Paraíso Proibido
23 Capítulo 23. Litoral - VII: Oficializando
Notas iniciais
Ísis PDV {Ísis: Ponto de Vista}
Aquela noite no clube foi realmente longa. A princípio eu estava achando uma péssima ideia, ainda mais com a Fernanda usando aquelas roupas um tanto insinuantes! Eu tinha um pouco disso, de ser possessiva demais, mas caramba, ela era minha namorada! Quer dizer... Não oficialmente ainda, mas iria ser, logo menos. Era insana a vontade que eu tinha de bater em todo mundo que ficava secando ela. Mesmo depois de eu mostrar que aquele território era meu, algumas vadias e uns atiradinhos ainda faziam questão de me provocar. Ainda bem que eu não tinha nenhum tipo de arma naquele momento, ou teria cometido no mínimo uns cinquenta assassinatos naquela noite — para começar! O resto da madrugada então teria rendido uns mil assassinatos em minha ficha criminal.
Fernanda percebia que eu não gostava disso, mas ela tentava levar tudo na esportiva. Não estava ajudando em nada. Em certo momento, ela percebeu que eu já estava pra lá de irritada, apesar de ter curtido um pouco o clube, só que eu queria levá-la para longe dali o quanto antes. É sério, isso soa extremamente rabugento da minha parte, mas aquele ciúme estava incontrolável. Definitivamente, lugares como aquele não eram feitos para pessoas comprometidas e monogâmicas. Eu era assim.
Não queria estragar a noite dela, então resolvi "entrar no clima" e até que deu certo por uma hora mais ou menos — foi o período que nós ficamos no bar, só nós, sem pessoas querendo se esfregar nela pra dançar. Mas aí ela se animou com uma música que gostava e já resolveu voltar para a pista. Como eu já estava bem altinha, entrei na dança e não desgrudei dela nem por um segundo — estava literalmente como uma "cadelinha no cio", como a ilustre Claire havia dito. Essa louca! Era outra que apoiava a ousadia da Fê.
Enfim. Depois do meu irritante surto de ciúmes, eu resolvi por bem que seria melhor levar aquela pirada para casa porque se deixasse ela secaria aquele bar, acreditem. Dei uma olhada meio por cima para ver se encontrava alguma das meninas, mas nem sinal, e eu duvidava que fosse encontrar. Aquele pancadão ia rolar até o amanhecer mesmo, pois já era mais de cinco horas da manhã e ainda estava lotadérrimo e nem sinal de que o povo pretendia ir embora logo. Talvez as meninas já tivessem até ido embora, eu já não as via há bastante tempo, pensando bem.
O caminho até a casa foi meio sinuoso, visto que eu já nem enxergava direito, e a minha namorada então, piorou. Ela estava buscando apoio em meu braço, que eu havia passado em suas costas, mas se ela não se segurasse, iríamos as duas pro chão feito duas bananas! Ela ria de sua própria falta de equilíbrio e ficava comentando que a calçada estava "ondulando", estreitando os olhos e fazendo uns movimentos estranhos com a mão. Eu não conseguia conter o riso, ela definitivamente estava muito pior que eu, eu só estava achando graça de tudo.
Uma vez na casa, eu nem sequer consegui pensar o quanto era estranho ela estar toda destrancada, ou o quanto era estranho a chave estar no miolo do porta e a bolsa da Claire no chão. Tudo isso me passou literalmente despercebido. Fernanda já tinha passado da fase "engraçada" da bebedeira e agora estava na fase do "choramingo". Tudo ela choramingava: choramingava porque estava zonza, choramingava porque estava com sono, choramingava porque tínhamos que subir escadas, choramingava porque eu não estava abraçando ela. Choramingava por tudo! Parecia um bebê. Não reclamei, não era de todo ruim isso, o bom é que já estávamos em casa e poderíamos finalmente deitar e dormir.
Claro que tínhamos que tirar aquela roupa, tomar um banho para tirar aquela sensação ruim da bebida, mas quem disse que conseguimos? A Fê não aguentava o próprio peso, eu menos ainda — porque eu tinha que carregar o peso dela também. Eu apenas me livrei da roupa que usava e a ajudei a se livrar da dela, não nos preocupamos com banho ou roupas limpas, isso teria que ficar para depois que acordássemos com uma bela ressaca.
E foi exatamente o que aconteceu. Quando acordei, Fê já não estava mais na cama, e minha cabeça dava mais voltas que uma montanha-russa desgovernada. Lembrei, bem de leve, que ela havia me chamado há sei lá quanto tempo, me avisando que ia levantar para tomar um banho. Lembro que respondi qualquer coisa, mas não me pergunte o quê. Desnorteada, rolei para o lado e bati a mão na mesinha de cabeceira, mas meu celular não estava ali. Com um suspiro, joguei a coberta para o lado e me levantei meio cambaleante e com passos incertos. O sol entrava pela fresta da cortina, iluminando um pouco o ambiente e eu consegui chegar até a cadeira onde havia deixado minha bolsa. Peguei meu celular lá dentro e acendi o visor. Senhor! Quase duas da tarde! Rapidamente, eu joguei meu celular na cama, peguei uma toalha e corri para o banheiro — o que quase resultou em um tombo catastrófico, eu realmente não estava em perfeitas condições ainda para correr daquele jeito.
Prendi meu cabelo num coque mal-feito e tomei um banho rápido, rezando à todos os santos que me tirasse aquela dor de cabeça infeliz. Três dias bebendo sem parar... essas meninas não eram humanas! Por falar nisso, todas elas deviam estar acordadas já. Terminei o banho, vesti uma regatinha branca e um shorts curto de dormir mesmo, para ficar pela casa, e então saí do quarto. Quando saí, Fernanda, Claire e Rafa estavam no corredor, cochichando aos risinhos histéricos. Lá vem merda... Me aproximei.
– O que estão fazendo?
– Shhh! — Claire disse, segurando o riso, colocando o dedo indicador sobre a boca. — Fala baixo, ruiva!
– Oi, amor! — Fê disse toda animadinha, me dando um beijo muito rápido. Eita! Calma, eu acabei de acordar... Aquela euforia toda delas me deixou meio perdida.
– O que está rolando aqui, Fê? — perguntei, abaixando o tom de voz antes que aquela nanica pirada pulasse em minha jugular.
– Contra pra ela, Claire! — Fernanda disse, tapando a boca com a mão para conter o riso.
– Certo! Você não vai acreditar, Izie... É a Alisson e a Amanda... — ela começou, se controlando ao máximo para não rir. A Rafa só ria em silêncio. Ergui uma sobrancelha. — Rolou a maior safadeza a noite toda nesse quarto!
– O que?! — perguntei, quase gritando.
– Shhhhh! – as três me repreenderam ao mesmo tempo. Claire continuou: — É sério! Eu e a Rafa demoramos para pregar os olhos, foi uma gemeção a noite toda, maior swing louco, vocês tinham que ter escutado! Ou não, sei lá... — fez uma cara estranha, franzindo o nariz. — Enfim! Eu disse, desde o começo, que a coisa estava pegando fogo entre essas duas, ninguém me ouviu!
– Ai que exagerada! — Fernanda reclamou, mas ria.
Eu comecei a rir baixo. Inacreditável isso! Tudo bem, já tínhamos notado mesmo que Alisson e Amanda estavam bem próximas, mas já estava tão avançado assim? Eu achava, sinceramente, que a Claire estava exagerando, como sempre né. Exteriorizei esse pensamento.
– Eu acho que você está exagerando hein — disse meio desconfiada.
– Não estou, não! Rafa! — ela pediu socorro.
– É sério, Izie. Dessa vez sem exageros — a ucraniana respondeu, assentindo.
Sacudi a cabeça, desacreditada.
– De qualquer forma, nós vamos tirar a prova agora mesmo! — Claire falou.
– Como assim? — questionei, unindo as sobrancelhas. A nanica deu um sorriso diabólico e eu logo entendi suas intenções. Puts!– Claire! Você não está pensando em entrar lá, não é?
– Mas é claro que eu vou entrar! Nós já estávamos combinando a melhor forma de abordar as duas danadinhas lá dentro. Eu vou derrubar essa porta e pegar as duas dormindo agarradinhas naquela cama, você quer ver?!
Adiantaria eu falar alguma coisa? Pois é. Ela logo se posicionou diante da porta, a mão na maçaneta.
– Espera! — falei, segurando seu braço. Ela me olhou em dúvida. — Faz diferente, então. Se quer pegar elas "no flagra", entra em silêncio, não chega derrubando a porta. Vamos ser silenciosas.
Ela adorou a ideia. Se não pode com o inimigo, junte-se à ele. Foi o que eu fiz né. Devagar e sem barulhos, ela girou a maçaneta e fez uma cara sapeca quando viu que estava destrancada. Entramos silenciosamente no quarto, estava meio escuro porque a cortina estava fechada, mas nós deixamos a porta aberta e paramos ao pé da cama. Claire se manifestou aos sussurros:
– Eu vou dar um berro e pular na cama! — disse cobrindo a boca com as mãos.
Rafa e Fê sacudiram a cabeça, segurando o riso. Ela não prestava mesmo! Mas parece que aquele plano ainda não era o ideal.
– Assim não, Claire! — falei sussurrando também. — Temos que ser silenciosas e só acordar elas na hora certa. Tenta não ser tão doidinha! Espere aqui. — Eu fui até a cortina e comecei a abri-la lentamente, fazendo a luz do sol entrar e iluminar o ambiente.
Nós três abrimos a boca em surpresa ao mesmo tempo. A cena diante de nós era inédita! E um tanto fofa também, pode-se dizer. Alisson estava com a cabeça repousada no ombro de Amanda, que estava com o braço por baixo, abraçando-a. Mesmo com o edredom cobrindo as duas, era mais que óbvio que elas estavam sem roupa alguma, pois estas estavam jogadas pelo chão do quarto, junto com um dos travesseiros. O lençol estava meio embolado, elas dormiam bem juntinhas, o edredom estreito em seus corpos. Eu não acreditaria se não estivesse vendo com meus próprios olhos, quem diria?!
– Sinto cheiro de sexo em todo o lugar! — claro que Claire não ia deixar essa passar. Ela gesticulou fazendo um circulo no ar com as mãos.
Àquela altura, o sorriso e o riso contido já faziam parte de nós.
Amanda se mexeu um pouco na cama, respirando fundo, e uniu as sobrancelhas de leve, provavelmente por causa da claridade. A nanica viu a deixa perfeita.
Gritou, batendo palmas:
– Vamos acordar, suas safadonas! Levantem dessa cama, go go go!
Amanda foi a primeira a reagir, despertando com um susto, levantando a cabeça. Alisson só resmungou e virou o rosto, colocando-o na curva do pescoço de Amanda, que nos olhou com os olhos bem estreitos por conta do sol.
– Mas o que... — ela estava desnorteada. Então, sua ficha pareceu cair e ela se deu conta da atual situação em que ela e Alisson se encontravam ali, diante de nós. — Ah, merda!
Nós fizemos o que? Rimos, é claro. Alisson resmungou outra vez, parecia não ter acordado direito ainda, mas quando ergueu o olhar e nos viu ali, ela arregalou bem os olhos e cobriu o rosto com a coberta. Claire não perdoava, batia palmas, gritava mandando elas levantarem de uma vez, chamava elas de safadadas, e eu acho que a Fê estava surpresa demais porque só olhava e ria e não estava acompanhando a amiga na maluquice. Mas uma frase fez as duas despertarem na hora:
– Eu vou puxar a coberta! — Claire ameaçou.
– Não! – elas gritaram juntas, desesperadas. Claire gargalhou. Amanda completou: — Você não ia querer fazer isso, escute o que estou dizendo.
– Só não faço mesmo em respeito às minhas amigas presentes que não são obrigadas a verem uma cena dessas — respondeu toda dissimulada.
Amanda riu. Era engraçado, e fofo, que elas não tentaram esconder ou disfarçar o que tinha acontecido. Claro que seria impossível, com todas as evidências tão claras ali, mas ainda assim, a naturalidade delas foi total. Amanda não deixou de abraçar Alisson e até a aconchegou mais perto de seu corpo, disposta a mostrar que havia mesmo algo entre elas.
– Bem, o papo é o seguinte — Claire voltou a se pronunciar. — Eu encomendei uma deliciosíssima torta folhada de frango na padaria e eles me disseram que ficaria pronta em duas horas. Já faz quase duas horas, e daqui a pouco eu estou indo até lá. Vocês têm dez minutos para levantar dessa cama, recolher suas dignidades junto com suas roupas espalhadas por todos os cantos, tomar um banho decente e arejar esse quarto porque eu sinto cheiro de sexo lá da capital! Capiche?
Elas riram.
– Ta bem, Claire. Entendido. Dez minutos. Tchau, vai — Amanda disse fazendo um gesto com a mão, tipo "xô daqui".
Claire já ia se sentindo ofendida com isso, mas eu tratei de arrancar ela do quarto e a Fê e a Rafa nos acompanharam. Ela ainda gritou "dez minutos!" antes de eu fechar a porta com uma risada. Essa foi a primeira grande surpresa do dia. E aquele dia ainda prometia mais. Depois que nós descemos, Claire se dirigiu até a padaria para buscar a tão anunciada torta. Poucos minutos antes de ela voltar, Amanda e Alisson desceram e nós fomos para a cozinhar ajeitar as coisas para "tomarmos café" — as duas da tarde, detalhe. Quando a torta chegou, nós comemos. Realmente, estava deliciosa, e era melhor que qualquer café da manhã naquele momento porque depois da bebedeira de ontem colocar um leite pra dentro não me parecia uma boa ideia. A torta e o suco natural vieram à calhar.
Nós estávamos conversando animadamente, zoando Ali e Mandy sempre que podíamos, até que de repente Alisson teve uma reação muito esquisita — ela abriu bem os olhos e cobriu a boca com as mãos, como se tivesse visto ou escutado algo absurdo. Mas o mais esquisito é que Rafa reagiu à reação dela, arregalando os olhos e corando no mesmo instante. Ninguém pareceu perceber isso, Claire falava as doideiras de sempre dela, Fernanda e Amanda a escutavam e riam de qualquer coisa que ela havia falado e eu não tinha prestado atenção. Uni as sobrancelhas. De repente, Ali se levantou da mesa e apontou para Claire, que estava do lado oposto:
– Depois eu que sou safada, não é, Claire?! — falou alto, chamando a atenção de todo mundo.
Rafa estava "mais vermelha que unha de prostituta", termo engraçado que Claire usava constantemente. Eu não estava entendendo mais nada! Então, todas ficaram confusas, e a acusada olhou para ela com uma cara de quem não havia compreendido a acusação.
– Do que você está falando?!
Alisson começou a rir feito uma louca, ela deu até uns pulinhos, sacudindo a cabeça em negação. Certo, alguém me explique a piadinha interna? Ela olhou para Rafa e percebeu a vermelhidão em seu rosto, coisa que a fez rir ainda mais. A ucraniana além de vermelha, parecia apavorada com alguma coisa. Meu Deus, mas o que é que estava acontecendo naquela mesa? Ali limpou a garganta, controlando seu ataque de histeria, então deu a volta na mesa e foi até Claire, puxando-a pelo braço para fora da cadeira para que ela ficasse de pé. Sem entender nada, deixou que ela a colocasse de pé, olhando para Alisson como se ela fosse um extraterrestre.
– Tô falando disso! — Ali respondeu e virou de Claire de lado, tirando o cabelo dela do pescoço.
Eu, Fê e Amanda abrimos a boca em surpresa. Tinha uma marca roxa enorme ali!
– Mas o que... Ai, Alisson! — Claire resmungou, se desvencilhando das mãos dela.
– Nanica! Sua safadinha, falando da Alisson, mas você também aproveitou bem a noite hein?! — Fernanda disse já caindo na risada, junto comigo e Amanda.
– Do que vocês estão falando, caramba? — Claire começou a ficar emburrada.
– Er... Claire... — Rafa se pronunciou, fazendo uma cara de arrependida. Então, tudo ficou claro demais. — Acho que tenho que pedir desculpas...
– Hã?
– Rafaela! — Fernanda quase berrou, abrindo bem a boca em surpresa quando entendeu também. — Tu não perde tempo! — Se virou para Claire novamente. — Tem um chupão enorme no teu pescoço, nanica, é sério!
– O que?! — ela se desesperou e colocou a mão no pescoço. — Não pode ser...
– Ah, mas é claro que pode! — Alisson disse entre risos. — Parece que eu e a Amanda não fomos as únicas no "swing louco" ontem a noite, como você disse agora a pouco!
– Meu Deus! — Fernanda ria tanto que achei que fosse desmaiar por não respirar. Claro que Amanda e eu não estávamos muito diferentes.
Com a mão no pescoço e uma cara que eu não sabia se era desespero ou desconfiança, Claire saiu da cozinha e foi até o banheiro. Nós a seguimos, e foi inédita a cara dela ao olhar no espelho e constatar a marca roxa ali.
– Rafa! — ela exclamou quase como uma repreensão. Estava abismada, a boca bem aberta em surpresa. Isso nos fez voltar a rir, e dessa vez Rafaela riu também, fazendo cara de quem tinha aprontado. Claire soltou uma risada desacreditada.
– Mas... Puts! — Rafa disse como se tivesse lembrado-se de algo. Abriu bem os olhos. — Espera. — Disse e entrou no banheiro com Claire, fechando a porta. Nós nos entreolhamos, sem entender nada!
– Puta merda, Rafa! — Claire gritou lá de dentro e ela riu. — Nossa, cara, olha isso... - parecia indignada.
Quando ela voltou a abrir a porta, nós tentamos arrancar alguma coisa delas, mas Claire fugiu até o último instante. Eu não sei o que elas tinham visto, mas não quiseram compartilhar. Alisson não deixou passar um minuto sem zoar as duas, e nós estávamos tentando entender exatamente o que tinha acontecido. Sério que as duas tinham se pegado? Espera, essa era nova! A nanica que sempre fora tão orgulhosamente hétero, que quase quis matar a Fê quando soube que ela tinha armado aquele primeiro encontro entre elas na faculdade, agora aparecia com um chupão no pescoço e Rafa com aquela cara de culpada, porque era ela a autora da façanha? Ok, acho que aquela viagem estava mexendo com os hormônios daquelas meninas, não era possível.
Para não perder o resto da tarde, nós resolvemos ir até a praia, o dia estava bonito lá fora e seria um desperdício ficar dentro de casa o dia todo. Eu estava com o plano todo arquitetado na cabeça, para de noite. Minha intenção era levar Fernanda para comer em algum lugar, fazer um programinha mais íntimo e só nosso, onde eu entregaria a aliança e a pediria em namoro oficialmente. Queria que tudo fosse o mais bonito e especial possível, queria que fosse algo que ela se lembraria para sempre. Passei a tarde um tanto avoada e boba com esses pensamentos, claro que as meninas perceberam, mas disfarcei, não ia contar para elas porque do jeito que eram não aguentariam de ansiedade e contariam tudo à Fê antes da hora.
Nós resolvemos entrar um pouco na água depois que Amanda voltou de lá dizendo que estava uma delícia. A Fê disse que ia cuidar das nossas coisas e depois entraria comigo.
– Tem certeza, amor?
– Sim, Izie. Pode ir lá com as meninas, sem problemas — sorriu.
Sorri de volta, dando de ombros então. As meninas chamaram a Claire e a Rafa, e elas aceitaram. Porém, Claire já se dirigia para a água com o biquíni e uma camiseta por cima, e Alisson logo estranhou.
– Vai entrar de camiseta na água, sua doida?
– Vou, ué, o que que tem? — deu de ombros.
– Ok, Claire, pare aí mesmo. Você é a primeira a ficar pelada na praia, se deixassem aposto que faria nudismo todos os dias aqui! Agora vai entrar de camiseta? Pare de coisa e deixa a camiseta com a Fê para podermos ir pra água.
– Ai, Alisson, quanta implicância! E se eu quero entrar de camiseta hoje? Me deixa — estalou a língua, emburrada. Rafa estava ao lado, de lábios apertados, parecia tentar segurar o riso e disfarçar alguma coisa.
– Tá, você que pediu. — Dito isso, Ali avançou para arrancar a camiseta dela à força, e logo elas estavam quase se batendo, nós só ríamos diante daquela cena "nada" infantil.
Claire se contorcia para fugir das mãos dela, segurando a camiseta no corpo como se sua vida dependesse daquilo, e ralhava com Alisson que se divertia com o mau humor dela. Agora até eu estava começando a estranhar aquilo: por que ela não queria tirar aquela camiseta, afinal?!
– Pare de frescura, nanica! — Fernanda gritou da cadeira, rindo.
– Não se mete, Nogueira! Alisson, que saco, vai rasgar! — ela resmungava, tentando manter a camiseta em seu corpo.
Rafa estava com as mãos na cabeça observando a cena, não sabia se ria ou se ajudava.
– Eu disse que isso não ia funcionar — comentou consigo mesma. Uni as sobrancelhas.
– O que está acontecendo, Rafa? Por que ela não quer tirar aquela camiseta? — questionei.
– Ahn... — Rafaela apertou os lábios. Não deu tempo de ela responder, pois em seguida o grito de Alisson fez todas nos cortarmos o riso e olharmos para ela:
– Ahhh, está explicado! Espertinha!
Fernanda levantou num pulo da cadeira e nós abrimos a boca em surpresa. A nossa surpresa só durou um segundo, pois no seguinte nós estávamos rindo outra vez. Nossa! Tinha outra marca roxa em sua barriga, quase na curva de sua cintura, tão grande quanto a outra em seu pescoço.
– Parece que a noite de vocês foi longa ontem, huh? — falei com certa ironia. E Rafa já estava corada outra vez, toda sem jeito. As meninas não se aguentavam, Alisson bagunçou o cabelo de Claire e jogou a blusa para Fernanda.
– Na hora do vuco-vuco nem sequer pensou nas consequências desses chupões, não é?! Agora vai ter que aguentar! — zombou.
Assim, com Alisson infernizando Claire, nós seguimos para a água. Dei um beijo em Fê antes de seguir com elas, pedindo para ela se cuidar ali. Ia ficar só um pouco na água com as meninas e voltaria, não confiava em deixar Fernanda muito à vontade ali porque sempre tinha um que passava e a secava na minha presença, imagina quando eu não estava com ela? Não ia correr riscos né, obrigada. A água realmente estava boa, não estava gelada e a maré estava baixa, sem muitas ondas fortes. Dava para passar uma boa hora no mar sem nem perceber, mas de vez em vez meus olhos se voltavam para onde estavam nossas cadeiras.
Aconteceu algo que me chamou a atenção e eu parei de prestar atenção na brincadeira das meninas. Fernanda estava parada de pé ao lado da cadeira, ela aparentemente ia comprar algo para comer, pois tinha um rapaz com um desses carrinhos de praia que vendia alguma coisa que à distância eu não distingui. Logo, três caras se aproximaram e ficou óbvio que eles mexeram com ela, pois ela se virou e se afastou quando eles pararam e se inclinaram em sua direção. O rapaz do carrinho fez um gesto com a mão, como se pedisse para eles saírem. Meu sangue já começou a ferver e eu comecei a sair da água sem dizer uma palavra. Eu disse! Parece que essas pessoas não se aguentavam. Isso que me deixava louca da vida! Claro que ela chamava a atenção, era natural, Fernanda era linda, mas eu ainda não tinha aprendido a lidar com aquilo — e não sabia se aprenderia, francamente.
Porém, outra coisa aconteceu em seguida e eu fiquei então sem entender. Uma garota se aproximou do carrinho e, percebendo que os caras mexiam com a minha namorada, ela passou na frente de Fernanda e começou a discutir qualquer coisa eles, que retrucavam e riam. Eu me aproximava nesse exato momento.
– Já disse para irem embora! Deixem a menina em paz, qual é o problema de vocês? — a garota reclamava.
– O que está acontecendo aqui?! — já cheguei bufando. Todos eles olharam para mim. Tomei a frente daquela garota. — Vocês estão mexendo com a minha namorada, é isso? Que tal vocês fazerem isso na minha frente?!
Eles riram e o rapaz que estava na frente, um meio loiro de olhos castanhos claros e uma barba curta por fazer, me peitou.
– Ela é sua namorada, então? Não tem problema, você pode se juntar à nós sem problema algum! E a morena aí também — apontou para a garota atrás de mim que eu não sabia quem era.
– É, eu vou juntar sim... Vou juntar a minha mão na sua cara, imbecil! — eu avancei para cima dele, mas Fernanda logo estava em cima de mim, me segurando.
– Izie, não! Deixa isso pra lá, por favor!
– É, eles já vão embora — a morena falou, lançando um olhar duro para eles.
– Uhhh, a ruivinha é brava! — tiraram um sarro. Eu só ficava mais irritada.
– Vão embora, por favor, não me façam ter que chamar um segurança — o vendedor disse, tentando apaziguar.
Os idiotas enfim desistiram e saíram rindo, ainda zombando e fazendo gestos obscenos para nós. Minha mão coçava pra acertar a cara daquele loiro! Sujeito abusado! Me livrei com certa indelicadeza dos braços de Fernanda que me seguravam, bufando de raiva. As meninas apareceram de repente.
– O que houve? — Claire perguntou olhando em dúvida para nós.
Eu não conseguia falar, só pensava em assassinar aquele projeto mal feito de Brad Pitt, e logo!
– Foram uns idiotas que deram em cima da namorada dela — a garota morena explicou.
– E você quem é, garota?! — Claire perguntou meio sem educação, olhando com uma cara estranha para ela. A garota ficou sem jeito na hora e baixou o olhar por um instante.
– Claire, seja um pouco menos grossa, vai — reclamei, depois de respirar fundo. Me dirigi até a garota. — Desculpa. E, de qualquer forma, obrigada por ter interferido antes que eu chegasse. Meu nome é Ísis. — Fui mais educada. Ela se apresentou meio timidamente. Seu nome era Raíssa. Ela tinha mesma estatura que nós, mais ou menos, tinha a pele morena de sol, mas não muito bronzeada, olhos castanhos e seus cabelos eram pretos e lisos até a altura de suas costelas, sendo que as pontas eram onduladas. — Essa é a Fernanda, a minha namorada, como você já sabe. E essa coisa nanica e sem educação é a Claire, ela é a Rafa, Alisson e Amanda — apontei, apresentando as meninas. Claire estirou a língua para mim.
– Eu não sou sem educação, foi espontâneo, desculpa.
Raíssa respondeu pedindo para que ela não se importasse com isso. Cumprimentou as meninas e sorriu.
– E ah, não ligue para aqueles caras, está bem? Eu conheço eles, fazem isso o tempo todo aqui, já deram em cima de mim e das minhas meninas, são uns idiotas. Os seguranças já os expulsaram da areia umas quatro vezes só essa semana, mas eles não desistem. Só esquece.
Dei de ombros, dizendo que tentaria ignorar.
– Estão só vocês seis aqui? — ela perguntou.
– É, sim, só nós — respondi.
– Entendi. Por que não se juntam à nós, na nossa tenda? Estou com quatro amigas minhas lá. Podemos fazer uma baguncinha, se quiserem — disse com um sorriso.
– Baguncinha? Oba! Eu tô dentro, com ou sem vocês. — Claire já aceitou na hora, mostrando sua outra faceta, que fez Raíssa rir.
– Vocês estão em uma tenda? — questionei.
– Sim sim, aquela branca e vermelha ali — apontou para o outro lado da praia. A tenda era grande e meio alta, dava para ver à distância.
Não achei que seria uma má ideia. Então, aceitamos. Enquanto Fê, Claire e Rafa ficaram perto do carrinho esperando — era um carrinho de Milho Verde, as meninas resolveram comprar para todo mundo e levar até a tenda -, Alisson e Amanda me ajudaram a ajeitar as nossas coisas e pegar nossas cadeiras. Uma das amigas de Raíssa se aproximou para ajudá-la com as bandejinhas — Ana Luísa, como ela a apresentou, mas gostava de ser chamada apenas de Lu; uma garota com cabelos loiros escuros e olhos de um verde-garrafa, um sorriso simpático no rosto.
Aquele final de tarde passou prazerosamente, eu até consegui me esquecer do pequeno grande incidente de antes. As amigas de Raíssa eram bem animadas e claro que não demorou para estarmos agindo feito amigas de anos. Tinha a Lu, que a Rai — como ela pediu que a chamássemos — já havia nos apresentado, a Carolina, que lembrava bastante Raíssa pela cor de cabelo e olhos, elas brincavam dizendo que eram gêmeas separadas na maternidade — quase dava para acreditar -, e tinha também Laura, uma garota de cabelos loiros avermelhados e olhos verdes bem vivos, era a mais tímida das cinco, mas ainda assim não deixava de participar da bagunça; e tinha a Isabella, morena de cabelos castanho escuro e olhos verdes, as meninas brincavam que não havia um que não babasse nela — afinal, uma morena de olhos verdes? Era de se chamar o mínimo de atenção sim.
Elas se divertiam com todo o tipo de assunto que você pudesse imaginar, sempre ironizavam tudo e viviam atormentando uma à outra, e logo pegaram intimidade o suficiente para atormentar Claire por conta dos chupões em seu corpo. Descobrimos que todas as meninas, com exceção de Laura que namorava o irmão da Carol, eram gays. Era incrível como nós parecíamos meio que atrair umas às outras, sempre acontecia isso de encontrarmos, sem saber, garotas que também eram gays. Ao todo, aquela tarde passou que nem percebemos. Quando já estava caindo a noite, elas resolveram começar a ajeitar as coisas.
– Ei, meninas, vai ter um luau hoje mais tarde, vocês querem vir com a gente? — Laura propôs.
– É verdade, bem lembrado, Laurinha! — Rai disse com um sorriso. — Vai ser perto do porto. Vamos armar nossa tenda por lá e chamar uns amigos, tem um pessoal que vai tocar com a gente. O que acham?
As meninas aceitaram logo de cara, pareceu a ideia perfeita. Eu fiquei um pouco recuada, não era exatamente o que eu havia planejado para aquela noite — afinal, era a noite que eu entregaria as alianças à Fê! Será que eu poderia fazer isso ali, naquele luau? Ou não era uma boa ideia? Fiquei em um conflito. Rai percebeu e se aproximou de mim, que estava um pouco mais afastada das meninas, lutando com meus pensamentos.
– Você não quer ir não, Izie? — perguntou em dúvida.
– Não, não é isso, é que... — apertei os lábios. Olhei por cima dos ombros dela, para Fernanda e ela conversava animadamente com as meninas. Ia ter que dizer à ela. — Então... Essa noite eu pretendia oficializar meu namoro com a Fê, eu comprei as alianças antes de virmos para cá.
– Sério?! — ela abriu um sorriso. — Nossa, que lindo, Izie! Bem, acho que esse luau então não era exatamente o que você estava planejando, eu entendo.
– É, mas... A Fê já aceitou e ela parece animada, acho que vai ser muito suspeito eu dizer que não quero e levar ela para outro lugar. Você acha que... Acha que seria adequado eu fazer isso no luau, entregar as alianças e pedi-la em namoro? Ou devo deixar para outro dia? — perguntei meio acuada.
Ela abriu a boca e deu um sorriso grande.
– Eu tenho uma ideia! Posso falar com os meninos para eles me ajudarem a esquematizar uma coisa assim bem romântica, no luau, nós podemos decorar "a caráter", entendeu? O Luca, o namorado a Laura, vai tocar também e eu posso falar com ele para a gente montar um esquema com relação ao som também. Você poderia aproveitar o momento para fazer a sua linda declaração — ela disse que nem uma sonhadora romântica, fazendo carinha de apaixonada, e eu ri sacudindo a cabeça -, lá no luau mesmo! O que acha da ideia? Isso ia ser tão lindo! Acha que consegue?
Juntei as mãos, nervosa. Me pareceu uma boa ideia conforme fui criando a imagem na minha mente. O único problema é que já não seria uma coisa tão íntima, teria várias pessoas presentes. Eu era capaz de fazer aquilo diante de todo mundo? Meu coração quase saltava pela garganta. Respirei fundo.
– Ok, certo! Então, vamos fazer isso sim — decidi. Rai deu um pulinho animado. — Mas não conte pra ninguém, por favor! No máximo ao Luca, não quero que chegue aos ouvidos das meninas e elas acabem abrindo a boca antes da hora, porque elas são assim.
– Tranquilo, sem problemas, não se preocupa! Vai ser nosso segredo.
Eu estava muito nervosa mesmo.
Foi meio difícil controlar meu nervosismo e ansiedade, Fê desconfiou um pouco, mas no fim consegui driblá-la. As meninas do nosso grupinho estavam animadas demais para notar qualquer diferença em meu comportamento. As meninas da Rai, com a própria e a ajuda dos rapazes que confirmaram presença, começariam a montar e organizar o luau por volta das nove da noite, e pretendia render a madrugada toda. Teria música acústica, que Laura garantiu que seria boa — nós brincamos chamando ela de baba ovo porque o namorado dela era o "cabeça" do grupo que tocaria e ela estava se gabando disso, mais que a própria Carol que era irmã dele -, teria bebida, comida, e boa companhia, disso eu não tinha dúvidas. Estava começando a achar que aquelas meninas tinham aparecido em um bom momento, era bom se socializar com o pessoal dali, elas pelo menos eram bem simpáticas e não duvidada que os meninos também fossem.
Nós voltamos para a casa e então lavamos a areia do corpo. Claire foi com a Rafa até o mercado para dar uma abastecida básica nos armários para os próximos dias, já que ela não tinha feito uma super compra quando chegamos. Eu, Fê, Amanda e Alisson ficamos na sala assistindo a um filme qualquer que passava em um dos canais à cabo.
Eu não prestava atenção realmente, Fernanda estava deitada no meio das minhas pernas, a cabeça repousada em meu peito, e enquanto acariciava seus cabelos ficava pensando no quanto aquela noite prometia para nós. Não conseguia controlar aquele nervosismo que eu lutava para não exteriorizar, eu realmente sabia que seria um passo e tanto, um passo tão grande que nunca havia dado com nenhuma outra garota. Mas eu não voltaria atrás, era aquilo que eu queria — queria um compromisso de verdade com ela, queria tê-la para sempre e só para mim.
As horas passaram rapidamente, nos aproximando cada vez mais daquele luau. As meninas começaram a se arrumar por volta das oito e meia da noite. Deixei Fernanda tomar banho primeiro, e enquanto isso aproveitei que ela estava ocupada lá e guardei a caixinha de veludo vermelha dentro da minha bolsinha de mão que levaria. Depois disso, não desgrudei daquela bolsinha por nada. Quando entrei para tomar banho, disfarçadamente eu a levei comigo — estava morrendo de medo de que ela descobrisse antes da hora e estragasse tudo o que tinha planejado.
Depois do banho, ajeitei e realcei um pouco os cachos do meu cabelo, deixando eles no estilo meio bagunçado que eu sempre costumava usar, e vesti uma roupa leve: uma saia godê preta, uma blusinha branca, um fedora hat preto e uma botinha nos pés (n/a: look Ísis). Quando terminei, Fernanda apareceu, pronta e tão linda como sempre, vestindo um vestidinho vermelho sem mangas, colar e pulseiras douradas e uma ankle boot preta de veludo, essas ficavam lindas nela, realçavam suas pernas e postura (n/a: look Fernanda). Seu perfume era inebriante, sempre me fazia querer absorver todo o ar ao seu redor. Ela era perfeita.
– A botinha é só pra fazer um charme ok, na areia vou ter que tirar mesmo — Fê disse com uma carinha sapeca, encolhendo os ombros. Só sorri e sacudi a cabeça.
– Você está linda, meu amor, como sempre esteve — dei um beijo em seus lábios.
Então, descemos. As meninas também vestiam roupas leves, vestidinhos ou saias, e optaram por sapatos rasteiros, justamente por causa da areia. Nós saímos da casa era quase onze horas, eles já deviam ter montado a tenda e organizado tudo. Eu apertava a bolsinha em minhas mãos, todo o meu mundo estava ali dentro daquela bolsa, dentro daquela caixinha. Meu coração martelou incansavelmente em meu peito durante todo o trajeto e só foi se acalmar depois que chegamos ao ponto de encontro.
De longe identificamos a tenda da Rai e quando nos aproximamos, tinha várias pessoas ali já. Fomos apresentadas à todas elas, havia outras meninas que não tínhamos conhecido ainda, namoradas dos meninos, que por sinal eram muito simpáticos e elas também. Conhecemos Luca, o tão falado namorada da Laura, e ele era um amor de pessoa; tinha a pele levemente bronzeada, cabelo loiro escuro, quase castanhos e cortadinho ao estilo moderno, tinha vívidos olhos castanho-esverdeados e um sorriso bonito e simpático.
Um palanque havia sido colocado, onde três bancos altos e amplificadores haviam sido posicionados para o grupo que tocaria. Havia uma mesa onde estavam as comidas e as bebidas eram mantidas em caixas térmicas com gelo para que durassem a noite toda sem esquentar. A decoração estava bonita, Rai e as meninas havia pendurado luminárias vermelhas quadradas à óleo em uma linha de náilon que cruzava o teto da tenda, dando uma iluminação baça e gostosa ao lugar. Havia fitas vermelhas trançando os suportes da tenda e as linhas das luminárias no alto também. Vermelho é a cor do Amor, Rai disse para mim quando a cumprimentei, baixinho, com um sorriso. Sorri de volta. Estava tudo realmente lindo e inspirador.
Pouco tempo depois, os meninos se posicionaram no palanque e nas próximas três horas nós os ouvimos tocar diversas músicas, populares ou internacionais, no melhor estilo à cappella, com instrumentos bem suaves só para dar aquele quê a mais. Eles eram muito bons, e havia músicas que até nos empolgamos em cantar junto. No final, deixamos Laura se gabar bastante, ela podia, pois seu namorado tinha uma voz e um talento incrível para a música. Nós fizemos uma pequena pausa para comer.
Nessa pausa, eu achei que seria o momento ideal para fazer meu anunciamento. Chamei Rai e Luca de canto e eles concordaram. Luca pediu para os meninos desocuparem o palanque, e disse que eu poderia usar o microfone. A princípio eu fiquei desesperada, como assim usar o microfone?! Eles conseguiram me deixar ainda mais nervosa. Tentei me manter calma.
Estava sentada ao lado da Fê em um dos bancos, enquanto eles ajeitavam o meu futuro palco. Luca subiu e ajeitou o microfone. Anunciou:
– Bem, pessoal, peço a atenção de vocês aqui agora. — Todos se postaram ali, ouvindo. — Essa noite não é uma noite qualquer e este não é um luau qualquer. Hoje vamos ter um evento especial, uma coisa que, na verdade, não presenciamos todos os dias, mas bem que gostaríamos. Quero chamar uma pessoa ao palco, ela conduzirá daqui. Ísis, por favor — ele estendeu a mão para mim, com um sorriso.
Meu coração quase saltava para fora do meu peito. As meninas logo ficaram extremamente confusas e começaram a cochichar ao nosso lado. Fernanda me olhou sem entender, mas eu apenas sorri para ela. Com um movimento sutil, puxei a caixinha de veludo para fora da bolsinha e a apertei entre minha mão para escondê-la. Então, levantei, e respirando fundo, e fiz meu caminho até o palco, onde Luca me ofereceu a mão para subir e eu aceitei. Era agora ou nunca, eu tinha que conseguir. Ele deu um sorriso para me encorajar e então desceu, ficando ao lado de Laura, que eu percebi questioná-lo sobre o que ia acontecer, mas ele nada respondeu. Todos me olhavam em expectativa.
– Bem... – comecei nervosa, pigarreando. As meninas me olhavam curiosa, apenas Rai tinha um sorrisão enorme no rosto, por já saber o motivo daquela minha interrupção na festinha. – Primeiramente eu queria dizer que está muito bonito aqui, vocês fizeram um ótimo trabalho, de verdade – falei apontando para os organizadores, que assentiram e sorriram. Respirei fundo. Era agora. – E segundo, eu queria aproveitar esse momento tão propício para fazer algo que já tenho em mente há algum tempo. Como vocês já sabem, pois foram devidamente apresentados, aquela garota maravilhosa ali, no vestido vermelho – apontei, sorrindo com carinho em sua direção; mencioná-la na conversa logo lhe chamou a atenção e de todas as meninas também -, é a Fernanda, minha namorada. Nós tivemos uma história meio... como posso dizer? Complicada, talvez, embora não seja exatamente esse o termo. Nós nos conhecemos desde criança, na oitava série, e sempre fomos muito próximas. Há pouco tempo descobrimos esse amor que estamos vivendo, mergulhamos de cabeça nele, e eu realmente estou muito feliz de tê-la ao meu lado como mulher.
Fiz uma pausa nesse momento, deixando as mãos juntas para esconder a caixinha com as alianças. Respirei novamente. Fernanda me olhava com um brilhinho lindo nos olhos. Continuei:
– Eu nunca havia me apaixonado por alguém, até Fernanda aparecer. Eu posso dizer, com toda a certeza desse mundo, que desde o primeiro momento ela ganhou meu coração e sempre foi o motivo de ele bater mais forte. Mas realmente lamento muito por termos perdido tanto tempo para começarmos a viver esse momento. É a única coisa da qual me arrependo. Ela significa para mim muito mais do que sou capaz de expressar em palavras, tenho certeza de juntas nós vamos poder construir muita coisa. E, bem, eu... Eu escolhi a data de hoje, dia cinco de junho, porque hoje faz exatamente oito anos e um mês que nós nos conhecemos. – Eu já estava suando frio, minhas mãos tremiam. Fernanda não parecia estar diferente, me olhava com uma expectativa enorme nos olhos e feições. Claire já estava toda sorridente, provavelmente tinha adivinhado tudo, ela cutucava a Fê, animada. Depois de tomar todo o ar possível, dei continuidade: — E... Como hoje é um dia muito especial para mim, muito especial para nós, eu decidi que seria nele que daríamos início ao nosso oficial e verdadeiro namoro. Então, Fernanda Nogueira... – com o coração a mil, finalmente revelei a caixinha vermelha de veludo em minhas mãos e a abri. Ela colocou as mãos sobre a boca, surpresa. – Você aceita ser minha namorada? Com todos os clichês possíveis? – dei um sorriso. Estava muito nervosa!
Desci do palanque e fiquei de frente para ela, para lhe oferecer as alianças. Claire já esperneava com seus ataques histéricos e dizia que ia chorar. As meninas estavam surpresas e encantadas, todas elas, não só Rafa, Alisson e Amanda, as meninas da Rai também. Fernanda levantou devagar, abaixando as mãos que cobriam sua boca. Seus olhos estavam marejados, as bochechas levemente coradas e os lábios entreabertos e trêmulos. Eu podia ver a emoção em seu olhar, e aquilo me deixou mais confiante que nunca. Sabia que ela queria aquilo tanto quanto eu.
– Izie, eu... – ela tentou falar, mas sua voz estava cheia de emoção, trêmula. Apertou os lábios e uma lágrima escorreu por sua face. O sorriso lindo que ela abriu em seguida atingiu em cheio o meu coração. – Eu não sei o que dizer, eu... não esperava isso. Mas, sim. Com todos os clichês possíveis, eu aceito ser sua namorada, sim!
Com um sorriso extremamente abobalhado, eu me controlei para não agarrá-la naquele momento mesmo. Repousei a caixinha sobre minha mão esquerda e, com a direita, retirei a aliança que estava gravada o meu nome. Sua mão direita estava trêmula quando a esticou para mim, e a minha não estava diferente. Devagar, coloquei a aliança prateada em seu dedo anelar. Meu sorriso aumentou ainda mais ao vê-la deslizar e se encaixar perfeitamente ali, dando um brilho especial à sua pele. Ela pegou a outra aliança e segurou minha mão direita, deslizando e encaixando-a em meu dedo.
Quando fechei a caixinha em minha mão e, com o coração batendo feliz como nunca eu beijei Fernanda, Claire foi a primeira a dar um grito, e então todo mundo se animou e soltaram gritinhos também, os meninos assobiaram, bateram palmas. Luca estourou uma champanhe, as meninas estavam eufóricas. Por um momento deixei de ouvir os sons ao nosso redor, seus lábios e seu corpo junto ao meu era tudo o que eu sentia. Mas então, nos afastamos. Nossas testas coladas, os braços dela em meu pescoço, sua voz soou docemente em meu ouvido:
– Eu te amo, Izie.
– E eu amo você, minha pequena – respondi com um sorriso, que foi retribuído. – Agora você é minha para sempre.
– Eu sempre fui sua para sempre – ela disse sorrindo. — Obrigada, meu amor. Por tudo isso, por todas as palavras. Eu nunca poderia imaginar... Eu estou muito feliz. Você é incrível.
Luca apareceu ao nosso lado com duas taças nas mãos. Ofereceu as taças à nós, dizendo:
– O primeiro gole é do casal – sorriu.
Nós sorrimos de volta e aceitamos as taças. Os meninos distribuíram as outras taças para as pessoas ao nosso redor. Quando nós brindamos e tomamos o primeiro gole, todos eles ergueram a taça no alto com uma comemoração, e então beberam também. Parecia uma grande cerimônia. Eles tinham sido incríveis em todos os detalhes. Logo a chorona da Claire nos deu um abraço grupal e todo mundo se juntou para o abraço. Eu estava realmente muito feliz com aquele momento.
O resto da noite passou de um modo gostoso. Os meninos largaram os instrumentos que tocavam desde o início e então o luau de repente virou um tipo moderninho de rave particular, eles colocaram eletrônica na aparelhagem de som que trouxeram e então passamos a noite toda entre brincadeiras, dança, bebida e comida. Foi muito especial, animado e divertido.
Os ponteiros voaram.
O céu no horizonte começava a tomar sua primeira coloração alaranjada que indicava a alvorada, e eu observei o sol nascer naquele dia sentada na areia com Fernanda entre minhas pernas, sua cabeça descansando em meu peito, minha mão fazendo um carinho terno em seu cabelo, enquanto nossas mãos com as alianças estavam entrelaçadas.
Eu me sentia outra pessoa, me sentia purificada, sentia que estava começando uma vida nova.
E eu realmente estava. Mas, dessa vez, ao lado da garota que eu amava.
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