Notas iniciais
Olás, uma boa segunda feira para todos. Espero que gostem. Boa leitura,

Emma e Joanne estavam no grande salão de festas da mansão Beauchamp, apreciavam os últimos retoques para a festa de noivado no sábado seguinte. A decoração luxuosa mais parecia um casamento, pelas incontáveis flores, carpete vermelho e uma pista de dança personalizada. Os empregados andavam de um lado para o outro sem parar, e as Charlton tomavam nota do que estava certo ou errado.

— Foi uma má altura para teres perdido a assistente pessoal, aquela negrinha era bem eficiente — comentou a mais velha, atenta nos vasos de porcelana que eram colocados estrategicamente nas mesas. — Cuidado para não partir!

— A Darcelle se prontificou a terminar os afazeres até amanhã. Não ia-me deixar na mão — respondeu Emma, um quanto impaciente. Tinha passado duas noites seguidas na mansão, e sem ver William. Seu coração apertava.

— E por que ela faria isso? — Joanne uniu o sobrolho muito bem feito, os olhos castanhos pareciam cansados.

— Porque eu sou boa pessoa, irmãzinha. Se tivesse o teu feitio, nem imagino! — Provocou enquanto observava a montagem da mesa principal dos noivos, e as câmaras de filmar montadas por um grupo da maior estação televisiva do país. — Eu disse que ela poderia vir com uma companhia.

Joanne revirou os olhos negando com a cabeça severamente, ainda assim não protestou, eram apenas duas pessoas, em cem convidados. Era suposto ser um número maior mas Damien teria proibido estritamente.

— Veja se não metes os pés pelas mãos, Emma. Eu fiz um sacrifício por você certa vez, e isso me pesa até hoje. — Cobrou diretamente, e viu quando a belíssima irmã mais nova parou de andar para a encarar.

— Estamos juntas nisso, eu já disse, Jo! Eu sei muito bem o que fez por mim, serei grata para sempre. Eu e o Will.

— É bom, mesmo! — rosnou Joanne e caminhou a passos largos até tirar uma caixa de brindes da mão de um carregador que a levava sem cuidado. Só depois de gritar com o homem é que voltou para perto da irmã. — E a menstruação, já veio?

Emma esbugalhou os olhos azuis e sua face ficou igual um tomate.

— Que absurdo, tens controlado meu ciclo? Você não é minha mãe, Joanne.

— Você já me falou que Damien Beauchamp usa proteção, agora quanto ao William eu duvido muito. Não deites tudo a perder, Emma.

— Para por favor! Não nenhuma criança — resmungou e saiu a caminhar para longe da outra, sentia o coração a bater dentro do próprio peito.

***

Os primeiros dois dias na Beauchamp tinham sido um pouco complicados para Darcelle. Todo mundo parecia ter seu próprio ritmo e já saber o que fazer, então a deixavam meio de lado, lhe pedindo para tirar cópias e ir buscar cafés e rosquinhas de vez em quando. Christian Dash tinha sido simpático e lhe instruíra o quanto podia, mas a sua carga de trabalho era superior a qualquer uma, sendo o administrador da empresa e responsável pelos recursos humanos.

Também não conseguira falar com Jamie, esta vivia escondida entre o hospital e o próprio quarto, continuando a subir o transporte público e deixando o belíssimo carro lá em baixo parado. Só não o roubavam pelo sistema avançado do alarme bem visível a qualquer um. Dash realmente era um homem prevenido.

Darcelle assinara o contrato de trabalho com regalias inimagináveis, quem poderia dizer que o Monstro du Camp dava condições tão favoráveis a seus empregadores, era de se esperar a quantidade de sorrisos dos trabalhadores daquela empresa. Jamie de certeza saberia se impor naquele sítio, com toda a inteligência e eficiência, de certeza já estaria a debater algum assunto com um dos colegas.

— Ei, você. — A mulher da receção surgiu na porta da sala destinada à Darcelle. — Me falaram que é a senhora das cópias.

Johnson uniu o sobrolho, ainda não tinham-lhe designado nenhuma função concreta, pelo que se limitara a organizar sua sala, conhecer os departamentos e responsáveis e requisitar material necessário, entre outras coisas básicas.

— O que me espanta é teres subido até aqui para pedir cópias — redarguiu de forma pouco simpática, e encarou a rececionista com a igual cara de poucos amigos. — É o seguinte, eu ajudo o pessoal quando estou lá em baixo ou nos seus departamentos. Nunca ninguém subiu até aqui para pedir cópias e muito menos essa função me foi atribuída.

— Ficar sentada para receber um salário gordo no fim do mês não faz sentido. Eu tenho impressos de visitantes para tirar cópias e mandar para o departamento de segurança, mas também tenho que receber as pessoas na entrada. Não é justo sofrer enquanto tem você aqui apenas sentada.

— Então pode tirar as cópias que eu fico na receção até você acabar. — Johnson tinha pensado numa resposta menos simpática, mas não lhe parecia correto comprar briga tão cedo com os novos colegas. Queria parecer o mais neutra possível.

— Ora, que engraçado. Você tem mais cara de se dar bem com as cópias e...

— Acha que eu ia dar uma sala inteira para alguém cuja função é tirar cópias, senhora Rupert?

As duas mulheres se assustaram com a súbita voz, e encontraram Damien Beauchamp parado no corredor, com um terno de três peças e um ar de poucos amigos. O cabelo loiro parecia estar molhado e bem penteado para trás, e os olhos azuis eram como o fundo de uma praia paradisíaca. Não usava máscara.

— Senhor Beauchamp! — A rececionista estremeceu dos pés a cabeça, tentando segurar o espanto por ver as cicatrizes daquele rosto tão expostas. Baixou os olhos.

— A senhora Johnson é minha Assessora e responsável por toda a parte do trabalho que me compete. É você, quem deve tirar cópias para ela. — Deu meia volta e adentrou na porta mesmo em frente da sala de Darcelle.

O coração da negra falhou uma batida e não esperou Rupert sair da sua frente para seguir o patrão sala a dentro. Bateu a porta e ouviu um surdo "entre". O encontrou sentado na grande e confortável cadeira com o olhar um pouco perdido, as cortinas do escritório ainda estavam corridas mas dava para identificar a grande mesa, um mini balcão com copos e bebidas diferentes. Um enorme quadro que revelava o mundo marinho, dois computadores portáteis de ultima geração, Um grande ecrã curvo pendurado no alto, uma estante com algumas edições raras de livros. O chão era acarpetado e mesmo estando tudo limpo, dava para ver que não era ocupado já há algum tempo.

— Assessora? Eu não tenho formação para isso — declarou Darcelle sem se dar ao trabalho de esconder tal facto.

— Mas és esperta, irás aprender tudo o que tivermos para ensinar. A Beauchamp sempre investe na formação de seus trabalhadores. — Levantou o rosto e coçou as têmporas. Fazia dois dias que não se viam, e Johnson sentia uma alegria para lá do normal agora. — Sempre pregas o dom da tua palavra comigo, agora é a tua vez de arriscar. E eu vou exigir isso de ti.

Ela engoliu em seco, ainda estava de pé com as mãos juntas no colo e um bombardeamento interno pior que Hiroxima. Sentiu as mãos começarem a transpirar.

— Farei o possível para estar a altura. — Afirmou a acenar com a cabeça em concordância. Damien pela primeira vez sorriu para Darcelle, um sorriso sincero e bonito. Se fosse branca, ela teria corado. — Como... foi?

— Três caras assustadas no elevador, uma onda de espanto na administração, sorrisos desconfortáveis e olhares para o chão. — Damien deu de ombros num falso gesto de pouca importância. — Não deve ser fácil olhar para mim.

— É um processo — admitiu com precisão e caminhou até as janelas para abrir as cortinas automáticas, estas deslizaram de par-em-par com lentidão.

— Meu passatempo favorito era a fotografia. — A súbita confissão chamou a atenção da nova assessora de Beauchamp. — Eu adorava a beleza, as coisas bonitas. O meu rosto era... — Não conseguiu completar. — Ganhei concursos de fotografias, viajei para os lugares mais belos, com modelos maravilhosas. — Engoliu em seco. — Agora nem consigo me olhar no espelho.

Darcelle voltou até Damien e se permitiu sentar diante dele. Pousou os braços em cima da secretária e prendeu a respiração antes de a soltar.

— Eu seria mentirosa se dissesse que suas cicatrizes não são horríveis, senhor Beauchamp. Elas realmente são. Mas você... Você é belo quando é frágil, belo quando sorri para mim, belo quando tira a capa dura e deixa o coração falar. Passei dois dias aqui e só vi trabalhadores felizes. — Um momento de compaixão se apoderou do momento, e o Monstro du Camp pareceu segurar um sorriso que insistia em escapar.

— Onde estavas todo este tempo, Johnson?

— Provavelmente amadurecendo o suficiente para poder lhe dizer isso hoje. E sabe de uma coisa? Tem toda razão, eu vou ser uma boa Assessora. — Levantou-se da cadeira cheia de força para iniciar com suas funções. — Vamos a isso, senhor Beauchamp!

— Damien. Eu quero que me chame Damien. Tudo bem, Darcelle?

Era a primeira vez que pronunciava o seu nome e a voz rouca parecia ter sido feita apenas aquilo. Ela cobriu a boca com a mão num gesto lento e impaciente.

— Tudo bem, Damien. Tudo bem.

***

Jamie acabava de participar de uma pequena cirurgia de remoção de uma apendicite quando, Lorenzo apareceu no Hospital Central. Parecia cansado pelas altas horas da noite, e um pouco bêbado também. Ela ia dar meia volta quando o jornalista correu para lhe segurar pelo braço. Parecia nervoso.

— Por favor, só quero conversar. — Pediu, ainda a segurar o braço da namorada. Para ela, nunca aquelas mãos que tanto gostava lhe pareceram tão frias.

— Está certo. Vou só me trocar — concordou e saiu para a área privada.

Alguns minutos depois foram a um café logo em frente ao hospital, havia muitos colegas da Johnson e procuraram encontrar um canto mais discreto.

— Podes não querer me ver nunca mais, eu aceito. Tenho sido injusto com você, Jamie. Mas meu sentimento é verdadeiro. Eu juro. — Procurou as mãos da namorada para as segurar.

— Quem gosta não sente vergonha. E nem digas que não tens, eu sei que sim. Não conheço teus amigos, tua família pensa que és solteiro, bem agora és. Isso de namoro a dois pode ser correto até certo ponto, mas passam dois anos Chris.

— Chris?

O rosto dela se contorceu num espanto, e o coração falhou uma batida no processo. Bebeu um gole da cerveja e tirou a mão da dele.

— Lorenzo, eu não vou voltar se for para ser nas mesmas condições. Não vou mesmo!

— Pera, você me chamou Chris? Na verdade ainda não me disse o que fazias na Beauchamp naquela tarde.

— O Christian me deu boleia na noite em que me deixaste na chuva no meio do restaurante. Para mim foi o cúmulo. — Jamie tentou contornar a situação. — Só fui lá agradecer.

— Ah, se está falando do Christian Dash eu acredito. Era impossível ter-me traído com ele.

— Mas eu traí.

A revelação chocou Lorenzo por alguns instantes antes de se recompor e rir da piada.

— Com o Dash? Não.

— Por quê?

— Sem querer ofender, já viu o tipo de mulheres que andam com o Christian? Você não o conhece direito, só está inventado. Modelos perfeitas, atrizes, socialites. — O jornalista riu com gosto e bebeu a sua cerveja. — Boa tentativa para me fazer ciúmes.

A médica sentiu sua garganta a arder e segurou os nervos que cresciam por dentro.

— Se eu sou tão sem graça assim, o que estás aqui a fazer? — Arqueou o sobrolho.

— És linda, inteligente... com um pouco menos de gordurinha aqui e ali, serias perfeita. Eu quero ficar do seu lado, Jamie. Sempre tive um sentimento muito grande mas não sou capaz de assumir algo, pelo menos não agora. — Os caracóis caiam para a testa de Lorenzo, os olhos beiravam a sinceridade. — Estava tudo bem como era antes.

— Eu... sou perfeita. E se isso é o que tens para me oferecer, dispenso.

Johnson se levantou do café e saiu sem olhar para trás, decidida a nunca mais querer ouvir falar de Lorenzo Wright.

Quando chegou a casa viu o carro parado ali em baixo, nunca tinha tocado nele. Procurou as chaves dentro da bolsa e sorriu ao se aconchegar no veículo importado. Era como se um poder começasse a crescer dentro de si.

O primeiro lugar para onde dirigiu foi até ao apartamento de Christian Dash. Tocou a campainha ainda envergonhada, sem saber o que estava a fazer.

— Oi? — Uma jovem pelo menos sete centímetros mais alta, com longos cabelos escuros e sedosos, abriu a porta. Usava um vestido curto de marca que lhe marcava o corpo magro e esbelto. — Quer falar com o Chris?

— Não, eu... eu acho que me enganei.

— Chris! Está aqui uma pessoa deve ser do condomínio... — A jovem virou para o chamar lá dentro, sua voz era estridente. — Não demora senão atrasamos para o jantar. Vai lá atender.

Jamie correu para o elevador, a vergonha cobria todo o corpo e pisou no botão de elevador com tanta força como se ele fosse subir mais rápido.

— Jamie? — Christian a chamou assim que saiu do apartamento.

Os dois se olharam.

Notas finais
Fantasmas apareçam! Vivos, muito obrigada por todos comentários. Opinião, sugestão, crítica? Na caixa abaixo por favor. Façam uma pequena autora feliz.