Paraíso Proibido
4 Eu Não Tenho Classe
Notas iniciais
Uma coisa era fato. Não importa o quão popular você for na escola, quantos amigos você tem, o quanto as pessoas te conhecem. No momento em que você pisa na faculdade, tudo isso se esvai. E se você for como eu, que passou toda a vida na mesma escola, a essa altura do campeonato, já deve ter se esquecido de como fazer amigos.
Pois é, a faculdade não era um lugar legal.
Apesar de não ser mais caloura e estar enfrentando o meu terceiro período, eu ainda me sentia diferente de todas as pessoas daqui. Na verdade, eu sempre me senti diferente das pessoas com quem ficava, mesmo na época do colégio... Eu realmente não sei o porquê...
Alguns meses depois da formatura comecei a perder contato com meus antigos amigos. Agora, quase dois anos depois, não conversava com nenhum deles, apesar de alguns ainda estarem na mesma faculdade, em prédios diferentes do meu. No máximo, trocávamos sorrisos e comprimentos quando nos víamos...
Como minha faculdade era bem próxima de casa, minha mãe não viu necessidade de eu ficar em um dos dormitórios, então também não tinha nenhuma companheira de quarto com quem conversar... Basicamente, minha vida de estudante se resumia a me matar de estudar, conversar com minha irmã e tentar não me arrepender das minhas escolhas.
Foi no meu primeiro dia de aula que eu pensei: definitivamente, medicina não é pra mim.
E o pior de tudo é que eu sempre penso nessa frase a cada aula que passa.
Eu odiava aquilo.
Já sabia disso. Mesmo enquanto ainda prestava minhas provas de vestibular, sempre tinha uma vozinha insistente na minha cabeça dizendo que eu ia me arrepender... Quem diria que ela estava certa. Eu não gostava desse curso. Não gostava das aulas. Não gostava dos alunos. Não gostava dos professores.
Não tinha nada do que eu gostava na verdade.
Por que eu fiz isso? Por que eu fiz vestibular? Por que eu entrei nessa faculdade? Por que eu me obrigo a levantar todos os dias e ir estudar algo de que não gosto com pessoas de quem não gosto?
Sinceramente, não sei se eu ia conseguir prestar essa profissão pro resto da minha vida.
Céus... Por que eu insisto em continuar tentando? Eu sei que isso não vai dar certo... E por que, caralhos, eu insisto em continuar indo nessas festas de república?!
Eu odeio esses lugares! Só tinha gente estranha, dançando músicas que pareciam ter a mesma batida, falando sempre dos mesmos assuntos... Bebi um gole do que quer que estivesse no meu copo e torci os lábios... Céus, até mesmo as mesmas bebidas sem graça.
Revirei os olhos e me apoiei mais confortavelmente na parede em que estava. Deveria ter ouvido minha irmã, a noite teria sido mais divertida se eu ficasse em casa vendo filme com ela... Infelizmente, no momento, estava em uma festa na casa de alguém que eu não conhecia, mas que todos do meu período de medicina (e mais alguns completos estranhos) estavam.
Encarava os corpos dançando e se enroscando na pista de dança e pensava em ir embora quando um grupo de pessoas se aproximou de mim. Logo que chegaram, senti o aroma adocicado emanando delas. Maconha. Torci a boca de novo. Será que não tinha um aluno que não se entupisse dessa erva todo dia?!
Uma das pessoas do grupo se chamava Melany, o mais próximo de uma amiga que eu tinha naquela merda... Apesar de que, ela não era alguém com quem eu gostasse de conversar ou alguém com quem eu tenho os mesmos gostos... De qualquer forma, ela era próxima.
O grupo fez uma rodinha a minha volta e Melany foi a primeira a dizer:
— Fala gata! Aproveitando?
Ela claramente estava bêbada e eu não digo isso pelo apelido (ela só me chamava assim) e sim pelas suas pupilas dilatadas. Dei um fraco sorriso e disse:
— Ora, eu ainda estou aqui, não estou?
— Então por que não estamos te vendo na pista de dança?
Um dos caras quem estava com ela disse, passando o braço pelos meus ombros. Discretamente, dei um passo para o lado afastando-o de mim sem que ele notasse e disse:
— Eu não sou muito de dançar.
— Como assim? Soubemos que você foi líder de torcida na época de colégio.
Disse uma menina com um grande cabelo loiro mais claro que o meu. Eu sorri gentilmente e a respondi:
— Digamos que eu não estou no clima.
O mesmo cara que havia passado a mão pelos meus ombros disse:
— Ah acho que temos algo que vai te deixar no clima rapidinho.
Antes de eu perceber, estava sendo puxada e empurrada para fora da casa. Estava curiosa para onde íamos, porém quando paramos na calçada e eu vi a quantidade de pessoas puxando isqueiros e pequenos tubos brancos dos bolsos, eu percebi. Revirei os olhos. Mais maconha. Será que essas pessoas não pensam em mais nada?
Melany já foi esticando um cigarro de maconha para minha boca, sem nem mesmo me perguntar. Felizmente, tive reflexos rápidos e me afastei antes que aquilo tocasse meus lábios. Eu disse, ainda sorrindo:
— Não, obrigada.
— Ah que isso? Vai me dizer que nunca provou?
— Na verdade, não.
— Então já está mais que na hora de provar.
Disse aquele mesmo garoto, passando o braço pelos meus ombros de novo. Bufei. Será que essas pessoas não sabiam o significado de espaço pessoal?! Mais uma vez, dei um passo para o lado e me afastei dele que, como pude perceber, me comia com os olhos. Respondi:
— Mais uma vez, não, obrigada.
— Ah gata, calma. Não tem nada de mais. É melhor que cigarro.
— Tudo bem, mas eu realmente não quero.
Quanto mais eu me afastava e recusava, mais aquele grupo me cercava e esticava os cigarros que tinham em mãos, tentando me fazer prová-los. Eu já estava com raiva deles e da festa em que estava também, então disse:
— Acabei de me lembrar que tenho um compromisso amanhã cedo. É melhor eu ir para casa. Obrigada Melany, mas já vou indo. Foi bom conhecer vocês pessoal.
Antes que eles dissessem mais uma coisa, eu já estava virando a esquina.
Era uma noite de sábado, mais especificamente, as 23:30. Não havia ido de carro, pois estava pensando em beber e estava com o dinheiro para o táxi, porém, não estava cansada e o ar frio da noite me convidava a caminhar pela rua para desestressar minha mente... Eu não queria ir para casa ainda e encerrar minha noite sem nem tê-la aproveitado direito... Seria melhor nem ter saído de casa.
Como estava em uma avenida movimentada, não tinha medo de andar naquela hora da noite. Havia vários grupos de jovens como eu, porém todos pareciam mais animados e risonhos. A maioria se encaminhava para alguma festa ou balada, porém alguns se aventuravam a entrarem em alguns dos vários pubs e barzinhos que havia na rua.
Hum... Talvez não fosse uma má ideia entrar em algum e tomar um chope... Qual foi a última vez que você entrou em um bar sozinha? É... Talvez não fosse uma experiência tão ruim.
Não escolhi muito e entrei em um pub perto de onde estava sem nem ver o nome do lugar. Felizmente, não parecia ruim. As paredes eram em tons vinho e a iluminação fraca, uma batida com alguns acordes de bateria soava ao fundo e o clima estava bom. Vários grupos de pessoas rindo e bebendo se encontravam nas mesas e havia um enorme balcão com bancos altos. Resolvi me encaminhar para um desses.
Assim que me sentei, rapidamente, um bar tender veio me atender. Ele era alto e forte, tinha o cabelo preto e ondulado preso em um rabo de cabalo e uma barba volumosa. Ofereceu-me um sorriso e disse:
— Boa noite. O que deseja?
— Um chope, por favor.
O jovem aparentava ter a minha idade e rapidamente fez o meu pedido. Diferente das pessoas quem eu conhecia, preferia tomar cerveja a vodca ou qualquer outra bebida alcoólica. Principalmente o famoso chope. OK, talvez eu tivesse uma tara pela bebida.
Sorri e suspirei ao prová-la. Chope dessa qualidade não era encontrado nas festas de faculdade quais eu costumava ir. Percebi que o bar tender continuava sorrindo na minha frente. Ele parecia querer dizer alguma coisa, mas alguém o chamou no outro canto do bar e ele teve que ir atender a pessoa.
Soprei a franja caindo na minha testa. Provavelmente, outro cara querendo me cantar.
Não vou negar. Durante a minha puberdade e o início da minha adolescência, foi até bom para minha alto-estima saber que alguns garotos conhecidos me desejavam... Porém, estava cansada de receber olhares maliciosos e cantadas grotescas de cada ser vivo que encontrava. Pelo visto, não poderia nem relaxar e tomar um chope sozinha sem que alguém puxasse conversa com o intuito de me comer mais tarde...
Céus, Eglantine, pare de reclamar! Há pessoas no mundo piores que você. Pessoas que se acham tão feias que desenvolvem doenças devido a isso... Enquanto isso, você está ai, reclamando do fato de ser bonita. Quão patético e egoísta isso é?
Bufei e bebi outro gole, a tulipa quase chegando ao fim dessa vez... Talvez eu pudesse beber mais alguns e pedir para minha mãe me buscar... Não era o certo, mas eu realmente queria tentar aproveitar a noite...
Queria ter uma amiga ou amigo para poder conversar e sair de vez em quando...
Foi quando estava pensando nisso que uma sombra aproximou-se de mim do outro lado do balcão. Pensei que fosse o bar tender barbudo de antes e levantei a cabeça para pedir outra rodada quando eu percebi que, apesar da pessoa a minha frente ser um bar tender, não era o mesmo de antes.
Dessa vez, ele usava apenas uma calça jeans escura com o avental preto do lugar preso em sua cintura, além de uma blusa de mangas pretas sem estampas e uma corrente de prata. Os cabelos não eram grandes o suficiente para que ele conseguisse amarrá-los, porém usava uma faixa de cabelo para impedir que os fios tomassem sua face.
Foi dessa vez que descobri o quanto o rosto de Kevin era bonito e o quanto seus olhos ficavam mais destacados com esse penteado.
Nós dois estávamos com os olhos arregalados e nos encarávamos sem piscar... Já era o terceiro encontro ao acaso que tínhamos, todos com um intervalo de meses... Isso era sorte ou azar?
Ele foi o primeiro que esboçou alguma reação ao sorrir e dizer:
— Oi princesa.
Eu também pisquei e respondi:
— Oi ladrão.
Ele apoiou os braços no balcão na minha frente e disse, mais próximo a mim:
— O que faz aqui? Esperando o príncipe?
— Claramente, não. Estou aqui pela cerveja.
Ele sorriu e pegou a tulipa vazia da minha mão, enchendo-a na torneira própria atrás do balcão enquanto dizia:
— Veio ao lugar certo, então.
Então, ele me entregou o copo já cheio e saiu de perto, indo atender um grupo de rapazes em outro canto. Dessa vez, eu voltei a beber minha bebida sorrindo e encarando-o de longe. Então, ele trabalhava aqui... Era bom que Kevin tivesse um trabalho e não vivesse uma vida apenas de roubos... Será que o chefe dele sabia do vício? Creio que não...
Estava na metade da segunda tulipa quando ele apareceu de novo, dessa vez pegando algumas garrafas nas prateleiras à minha frente e preparando uma bebida que eu não sabia o que era. Ele disse, sem me encarar:
— Sobre a última noite... Eu... — ele parecia querer dizer outra coisa, porém no último instante, balançou a cabeça e mudou a frase — Sua irmã gostou do presente?
Meu sorriso morreu no rosto e eu olhei para baixo tomando mais um gole do meu chop. Respondi:
— Na verdade, eu não entreguei... O presente era um globo de neve de um castelo... Quando cheguei em casa ela já estava dormindo e depois de colocá-la na cama, eu abri o presente para conferi-lo e estava quebrado... Deve ter se partido na queda.
— Ah... Sinto muito.
— Não foi culpa sua... Na verdade, ela nem notou. Emily não se importa muito com presentes... Era só algo que eu queria dar para ela.
Ele apenas afirmou com a cabeça e saiu de perto de mim de novo, indo entregar a bebida que estava preparando na minha frente... Enquanto ele não voltava me ocupei de terminar meu chope e verificar meu celular. Não havia quase nada além de algumas atualizações no Facebook e em grupos do Whatsapp que não me interessavam.
Suspirei e dei um último gole no meu chope. Ainda bem que eu era forte para bebidas, pois se não, já era para eu começar a ficar preocupada. Entretanto, pretendi alongar um pouco mais minha visita àquele bar visto que era melhor sentar aqui apreciando um bom chope do que naquela festa abafada cheirando a suor e maconha.
Kevin voltou novamente e disse:
— Desculpe, eu não consigo acreditar que você saiu de casa arrumada assim para vir beber sozinha.
— Na verdade, esse não era o plano inicial. Estava em uma festa da faculdade.
— Não estava legal?
Suspirei e disse, depois de beber outro gole:
— Não sei porque eu ainda tento.
O bar tender se apoiou no balcão a minha frente e esboçou um sorriso de canto antes de dizer:
— O que exatamente? As pessoas, as festas, as aulas...
— Tudo.
Eu disse, antes de suspirar e revirar os olhos. Kevin franziu as sobrancelhas e murmurou:
— Posso estar enganado, mas eu achava que a faculdade era um momento para você conhecer novas pessoas, ampliar os horizontes, aprender algo de que gosta... Não?
Sorri e disse:
— Ah querido, quando crescer vai aprender que a faculdade é um poço sem fim de amargura e tristeza.
— Nossa, que papo deprê. Muito triste pra um final de turno, vou até sair daqui.
Ele sorriu e, antes de me deixar novamente, encheu minha tulipa de mais chope. Fiquei observando enquanto Kevin lavava alguns copos há alguns metros de mim. O movimento no balcão parecia fraco e o outro bar tender estava conseguindo dar conta sozinho, então não achei que fizesse algum mal continuar conversando com ele.
Pensando nisso, peguei minha tulipa de shop e fui me sentar mais perto da pia onde Kevin estava. Bebendo outro gole, eu disse:
— Então, se você trabalha aqui, por que precisa roubar?
Apesar dele não estar olhando para mim, pude perceber que sorria antes de responder:
— Eu trabalho em vários lugares princesa, fazendo várias coisas, mas, quando você crescer vai aprender que a vida de adulto é difícil e tudo é muito caro.
— Ah sei. Quer dizer que aquele super apartamento luxuoso e aquela sua moto hiper cara são os motivos para você ter que trabalhar tanto. — eu revirava os olhos — Essa é boa.
Nesse instante, ele pousou o copo que estava ensaboando dentro da pia e me encarou com aqueles olhos fuzilantes. Eles eram castanhos, porém, naquela luz fusca do bar, pareciam quase amarelos. Entretanto, apesar da beleza dos olhos, Kevin trajava uma carranca feia quando disse:
— Você consegue ser menos irritante?
Eu ri e respondi:
— Acho que é a primeira fez que alguém me faz essa pergunta.
— Agora estou curioso com que tipo de pessoa você anda.
— Você também é bem irritante, ta bom?
— Pelo menos eu não ando por aí me metendo na vida dos outros.
—O que posso fazer se eu sou muito curiosa e você fica aparecendo em todos os momentos da minha vida?
Ele revirou os olhos e lavou os últimos copos da pia enquanto disse:
—Como se eu tivesse planejado isso.
Depois dessa eu terminei meu copo de chope em silêncio enquanto ele secava e guardava as louças que havia lavado. Quando ambos terminamos, demos uma olhada no relógio que havia no canto do bar. Já eram quase duas horas! Olhamos um para o outro mais uma vez, eu meio assustada. Disse:
— Está tarde. Tenho que ir para casa.
Vasculhei minha bolsa, procurando o dinheiro para pagar as bebidas que havia tomado. Assim que a entreguei no balcão, Kevin fez questão de contar e guardar o dinheiro no caixa. Quando ele voltou, entreguei outra nota de vinte para ele e disse, sorrindo de canto:
— Pra você bancar sua vida de adulto responsável.
Ele sorriu e pegou delicadamente a nota da minha mão. Depois, disse:
— Isso merece uma carona.
— Não precisa, posso chamar um táxi.
— Tô falando sério. Você já gastou de mais por uma noite, desse jeito vai ferir meu coração.
— Bom... Tudo bem, vou aceitar.
— Me espera lá na frente, vou só pegar minhas coisas.
Depois disso, ele sorriu e saiu por uma porta escondida atrás do balcão. Juntei minhas coisas e fiz como ele pediu, esperando-o na frente, perto da calçada.
Não demorou muito e ele apareceu, já em cima da moto, sem o avental do bar e com os cabelos mais soltos e desgrenhados, parecia mais cheiroso também. Kevin abriu um compartimento no banco e tirou de lá um capacete que, diferente do dele, inteiramente negro, havia detalhes azuis. Ele me entregou e disse:
— Sorte que sempre deixo o capacete da minha irmã aqui.
— Tinha até esquecido que você anda nessa armadilha ambulante.
— Ei, não fala mal do meu bebê!
— No caso, seu bebê é minha carona pra casa então, eu não me atreveria.
— Isso mesmo.
Dizendo isso, terminei de abotoar o capacete e subi em cima da motocicleta, logo atrás de Kevin. Consegui ouvir sua voz, abafada pelo capacete, à minha frente:
— Melhor se segurar.
Um segundo depois eu, realmente, entendi o porquê dele ter dito isso. Aquela coisa ia muito rápido! E ter um motorista como Kevin no comando, tenho certeza, não adiantou nada, pois ele corria muito! Com certeza, estávamos indo além do limite de velocidade permitido. Cruzávamos as avenidas, trançávamos os carros e nos inclinávamos perigosamente em curvas. Enquanto isso, a única coisa que eu pude fazer foi fechar os olhos e apertar o tronco de Kevin cada vez mais forte, sentindo-me em uma montanha russa.
Naquela velocidade, chegamos em casa em menos de dez minutos. Depois de confirmar na portaria que era eu mesma, passamos pelo porteiro e Kevin parou a moto logo na frente da minha casa.
Eu devo ter descido tremendo e com uma cara de pânico, pois o motorista era todo risadas quando olhou para mim. Ele disse:
— Você deveria ver sua cara. E seu cabelo! Tá todo embaraçado, princesa.
— Háhá! Muito engraçado. Você é louco. Quase nos matou nisso.
— Relaxa, loira, eu sou perito em direção. Tá segura comigo.
— Uhum, sei.
Revirei os olhos e o encarei... Não tinha como negar. Aquele filho da puta era muito gato. Aquele cabelo desgrenhado, aqueles olhos marcantes, aqueles alargadores e aquele pircing na sobrancelha super charmosos. E pra completar, aquela boca. Aquela boca rósea e cheia que nesse momento estava inclinada em um sorriso mínimo e sendo mordida por aqueles dentes brancos. Mal havia percebido que enquanto devaneava, havia me aproximado do homem que ainda estava sentado na sua moto. Ouvi sua voz, sussurrando perigosamente perto:
— Se eu fosse você pararia de me olhar desse jeito, princesa.
— Ah é? Por quê?
— Porque é muito sexy.
Dessa vez, quem estava dando um sorriso de canto era eu. E quem estava se aproximando mais ainda do veículo, era eu também. Levantei o olhar e, assim, estávamos nos encarando a apenas centímetros de distância. O ar parecia carregado de eletricidade, era quase possível ver as faíscas saindo de nossos corpos... O que era aquilo? Parecia um poder maguinético irradiando daqueles olhos grandes e daquela boca convidativa.
Provavelmente foi o álcool ingerido naquela noite... Ou talvez tenha sido apenas uma vontade sem escrúpulos do meu subconsciente. O que importa é que eu segurei na gola de sua blusa e puxei o corpo daquele homem na minha direção.
Em um choque nossas bocas se encontraram. Foi como se eu tivesse feito uma longa trilha e, logo em seguida, encontrado uma cachoeira e pulado com tudo, sentindo aquela água transparente e gelada acariciando meu corpo quente e suado.
Um de seus braços se dobrou ao redor da minha cintura e se apoiou na base das minhas costas. Senti sua outra mão se embrenhando em meus cabelos e puxando-os levemente. Enquanto isso, a mão que eu usava para segurar sua gola subiu e passou por sua clavícula, indo até a parte de trás de seu pescoço. Pude sentir seus pelos se arrepiando e sua respiração ficando mais rápida.
Sorri interiormente. Nossos lábios se colavando e descolando. Nossas cabeças girando em direções opostas procurando prolongar e intensificar o beijo. Nossas línguas se encontrando e se enroscando. Procurando puxá-lo para mais perto, estiquei o braço e pousei o capacete que segurava ao seu lado na moto, mas não calculei muito bem a distância e o objeto caiu ao chão fazendo um barulho alto e metálico e assustando a nós dois.
Nós dois nos afastamos rapidamente, olhando para o capacete rolando no chão. Kevin continuava com o braço envolto na minha cintura e eu continuava com a mão pousada em seu pescoço. Ambos nos encaramos ofegantes e um pouco confusos. Nós dois sabíamos como aquilo havia sido bom. Fodidamente bom.
Engoli em seco e mordi o lábio antes de sussurrar:
— Preciso ir.
— É, eu também.
Apesar das palavras de despedida, nos dois continuamos próximos por mais longos minutos, respirando e misturando o ar inspirado e expirado. Quando enfim, largamos um ao outro ainda ficamos nos encarando uns segundos antes que eu pegasse o capacete no chão e o entregasse.
A moto já estava ligada e Kevin já estava quase de partida quando eu disse:
— Mais uma coisa. Eu tenho nome. É Eglantine, não “princesa” ou “loira”.
Kevin sorriu sacana mais uma vez e disse:
— Tudo bem, princesa. A gente se vê por aí?
— É. A gente se vê por aí.
Ele piscou um dos olhos para mim e foi embora.
Eu ainda fiquei mais alguns segundos olhando a rua escura e silenciosa e tocando meus lábios ainda quentes. Entrei sorrindo dentro de casa naquela noite. Quando passei na frente do escritório de minha mãe, ouvi sua voz autoritária me mandando ir até ela. Suspirei e andei devagar até encontrar Charlotte sentada na sua escrivaninha ainda com o terninho de trabalho e os óculos de leitura, lendo e assinando alguns papeis.
Ela disse:
— Quem te trouxe?
— O táxi.
— Mentirosa.
— Tudo bem... Foi um amigo... Eu... Conheci-o na festa.
— Uhum. Não quero você andando de moto, é perigoso. Outra coisa, que tipo de festa você foi que encontrou um cara como ele?
— Você o viu?
— Claro que vi, Eglantine. Não tente esconder as coisas da sua mãe. Sabe que eu sei de tudo.
— Uhum. Nós duas sabemos que você sabe de tudo o que acontece nessa casa. Difícil mesmo é fazer você tomar alguma atitude.
Eu disse, dura e direta para ela. Vi quando minha mãe olhou-me assustada, não acreditando no que eu havia dito. Porém, eu não me arrependi e ignorei seus pedidos para retornar e subi correndo as escadas, entrando no quarto de Emily.
Minha irmã estava dormindo calmamente na cama, mas, mesmo assim, eu a acordei animada. Seus olhinhos estavam pequenos e sonolentos, mas mesmo assim ela disse:
— Glá? O que foi?
— Conheci um cara hoje... Tudo bem, eu já havia conhecido ele antes, mas hoje eu, definitivamente, o conheci. O nome dele é Kevin e ele é muito legal. Tudo bem, talvez não seja uma pessoa muito certa, mas acho que ele tem um caráter muito bom.
Quando percebi, minha irmã mais nova havia voltado a dormir há muito tempo. Coitada, devia estar cansada, e eu aqui falando bobagens com ela. Sorri e beijei sua testa, cobrindo-a e apagando a luz do quarto quando sai.
Se tinha uma coisa da qual eu não me arrependia era ter saído daquela festa idiota e entrado naquele bar aleatório.
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