Paraíso Proibido

2 Agora Eu Vou Me Esconder


Finalmente o professor desligou o PowerPoint e anunciou que a aula estava encerrada. Suspirei, esfreguei os olhos e me espreguicei. Céus, cada dia que passava essas aulas pareciam mais longas! Queria tanto ir para casa, tomar um bom banho e dormir... Infelizmente, apesar de esse ser o último horário, eu iria gastar mais umas horinhas na biblioteca para fazer um resumo de um livro que eu não tinha.

Guardei minhas coisas na mochila e caminhei como um prisioneiro indo para a forca para a biblioteca...

[...]

Já era tarde. Acabei de envolvendo com o resumo e mal percebi que já estava quase no horário da Faculdade fechar. Se não fosse por um dos bibliotecários, eu teria virado a noite, sem dúvida.

Mas o que interessa é que finalmente estava indo para casa. Naquele dia havia estacionado o carro fora do estacionamento da faculdade, pois não era o meu dia do rodízio. Enquanto caminhava até meu veículo, uma BMW novinha ganhada de presente da minha avó, pensava em minha irmã.

Emily estava fazendo 10 anos e era minha irmã mais nova, provavelmente meu membro favorito da minha família. Hoje era aniversário dela e eu tinha o presente perfeito. Apenas para garantir, abri minha mochila para conferir se o embrulho estava lá.

Peguei o presente cuidadosamente na minha mão. Dentro de uma coisa colorida estava um globo de neve com a imagem de um castelo dentro. Emily adorava coisas delicadas e isso iria colocar um pouco de cor em seu quarto. Sim, ela iria gostar.

Justo quando terminava essa linha de raciocínio, alguém trombou forte em mim me jogando no chão e fazendo com que o tal presente escapulisse de minhas mãos. Quando vi, estava sentada no meio da calçada com a bunda doendo e encarando (quem diria?) o mesmo menino ladrão que eu deixei escapar semanas atrás. Eu reconheceria aqueles olhos castanhos claros moldados por enormes cílios e aqueles alargadores negros em qualquer lugar.

E, aparentemente, ele também me reconheceu. Nós dois nos encarávamos de olhos quase arregalados. Afinal, quais as chances de você reencontrar o ladrão que assaltou sua vizinha menos de um mês depois do ocorrido? Ambos ficamos abrindo e fechando a boca e, em determinado momento, eu até achei que iria rolar um diálogo, porém o garoto simplesmente disse um “tsc” e saiu correndo.

Eu iria deixar para lá. Estava tão transtornada que não iria hesitar em entrar no carro e, simplesmente, esquecer que esse encontro havia acontecido... Mas havia o presente. Assim que o menino saiu e eu me levantei, percebi que o presente de Emily havia sumido! Procurei no chão e em meus bolsos, porém não o achei em lugar nenhum!

Aquele traste! Ele roubou o presente da minha irmã! Ah mas ele pensa que eu sou idiota?! Isso não vai ficar assim! Pode até roubar as joias da minha vizinha, mas ninguém mexe com a felicidade da minha irmã!

Sem pensar duas vezes, sai correndo em disparada na direção para onde o garoto desconhecido foi. Meu rosto estava vermelho de raiva e estava a ponto de soltar fumaça das narinas! Da mesma forma que da última vez, eu o consegui alcançar rapidamente, a tempo de vê-lo virando para dentro de um beco e se embrenhando em uma das entradas de um prédio.

Logo me vi dentro de um local que parecia um daqueles prédios usados exclusivamente como estacionamento. Estava vazio e a luz vinha apenas dos raios da lua que se embrenhavam pelas grandes aberturas nas paredes, como janelas. Ouvi passos subindo a rampa que levava aos andares superiores e continuei correndo, seguindo o ladrão de presentes.

Dois andares depois, havia perdido o barulho dos passos dele e me vi confusa, rodeando o local procurando-o. De repente, sinto mãos fortes segurando-me por trás e me puxando. O mesmo garoto que eu estava seguindo tinha uma das mãos tapando minha boca e a outra segurando meu braço com minhas costas estavam colados em seu peito. Comecei a me remexer e murmurar, mas parei quando ouvi sua voz ao pé do meu ouvido:

— Você está me seguindo por acaso? Porque já é a terceira vez que nos esbarramos.

A voz dele estava mais rouca e baixa do que da última vez em que nos vimos... Era... Gostosa... Não sei como uma voz pode ser gostosa, mas era como se aquele timbre acariciasse meus tímpanos... Precisei piscar os olhos algumas vezes para voltar à realidade e tentar me desvencilhar do garoto de novo. Mais uma vez, ele disse:

— Eu vou te soltar, mas você tem que prometer falar baixo.

Eu resolvi parar de resmungar para que ele me liberta-se. O desconhecido demorou alguns segundos, mas, por fim, me soltou e eu não perdi tempo em me virar na sua direção e o empurrar, dizendo:

— Devolva.

Ele logo levou a mão de novo a minha boca e sussurrou:

— Silêncio! Esse lugar faz um eco muito forte!

— Devolva.

Ele revirou os olhos e disse:

— Devolver o que?

— O presente da minha irmã!

— Shhhhhhh. Nós vamos acabar morrendo... Você tem que ir embora

— Eu não vou embora enquanto você não devolver o presente que pegou de mim.

— O que? Eu não peguei presente nenhum.

Eu o empurrei de novo, dessa vez, seu corpo bateu na pilastra atrás dele e eu inflei meu peito, tentando parecer maior, como um animal quando entra em uma briga. Eu disse autoritária:

— Pegou sim. Você me empurrou e ele sumiu.

— Deve ter caído em algum lugar. Olha, você precisa sair daqui. Agora.

Dessa vez, foi minha vez de revirar os olhos. Retruquei:

— Muito espertinho você. Não tente me assustar com outro de seus joguinhos. Você vai me devolver aquele presente se não eu vou gritar até alguém aparecer e você vai preso.

— O que?

Eu tomei fôlego e abri a boca, pronta para soltar um berro enorme, porém duas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Primeiro, sua mão voou mais uma vez para minha boca e ele me puxou para perto de seu corpo novamente, nos escondendo atrás da pilastra grossa perto de nós. Segundo, eu ouvi passos. Vários passos. Pessoas entravam, provavelmente pela mesma abertura que nós dois entramos, e elas subiam a rampa que levava até nós.

Assustada, eu fiquei transmitindo meu olhar do desconhecido para a rampa onde subiam vários desconhecidos... Bom, poderiam ser seguranças, afinal, provavelmente estávamos em uma propriedade privada, e se eu fosse pega com ele, provavelmente, achariam que eu estava invadindo o local!

Entretanto, enquanto estava pensando na explicação que daria para os seguranças, o garoto me puxou até a rampa seguinte, que levava até o andar de cima, me largou e me empurrou. Sua voz saiu num sussurro tão baixo que eu quase não ouvi:

— Suba lá em cima e se esconda.

— O que?

— Faz isso rápido!

Os passos ficaram mais pertos e pelo o que eu ouvia, provavelmente já haviam chegado ao nosso andar. Pude ouvir vozes também. Pareciam jovens com a voz arrastada e carregada de um grande sorriso. Eles diziam:

— Keviiiiiin. Apareça de onde está escondido.

— Anda logo, moleque. A gente sabe que você tá aqui.

Eu fiquei assustada e dei alguns passos para trás, me agachando e me escondendo atrás do corrimão de cimento. Achei que o desconhecido (que estava começando a achar que se chamava Kevin) viria se esconder comigo, porém, ele simplesmente começou a andar na direção das vozes.

Fiquei o encarando com os olhos esbugalhados até que ele sumiu da minha vista. Não demorou muito e eu ouvi um dos garotos dizendo:

— Ah olha só ele ai!

— Quem é vivo sempre aparece, não é, Suazzio?

— Pablo e Josh, quanto tempo. Tava até com saudades.

Disse o suposto Kevin, sua voz parecia formada metade por ironia, metade por meio. Enquanto isso, uma voz diferente disse:

— Pois é. Então por que fugiu quando viu a gente?

Três risadas diferentes foram ouvidas depois disso e mais passos. Acho que havia três intrusos no estacionamento... E pela voz não eram seguranças... Kevin disse:

— Eu posso explicar.

Alguém socou outro alguém. Foi tão repentino que me assustei e dei um pulinho sem sair do lugar. Pude ouvir que a pessoa que levou um soco se desequilibrou e caiu. Mais risadas ecoaram pelas paredes. Outra vez, a voz de um dos invasores:

— O tempo de explicar já acabou.

— Estamos impacientes, Suazzio. Está demorando demais.

— Eu já disse que vou pagar!

— Ah, mas a gente sabe disso. Quem não sabe é o Mike.

— É. E ele quer que a gente te mande um recado.

— Eu já entendi — respondeu Kevin — Fala para ele que o recado já está dado. Eu vou pagar, já disse.

Mais risadas e depois um deles continuou:

— Mas esse não era exatamente o recado.

Outro barulho seco e breve, era mais um soco. E outro. E outro. Consegui perceber que o chutavam também. As risadas dos três batiam nas paredes e pareciam me acertar também, porém, pior que isso, eram os gemidos e protestos de Kevin que parecia não estar conseguindo aguentar.

Parte de mim queria correr e tirar aqueles homens de cima dele, mas a outra parte estava congelada no chão e não conseguia se mexer. Creio que por eu não estar vendo os agressores, minha cabeça os imaginava de todas as formas possíveis e, na maioria delas, eles eram enormes e muito fortes... Eu tive medo.

Horas pareceram ter se passado até que eu ouvi uma última risada e aqueles agressores desconhecidos começaram a ir embora. Ainda fiquei congelada no meu esconderijo por um tempo, meio que em transe. Foi quando eu ouvi um gemido e um barulho arrastado que meu cérebro se despertou em um estalo e eu sai correndo para encontrar um corpo encolhido no chão.

Eu cheguei perto do menino. Ele estava acordado, porém mantinha seus olhos fechados com força e os dentes trincados, suas mãos abraçavam sua barriga e eu o ouvi dizer:

— Acho que quebrei alguma coisa.

Toquei seu ombro de leve, tentando dar-lhe algum apoio e sussurrei:

— Eu vou chamar uma ambulância.

— Não! — ele disse, mais alto de alguma forma — Não posso ir para um hospital!

— Eu não vou contar sobre o assalto.

— Não é isso! — o garoto se virou no chão e segurou minha mão, a apertando forte — Você não pode me levar para o hospital, nem chamar a polícia. Por favor, não faz isso.

— T-tudo bem... Mas o que você quer que eu faça então?

— Só... Ajude-me a levantar.

Balancei minha cabeça afirmamente. Ele era mais alto que eu, porém, suas pernas não estavam tão machucadas, então conseguimos, juntos, fazê-lo ficar de pé. O garoto ainda mantinha seu corpo encurvado, creio que porque ele teve alguma lesão na parte abdominal, porém a parte que mais me preocupava era a cabeça. Sua boca estava vermelha e escorrendo sangue, igualmente seu nariz; sua sobrancelha tinha um corte e seu olhos e bochecha estavam roxos. Ouvi-o dizer:

— Eu consigo me virar a partir daqui. Pode ir para casa.

— Não vou deixar você sozinho aqui nesse estado... Você veio de carro?

— Moto... Mas não sei se vou conseguir conduzir ela nesse estado... Você tem carteira de moto?

— Não... Mas tenho um carro. Vou te levar até sua casa.

Ele apenas balançou a cabeça afirmando. Falar deveria ser difícil, pois vi que ele tomava fôlego antes de dizer as palavras e sua voz saia baixa e arrastada. Eu só esperava que ele não tivesse quebrado nenhum osso ou não tivesse tendo um sangramento interno.

Fomos caminhando devagar. Um dos meus braços estava ao redor de sua cintura, puxando-o para cima e para perto de mim, o outro segurava seu punho já que ele tinha o braço passado por cima dos meus ombros. O cheiro de sangue e suor invadia minhas narinas, entretanto, também havia um perfume gostoso misturado a esses cheiros.

Demorou, porém conseguimos chegar ao meu carro. Abri a porta do banco do passageiro para ele e o garoto entrou com alguma dificuldade. Enquanto estava dando a volta para o lado do motorista, percebi que havia alguma coisa atrás de uma das rodas do carro.

Estranhei. Podia jurar que aquilo não estava lá antes. Foi quando me abaixei para investigar que percebi o que aquilo era... Era o presente de minha irmã que, provavelmente, havia caído quando o desconhecido no meu carro esbarrou em mim. Por ele estar embaixo do caro e atrás da roda, eu não deveria tê-lo percebido naquela hora, porém, na posição em que estava era possível identificá-lo perfeitamente.

Abri a porta e entrei no veículo olhando para o presente em minhas mãos. Alternei o olhar entre ele e o garoto machucado ao meu lado... Então, ele havia falado a verdade. Não havia pego meu presente. Eu o acusei por nada...

Suspirei e guardei o objeto na minha mochila. Enquanto ainda estava inclinada na sua direção, eu disse:

— Você não tinha pegado o presente da minha irmã... Eu o deixei cair e não tinha visto.

— O que?

Ele estava olhando para a janela e parecia não ter entendido o que eu disse, então repeti:

— Eu disse que você tinha roubado o presente da minha irmã. Eu estava errada. Desculpe.

— Ah. Tudo bem. Se surpreenderia se soubesse quantas vezes isso acontece.

Mordi meu lábio inferior, uma mania que eu tinha quando ficava desconfortável. Talvez esse garoto não fosse tão ruim assim. Olhando agora, ele só parecia alguém machucado e triste... E eu era uma boa pessoa, era contra meus princípios deixar alguém assim sozinho, não interessa o que ele tenha feito.

Suspirei, liguei o carro e partimos para a casa dele.