Notas iniciais
Mais interação e uma chave para a saída.
Boa leitura!

Já fazia tempo desde a última vez que Sasuke subiu no sótão da casa. Sempre que ia para lá, era em busca de algo que pudesse o ajudar para alguma coisa. Qualquer coisa. Não era de grande eficácia, no entanto. Lá o teto realmente estava ao ponto de cair, e a sujeira e falta de luz impossibilitava que ele encontrasse qualquer coisa. Estava tudo uma bagunça.


Silencioso como um felino, o moreno moveu-se bem devagar. Nada nunca entrou na casa. Nem uma mosca. Nem formigas. Mas então... Que diabos?

Esgueirou-se mais um pouco, abrindo a porta devagar. Para a sua surpresa, o breu era a única vista. Nada de silhueta enorme e anormal. Olhou pelos quatro cantos. Quando ia fechar a porta, algo barrou seu movimento. A adrenalina foi a mil, mas nada aconteceu. Tentou bater a porta, mas novamente foi barrado por algo duro. Olhou bem para o chão, notando um brilho que antes nunca esteve ali. Com receio, abaixou-se na direção do ponto brilhante. As mãos bonitas e com veias resultantes da força que exercia todos os dias para sobreviver apanharam o brilho, tateando desesperadamente uma... Chave?


– Sasuke? – Sakura subia as escadas nas pontas dos pés, e quando terminou, não o viu abaixado.


– Minhas costas. – Reclamou quando sentiu as pernas dela tropeçando no corpo dele. Levantou. – Eu não disse pra você ficar perto do fogo? Eu ainda não sei o que foi aquilo. Volte para...


– O que é isso? – A menina de cabelos rosas estava muito perto, fuçando nas mãos grandes a fonte do brilho dourado que tentava seu rostinho de boneca.


Sasuke sentiu o calor humano, e aquilo só serviu para irritá-lo. Fechou as mãos, fazendo a menina retirar seus dedos delicados no susto. Olhou para ele sem entender, recebendo um olhar nada aconchegante.


– Desça. Quero me certificar que não há nada aqui. Não saia de perto do fogo.

–



O Uchiha desceu as escadas exausto. Com medo de que algo pudesse atacá-los em algum momento, revirou da maneira que pode o único quarto do andar de cima. Já era noite, e estava preparado para ela. Só não estava preparado para não encontrar Sakura perto do fogo. Fogo mantém qualquer criatura longe o suficiente.


Ia chamá-la aos gritos, mas a viu na janela. Estava com o rosto colado nela e com as mãos grudadas no vidro. Colocou a chave dourada no bolso de sua eterna calça e andou até o magro corpo da menina, que não se mexia. Percebeu o vidro ligeiramente embaçado.


– Você chorou. – O moreno afirmou, parando atrás dela. Viu a rua completamente vazia. A fogueira iluminava o ambiente.


– Eu não sei onde estou. – Ela choramingou, tombando a testa no vidro e soluçando baixo o suficiente para que travasse Sasuke. Ele não sabia como lidar com uma menina, e pior ainda, não sabia lidar com uma menina chorando tão graciosamente.


Durante todo o tempo, que o moreno não sabia definir em números, viveu de instinto. Tudo dependia de seu pensamento rápido, reflexos, coragem... Para tudo o que fazia, seu jeito rude e agressivo estava impresso nos resultados obtidos. Se mais alguém vivesse ali, saberia quando algo foi feito por Sasuke Uchiha e quando não.

Isso não o orgulhava. Ele mal sabia que era uma espécie rara. Não havia ninguém ali para dizê-lo. Mas então algo aconteceu. Ele descobriu aquilo sozinho. E descobriu sozinho porque seu instinto não foi rude.


Ao ver dois olhos amarelos e grandes aproximarem do vidro com fome, e uma silhueta negra e tenebrosa também, não deixou que Sakura levantasse a cabeça. Não queria que ela visse. Colocou a mão na frente dos olhos mais cativantes que se lembrava de ter visto e a puxou para seu corpo forte delicadamente, encarando assustado os dentes sangrentos da coisa que sorria pelo vidro. Abraçou o corpo pequeno da Haruno mantendo-a de costas para a janela. Quando o som da criatura começou a deixá-la assustada, tampou seus ouvidos e passou a encará-la com um novo olhar. Um pouco afetuoso. Ou compreensivo. Antes que pudesse quebrar o contato entre eles, ela tomou a atitude de enlaçar o corpo dele com vagareza, sentindo que ali com ela havia de fato outra pessoa. Apesar de estar digerindo a nova sensação que o cobriu de arrepios, ignorou qualquer quente por sua pele sofrida e foi se afastando do vidro com Sakura nos braços bem devagar, mirando a criatura que muito se parecia com um demônio se afastar da casa ao mesmo tempo. Por um segundo, os reflexos de Sasuke e da criatura se confundiram.


– O que é? – Ela sussurrou, ainda presa na postura acolhedora do homem.


– Esse era diferente dos que costumo encontrar. –Falou, soltando-a devagar para encarar o rosto de expressões caídas. – Há algo errado. Eu não sei o que está acontecendo. – Viu que ela o olhava com carinho, mas não se reteve àquilo. Seguramente, Sakura estava com medo. – De qualquer forma, amanhã de manhã precisaremos sair atrás de água. Use o restante para se higienizar. Eu faço isso amanhã.


– Onde? – Ela perguntou, ainda o olhando profundamente.


Sentia-se desconfortável. Ele não queria que ela o visse como algum protetor. Principalmente agora, que aquele novo monstro apareceu. Talvez não conseguisse mantê-la segura. O Uchiha nunca soube porque nada conseguia entrar naquela casa, bem como nunca descobriu porque existe água benta e comida. O solo é mais do que improdutivo, e as fendas com fumaças quentes não permitiriam o crescimento saudável de nada. A chave... De onde aquilo veio? Ele ouviu o barulho de algo caindo no andar de cima!

De qualquer jeito, aquele animal de minutos atrás definitivamente o congelou. Sorriu, se afastou... Pensou. Os outros são bestas tão previsíveis, que se perceberem alguém na janela avançam nela e dão cabeçadas por horas seguidas. – Sem transformar a resistência em inúmeros cacos de vidro, o que também intrigava o moreno.


– Sasuke?


– Venha até o quarto. Tem muitas roupas nos armários, mas nenhuma serve em mim. Talvez ache algo para você.


A Haruno na maior parte do tempo ficou calada. O Uchiha a ensinou como lavar a roupa do corpo e lhe deu toalha velha. Enquanto ele ficava sentado na cama, ela fuçava em tudo para encontrar alguma roupa.

O silêncio os dominou em instantes, mas Sasuke notou que a falta de conversa a incomodava. Não quebrou o silêncio, mas permitiu-se encará-la de costas. Parecia frágil demais para aquele mundo.


– Acho que isso pode me...


A voz dela foi interrompida por um estrondo. Os olhos do homem filmaram em câmera lenta o ato de Sakura ao puxar a camiseta e trazer junto com ela um pequeno baú de madeira. Sua sobrancelha negra subiu, mas sua reação foi menos agitada. A menina de melenas rosas se afastou rapidamente. A única fonte de luz era uma vela velha que ele guardou para alguma emergência.


Quando a visitante fez questão de se mover, Sasuke a barrou. Pegou o guarda trecos e observou durante alguns segundos. Sakura o puxou pelas mãos, fazendo com que levantasse da cama. O arrastou para perto da lareira, tomando o que ele tinha nos dedos longos. Nem ele nem ela entendiam nada.


– Isso é meu! – Gritou exasperada. Parecia até ofegar.


– Quê? – Ele perguntou sem entender do que ela falava.


– Isso. – Olhou para ele, mostrando a caixinha. – É da minha mãe! Como você pegou isso?


– Eu sequer sabia que isso existia.


– Dá licença. – Ela murmurou, o deixando ali, completamente alheio do que se passava.

–



Passaram horas. Sasuke montou um pequeno arsenal para a viagem que fariam pela manhã e nem se atentou em verificar o que Sakura tanto fazia naquele banheiro à luz de vela. Claro que não iria aparecer de supetão e pegá-la nua, mas fazia um tempo que nem um ruído chamava sua atenção, e além do mais, aquela história do pertence da mãe dela o deixou intrigado.


– Sakura? – Chamou, andando devagar até o ambiente, que ficava entre as escadas para subir até o sótão e a ida até a cozinha.


– Hm? – Ela murmurou. Ele abriu a porta devagar, encontrando-a sentada. Pernas de índio. Semblante tristonho e ao mesmo tempo viajado. Estranhou o modo como os olhos estavam perdidos em algum ponto desinteressante.


– Sakura? – Perguntou de novo, aproximando-se dela no intuito de abaixar. Tentando olhar para ele com um levantar da cabeça e ereção de sua coluna, a rosa largou o corpo para frente, colidindo com as pernas do moreno. – Que aconteceu com você?


– Comigo? Nada, Sasuke. – A fala lerda, o corpo mole e os olhos perdidos. Abraçou o corpo do homem sem nenhuma força. Sasuke já esteve assim antes, e a lembrança o tomava como um soco no rosto.

Viu-se de terno. Viu-se com algo no meio dos dedos. O riso o assaltava toda hora, e os cabelos eram acariciados por alguém que nunca viu antes. Estava num sofá negro, e em seus braços uma pulseira de ouro fino foi a última coisa que viu dentro de sua mente.


Levantou o corpo de Sakura do chão sem delicadeza. Quando a ergueu, não viu a pequena pétala de tulipa vermelha escorregando das mãos dela. A colocou nos ombros e andou irritado sem saber o porquê.

Jogou-a na cama do quarto escuro, estranhando a atitude dela de olhar para todos os lados como se algo fosse a atacar. Hesitou em encostar a porta. A ouviu gemer de capricho e chamá-lo grogue, num estado de sonolência muito atípico. Confuso, decidiu por não fazer nada.


Não notou que suas mãos fortes apertaram as coxas nuas dela. Não notou que a caixinha de trecos foi deixada em cima da pia, junto com a vela acesa. Nem percebeu a tulipa vermelho-sangue impregnando o banheiro de perfume. Só conseguia pensar no Sasuke sorridente. E nas mãos familiares de muito tempo atrás que costumavam acariciar seus cabelos por tempo o suficiente para que esquecesse de viver.


– Mãe...

Notas finais
Revisado. (06/05 - 07:14)