e, como eu disse, resolvi considerar um universo alternativo. Isso também signitica que os eventos de Omniverse (eca!) não aconteceram aqui. Kevin não voltou a ser vilão e é um osmosiano, não um Root, ou sei lá como chamam em português (não ia me torturar vendo aquele arco horrível). E seu pai, Devin Levin, existiu aqui, em vez de ser uma memória falsa. Como deveria ter sido se alguns cretinos da Cartoon Network não tivessem metido o bedelho.

A maior prova de amor, pensava Kevin numa tarde ensolarada, não era estar disposto a dar a vida pela pessoa amada. Não era a paixão continuar intensa depois de tantos anos, apesar dos percalços e dos períodos de separação causados pela faculdade, briguinhas missões de encanador. Nem mesmo — embora isso pesasse muito — era a garantia de que continuaria sendo amado se voltasse alguma vez a ser um monstro.

Não, a maior prova de amor era ele permanecer ali quando sua vontade era fugir para casa e se teleportar para o outro lado da galáxia até aquela loucura terminar. "Devíamos ter fugido para Las Vegas, como o Ben sugeriu" pensou "Se tivéssemos feito isso, agora estaríamos em lua de mel, em vez de termos que esperar mais um mês, pra quê eu não sei... talvez pra que a gente enlouqueça de vez. Será que vendem camisas-de-força com aparência de smoking?"

Nem sua mãe lhe dava apoio. Alguns minutos lá em baixo haviam bastado para a meiga senhora Levin ser contaminada pelo vírus que transforma todas as mulheres envolvidas nos preparativos de um casamento em monstros histéricos e paranóicos. A única que parecia conservar a sanidade era justamente a responsável pelo caos, porém Kevin achava que era uma questão de tempo até que ela também começasse a pirar. Provavelmente mais cedo do que esperava, concluiu, ao perceber quem vinha justamente na direção de seu esconderijo.

Agora com vinte e dois anos, Gwen voava livremente, sem degraus de mana. Kevin notou que, se por um lado ela não parecia zangada, tampouco parecia surpresa de vê-lo sentado ali no telhado.

—Dá azar o noivo ver a noiva antes do casamento_ sorriu amarelo.

—Deixa de gracinha, Kevin. Você sabe muito bem que isso é só na véspera. Me dá um espaço?

Surpreso e alíviado, o jovem recuou para que ela se acomodasse ao seu lado. Gwen sentou-se com um "ufa", dobrou as pernas e fez um apoio para a cabeça com os braços. Ficaram algum tempo em silêncio, até ele arriscar uma espiada. Ela continuava na mesma posição; parecia abatida e não uma noiva esfuziante.

Kevin cutucou-lhe o ombro:


—Você está bem?

—Hã?_a moça ergueu-se bruscamente.Havia esquecido a presença dele:

—Um pouco cansada e com dor de cabeça, só isso. Preciso de uma pausa.

—Está bravo lá embaixo. _Kevin concordou com a cabeça.

Ela olhou-o meio desconfiada:

—Não vai me dizer "eu avisei"?

—Não.Vou deixar esse gostinho para o Tennyson. E pela sua cara, você já foi castigada além da conta.

—Bota castigada nisso. Sabe o que é ter de escolher a daminha de honra entre quatro meninas?

Ele fez que não, e seu olhar horrorizado deixou bem claro que esperava nunca ter esse "prazer".

—Não é como você está pensando. As mães fazem muito mais barulho que as filhas, e ficam me dando alfinetadas porque não escolhi alguém da minha família para ser a madrinha. Queria saber como fizeram quando foi a vez delas, sinceramente. Ainda por cima, só comi uma maçã durante a tarde inteira.

—Só uma maçã? _ Kevin ergueu a sobrancelha, incrédulo _E aquele lanchão que a sua mãe fez? Seus parentes comeram tudo?

— Nem me deixaram chegar perto. A tia Sandra insistiu que eu deveria fazer um regime pra ficar bem elegante no dia do casamento e todas acharam uma ótima idéia! Mas não se preocupe_acrescentou, vendo o olhar preocupado do noivo _Emily prometou esconder alguma coisa pra mim.

Kevin ficou horrorizado. Gwen podia não ser mais uma adolescente magrinha, mas de gorda não tinha nada. A prática de esportes na faculdade e os treinos de encanadora a haviam transformado num mulherão cheio de curvas alucinantes. Por que a mulherada ainda acreditava que parecer uma caveira era sinônimo de beleza?


—Não precisa esperar pela Emily _tirou do bolso da jaqueta um saco de papel meio engordurado e empurrou-o nas mãos dela _Toma. Surrupiei da cozinha.

Eram sanduíches e salgadinhos. Estavam misturados e amassados devido ao tempo passado no bolso, mas Gwen teria devorado até as minhocas marinadas do vovô Max. Kevin divertiu-se observando-a atacar o lanche:

—Eu devia ter trazido uma cesta de piquenique.

Gwen limpou a boca com as costas da mão e sorriu, maliciosa:

—Devia mesmo, já que evidentemente você se preparou pra ficar bastante tempo aqui. Estava tão difícil assim planejar a segurança da cerimônia com o Ben?

—Você não sabe o que aconteceu? _Kevin deixou cair o queixo.

Ela abanou a cabeça: _Não via vocês dois desde ontem, quando foram buscar um projetor de nulidade pra esconder embaixo do altar! Eu só sabia que vocês estavam aqui, por causa do seu mana... e também porque vi o carro do Ben lá fora. Mas não fiquei surpresa quando senti que você havia subido no telhado.

Ele deu um sorriso de entendimento:

—Ficou feliz por eu ter lhe dado uma desculpa pra escapar um pouquinho, não, foi?

—Não muda de assunto! _ Gwen refutou o comentário com um gesto irritado _ O que aconteceu entre vocês dois?

—Entre nós, nada. Você sabe que eu não ligo pros delírios do Tennyson... tá, não ligo muito. Mas muita gente liga. Uma das suas tias — ou primas, sei lá — achou que, como o Ben é meu padrinho, eu não precisava me preocupar com a segurança e estava arrumando uma desculpa pra não fazer nada.

Gwen suspirou:

—E arrastaram você pra cá. Achou tão humilhante assim ajudar a escolher a decoração e o bolo, pra vir se esconder aqui em cima?

—Se fosse pra escolher o bolo eu teria adorado ajudar. Mas fiquei foi trancado no escritório do seu pai por quase duas horas, tentando escrever meus votos de casamento!

—Desculpe_ Gwen conteve-se para não rir. Kevin podia escrever uma ótima tese sobre qualquer componente mecânico ou fonte de energia, mas obrigá-o a escrever uma declaração de amor longa e melosa era crueldade mental_ Conseguiu alguma coisa?

—Algumas bolhas e duas cestas de lixo reciclável. _ ele mostrou a palma da mão _Depois, quiseram cortar o meu cabelo pra eu combinar com o bonequinho que vai em cima do bolo! Se a Julie não tivesse fingido que tropeçou pra bloquear o caminho, eu não teria nem conseguido subir aqui!


Desta vez ela riu:
—Você inventou isso!

—Juro que não — bom, a parte da fuga eu exagerei um pouco... Mas o fato é que o catálogo dos bolos tem QUARENTA páginas só de bonequinhos noivos — e todos eles de cabelo curto!

—Que falta de imaginação. Mas você deveria mesmo aparar um pouco _Gwen brincou com o rabo de cavalo frouxo que descia pelo meio das costas.

A resposta foi um olhar de "até tu, Brutus?"

—Não estou dizendo pra cortar curtinho! Poderia fazer um corte mullet até a base do pescoço, como quando você tinha 17 anos. Eu achava bonito... _ele continuava de cara amarrada, e Gwen perdeu a paciência _Pelo menos você não tem que se preocupar com a roupa. É só vestir um smoking, e pronto!_explodiu, deixando sua maior frustração tomar conta.

Kevin ficou chocado com a amargura na voz dela:
—Pensei que escolher o vestido fosse a parte preferida da noiva.

—Sim, quando a noiva pode escolher sozinha. Mas é só eu gostar de um modelo que ele me envelhece ou me deixa gorda! Pior, nenhum deles combina com o véu de renda que foi da minha bisavó materna.
—Da sua bisavó? Deve estar todo mofado e comido de traças! _Não chega a tanto, mas está bem amarelado. Vovó Grace insiste que bastam uma boa lavagem e uns "consertinhos"_ fez sinal de aspas com os dedos _ e mamãe pediu para eu ficar quieta.Todas as mulheres da família dela se casaram com aquele véu, depois da minha bisavó, por isso devo me sentir honrada _ seu tom forçadamente jovial não conseguia esconder o sarcasmo.
Kevin olhou-a com pena. Sua mãe lhe explicara várias vezes que roupas eram tão importantes para as mulheres quanto seu carro era para ele. Num evento como o próprio matrimônio, então, um simples vestido podia ser a diferença entre um momento de estrela ou uma tortura humilhante. Envolveu-a com o braço:
—E você vai usar esse trapo pra não magoar as duas _apesar da voz terna, Gwen sentiu que ele estava indignado e forçou um sorriso:

—A gente também tem de ceder um pouco, Kevin. Já foi difícil fazer mamãe aceitar que nossos amigos alienígenas participem da recepção com nossas famílias, em vez de terem uma festa separada.
Kevin percebeu que ela estava pensando em outras coisas mais sérias do que festas separadas, mas não queria tocar no assunto para não aborrecê-lo ainda mais. Resolveu tirá-los daquele clima:
—Até que sua mãe mudou muito, se não se importa em misturar a família dela com o resto dos Tennysons. Mas se alguém me perguntar DE NOVO se eu não vou mesmo me casar vestido de encanador...

—Vai fazer o quê? _Gwen ergueu uma sobrancelha.

—Digo que vou casar de sunga! A frase fez o efeito que Kevin esperava. Completamente pega de surpresa, Gwen caiu na gargalhada, seguida imediatamente pelo noivo.

—Se você fizer isso, eu te acompanho. Um biquíni seria bem mais bonito do que aqueles modelos que a tia Vera quer que eu...
A frase foi interrompida por um dedo nos lábios dela, o rosto de Kevin bem próximo do seu:
—Ch, ch, ch... Esquece as suas tias por uns segundos, tá?
—Que tal por uma hora?_Gwen emoldurou o rosto dele com as mãos, enfiando os dedos nas melenas negras. Fazia tempo que não tinham um momento assim, a sós...
—Que pouca vergonha _ zombou uma vozinha esganiçada _Não está um pouco cedo pra noite de núpcias?

Os anos passavam, mas certas coisas permaneciam iguais. De propósito, o casal se beijou demoradamente na frente do maior herói da Terra. Só depois lhe deram atenção:

—Primeiro que ainda não é noite, Charlie Harper, segundo que você não é ninguém pra falar depois dos seus amassos na Kate dentro do armário embutido.
—É Kimberly.
—Menos, Kevin _ Gwen empurrou o noivinho com um ar de reprovação, depois virou-se para Ben _Mamãe mandou a gente descer?
Ben/Macaco-Aranha agachou-se na frente deles e voltou ao normal. Ele era agora mais alto do que Kevin e quase tão musculoso, graças aos anos de combate ao crime galático.
—Ela se desculpou porque sabe que você precisa descansar, mas não pode mais dar conta sozinha. Aquele seu priminho de quinto grau que ia levar os anéis está com catapora, a prima Rachel e a Emily estão arrancando os cabelos uma da outra e as suas candidatas a daminha estão aproveitando pra destruir a sala. Ah, sim, e sua tia-avó Joyce quer que a Julie troque o vestido que vai usar porque não combina com o chapéu dela.
—Como é que é? Rachel e Emily estão brigando porque o Sid pegou catapora? _ Gwen franziu a testa.
—A Joyce quer dar um chapéu novo pra Julie? _ Kevin acrescentou.
—Nããão... _ Ben abanou as mãos _A Rachel acha que música clássica é muito "pãozinho de ontem" e quer que a banda do namorado dela toque na cerimônia.
—Nem com banda de música! _Gwen correu para a borda do telhado e saltou. Alguém que não a conhecesse teria levado um susto, mas os dois homens nem piscaram enquanto ela flutuava como uma pena até o jardim.
—E a tia Joyce disse que o chapéu DELA não combina com ..._ Ben começou a gritar, mas Kevin segurou-o pelo ombro:
—Esquece, ela já foi. Vamos vazar antes que tirem a gente daqui de cima. Dá pra virar o Friagem?

—O que aconteceu com o seu dispositivo de teleporte?
—Ficou em casa. Você sabe que o Max me proibiu de usá-lo para fins particulares.

—Como se isso te impedisse_ suspirando, Ben estapeou o mostrador do Omnitrix _Friagem!
Infelizmente, a fuga teve de demorar mais um pouco, porque alguns garotos da família estavam examinando o carro do famoso Ben 10. Graças ao sistema de segurança desenvolvido por Kevin, não podiam entrar no veículo, mas isso não impediu um dos moleques de posar sentado no capô para os amigos fotografarem com os celulares:
—Olha só, eu sou o tio Ben! Tira mais uma pra eu retocar no "fotochópi".
—Você já ficou bastante tempo,Terry! Agora é a minha vez!
—Quem disse? _ os dois garotos se engalfinharam em cima do capô. Ben já estava prestes a mandar a camuflagem para o Inferno e tirá-los dali quando uma voz cavernosa gritou de dentro da casa:
—O que vocês estão fazendo aí?

XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX

Minutos depois, Kevin ainda ria:
—Nunca vi um bando de moleques correr tão rápido! Aposto que nem Vilgax conseguiu meter tanto medo em alguém!
—Até eu levei um susto_ Ben admitiu sorrindo _Eu sabia que o modulador mudava a voz, mas não que fazia bancar o ventríloquo!
—Faz agora. Cortesia da Levin SA _o moreno mostrou uma fileira de dentes perfeitos.Os dois riram juntos.
—Senhor Sorvete? _ Ben propôs.
Kevin lançou ao amigo um olhar incrédulo.
—Só estava brincando. Acho que você precisa de alguma coisa mais forte.
—Não vou dizer que não, já que é você que está dirigindo.
Ben fez uma careta:
—Eu quis dizer um café! Gwen me mataria se eu levasse você pra encher a cara. Ela já deve estar subindo pelas paredes porque a deixamos pra aguentar o tranco todo sozinha.
—Com certeza. Mas a raiva dela é porque não pode fugir com a gente _ Kevin terminou num tom amargo, o bom humor de segundos atrás dissipando-se como a fumaça de um cigarro.
Ele cruzou os braços por trás da cabeça e ficou em silêncio. Ben espiou-o com o canto dos olhos. Mesmo antes de ouvir o fim da conversa de seus melhores amigos, já havia notado que eles não estavam felizes. Pudera: aquele show de flores, bandeirolas e multidões marcado para o próximo mês não tinha nada a ver com Gwen e Kevin. Ben ouvira certa vez a prima murmurar que deveriam cobrar entrada.
Quando anunciaram o noivado, Gwen idealizara uma cerimônia íntima bem simples, apenas com os parentes e amigos mais chegados. Ben e Kevin haviam sugerido que o casamento ocorresse em segredo, apenas com Max, Julie e o próprio Ben como testemunhas e só depois contassem ao resto da família, porém a jovem recusara indignada. "Até parece que somos Romeu e Julieta! Pelo amor de Deus, já se passaram cinco anos! Não somos mais adolescentes. Meus pais agora gostam do Kevin."
Mas os pais de Gwen não reagiram com a alegria esperada. Não é que (ainda) desaprovassem a escolha da filha, explicaram, porém os dois ainda eram muito jovens. Kevin ainda estava na faculdade (com muito esforço ele havia compensado os anos sem escola e até conseguira uma vaga em engenharia, ajudado por Gwen e Max), enquanto Gwen já havia concluído o curso. Não poderiam esperar pelo menos até ele se formar também? Com muito custo, acabaram cedendo, porém Natalie insistira que fizessem uma cerimônia tradicional, com a família inteira presente.
"Eles podem dizer que gostam de mim, "Kevin confidenciara mais tarde ao melhor amigo "mas bem lá no fundo os dois ainda tinham esperança de que a Gwen se cansasse de me esperar e me trocasse por algum doutorzinho de Harvard, de família tradicional e com um pé na Casa Branca." Ben lembrou-se de quando seus próprios pais deixaram as reservas de lado e passaram a ser mais afetuosos com Kevin, e como este ficara feliz. Era importante para o jovem osmosiano ser aceito pelo resto dos Tennyson, e obviamente ficara magoado com a aparente rejeição de seus futuros sogros. Talvez, pensou o herói, Kevin não estivesse suportando todas aquelas torturas apenas por amor a Gwen.
Pensou no véu amarelado, nos moleques mexendo no seu carro, em toda aquela gente fuçando e dando palpite em tudo, a maioria deles completos estranhos. Sua tia Natalie vivia dizendo que a família deveria estar acima de tudo, até mesmo de salvar o universo; mas será que alguma das pessoas da família dela se importava realmente com os noivos? Será que alguém havia chegado a parar para pensar no que seus amigos realmente queriam?
—Alô? Terra chamando Tennyson? _Kevin quebrou o silêncio de repente _A gente vai ou não tomar um café? Já passamos por vários.
—É, acho que sem querer eu peguei o caminho do Senhor Sorvete. Força do hábito_ Ben forçou um sorrisinho.
—Este não é o caminho para o Senhor Sorvete _Kevin deu a franzida de sobrancelha que o tornara famoso nos interrogatórios. "Tome cuidado, não deixe o Levin desconfiado", brincavam os encanadores.
—Casa do Hambúrguer, eu quis dizer. Lembrei que construíram uma nova. Acho que a gente está precisando de alguma coisa mais substanciosa do que um café.
Kevin admitiu que estava mesmo com fome. Qualquer suspeita que tivesse foi abandonada com um encolher de ombros, e Ben respirou aliviado. No espelho retrovisor, os olhos verdes tomaram a expressão decidida que sempre tinham ao iniciar uma batalha.

"Está na hora do herói."