Panem Et Circenses
8 Bomba
Notas iniciais
Por uma fração de segundo, os Carreiristas ficam abismados. Eles não esperavam que eu fosse querer bater de frente com eles, e muito menos que eu fosse dizer isso tão confiante. Provavelmente, eles achavam que quando a garota do Distrito 4 perguntasse: “Isso quer dizer que você vai?”, eu fosse encolher os ombros e me desculpar, e não responder: “Ah, com certeza.”.
Mas isso é só por uma fração de segundo, mesmo. Logo eles voltam com os sorrisos de deboche, e a garota do Quatro, especialmente, parece estar se deliciando com a minha resposta.
— Tadinha. Perdeu a noção do perigo. – Ela comenta, avançando ameaçadoramente na minha direção. Ela é pelo menos dez centímetros mais alta que eu, então ficar frente a frente com ela me põe automaticamente em desvantagem, mas mantenho a pose.
— E quem é você para me falar sobre noção de perigo, voluntária aos Jogos? – Pergunto, cortante.
— Eu me voluntariei porque sei que vou vencer. Você é só idiota, mesmo.
— Não concordo. Para mim, pessoas idiotas são aquelas que se oferecem para a morte certa numa vingança da Capital contra todos nós e ainda se acham no direito de zombar das pessoas que tem cérebro e não querem fazer parte desse jogo.
Agora eu consegui. Qualquer vestígio de deboche nas expressões dos Carreiristas evapora. Eles me encaram de uma maneira que me faz questionar se eu não realmente perdi a noção do perigo.
Os olhos azuis-céu da garota do Quatro brilham com ódio. Ela ergue o punho para me dar o que certamente será o pior soco que eu já levei na vida, mas um Pacificador surge atrás dela bem a tempo e segura seu braço na metade do movimento. Contrariada, ela tenta me acertar com a outra mão, e ele segura o outro braço também. Os outros Carreiristas se entreolham, como se se perguntassem: “Ajudamos a acalmá-la, incentivamos ela a bater ou nós mesmos batemos?”.
Eles não chegam a uma decisão, mas o Pacificador que a está contendo tem um bom argumento:
— Deixe isso para a arena.
Ela não fica feliz com isso. Mas reflete a respeito por um segundo e acho que decide que será mais divertido acabar comigo na frente de toda a nação do que aqui, agora, e se acalma. O Pacificador a solta. Ela olha bem dentro de meus olhos e diz, alto e em bom som:
— Sua cabeça é minha, Três.
Ergo uma sobrancelha.
— Veremos.
Ela dá um último sorrisinho psicopata antes de ir se juntar novamente com os Carreiristas, e os seis se afastam em silêncio.
Acabo de assinar a minha própria sentença de morte. Fingindo não me importar, volto a treinar como se nada tivesse acontecido.
Depois vamos almoçar, e então mais treinamento.
Vamos para a seção de fogueiras. Eu ainda acho melhor que foquemos em armas, mas Pine contra argumenta dizendo que não podemos nos descuidar colocando armas em primeiro lugar e ignorando as outras habilidades, e que existe a chance de morrermos de frio se não soubermos fazer uma fogueira.
Certo, Pine. Me convenceu.
Enquanto estamos estupidamente esfregando dois gravetos um no outro, tentando criar algum fogo (o que mesmo com as instruções do treinador está difícil), Pine não para de virar para trás, olhando preocupado por cima do próprio ombro.
— Eles estão olhando para cá. – Ele sussurra para mim.
— “Eles”? – Não faço ideia de quem ele está falando, e me viro achando que quem está olhando para cá são os Carreiristas outra vez. Mas todos eles estão concentrados nos próprios treinos. Quem realmente está olhando para nós são os Idealizadores dos Jogos, que ficam andando para lá e para cá, observando os tributos, tirando notas e comendo do banquete que foi posto para eles. Um Idealizador anota alguma coisa depois de nos analisar por um tempo. Imagino que seja: “Péssimos com fogueiras”.
Não saímos desta seção até conseguirmos criar um fogo razoável. Se tornou uma questão de honra. Infelizmente, demoramos muito para isso, e perdemos uma boa quantia de tempo de nosso precioso treino. Mas ainda conseguimos passar na seção de espadas e na seção de abrigos.
Voltando para o terceiro andar, vou correndo procurar Mastt. Tenho de contar para ele o que aconteceu hoje com os Carreiristas, antes que isso me mate por dentro. Mas não consigo nem imaginar o que ele vai achar disso. Talvez grite comigo e diga que eu fui idiota. Ou talvez ele ria e me ajude a criar uma estratégia para derrubar os Carreiristas.
Encontro ele na sacada, olhando a rua lá embaixo. Ele não me olha enquanto me aproximo e paro ao lado dele. Eu também não o estou olhando diretamente.
— Noite linda, não é? – Começo.
— Não enrola. Aconteceu alguma coisa, não foi? – Por incrível que pareça, o tom dele dizendo isso é gentil. Fico bem espantada. Eu sou tão livro-aberto assim?
Em poucas palavras atropeladas, explico o incidente. Ele reflete por um instante.
— Agora, suas opções nos Jogos são ser a melhor ou ser a melhor. Você atiçou a fúria deles de verdade.
— Pensei que para ganhar, as opções sempre são ser a melhor ou ser a melhor.
— “Melhor” é uma palavra bem relativa.
— Na Vigésima Quarta Edição dos Jogos você foi o melhor descobrindo o padrão que aquelas bombas tinham para estourar.
— Não é tão difícil assim lidar com bombas. – Mastt retruca. Por algum motivo, ele parece irritado por eu ter dito que ele foi o melhor, de um modo que parece que ele discorda tanto da ideia que até sente repulsa por ela.
— Não parece fácil.
Silêncio por cinco segundos, antes de ele afirmar:
— Você não diria que mexer com bombas é tão difícil se soubesse como fazer.
— Então me ensina! Eu quero saber como fazer. Você tinha de estar me ensinando tudo o que você sabe! – Eu não queria gritar com Mastt. Mas uma coisa sobre mim é que, nos dias em que arranjo briga com alguém, tenho uma forte tendência a arranjar com mais pessoas.
— Você quer mesmo saber? – Ele cospe essa pergunta com tamanho ódio que me sinto mal. Entretanto, quando ele se vira para me olhar nos olhos, vejo que o ódio não é por mim. É um ódio mais antigo, de algo, ou alguém, da época em que ele estava na arena. Pode ser até ódio por si mesmo, por algo que já aconteceu. Vou dizer para ele esquecer isso, para falarmos de outra coisa, mas agora ele já faz questão de me explicar cada truque, cada maneira de desarmar bombas, armar, programar. Ele não se demora, mas explica incrivelmente bem. Mesmo que apenas o básico.
— Certo. Você venceu os Jogos porque sabia lidar com bombas. Mas, posso fazer uma pergunta?
— Estou aqui para isso.
— Por quê?
— Por que o que?
— Por que você sabia tanto sobre bombas?
Mastt franze a testa.
— Porque eu achava interessante. Grande droga.
— Você é incrível. – Digo, com admiração.
— Eu? Eu não tive coragem de enfrentar um Carreirista antes mesmo do início dos Jogos. — Ele olha sugestivamente para mim.
Sorrio sarcasticamente.
— Grande droga.
— Ainda não reparou que a Capital ama grandes drogas? – Ele não consegue reprimir um sorrisinho.
— Sim, pode ser. Nesse caso, tenho grandes chances de ganhar. — Digo brincando.
— Eu diria que nesse caso aquela garota do Quatro tem grandes chances de ganhar. Felizmente, existem outras maneiras de vencer os Jogos Vorazes além de ser uma “grande droga”.
Rio. Até tão pouco tempo atrás, eu estava quase arrancando os cabelos de preocupação depois da briga com a garota do Distrito 4. Mas quando estou com Mastt, a briga em si parece tão distante. É como se nada me atingisse. Eu consigo fazer piadas e dar risada. Estar com ele é como fugir de minha realidade por um breve tempo. Ou coisa do tipo.
Mastt também está sorrindo, olhando para mim. A tensão anterior dissipou-se. Mas com o seu olhar fixo no meu, surge uma nova tensão no ar.
— Edelweiss! Mastt! Vocês não vêm jantar? Estamos esperando vocês há quase cinco minutos! – Ouço a voz de Simary atrás de nós, e nos sobressaltamos, como se tivéssemos sido pegos fazendo algo errado.
Por que ela sempre faz isso?
Vamos jantar, e então me recolho em meu quarto para dormir.
No terceiro – e último – dia de treinamento, temos só o período antes do almoço para treinar, e eu e Pine o usamos para treinar, mais uma vez, com facas e lanças. Depois do almoço não podemos mais treinar por que temos de fazer uma apresentação aos Idealizadores. Um por um, eles vão chamando os tributos (em ordem de distrito, como sempre fazem) para ir ao ginásio e mostrar para eles o que sabem fazer, enquanto os outros ficam esperando sua vez na sala de jantar. E essa apresentação é crucial, porque se baseando nela é que os Idealizadores vão te dar uma nota, que pode ir do 1 ao 12, e essa nota vai ser anunciada na televisão para toda Panem ver. E é nela que os residentes ricaços da Capital vão se basear para decidir se te patrocinam ou não.
O primeiro a ser chamado é o garoto do Distrito 1. Eles chamam primeiro os garotos, depois as garotas, para a apresentação. Enquanto ele se dirige ao ginásio, não consigo deixar de lembrar do primeiro dia de treinamento, quando eu e Pine estávamos na seção de nós, e em determinado momento eu olhei para a seção de espadas a tempo de vê-lo decapitar as cabeças de três bonecos de treino com um único movimento. O que foi bem assustador.
Começo a repassar tudo o que aprendi nos últimos dias em minha mente. Na hora que me chamarem, vou fazer minha apresentação com lanças. Obviamente, as três aulas que tive com a arma não foram o suficiente para aprender muita coisa, mas é a habilidade que mais desenvolvi, então vou ter de apostar nela.
Diferentemente de mim, Pine não consegue controlar a ansiedade em silêncio e fica falando sem parar. Não respondo, para ver se ele percebe que eu não estou com vontade de conversar. Ele entende a mensagem e fica quieto até chamarem a garota do Distrito 2, que se eu ouvi bem, se chama Junie. E então ele volta a tentar puxar assunto, e eu falo com ele, porque sei que não é nem um pouco legal ser o próximo.
Passam-se alguns minutos, e enfim chamam Pine. Ele engole em seco e vai para o ginásio de cabeça baixa, o que eu não acho que vai ajudá-lo a ganhar uma nota alta.
Agora a próxima sou eu. Pela primeira vez na vida penso que os tributos do Distrito 12 são sortudos, por serem os últimos, mas esse é um pensamento bem momentâneo e ridículo, pois a sorte que eles têm por serem os últimos na apresentação (e eu nem sei se posso chamar isso de sorte, porque pensando bem também tem várias desvantagens) não compensa o azar que eles sempre têm nos Jogos. Vale lembrar que, nas trinta e uma edições passadas dos Jogos Vorazes, eles só tiveram um vitorioso.
Minha vez chega cedo demais. Encaminho-me para o ginásio tentando parecer confiante, descontraída, porém tenho noção de que empalideci assim que me chamaram.
Os Idealizadores estão comendo e conversando quando eu chego. Alguns deles me olham com certo escárnio, como se dissessem: “Nos surpreenda. Se puder”.
É claro. Fui burra por estar achando que eles iam estar esperando que eu fizesse algo interessante.
A verdade é que o meu distrito vem depois do Um e do Dois, e ambos são Carreiristas, assim como o que vem depois, o Quatro. Todo o brilho dos tributos do Distrito 3 é abafado pelo dos tributos desses distritos que antecedem e sucedem o nosso. Para os Idealizadores dos Jogos, não passamos de uma quebra no sistema dos primeiros distritos.
Vou para a seção de lanças, onde a maioria dos bonecos de treino está rasgada, mutilada, estragada. Outro tributo antes de mim já fez a apresentação por aqui. Escolho uma das lanças mais leves, por ser mais fácil de manusear, e começo a encenar uma luta com um dos bonecos-alvo, exibindo os movimentos que sei fazer. Os Idealizadores estão parecendo extremamente entediados, e a maior parte está sequer olhando para mim.
Nunca irei conseguir impressioná-los assim. Tenho de mudar de estratégia.
Jogo a lança no chão com força. Com efeito, os Idealizadores erguem o olhar do banquete deles para mim. A partir de então não perco mais tempo. Marcho diretamente para a seção de explosivos.
Não sei direito o que vim fazer aqui, mas confio em minha intuição e seleciono uma bomba-relógio. Ligo-a, e ela começa sua contagem regressiva partindo de 5min.
Calço luvas especiais, e cuidadosamente, me ponho a desarmar o explosivo.
Jamais antes encostei numa bomba. Não faz parte das tarefas do meu distrito montá-las, e no treinamento eu as negligenciei. Mas elas são de alta-tecnologia, e ouvi toda a explicação de Mastt ontem, então acredito que posso lidar com uma. Coisas tecnológicas são mais do que básicas para mim.
Com a ajuda de um alicate, corto os fios certos. Se eu cortar unzinho que seja errado, a bomba será ativada. Teoricamente, é claro. Não creio que isso exploda de verdade. Se explodir, um tributo pode morrer, e se ele morrer antes dos Jogos, quem irá para a arena no lugar dele?
Procuro não entrar em pânico conforme o tempo passa rápido demais. Tenho de me concentrar. Tento me lembrar exatamente o que Mastt me ensinou. Mas logo começa a apitar a contagem dos segundos finais.
60, 59, 58...
Preciso pensar bem quanto aos próximos fios que tenho de cortar. Agora estou quase no final. Está quase acabado.
Pressão, muita pressão. Concentração, concentração... Você consegue, Edelweiss.
Arrisco cortar mais um fio. E a bomba desliga.
Sorrio triunfante para os Idealizadores, que fazem gestos de aprovação.
— Você já pode se retirar, Srta. Roxteed.
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