Panem Et Circenses
7 Treinamento
Notas iniciais
Nem a cama extra confortável do meu quarto no Centro de Treinamento me impede de dormir mal esta noite.
Depois que Mastt falou no jantar para esperar o pior na arena, e que as chances de não haver algo tecnológico por lá são grandes, as palavras dele penetraram minha mente de um modo que não tenho paz a noite toda. Toda vez que eu adormeço sonho que estou morrendo nas mãos dos tributos dos distritos 1, 2 e 4. E daqui a poucos dias essa cena pode muito bem virar realidade. Essa é a pior parte.
Quando desisto de dormir, ainda não passam de cinco horas da manhã. Durante a noite chutei para fora da cama todos meus lençóis e cobertores, e só me dou conta agora. Mesmo assim minha pele está coberta de suor.
Não acendo a luz. Vou no escuro até o banheiro do quarto, arranco minha camisola, entro debaixo do chuveiro e ligo a água gelada. Geralmente prefiro-a aquecida, mas após uma noite mal dormida água gelada é bem mais revigorante.
Como sempre, perco a noção do tempo no banho, e quando saio o dia já está nascendo. No momento em que piso no capacho, secadores são acionados e secam meu corpo em um instante. Se existisse um distrito para fabricar toalhas, ele certamente estaria falido.
Programo o closet do meu quarto para me dar um conjunto de roupas. Visto-me, e me preparo para sair para o café da manhã. Mas então tenho outra ideia. Ontem Pine disse que aqui é possível pedir comida no quarto. Posso fazer isso agora.
Não preciso procurar muito para encontrar um bocal por onde posso pedir qualquer comida de um cardápio imenso. As opções são muitas, mas meu pedido é simples: Panquecas de chocolate. E no minuto seguinte estou comendo-as, confortavelmente sentada na minha cama. Estão muito boas, e peço mais quando acabo.
Simary vem me chamar para o café da manhã tarde demais, pois meu apetite já foi completamente estragado pelas panquecas. Mas vou para a sala de jantar fazer companhia para os outros.
Não há conversas no café porque Simary fica mandando a gente se apressar toda vez que alguém tenta falar algo. Ela também não está comendo, então suponho que usou o serviço de quarto como eu. Ou que o café já está sendo servido há horas, e ela comeu antes. De uma maneira ou de outra, Pine está comendo tão rápido que nem está mastigando direito, já que só falta ele terminar para nós podermos ir para o treinamento.
– Pine, você termina de comer no elevador. Agora precisamos ir. – Diz Simary, checando o horário mais uma vez em seu relógio de pulso encrustado de diamantes.
Ele dá um grande gole em sua xícara de café com leite, e se levanta.
– Já acabei!
– Então vamos logo.
Cinco minutos mais tarde estamos no elevador de vidro, descendo para as salas de treinamento, que ficam no subsolo do edifício.
Simary nos deseja um bom treino ao chegarmos, mas nem sai do elevador. Ela não vai ficar conosco enquanto treinamos. Nós saímos e ela volta para o terceiro andar.
Estamos em uma espécie de ginásio enorme, dividido em várias áreas e abarrotado de armas e um monte de outras coisas. Mas nós somos os únicos tributos por aqui.
– Fomos os primeiros a chegar? – Estranho – Simary não disse que estávamos atrasados?
Pine dá de ombros, fazendo pouco caso.
– Simary.
– Pois é. – Concordo.
Uma mulher que eu não havia reparado antes se aproxima de nós. Ela está segurando dois quadrados de tecido com o número “3” impresso, e os prende em nossas costas. Nos mostra onde devemos ficar parados esperando os outros e se afasta para fazer o mesmo com os tributos do Distrito 1, que acabaram de chegar.
Em meia hora todos os tributos estão aqui, parados em círculo, esperando alguma ordem. Não vou ficar de cabeça baixa enquanto espero, senão os outros irão achar que estou intimidada de alguma forma, mas não estou com vontade de olhar para nenhum deles. E essa minha falta de vontade nem é por causa dos brutamontes do Um, Dois e Quatro, e sim por causo dos tributos dos distritos mais pobres. Eles parecem tão fracos, tão desnutridos e tão desesperançados que não consigo olhá-los sem sentir piedade.
Quando dão dez horas, chega uma mulher que se apresenta como a treinadora chefe daqui. Ela nos explica como vão ser os nossos próximos três dias de treinamento, e ouvimos tudo atentamente. Isso nos prende por mais vários minutos, e enfim ela nos libera para treinarmos, e cada um segue seu caminho.
– Ei, Edelweiss. Vamos ir à seção de camuflagem primeiro. – Sugere Pine.
Eu não quero começar com camuflagem. Eu quero ir ter minhas primeiras lições com uma arma de verdade, mas quando olho em volta entendo o porquê de ele achar melhor deixar as armas para depois. Todos foram para as seções de combate. As outras estão vazias.
– Vamos. – Aceito.
Na seção de camuflagem, tem uma pessoa para nos ensinar a fazer a coisa corretamente. Eu e Pine passamos a maior parte da manhã lá, mas vale a pena, pois no final eu já consigo fazer uma camuflagem tão boa em minha mão que ela parece um pedaço de tronco de árvore. Dou-me por satisfeita desta seção.
– Vamos para a seção de nós agora. – Sugiro, e Pine concorda.
Aprendemos a fazer nós para armadilhas até o horário do almoço. Nós muitas vezes são necessários na arena, e quem nunca viu um tributo morrer por não saber fazê-los?, mas mesmo assim não gosto desta seção. Trançar cordas não é muito minha praia. Até que consigo fazer alguns nós bons, mas quem realmente se mostra bom nisso é Pine. É difícil acreditar que ele nunca fez isso antes.
Depois disso, vamos para o refeitório almoçar. Nos dias de treinamento todos os tributos comem juntos, na mesma sala de jantar, mas eu e Pine ficamos sozinhos em uma mesa. Comemos um almoço reforçado, para nos sustentar pelo resto do dia, pois ainda teremos a tarde toda de treino. Aproveito o momento de calma para perguntar para ele como fez aqueles nós tão bons. Noto um pouco de amargura na voz dele quando responde:
– Eu tenho de ser bom em alguma coisa. Só preferia que fosse algo mais eficaz que nós. Talvez eu nem use isso nos Jogos.
– Relaxa, nós só passamos em duas seções até agora. Tenho certeza de que você ainda vai descobrir ser bom em um montão de coisas. – Garanto.
– Você acha mesmo?
– Eu sei.
E tenho razão. Ao terminarmos de almoçar vamos para a seção de facas, e Pine mostra que não é pouca coisa com uma faca na mão. Quanto a mim, consigo apenas aprender alguns cortes básicos. Certo, agora sou eu quem está ficando com baixa autoestima. Meu ânimo só melhora na próxima seção que visitamos, a de lanças. Descubro no que sou boa.
Como ainda temos tempo para ir a mais uma seção depois dessa, seguimos para a de reconhecimento de veneno. Fico assustada ao tomar ciência da quantidade de venenos existente e sobre como eles podem ser bem disfarçados.
Quando os treinos do dia são encerrados, estou exausta, e sonhando com um banho quente e relaxante. Eu e Pine voltamos para o terceiro andar, e eu vou correndo para o meu quarto.
Acho que nunca estive tão cansada. Tanto que, quando saio do banheiro, não vou me vestir de novo para o jantar. Estou com fome, mas o sono vence. Programo o meu closet para me dar pijamas, visto-me, e me deixo desabar sobre a cama. Durmo imediatamente.
Sem pesadelos esta noite. Muito pelo contrário: Tenho vários sonhos curtos e felizes, um atrás do outro. Em um, ensino Penn a tocar flauta. Num outro, estou com seis anos e brincando com Letice. Depois, eu e Meggin na escola, conversando por bilhetinhos por debaixo da mesa, escondidas do professor, numa aula particularmente chata. E assim segue até eu acordar, na manhã seguinte.
Acordo sentindo meu coração apertar de saudades de tudo que tive de deixar para trás depois que fui sorteada naquela maldita colheita. Esse é o problema de ter bons sonhos.
Sonho. Pesadelo. Para mim, ambos são uma droga. Mas pelo menos dormi bem hoje, sem ficar acordando de meia em meia hora.
Me levanto e apronto-me para ir tomar o café da manhã. Estou com muita fome por ter perdido o jantar de ontem. Vou para a sala de jantar, onde encontro Pine comendo sozinho.
– Bom dia. – Digo
– Bom dia.
Sento diante à mesa e começo a encher meu prato com comida.
– O que a gente vai treinar hoje? – Pergunto. A pulseira de ouro da prefeita Vimberg (ou será que agora posso dizer “minha pulseira”?) tilinta quando vou pegar um punhado de morangos de uma tigela de vidro. Eu estou com ela quase o tempo todo, desde aquela manhã no trem. Até no desfile eu estava usando-a. Há poucos dias atrás, eu detestava a pulseira, porque com ela eu me sentia presa à Pine, obrigada a formar uma aliança com ele. Agora não me importo mais. Pine é um bom garoto, e tenho certeza de que também será um bom aliado.
– Eu gostaria de voltar para a seção de facas... Podemos? – Ele olha para mim, na expectativa.
– Claro que podemos. Mas então vamos voltar para a seção de lanças também.
Pine concorda, com um sorriso.
Simary Loyel entra na sala, e nos cumprimenta cantarolando. Ela se junta a nós à mesa e começa a se servir. Eu e Pine damos nossa conversa por encerrada e voltamos nossas atenções exclusivamente às nossas comidas.
Ninguém mais chega para o café depois de Simary. A mesa parece vazia só com os três aqui. Os outros devem ter, sei lá, dormido demais.
Pine e eu terminamos de comer antes de Simary, mas a esperamos para nos levar para as salas de treinamento, o que me faz sentir bem idiota. Nós sabemos ir até lá sozinhos, mas esperamos Simary como crianças esperam que a babá as leve para a creche.
– Ai, ai, nós estamos tão atrasados... – Ela geme, quando acaba de comer, se levanta, e faz um gesto para nós a seguirmos. Vamos com ela ao elevador, mas nenhum de nós está acreditando nessa história de “atrasados”. Ontem ela disse a mesma coisa, e acabou que fomos os primeiros a chegar.
Entretanto, dessa vez nós não o somos. Somos os últimos. Todos os outros tributos já estão aqui, e alguns nos encaram enquanto vamos nos juntar a eles.
Como planejamos, a primeira seção que visitamos hoje é a de facas. Em seguida, a de lanças.
Por sorte, nós a encontramos vazia, e o treinador livre para dar atenção exclusiva a nós. Ele nos disse o nome dele ontem, mas é um daqueles nomes estranhos praticamente impossíveis de decorar que os residentes da Capital amam colocar nos filhos, então eu o esqueci. E acho que não seria legal perguntar de novo. Essas pessoas são muito temperamentais.
Eu e Pine escolhemos nossas lanças e o treinador, com muita boa vontade, começa a nos dar a nossa segunda aula.
Temos apenas uns dez minutos de atenção exclusiva, entretanto, pois então os tributos do Distrito 5 – A garota de quinze anos e o garoto de doze -, aproximam-se, hesitantes, o menino meio escondido atrás dela. Não é difícil de adivinhar que eles serão aliados. E quando eles chegam mais perto, percebo algo mais. Eles têm certa semelhança, como se fossem irmãos. Mas acho que eu teria reparado na colheita se eles tivessem o mesmo sobrenome. Aposto em primos.
– Podemos treinar aqui? – A menina pergunta, timidamente.
– À vontade. – Respondo, embora um tanto decepcionada.
Treinamos os quatro juntos por mais de uma hora inteira, mas não conversamos mais. Apenas eu com Pine, e os dois entre si. Depois de algum tempo, dá até para esquecer a presença deles.
E não reparo o quanto a companhia deles é agradável até chegar a mais desagradável do mundo: A gangue dos Carreiristas.
Eles estão vindo da seção de esgrima, conversando e rindo como se fossem um grupo de adolescentes comuns voltando de uma festa. Os Carreiristas sempre agem assim, ano após ano. Dessa maneira despreocupada e espalhafatosa, com tanta certeza de que vão vencer e tão cheios de si que estão simplesmente se divertindo.
Que eles não estejam vindo para cá, desejo com toda minha força. Que eles estejam indo para a seção de facas, de arco-e-flecha, de camuflagem, para o inferno, mas não para cá...
Eles estão passando por nós agora mesmo, mas estão seguindo reto. Mais alguns passos e eu posso considerar que eles foram embora, e...
A garota do Distrito 4 de repente para e olha para nós, a tempo de ver o menino do Cinco fazendo um movimento com a lança que resultou em deixá-la cair.
Isso aí. Vai começar.
A garota ri e fala um palavrão, como se estivesse chocada com o erro dele.
– Santa ignorância. Eu não erro assim desde meus, tipo, cinco anos de idade.
Cinco anos? Só pode ser brincadeira. Quando ela começou a treinar?
O garoto cora, finge não ter ouvido e pega sua lança do chão. Mas a garota do distrito dele não deixa tão barato:
– Não fale assim com ele! Cuide de sua vida. – Pelo visto, ela se sente incomodada ao falar isso, como se fosse algo contra seus princípios. Ela aparenta ser uma boa pessoa.
– Não se intrometa. Não falei com você. – A Carreirista do Quatro franze o testa.
– Ih, olha lá. A Cinco ficou irritadinha. – Zomba o garoto do Distrito 2, com um sorriso de deboche. Agora todo o grupo parou e está olhando para nós.
– Que gracinha. – A garota do Dois ri.
A menina do Distrito 5 fica vermelha de frustação.
– Não discute com eles, Nydia. Não vale a pena. – O garoto do Cinco diz para ela.
– Tem razão. – Ela concorda. Os dois colocam as lanças de volta nos suportes e dão às costas aos encrenqueiros, se afastando da seção de lanças para se afastar de maiores problemas.
– Aaah, ficou com medinho de brigar com a gente? – A garota do Distrito 2 grita para eles.
– Que otária. – A menina do Quatro comenta, e todos riem. Os tributos do Cinco os ignoram.
Os Carreiristas não gostam de ser ignorados. Eles continuam gritando desaforos para eles, e ignorando eu e Pine completamente.
Claro que o inteligente a se fazer é ficar bem quieta e esperar que eles se cansem e vão embora, mas Nydia e o garotinho não estão merecendo ouvir o que eles estão dizendo, e meu temperamento ruim fala mais alto. Então, me viro para os Carreiristas e digo, com a voz irritadiça:
– Vocês têm problema mental ou o que? Não estão vendo que eles não vão se rebaixar ao nível de vocês?
– Isso quer dizer que você vai? – Pergunta a menina do Quatro, adorando que alguém tenha mordido a isca para iniciar uma briga.
– Ah, com certeza.
A minha mãe sempre me disse que um dia minha impulsividade iria me trazer grandes problemas. E não é que ela estava certa?
Notas finais
Até o próximo!
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