Paraíso Central.
2 Água benta.
Notas iniciais
Apesar de não ligar para a dor, não queria dizer que Sasuke não a sentia. Apenas a ignorava com maestria.
Colocou os cabelos sedosos para trás sentindo-os voltar para frente, como sempre desobedeciam. Abaixou-se diante da moça de cabelos peculiares, querendo repará-la de alguma forma. Ele passara por isso nos primeiros anos, mas depois de tanto tempo, não precisou mais da água benta com tanta frequência.
Olhou bem para Sakura e estabeleceu um mínimo contato com ela, que também o olhava. A boca estava um pouco aberta, para não encostar os lábios um no outro. O olho direito estava semiaberto, enquanto o esquerdo estava fechado e vermelho. A pele estava castigada.
— Fique aqui um pouco. – Pediu, não pensando na possibilidade da menina levantar sozinha.
O Uchiha estava um pouco desconfiado. Seguramente, aquela menina com cheiro agradável nas roupas era apenas alguém que se perdeu, e ele não podia levá-la até a saída. Simplesmente porque não conhecia uma. Diversas vezes afastou as cortinas e viu moribundos pelas ruas de Centralia, mesmo a noite, quando o breu não deixava brechas e o silêncio perigoso o alertava para antes de sair e acolher a pessoa, olhar para todos os lados. Nunca dava tempo. Aos primeiros sinais do amanhecer, quando ficava pronto para sair, encontrava restos do que foi um humano. Com Sakura foi diferente. Decidiu encarar a noite e os monstros que ela poderia lhe ofertar.
Não havia um motivo especial. Fizera isso por si.
Já não aguentava mais estar sozinho por tanto tempo e desperdiçar a chance de ter alguém que pudesse sofrer com ele. Era egoísta, mas Sasuke não se importava. Queria muito que alguém se perdesse por ali e que pudesse ajudar, e incrivelmente, as pessoas se perdiam na hora errada. Como Sakura. À noite.
Na cozinha improvisada, o moreno pegou num armário de portas frouxas uma bacia de plástico com uma tampa de panela velha. Usou cautela para não deixar uma gota do que havia dentro dessa bacia cair, e ao colocar o pote em cima da pia rachada, esgueirou-se enquanto tentava lembrar onde estava o copo de plástico, dos três que tinha. Achou-o dentro da geladeira, que só servia de armário. Embebeu-o na água da bacia com um pouco menos que a metade. Nem colocou a bacia no lugar, mas apenas a tampou novamente.
Sakura estava com os olhos fechados. A respiração fraca e ritmada apontava que estava viva e bem. Aproximou-se da menina sorrateiro, levando o copo com alguma dificuldade. Estava escuro, e apesar de conhecer muito bem o cafofo, pareceu ficar perdido quando o copo não era para ele.
— Ei. – Chamou, abaixando-se na frente do corpo branquelo. – Está acordada?
Ela não respondeu. Sasuke derramou a água benta na palma da própria mão, e como um pintor perfeccionista, desenhou no rosto de Sakura por cima dos pontos machucados. Foi questão de segundos para que os machucados sumissem e as feridas de sua boca também.
Na segunda vez que banhou os lábios bonitos e entreabertos dela, deixou que água demais caísse, o que causou uma tosse repentina na Haruno. Ela no entanto, parecia sonolenta demais.
— Obrigada. – Agradeceu por matar sua sede, mas não tinha a confirmação de que seu rosto estava perfeito novamente. Só o sentia melhor.
—
Sakura estava aquecida e confortável. Sem titubear um segundo, arriscava dizer que o paraíso a acolhia gostosamente em seus braços macios e prazerosos. Tossiu um pouco, gostando da sensação de se mexer. Nada doía. Tudo estava retido em suas mãos, especialmente o controle. O controle que esvaiu pelos contornos de seus dedos delicados quando se lembrou de tudo que aconteceu.
Abriu os olhos imediatamente.
— Você está bem. – Sasuke falou, sentado no que parecia ser um sofá. – Fui buscar comida lá fora, mas a partir desta cor do céu não me atrevo a sair. Você dormiu muito.
— Comida? – Sakura se mexeu de uma forma mais abrupta, fazendo o moreno achar o afobamento algo engraçado.
— Me acompanha.
Esperou pacientemente que ela levantasse, mas o rosto sujo de fuligem e de expressões severas não mostrava nada a não ser deboche.
— Quem é você? – Ela perguntou assim que ele deu as costas e começou a andar. Sakura manteve distância. – O que é aquela coisa?
— Eu? Eu não sei muito bem. Estou perdido aqui há cerca de quatro anos e já não me lembro quem eu era. – O Uchiha lembrava de algumas coisas, mas nada que definisse sua vida passada inteira. – Aquela coisa...
— Quatro anos? – Assombrada, Haruno entrou com o homem na cozinha da casa, que mais parecia um lixão, e o viu se dirigir ao armário.
— Nesta casa há um calendário velho. Não sigo datas ou meses, apenas me baseio nos dias para saber quantos passaram. Eu presumo que tenha ficado aqui por mais que quatro anos, mas só comecei a contar quando encontrei abrigo. Quatro anos atrás.
Sasuke sentia-se um fofoqueiro. Queria contar o que viveu e os perigos que eventualmente poderiam passar ou encontrar. Além de todo o sentimento de alívio por ter outra pessoa para compartilhar seu mundo, ainda entendia que as dúvidas de Sakura precisavam de uma resposta.
Distraído, pegou os finos espetos de madeira que modelou com muito custo e um prato limpo e brilhante. A moça de cabelos rosas se espantou. A casa não era provida de luz ou água encanada, os sofás estavam todos caindo aos pedaços literalmente, a cozinha estava cheia de louças velhas e empoeiradas, mas dentro do armário de portinholas soltas ele possuía aparatos limpinhos. Antes que pudesse perguntar...
— Aquelas criaturas eu também não sei o que são. – Sasuke utilizava-se de uma faca comum para cortar as cenouras e batatas. Percebeu que ele era econômico com a comida e que guardava pedaços para outro momento. – Mas são horríveis e impiedosos. Quando alguém entra aqui e a noite cai, eles matam sem dó. E comem. – Percebeu que ela se aproximava dele. Provavelmente estava menos desconfiada do que ele poderia representar. – Não são muitos, mas os poucos nunca sobrevivem, e eu nunca consigo resgatar com vida. Quando ouvi você, só pensei em sair pra não ter que ver mais um corpo desmontado aí na porta. – Omitiu a parte de que estava aliviado por ter alguém para dividir os dias, embora algo na moça o fizesse sentir algo realmente ruim, como um alarme dorminhoco, que soa baixo e gradativamente vai se tornando escandaloso.
— Por que estou inteira? Como você consegue deixar as coisas que usa limpas?
— Tempo atrás, quando eu ainda me abrigava dentro de casas que já desmoronaram, numa das viagens de dia encontrei uma bica¹ com a água mais brilhante que já vi na vida. Era tudo que eu precisava. Água. Aproveitei que estava muito sol e que aquelas coisas assustadoras não saem na luz, e entrei na pequena poça. Foi a melhor sensação. Numa das pedras está escrito água benta em inglês. Ela limpa, purifica, cura e satisfaz. Foi o que te tirou a dor e os machucados e o que te alimentou. Desde então, recolho água de lá em duas garrafas pet que encontrei no lixo.
— Por que então precisa pegar comida? – Sakura encarava o copo de água benta com curiosidade.
— Pra sentir o gosto de outras coisas. Mas em tempos difíceis, sair é impossível. Realmente acho que essa casa tem algo que me protege. Eles sabem que estou aqui.
— Tempos difíceis? Eles?
— Quis dizer nos dias que amanhecem chuvosos e escuros. Algumas criaturas conseguem manter-se na luz do dia nestas condições. – Sasuke pegou o prato com as cenouras e batatas cortadas e as lavou na água benta. Saiu da cozinha trazendo Sakura consigo. Ao contrário do que ele pensava, a companhia era chata. – Eles, estes tipos de... Animais. Sei lá. Não se surpreenda e muito menos grite se vir ou ouvir um deles a noite.
Com alguma delicadeza para não derrubar a comida, Sasuke sentou em frente a lareira e espetou rodela por rodela de cenoura, até colocar todas e encher o primeiro espeto. Com um apoio que ele mesmo fez acima do fogo, encaixou a comida ali. Fez o mesmo com as batatas.
— Fique de olho nas cenouras. Elas ficam prontas primeiro. – O moreno se levantou, vendo-a sentada e com os joelhos abraçados. – Vou buscar um pouco de água, mas só a tome depois de comer, porque ela costuma nos deixar um pouco... Cheios.
— Vai realmente me deixar sozinha aqui? – Ela perguntou. O tom poderia tê-lo comovido.
— Vou. – Aproximou-se um pouco dela, abaixando em frente ao corpo encolhido. – Não seja fraca. Se quiser sobreviver, encare.
O moreno não parecia sentido pela tristeza dela, mas de alguma forma, vê-la vulnerável e fragilizada o fazia se sentir responsável pelos dois. Ela apenas pensava enquanto o olhava nos olhos. Pelo que ele contou, jamais experimentou estar no paraíso. Ou então não se lembrava de estar lá. Ela tinha a vívida lembrança, e queria muito voltar e leva-lo junto. Quatro anos? Quem vive durante quatro anos preso? Sem ninguém? Tendo que atravessar tantos monstros apenas para tomar água? Não percebeu que ele havia saído dali há tempos.
Esperou por poucos minutos para retirar a cenoura do apoio acima das chamas, mas deixou o espeto cair assim que duas mãos fortes a pegaram pelo ombro violentamente. Sua boca foi tapada, seus olhos foram fechados e suas mãos presas para trás. Foi arrastada num primeiro momento, até reagir e começar a se mexer inquietantemente.
— Shh, Sakura. Não se mexa. – Uchiha sussurrou em seu ouvido, deixando-a subitamente mais calma. – Pegue a água benta no armário da cozinha e volte para perto do fogo. Eu subirei.
¹Uma foto, para vocês terem noção de como é esta bica.
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