Para A Eternidade
2 Choque
Notas iniciais
Lisa
Acordei cedo naquela manhã para terminar de arrumar minha mala. Segunda-feira, ultima semana de aula e eu acordando 5:30, muito “legal”. Depois de tentar, sem sucesso, convencer a Cristina a ir ao Rio comigo, fui tomar café da manhã. O campos é simplesmente enorme: andar do dormitório feminino até a cantina é simplesmente exaustivo. Chegando lá decidi mandar uma mensagem para Cristina me encontrar quando saísse do banho, peguei uma bandeja e servi meu café da manhã.
Já estava me sentando quando veja uma cena totalmente desagradável: Carine se aproximando. Sim, ela viria direto na minha direção. Eu não suporto essa menina, na verdade, a única pessoa que gosta dela menos do que eu é a Cristina. Carine sempre teve uma espécie de competição com Cristina, e, como minha melhor amiga é a pessoa mais orgulhosa que eu conheço, nunca quer ser deixada para trás. Carine vinha com um vestido curto, tão colado que me surpreendia que ela conseguisse respirar, com um grande decote nas costas e nos seios. Como deixaram ela andar no campos desse jeito mesmo? Ela chegou perto de minha mesa e sentou-se a minha frente com um sorriso sínico. Queria lhe dar um soco.
– Oi, Lis – ela disse.
– O que você quer? – eu disse seria.
– Nossa, que grosseria – ela respondeu fingindo estar ofendida.
Revirei os olhos.
– Onde está a Cris? – ele perguntou olhando para os lados,fingindo que a estava procurando.
– Ela está tomando banho. – respondi.
– E então, nas férias, para onde vão?
– Diz logo o que você quer e deixa eu tomar café da manhã em paz – eu disse já perdendo a paciência.
– Alguém acordou com o pé esquerdo hoje – ela disse dando um sorrisinho. – Bom, so queria ter uma conversinha com a Cris, sabe, não deve ser fácil terminar com o namoradinho assim, por causa da distancia.
Haha, ai esta! Ela queria jogar na cara Cristina que o namoro dela com o Lucio acabou. Bom, tecnicamente acabou. Ele viajou ao Canada para fazer intercambio, no começo eles conseguiram manter uma boa relação, mas só durou por três meses. Depois disso eles foram perdendo contato e, a ultima noticia que ela teve foi que ele estava ficando com uma menina que conheceu lá. Acho que isso deixa claro que a relação acabou. Ele já estava fora a quase um ano e voltaria depois do recesso. Não sabia como a historia deles terminaria, mas Cristina realmente gostava dele e foi difícil para ela superar o fim do namoro, acho que ate agora não conseguiu superar. Claro que Carine não iria perder a oportunidade de irritar Cristina.
– Olha, a Cristina esta muito bem em relação a isso. – disse eu e em seguida acrescentei – mas se eu fosse você não brincava com esse assunto perto dela, so uma dica.
Ela não respondeu, apenas se levantou e foi em bora. Espero sinceramente que Carine não fique de “graça” com a Cris. A única coisa que a irritaria mais do que dizer que seu namoro fracassou, seria dar em cima do Harry, de novo! Bom, mas isso é outra historia, para outra ocasião...
Cristina
Fiquei olhando perplexa para a diretora e depois para os oficiais, por alguns instantes fiquei alternando meu olhar entre os três. Uma pista do assassinato da minha mãe? Já estava cansada. CANSADA! Sempre era a mesma historia! Sempre tem pistas, sempre acham que sabem quem é. Pra começar: quem disse que foi um assassinato? Ela morreu em um acidente de carro. Foi uma fatalidade, foi um desastre, foi uma obra má do destino, ninguém a matou. O estupido do Henrique que pensa isso. Ele não aceita, não aceita que ela morreu e que ele foi o culpado. Se ele não a tivesse feito sair mais cedo do trabalho... Espantei esses pensamentos. Não adianta culpar alguém. Ela já se foi.
– Pistas? — perguntei, querendo que ela continuasse falando.
– Sim, pistas. – ela disse.
Ficamos em silencio. E então? Ela queria que eu dissesse o que? Ela que sabia de algo, não eu.
– Bom... Cristina, não é mesmo? – disse Marcelo se aproximando. Apenas balancei a cabeça positivamente. – sei que deve ser difícil ter perdido sua mãe, sei que...
– Ta – eu disse o interrompendo – já sei: sei que você deve estar triste, sei que é complicado e blá blá blá. Podem pular essa parte. Apenas me digam o que vocês sabem sobre o “assassinato” da minha mãe. – eu disse fazendo aspas com as mãos quando disse assassinato. Depois cruzei os braços.
– Bom, mocinha, vejo que não acredita que sua mae foi assassinada. – ele disse sainda de tras da mesa.
– So quero saber qual é a história da vez. – dei de ombros.
– Não estou autorizado a contar a você o que sabemos – ele disse arrogante.
– Então o que diabos eu estou fazendo aqui?
– Voce é uma menina bastante ignorante, sabia disso?
– Eu só quero saber o que eu estou fazendo aqui. Já que você não pode me contar as supostas pistas que tem.
– Suportas? Esta dizendo que não acredita na policia?
– Olha – eu disse descruzando os braços. – eu escuto isso desde que eu tinha treze anos. Todo ano vocês supostamente tem pistas, todo ano vocês supostamente sabem o que aconteceu. Tenho dezessete anos e, se vocês sabem contar, o que eu imagino que saibam, já ouço essas historias a no mínimo quatro anos. Já estou cansada! – sem perceber estava aumentando meu tom de voz. – Ano passado vocês cismaram que minha tia era a assassina, por que? Porque encontraram um pedaço de unha no carro e disseram que o DNA era compatível. Depois de quase um ano de processos e de manter minha tia atrás de uma grade por três meses, vocês dizem que houve um erro e que a unha não era dela! Agora eu me pergunto: como oficiais “tão bem treinados” conseguem manter um erro tão grande por tanto tempo? Já se passaram quatro anos, quando esse caso vai terminar? Aceitem que ela não foi assassinada! Não há nada a ser feito!
Eu estava inclinada na cadeira. Me endireitei e os encarei, de novo com os braços cruzados.
– Veja bem – disse Marcelo — eu estou tentando lhe salvar, mocinha. Não estou autorizado a dizer o que sabemos, mas tudo indica que isso é uma cadeia de assassinatos...
– Só faltava essa – murmurei.
– ... e que você é a próxima.
– Como é? – perguntei surpresa.
– Veja, muitas coisas indicam que tudo isso é uma cadeia. Voce deve ser a próxima. Então queremos deixa-la em segurança, por isso você ficará com sua avó até segunda ordem.
Tudo bem, a seguinte reação não foi lá tão madura: eu dei a maior gargalhada que já havia dado em toda a minha vida. Quase caio da cadeira. Tudo bem, não foi tudo isso, mas houve eco na sala.
Todos ficaram me olhando e acho que o coordenador também quis rir. Me recompus.
– Era piada, né? – disse inocente.
– Senhorita Guileira – disse Marcelo. Acho que ele queria me dar um soco – você pode achar que as investigações policiais são brincadeiras, porem não são. Voce esta correndo um grave perigo, deve se afastar da escola, deve...
– UOU UOU UOU! – eu disse me levantando – afastar da escola? Quanto tempo vocês querem que eu fique fora?
– O tempo é indeterminado, podem durar apenas dias, assim como podem durar meses. Tudo depende do rumo do caso, mas creio...
– Mas nada! – a pouca paciência que me restava estava indo embora. – estão dizendo a mesma coisa que disseram para minha tia. Me recuso a ir morar com a minha avó! E o problema não é ela morar com cinco crianças, em uma fazenda. O maior problema é ela estar no meio da estrada! Não vou! Alem do mais, preciso estudar. Essa historia é ridícula.
– Cristina – disse o oficial, Luis, se aproximando calmamente. Ele estava tão calado aquele tempo inteiro que até havia me esquecido que estava ali – sabemos que deve ser difícil e... bom, você já sabe. – ele colocou a mão no meu ombro — Só precisamos de sua segurança, é muito difícil você ficar aqui. Ficar com sua avó seria melhor por ser um lugar afastado e fácil de monitorar você lá. Mas já que não se sente a vontade o que acha de escolher outro lugar? Um lugar para ficar esperando isso passar.
– E a escola? – perguntei.
Tudo bem, parece idiotice se preocupar com a escola, qualquer adolescente de 17 anos como eu ficaria feliz ao perder tantos dias de aula. O problema era que aquele internato era o único lugar que eu me sentia bem, era chato, mas era lá que eu me sentia a vontade. Longe do Henrique e afastada das lembranças. Alem do mais já estava terminando a escola e precisava escolher uma faculdade.
– Isso vamos resolver depois – respondeu Luis – você tem notas boas e já estava praticamente passada, vamos dar um jeito.
Luis me passou um pouco mais de segurança. Gostei mais dele do que de Marcelo.
– Tudo bem. Vou pensar, mas não pretendo sair daqui. – falei.
– Cristina, pense bem – a diretora disse – temos que manter sua segurança. O que acha de passar o resto da manha pensando? Pode faltar a aula.
– Esta bem – queria acabar com aquela conversa – vou ficar no meu quarto.
O campos é simplesmente enorme, odiava ficar andando de um lado para o outro, mas tive tempo de pensar. De jeito nenhum iria para a cada da minha avó, nós mal convivíamos juntas, ela nem me conhecia direito. E ela era mãe do Henrique, nem sei se posso chama-la de avó. Precisava encontrar outro lugar para ficar, ou convence-los de que a escola era um lugar seguro.
Cheguei em meu quarto e entrei. Minha cama ficava ao lado da porta, por isso, sem nem olhar, joguei o celular nela. Ouço um gemido (por favor, não pensem leseira, obrigada).
– Ai! – alguém disse.
Me assustei e olhei rápido para a cama. Vi um menino sentado, alto, de cabelos encaracolados e olhos claros, esfregando a testa no local onde parecia estar vermelho.
– Antes de jogar as coisas é bom ver no que está jogando. – ele disse enquanto se levantava.
– E antes de invadir o quarto de alguém pense nas consequências – respondi sentando na cama de Lisa.
– Nossa, você costumava ser mais educada na hora de cumprimentar alguém – ele respondeu se aproximando.
Sorri e me levantei, lhe dando um forte abraço.
– Harry, não...consigo...respirar – falei enquanto ele me apertava.
Ele riu e me soltou.
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