Paraíso Proibido

3 Eu Tenho Aquele Estilo Que Te Deixa Preocupada


Estacionei o carro com cuidado na frente do prédio que ele havia me indicado. Encarei a construção incerta... Parecia que a qualquer momento, ela iria cair em cima da gente. A tinta estava lascada, as janelas meio sujas e o prédio e a rua inteira estavam tomados por pichações estranhas... Bem diferentes da minha casa e das ruas limpíssimas do meu codomínio.

Ouvi a voz do meu passageiro ao meu lado:

— O que? Sujo demais pra princesa?

Ele riu um pouco, mas logo pareceu se arrepender porque seu corpo se inclinou e ele fez uma cara de dor. Sorri. Bem feito. Abri a porta e tirei-o do veículo dizendo:

— Cale a boca antes que eu mude de ideia. Passe a chave.

Assim ele fez. Com certa dificuldade consegui levá-lo pelas escadas (por incrível que pareça, aquele prédio não tinha elevador) até o sétimo andar, onde, aparentemente, era seu apartamento. Quando entramos, percebi que o local era até bom, porém um pouco vazio.

Primeiro havia a sala, com um pequeno sofá encardido de dois lugares e um móvel com uma televisão gasta. Na cozinha, separada por uma bancada, apenas uma geladeira, um fogão e uma pia. Um corredor se estendia para frente onde eu consegui ver três portas. O chão era de madeira, que parecia velha e suja e as paredes eram brancas.

Eu puxei o garoto até o sofá e o coloquei sentado, ouvindo-o suspirar como se estivesse aliviado em não estar mais em pé. Fiquei parada na sua frente olhando em volta, meio desconfortável. Acho que estava tão preocupada com o estado dele que não percebi que estava na casa de um desconhecido e sozinha... Talvez isso tenha sido um pouco perigoso.

— Então... — eu disse — Você mora sozinho aqui?

— Não. Tem minha irmã... Ela não deve estar em casa, já que não veio com o barulho da porta.

— Quer ligar para ela?

— Eu não tenho celular.

— Quer o meu emprestado?

— Ela também não tem celular.

Bufei e revirei os olhos antes de dizer:

— Que espécie de pessoa não tem um celular em pleno século XXI?

Ele riu fracamente antes de me responder:

— A espécie pobre. Não tenho dinheiro, além de que, celulares são iguais a problema.

— Como assim não tem dinheiro? Não é possível que tenha gastado tudo o que roubou da casa da minha vizinha mês passado.

— Por incrível que pareça, eu gastei.

Revirei os olhos. Um tipo como esse... Um vagabundo, provavelmente, drogado. Gastando quilos de dinheiro em drogas. Aposto que aqueles caras eram traficantes e bateram nele porque ele estava devendo-os dinheiro. Ouvi o garoto ferido dizer:

— Se vai ficar me julgando ai, pode ir embora. Não preciso mais de ajuda.

Bufei e me virei, pronta para fazer o que ele disse... Mas o garoto ainda estava sentado no sofá gemendo e se revirando... Não deveria estar na melhor das acomodações e estava todo machucado e sozinho... Que droga de coração mole!

Caminhando com passos duros, fui até a cozinha e abri o congelador... Bom, achei algum gelo e enrolei alguns cubos num pano de prato que encontrei. Aproveitei para colocar um pouco de água em uma vasilha e pegar outro pano de prato, precisava limpar todo aquele sangue seco.

Levei tudo até a “sala” e coloquei o que havia trazido no chão a frente do sofá. Sentei-me do lado do garoto e o encarei. Ele estava com a cabeça caída no encosto e seu braço estava tapando seus olhos, sua respiração estava pesada e falha.

Tentei tirar sua mão da frente do rosto, mas ele fez força para me impedir. Com raiva, eu disse:

— Quer minha ajuda ou não?!

Ouvi-o suspirar. Depois de pensar um pouco, o ladrão tirou o braço da frente e se sentou mais ereto no sofá. Eu disse:

— Bom... Agora, além do rosto, onde dói?

— Tudo... Meu ombro. Meu peito.

— Acha que quebrou alguma coisa?

— Não sei.

— Tsc... Tire a blusa, deixe-me ver.

— Você lá é médica?!

— Não. Mas já fiz curso de primeiros socorros e sou estudante de medicina. Creio eu que sou mais apta a ver isso do que você.

Por fim, ele bufou indignado e tirou a blusa, aparentemente, sentindo-se derrotado. Confesso que ri internamente por ter ganhado aquela “disputa”.

Quando o garoto retirou a blusa percebi que ele tinha mais tatuagens no peito. Correndo o olho identifiquei caveiras, palavras e pássaros, porém não queria fixar o olhar por muito tempo, afinal, aquela barriga lisa, com poucos músculos e pelos já era sedutora o suficiente.

Respirei fundo e pisquei os olhos três vezes. Concentre-se Eglantine, você precisa cuidar desse garoto.

Além das tatuagens, seu peito carregava outras manchas, de luta, arroxeadas e azuladas. Não havia nenhuma fratura exposta, nem sangue, o que já era ótimo. Pedi que ele respirasse fundo e girasse o tronco e o garoto conseguiu fazer o que eu pedia sem muitas dificuldades. Por fim, eu disse:

— Não acho que tenha quebrado alguma coisa... Mas é bom colocar um gelo até desinchar.

Enquanto dizia isso, estendia a bola de pano com gelo dentro que eu havia feito para ele e o garoto simplesmente a arrancou da minha mão rudemente e colocou sobre a maior mancha no tórax, localizada logo abaixo do peito. Suspirei, seria difícil cuidar desse menino. Levantei-me e disse:

— Vou pegar água pra você.

Na cozinha, localizei alguns copos limpos no escorredor e enchi um deles com água potável. Estava quase voltando quando ouvi aquela voz grossa vinda da sala:

— Qual era o seu nome mesmo?

— Eu não tinha dito. Eglantine.

— Hum... Rosa Selvagem.

— O que?

Eu disse quando retornei e ofereci o copo a ele. Ainda segurando o gelo no machucado, o garoto levou o copo à boca e bebeu toda a água. Depois, ele fez uma careta e disse:

— Acho que rasguei minha boca.

— Tudo bem. O máximo que você vai ter será uma afta.

— Odeio aftas.

— Acho que no momento, você tem mais coisas para se preocupar.

Eu disse isso encarando seu olho. Não havia percebido antes, mas ele parecia ter machucado a cabeça visto que tinha um pouco de sangue seco na franja dele. Molhei o pano na água que havia trago anteriormente e levei até o local onde deveria estar o seu ferimento. Enquanto limpava o sangue seco, perguntei:

— Qual o seu nome?

— Kevin.

— Ah. Imaginei. Ouvi aqueles caras te chamarem assim... Você tem um corte aqui. Não vai precisar de pontos, mas seria bom passar algo para não infeccionar... Tem uma caixa de primeiros socorros em casa?

Ele riu antes de me responder:

— Claro que não.

Revirei os olhos e devolvi com a mesma gentileza:

— Então você é muito burro. Todo mundo deveria ter isso. Tem álcool?

— Tem vodca num armário da cozinha.

— Não era esse tipo de álcool que eu quis dizer, mas ta valendo.

Depois de procurar por quase toda cozinha, encontrei a garrafa de vodca meio aberta e pela metade. Voltando para o sofá embebedei a ponta do pano com o líquido e levei até o machucado de Kevin. Achei que ele iria reclamar ou pelo menos fazer uma expressão de dor, porém ele apenas apertou os olhos... Talvez já estivesse acostumado.

Depois que terminei de limpar o ferimento, guardei as coisas que estava usando e peguei mais gelo para que ele colocasse no olho. Na volta, morrendo de curiosidade como eu estava, resolvi perguntar:

— Então... Por que aqueles caras te bateram?

— Estou devendo eles.

— Eu já sabia disso... Mas... Por que você está devendo eles? O que eles são?

A essa altura estava novamente sentada no sofá ao lado dele e me surpreendi quando Kevin me encarou profundamente antes de pegar o gelo que eu estava estendendo na sua direção. Ele me olhava com uma expressão impassível. Eu não sabia dizer o que ele estava pensando.

Por fim, o moreno arrancou o objeto de minhas mãos e disse, rudemente:

— É exatamente o que você está pensando.

— Você não sabe o que estou pensando.

— Sei sim... Eles são traficantes. Do tipo mais perigoso do que os que vendem maconha pros seus amiguinhos ricos. Eu estou devendo dinheiro de droga para eles. Era isso que queria saber?

Olhei para baixo e dei um fraco sorriso. Eu sabia. Lá no fundo, eu sabia. Afinal, ele não era um pobre coitado inocente. Ele era um ladrão viciado que roubava para comprar mais drogas e que não conseguia ficar sem tomá-las, por isso vivia endividado e pobre.

Um pouco mais fria do que antes, eu disse:

— Já que está melhor, eu vou embora.

Rapidamente me levantei e atravessei a sala. Quando abri a porta e estava pronta para ir embora, ouvi sua risada grave e falha atrás de mim. Ainda virada de costas, ouvi Kevin dizer:

— O que você achou? Que eu era igual aos garotos que sofrem bullying da sua escola, princesa? Um cachorrinho perdido que você poderia levar para casa? Tsc... Não confunda uma cobra com um bichinho de estimação ou vai acabar sendo picada, princesa.

E essa foi a última palavra que eu ouvi dele, antes de sair daquele apartamento e fechar a porta com força. Estava puta mais uma vez. Aquele menino me tira do sério!

Desci as escadas correndo e pensando que os deuses só poderiam ter me amaldiçoado pra ter que encontrar um cara idiota desses de novo e continuei pensando nisso no caminho para casa. Devem ter uns mil moradores na minha cidade. Por que ele? Por que eu não deixei a polícia pegar ele no dia em que assaltou minha vizinha? Por que eu fui atrás dele depois que cai na calçada? E por que diabos eu dei uma carona para ele? Eu não precisava me estressar desse jeito! Eu não precisava ter que gastar tempo com uma companhia daquelas! Aquele grosso, mal educado, orgulhoso e que acha que o mundo gira ao redor dele!

Entretanto, apesar de toda a raiva que acumulei no caminho de volta, toda ela se dissipou quando entrei em casa e vi aquele corpinho encolhido no sofá da sala. Emily, minha irmã mais nova, estava dormindo no sofá, ainda com o uniforme escolar e um livro no colo... Droga, com toda essa confusão, havia esquecido completamente do aniversário dela!

Com toda delicadeza do mundo eu a acordei e vi seus olhinhos de criança se abrirem para mim. No mesmo instante, ela sorriu e disse:

— Glá! Estava esperando você.

— Oi, meu amor. Desculpa-me, não consegui chegar a tempo. Houve um problema na faculdade.

— Não tem problema. — ela bocejou e completou a frase — Podemos sair no final de semana.

— Com certeza. Agora, já é tarde. Vamos dormir, ok?

Peguei-a no colo e me levantei. Assim que me virei para subir as escadas percebi minha mãe nos encarando na porta do escritório. Charlotte usava seu hobi de seda rosa claro e tinha seus cabelos loiros tingidos presos em um coque. Ela me analisou e disse, autoritária como sempre:

— Onde estava?

— Na biblioteca.

— Ela já fechou a mais de uma hora.

— É que... Tinha esquecido meu celular lá dentro quando ela fechou, então tive que correr atrás de um funcionário para abrir para mim... Enfim, foi uma bagunça, mas deu tudo certo.

Ela ficou me encarando por um tempo, obviamente não acreditava em mim... Desconfortável com o olhar que Charlotte, subi as escadas carregando Emily. Depois de depositá-la em sua cama e de dar um beijo em sua testa segui para meu quarto, com minha mãe sempre no encalço.

Assim que cheguei aos meus aposentos e tirei aquela mochila pesada e lotada de livros das costas, ouvi sua voz vinda da porta:

— Eu achei que tivesse ido embora.

— Não faria isso no aniversário de Emily.

— Eu sei... Mas depois daquela discussão no tribunal...

Mordi meus lábios e suspirei. Eu lembrava perfeitamente da discussão que tivemos mais cedo naquele mesmo dia e ela ainda me dava calafrios... Minha mãe tinha razão em pensar que eu fugi de casa depois daquilo... Porém, como eu disse, não deixaria Emily no dia de seu aniversário.

Achei que ela iria embora e me deixaria dormir em paz e acabar de vez com aquele dia horrível que eu queria simplesmente apagar da memória. Entretanto, minha mãe ainda disse mais uma coisa para estragá-lo de vez:

— Eu tive que ligar para o seu pai... Achei que ele estivesse com você, ou sei lá... Mas não estava.

— Você ligou para ele?!

Ela revirou os olhos e disse:

— Só estava preocupada. Dá próxima vez então nem verifico.

Depois disso ela foi embora do meu quarto pisando duro e fechando a porta de seu próprio quarto com força. Pela décima vez naquele dia suspirei alto, derrotada. Depois de trocar de roupa e escovar os dentes, deite-me na cama. Céus... Será que não teria como eu dormir e não acordar na manhã seguinte?

Adormeci passando os dedos pelas marcas em alto relevo horizontais na parte interna do meu braço.