Notas iniciais
Enfim as férias! Espero escrever mais durante este mês. E também é o mês do meu aniversário! Ele vai cair numa terça-feira, mas eu vou tentar postar um capítulo neste dia ;) Boa leitura!

Saímos de perto do corpo da Oito para que ele possa ser recolhido pelo aerodeslizador.

A raiva de Nydia por Coriander tê-la matado passa depois de um tempo, junto com o choque. Coriander continua sem parecer ter se arrependido pelo que aconteceu e eu continuo sem saber o que pensar.

Nós voltamos ao acampamento, e eu e Coriander entramos em acordo de que o certo a se fazer a partir de agora é bolar um plano para matar os Carreiristas, do qual Nydia discorda totalmente, e continua querendo ir atrás de comida.

— Não podemos mais evitar as lutas, Nyd. – Diz Coriander.

— Podíamos bolar um plano para roubarmos a comida dos Carreiristas, ao invés disso.

— Talvez os Jogos acabem tão rápido que nem precisemos de mais comida. Um plano seria algo bem mais útil. – Omito o fato de que as maiores chances são de não sobrevivermos para ver o fim dos Jogos. Apesar de que essas chances diminuiriam se tivéssemos um plano.

— Vocês dois realmente não se sentem mal só de falar sobre planejar a morte de alguém?

Esforço-me para não fazer algum tipo de gesto de impaciência. Eu gosto da Nydia, mas ela está sendo boazinha demais. Não é assim que as coisas funcionam por aqui, e isso já está começando a me tirar do sério. Era até compreensível alguns dias atrás que alguns tributos se comportassem assim. Mas agora não dá mais – tenho certeza de que até o Pine, se ele estivesse vivo, mesmo odiando ter de fazer isso, entenderia e aceitaria imediatamente que temos de tramar algo para acabar com os Carreiristas.

E até parece que eles também não estão tramando contra nós. A diferença é que eles não sabem que estamos juntos.

Ao ver que nem eu e nem Coriander lhe respondemos e a encaramos de maneira significativa, Nydia encolhe os ombros.

— Certo. Desculpem. Eu entendo a nossa situação e tudo o mais... Só queria adiar mais o inevitável.

— Também é inevitável que isso aconteça agora. Os Carreiristas já devem estar atrás da gente. – Coriander diz.

Ficamos um minuto em silêncio. Nenhum de nós gosta de imaginar os Carreiristas vindo para nos matar.

E eu não sei se Coriander e Nydia também estão pensando o mesmo que eu, mas não deixo de pensar o quanto é estranho e triste que estejamos tentando bolar um plano juntos. Porque se pensarmos em algo e acabarmos com Aven, Kalle e Aster antes que eles o façam conosco, vamos ficar só nós três nos Jogos Vorazes. E vamos estar um contra o outro, já que só um pode sobreviver.

Se bem que, se for para eu morrer, prefiro muito mais que Nydia ou Coriander vença a um Carreirista.

— E então? O que vamos fazer? – Nydia enfim quebra o silêncio. – Alguém já tem algo em mente?

Coriander balança a cabeça. Então os dois olham para mim na expectativa.

— Edelweiss?

Imito o gesto dele.

— Nada.

— Se nem ela já pensou algo, como esperamos que eu e você consigamos? – Pergunta Nydia para ele.

Estranho a frase dela.

— Como assim, nem eu?

— É que os tributos do Distrito 3 têm a fama de serem genais. Logo, se você não está conseguindo pensar em algo, não é de se esperar que nós consigamos. – Explica Coriander, como se eu já devesse saber disso.

Pondero um pouco sobre o que ele acabou de me dizer. Realmente, para os tributos dos outros distritos que não tem base alguma ou um conhecimento mesmo que mínimo em tecnologia e no funcionamento lógico das coisas, os tributos do Distrito 3 podem parecer geniais, sempre com armadilhas infalíveis e planos bem elaborados. Se houver algo tecnológico na arena, então, parece até que os Idealizadores dos Jogos estão de favoritismo.

Foi o caso da 25ª Edição dos Jogos Vorazes, a edição do Massacre Quaternário – o evento que acontece de vinte e cinco em vinte e cinco anos, em que uma regra dos Jogos é alterada durante uma edição. Só tivemos um até agora, e o que mudou naquele ano foi que os tributos não foram sorteados e nem se voluntariaram: os moradores dos próprios distritos deles tiveram de selecionar as crianças que seriam mandadas para a chacina.

Naquela edição, além da mudança oficial, os Idealizadores também fizeram outra coisa diferente, que foi disponibilizar nada além de armas tecnológicas na Cornucópia. Os dois tributos do meu distrito se aliaram, e ambos ficaram entre os quatro últimos vivos. Eles eram quase imbatíveis; todos diziam que o Distrito 3 iria ser o vencedor pela segunda vez consecutiva, já que Mastt vencera no ano anterior.

Mas então eles tiveram uma briga.

Eu tinha apenas nove anos, e não consigo me lembrar exatamente de como a coisa aconteceu. Só que foi uma briga feíssima por uma grande besteira. Eles ficaram com muita raiva, e apelaram para as armas.

E morreram, um vítima do outro.

Assim, não é como Nydia e Coriander disseram, como se todos que nascessem no Três fossem gênios. Como em todos os lugares, lá há pessoas inteligentes e pessoas ignorantes. É algo relativo.

Mas admito que me senti lisonjeada por eles terem dito isso.

Começo a me esforçar ainda mais para ter alguma ideia. Os meus dois aliados estão parados olhando para mim de maneira penetrante, esperando que eu pense em algo sem tentar fazer isso por eles próprios, o que me desconcentra, mas nada digo.

Tudo seria mais fácil se tivéssemos algum tipo de tecnologia. Mas tudo o que temos são duas facas – a que Coriander já tinha e a que ele pegou da Oito quando ela morreu, dizendo que ela não iria mais precisar daquilo. E nem temos mais a corda, que deixamos junto do corpo.

— Espero que vocês dois também estejam tentando ter alguma ideia. – Digo sugestivamente, quando os olhares deles passam a ser irritantes.

A quem eu estou querendo enganar? Não posso me forçar a ter, de repente, um plano genial. E parte de mim nem quer que isso aconteça, já que isso só pode me aproximar ainda mais de minha morte.

Me levanto. Ando de um lado para o outro algumas vezes, até que enfim, aborrecida, chuto a neve, fazendo um punhado dela voar e acertar um tronco de árvore.

— Eu não consigo pensar de estômago vazio. – Declaro.

Coriander concorda, e pega o saco de biscoitos na mochila. Mesmo que estejamos poupando o que nos sobrou de comida, nós não comemos hoje, e meus aliados estão com tanta fome quanto eu.

Ele dá alguns deles para Nydia, e quando entrega alguns para mim também, percebo que Coriander não parece mais me odiar como antes. Deve ter se convencido de que eu não vou tentar nada contra eles, ou não conseguiu manter a pose por muito tempo.

Os nossos últimos biscoitos ele pega para si, e ficamos apenas com o pacote vazio que, depois, como Pine uma vez fizera com a embalagem da nossa carne desidratada, começo a cavar um buraco na neve para enterrá-la e não deixar rastros.

Nos comportamos como no enterro de um cadáver durante o processo: em silêncio, saudosos e imaginando o que será de nossa vida a partir de agora, sem comida. Dúvida e medo por trás de uma cortina fúnebre.

— Logo estaremos com fome de novo. É uma questão de tempo. – Coriander afirma.

— Tudo sempre foi uma questão de tempo. – Falo, sem empolgação. Deito de costas no chão, fazendo pouco caso para o frio ainda maior que esse gesto proporciona.

Fito o céu azul-claro, há aparentemente quilômetros acima de nós.

Pouco se sabe sobre a criação das arenas, além de que são ambientes ao ar-livre supervisionados e manipulados pelos Idealizadores. Fico imaginando se o céu, na verdade, poderia ser apenas um efeito 3D, e se não estamos sob um teto bem alto cuidadosamente preparado para parecer o céu.

Isso me dá uma estranha sensação de claustrofobia.

Ouço Nydia suspirar e se deixar cair na neve também, mas não dou muita atenção para isso, entretida com o céu.

Meus olhos o vasculham em busca de uma falha, uma limitação que indique o que ele é de verdade, mas ele é perfeito. Será que o céu da arena é uma projeção por cima do céu verdadeiro? Na Capital o Sol era forte e os dias, quentes. Poderia mesmo estar nevando logo abaixo disso?

Repreendo-me por estar pensando nisso, ao invés do plano. Porém minhas ideias continuam se resumindo a nada.

Nós tomamos o hábito de começar a nos revezar para dormirmos ao anoitecer, depois que o ritual de encerramento do dia já foi concluído. Mas hoje, ainda no final da tarde, Nydia fala algo sobre estar cansada, e vai pegar o saco de dormir. Eu e Coriander não nos importamos – não há mais o que ser feito por hoje, e já estamos parados sem fazer algo há certo tempo. Sem falar que, dormindo mais cedo, teremos mais tempo para descansar.

Sento. Ao fazê-lo, sinto meus cabelos gelados, empapados de neve por ter ficado deitada diretamente sobre ela. Passo uma mão por eles para tirar o excesso. Eles estão tão emaranhados que mal dá para passar meus dedos.

Os penteio com as mãos do jeito que posso. Removo a minha faixa de cabelo branca, e a utilizo para amarrar meus cabelos num rabo de cavalo, com um laço. Assim parece mais arrumado.

Olho em volta. Nydia se encolheu toda dentro do saco de dormir, cobrindo a cabeça, e portanto não dá para saber se ela já dormiu ou ainda está acordada. Coriander parece entediado, encarando o nada, seu facão em mãos e a faca da Oito embainhada.

Durante nossa vigília, não dirigimos uma palavra um para o outro, e eu não paro de pensar em onde os Carreiristas podem estar e o que devem estar fazendo agora.

A noite de hoje é diferente de todos os outros dias na arena. A lua está mais apagada, não há estrelas, e parece que a temperatura caiu ainda mais. Será que agora se decidiram por deixar uma noite mais sombria que a outra, até o fim? Espero que não.

— Vou acordar a Nydia para trocar agora. – Avisa Coriander, se levantando. Também é uma evolução no nosso relacionamento; nas últimas duas noites ele ia acordá-la sem me dizer antes.

Ele é o próximo a ir dormir, e é a vez de Nydia fazer a vigília comigo. Coriander, antes, entrega a ela a faca que pertencia a Oito, mas vai dormir com o facão. Agora que temos duas facas, duvido que ele volte a se separar desta.

Nydia senta perto de mim, encostada a uma árvore.

— Você mudou de penteado. – Observa, em voz baixa. – Ficou legal.

— Obrigada, Nyd. – Respondo, com um sorriso que não faz jus a toda preocupação de últimos dias dos Jogos que estou sentindo.

Ela repara que eu não estou no humor de conversar sobre penteados, e para de falar por um tempo. Mais precisamente, até olhar para o céu e reparar que esta noite está ainda mais escura e fria do que as anteriores.

— Que noite feia. – Comenta – Mal consigo ver as estrelas.

Concordo, mas para mim a maior mudança foi a queda da temperatura. Estou muito acostumada a noites sem estrelas, já que nunca tinha visto uma antes de ir para a Capital, salvo por fotos.

A questão é que o Distrito 3, com exceção da parte residencial, é composto de fábricas, fábricas e mais fábricas. Fábricas com chaminés com uma nuvem de poluição negra saindo de cada uma, em direção ao céu, deixando-o cinza-chumbo durante os dias como se estivéssemos sempre abaixo de uma grande nuvem de chuva. E sem estrelas durante a noite.

Mas para os Distritos não industriais, uma noite sem estrelas deve ser algo bem triste.

— Olhe, Nydia. Acho que tem uma bem ali. – Falo para confortá-la, apontando para um ponto no céu onde realmente há um difuso ponto prateado, que não tenho certeza se tratar de uma estrela. Mas é melhor do que nada. Os Idealizadores devem tê-la acendido depois do comentário de Nydia, porque eu só a vi agora.

— Onde? – Ela começa a virar a cabeça na direção em que estou apontando, mas é impedida por uma mão, que sai detrás da árvore em que ela está apoiada e segura sua cabeça com firmeza. Antes que ela ou eu possamos fazer alguma coisa para reverter essa situação, a outra mão da outra pessoa surge do outro lado do tronco da árvore segurando uma faca.

Fria e rapidamente. É dessa maneira que é a morte de Nydia, com um corte no pescoço. Ela mal deve ter se dado conta de que estava morrendo. Mas isso não torna as coisas diferentes.

Nydia acaba de morrer também. Acabo de ouvir o canhão dela. Mais uma vez, os piores sentimentos do mundo me invadem.

Mas não tenho tempo nesse momento para pensar sobre sentimentos. Aster sai detrás da árvore, sorrindo profundamente satisfeita. Foi ela.

Ela está feliz por ter matado minha aliada. Mas não ficará satisfeita até me matar também.

— Eu não disse que a sua cabeça seria minha, Três?

Notas finais
Ah, Lily Duncan, eu já tinha dedicado o último capítulo à você, mas agora que você recomendou, quero agradecer de novo. Thanks!Até o próximo!