Panem Et Circenses
24 Depressão
Notas iniciais
Eu não disse que a sua cabeça seria minha, Três?
Essas palavras se repetem na minha cabeça várias vezes depois que Aster termina a frase.
Sim, ela disse aquilo. Ela disse exatamente aquilo.
Mas o dia em que Aster fez a ameaça foi o segundo dia do treinamento. É como se a garota que respondeu “Veremos” após ouvir aquilo não fosse mais eu. Amadureci muito desde aquele dia, e passei por muita coisa.
Porém, ao mesmo tempo, eu não me arrependo de ter respondido assim. Só que piora mil vezes o fato de que vou morrer tendo também de engolir o pouco caso que demonstrei para ela com minha resposta.
Os telespectadores não sabem desta ameaça, então podem estar confusos, tentando se lembrar de quando foi que ela falou isso. As únicas testemunhas daquilo foram os outros Carreiristas – estando agora três deles mortos e os outros dois, Kalle e Aven, não estando aqui neste momento por algum motivo –, Pine, também morto, e um Pacificador. Mas o que importa é que eu sei o que aconteceu, e o que a levou a esse ódio tão extremo de mim.
Então, tanto faz se as pessoas sabem ou não. Eu sei. E estou me sentindo uma fracassada total.
Não consigo responder. Fico encarando Aster, com os olhos arregalados, e tento recuar pelo menos um pouco, sem me levantar e nem dar às costas para ela.
Isso faz o ar já naturalmente psicopata dela se agravar. Aster me olha de maneira assustadora, deixando de lado a expressão de felicidade por estar fazendo o que ama, que é assassinar pessoas, e assumindo uma séria, com um brilho de loucura no olhar.
Bem veloz, ela ergue a faca e a desce no meu joelho esquerdo. A dor repentina me faz dar um grito abafado. Em seguida, Aster puxa a faca de volta, deixando o meu joelho aberto em duas metades, e um rombo na minha calça.
Sinto vontade de começar a chorar de dor, mas me seguro.
— E então, Três?! – Grita ela – Cadê aquelas suas respostas irônicas agora?!
Levanta a faca de novo, desta vez apontada para o meu coração. Aguardo o segundo golpe, que será o que irá tirar minha vida. Estou tão atordoada pela dor causada pelo primeiro golpe que meu desejo muda de sobrevivência para morrer logo.
Fecho os olhos.
E abro-os de novo ao ouvir um grito de Aster, ao invés de sentir a facada fatal.
Ela ainda está na minha frente, com a faca parada no ar, mas agora Coriander está atrás dela com o próprio facão enterrado no ombro do braço livre dela.
A dor não a torna menos violenta. Aster vira, baixando sua faca, mirando-a no estômago de Coriander. Ele segura seu braço, e antes que ela possa se desvencilhar, a joga de lado no chão.
Aster tenta se levantar, rápida, mas sem equilíbrio, e é fácil para Coriander chutá-la para que caia de novo. Ela não desiste, mas antes que possa tentar novamente ele pisa com força no rosto dela.
Crec!
Não consigo calcular os estragos que isto causa no rosto dela. A cena dá tanta aflição quanto à de pessoas após levarem chicotadas de Pacificadores por algum motivo qualquer, o que às vezes vejo no meu distrito. Porém, não desvio o olhar – nem penso nisso.
Coriander dá uma, duas, três facadas nela, e ouvimos um canhão. Então, sai correndo de perto dela sem nem pensar duas vezes, e vai em direção à Nydia. Ele se ajoelha ao lado do corpo da antiga aliada e o toma nos braços.
Agora que ele saiu do caminho, posso ver bem o corpo de Aster. Há vários cortes em seu tronco e um na parte detrás de seu ombro, seu nariz está quebrado, o queixo, deslocado, e seu rosto, amassado e ensanguentado.
Olho para Coriander. Como ele pode não estar dando a mínima para isso? Embora eu esteja sim feliz por Aster ter morrido, e achando que tudo isso por que ela passou foi muito merecido, a cena é horrível de se ver.
Mas a única coisa que mexeu com ele foi a morte de Nydia.
Estou pensando e sentindo tantas coisas ao mesmo tempo que, somando isso à dor física, parece que eu vou explodir.
— Edelweiss. – Coriander chama, após alguns momentos, e fico surpresa por ele ainda se lembrar de que estou aqui. – Eu estou desfazendo nossa aliança. Agora são apenas mais quatro tributos, então é melhor ser cada um por si. Eu não vou te matar agora porque Nydia não ia querer isso. Mas se eu fosse você, saía daqui rápido, antes que eu mude de ideia.
Ele não precisa falar duas vezes. Me levanto, o que torna a dor no joelho ainda mais lancinante e insuportável. Não dá para correr, mas saio, mancando e aos tropeções, o mais rápido que posso.
Um rastro de sangue fica por onde passo.
Percorro no máximo cinquenta metros antes de parar. Deixo-me cair no chão, e respiro fundo. Enfio uma mão na neve, pego um punhado dela e a pressiono no joelho para ver se me dá algum alívio. Não. Me seguro para não gritar.
No céu escuro, vejo que a estrela que outrora apontei para Nydia já se apagou, mas agora há outro ponto prateado, este logo acima de mim.
Só que desta vez não é uma estrela.
Um paraquedas prateado, trazendo para mim algum item de patrocínio, me acende uma faísca de esperança. Deve ser um pouco daquela pomada cura-tudo. Tem de ser.
Quando o pacote aterrissa ao meu lado, logo o desembrulho com as mãos trêmulas, ansiosa.
Decepciono-me ao ver não a milagrosa pomada lá dentro, e sim um pequeno rolo de gaze.
Será que o dinheiro doado pelos meus patrocinadores não foi suficiente para algo além disso? Ou que Mastt tem outros planos para ele?
Tudo que sei é que terei de me contentar com isso.
Enrolo a gaze em torno de meu joelho ferido. Nas primeiras voltas, ela não tarda a ficar encharcada de sangue, mas conforme camadas e mais camadas são acrescentadas, o sangue é estancado. O que não faz doer menos.
Se eu houvesse apertado mais a gaze, a dor teria diminuído, mas só porque o sangue teria parado de circular apropriadamente, o que não é algo bom de se acontecer. Todavia, Mastt não podia mesmo mandar algo para a dor também? Meus patrocinadores não podiam doar um pouco mais de dinheiro, se for o caso?
Sinto um leve desprezo por mim mesma por estar cobrando a ajuda das outras pessoas. Mas estou com tanta dor, e outra vez tão sozinha...
Penso que o próximo tributo a morrer vai ser, pela lógica, eu. Os outros três tributos que continuam vivos têm dezessete ou dezoito anos, são mais fortes, e mais propensos a matar. E eu? Dezesseis anos, sozinha e machucada.
O que será que vai acontecer comigo depois da morte? Espero que eu vá para um lugar bom, onde reencontre Pine, Nydia, Joy... Queria tanto saber se eles estão bem. Mas eles morreram sem sangue nas mãos. Já eu matei duas pessoas. Também iria para um lugar melhor, ou mereceria ir para um pior?
Ou talvez não haja algo do lado de lá. Talvez seja apenas um vazio eterno, a inexistência.
Mas como certa vez disse Simary Loyel, para que ficar refletindo sobre isso, se vou descobrir a verdade em breve?
Subitamente, então, me lembro que Mastt pode ter mandado uma mensagem junto do rolo de gaze, como ele fez quando mandou comida desidratada. Eu estava tão desesperada para pegar o item que na hora nem reparei.
Procuro no embrulho, e realmente acho uma tirinha de papel com as palavras impressas: “Você está tão perto de vencer agora. Vamos lá, aguente só mais um pouco, você consegue.”
Certo. Acho que Mastt já se esqueceu de como é estar na arena. As coisas não são fáceis do jeito que ele está fazendo parecer.
Até agora, para mim, Mastt era como um deus. Todas as instruções para os Jogos que ele dava eram sagradas, e se ele dizia que tudo haveria de ficar bem, era porque ficaria. Agora não acredito mais nisso. Não acredito mais em qualquer coisa.
Mesmo pensando em Penn e Kevan, em Mastt, nos meus pais e nos meus amigos, eu não sinto a determinação que sentia antes para voltar para casa. Nada mais me parece certo, além do frio e da dor.
Não estou me reconhecendo. Quando foi que eu virei niilista? Eu achava que meu maior problema era acreditar demais nas pessoas, e isso é algo absolutamente diferente.
Guardo a mensagem de Mastt no meu bolso, junto com a outra. Apesar de tudo isso, eu jamais a descartaria.
Considero continuar andando, agora que não estou mais sangrando, justamente para fugir do rastro que deixei. Fico tentando me convencer de que é importante estar o mais escondida possível, mas uma parte de mim fica replicando: “E daí?”.
Aborrecida, tiro meu agasalho. Ele me servirá de travesseiro. Vou dormir por aqui, mesmo.
Nesta noite, custo para pegar no sono. As coisas parecem piores quando fecho os olhos e a escuridão se torna total, fazendo meu caos interior crescer. Só durmo quando realmente não dá mais para aguentar ficar acordada.
E eu acordo na manhã seguinte com um som peculiar, que tenho certeza de já ter escutado antes, embora não me lembre quando e nem onde. Que animal faz este som, parecido com um gritinho fino?
Abro os olhos e olho à minha volta, sonolenta e sem levantar. Logo localizo um bestante parecido com um pequeno macaco, de pelagem espessa e alva, sobre um galho de uma árvore não muito longe de mim. Um bestante da mesma espécie do que matou Joy.
Ele me vê ao mesmo tempo em que o vejo.
Eu não estou com armas, nem fazendo algo que ele possa considerar como uma ameaça. Estou deitada na neve, inofensiva. A besta poderia fazer mais mal a mim do que eu a ela, mas ela não parece estar com vontade de me atacar – está só me encarando e esperando que eu faça algo.
Conforme os minutos passam, o bestante vai ficando confuso com a minha reação, ou com a falta dela. De repente, ele não parece mais tão alerta como antes, mas continua com o olhar fixo em mim.
Quando eu propositalmente desvio o meu olhar para outro canto, parando de dar atenção a ele, acontece o que eu imaginava: o bestante aproveita a oportunidade para pular para outra árvore, e dali para outra e em diante, até ter fugido, deixando para trás apenas um leve farfalhar de folhas.
Mais uma vez sozinha, volto a dormir, mesmo que já estejamos na metade da manhã. Não tenho vontade de fazer algo se não isso.
Deste sono, sou despertada mais tarde, ao sentir algo gelado caindo no meu rosto. Acordo sobressaltada, achando que me descobriram, mas no final não passa de neve. Parece que começou a nevar enquanto eu dormia.
É impossível continuar dormindo desse jeito.
Sento-me. Noto que meu estômago está roncando, e que eu não como a um dia inteiro. Mas mesmo que eu estivesse com alguma comida aqui, também já não tenho mais vontade de comer.
Chega a noite, e com ela vem o hino. E após o hino, vem ao céu uma foto de Aster, com uma aparência muito melhor da que ela estava quando terminou a vida. E então, aparece Nydia, com um sorriso alegre e cintilante.
A neve começa a cair com maior intensidade. O frio aperta.
Pego meu agasalho do chão, o jogo sobre meus ombros e junto as duas partes com as mãos, sem efetivamente vesti-lo. Estou com frio demais para separar os braços de meu corpo o suficiente para enfiá-los nas mangas.
Reparo que o rastro de meu sangue no chão está sendo encoberto por uma nova camada de neve. Pelo menos um ponto positivo deste clima. Se já não me seguiram até aqui, é improvável que alguém vá fazer isto depois de agora.
Por sorte, dormi hoje quase o dia inteiro, então mesmo passando esta noite em claro, sem poder dormir, não fico muito cansada.
Mas assim que o céu até então negro começa a adquirir os tons azuis-escuros e depois arroxeados do amanhecer, e a neve finalmente cessa, a primeira coisa que faço é colocar o meu casaco outra vez no chão para apoiar a cabeça e dormir por mais algumas horas.
Deito, e meio segundo antes de eu fechar meus olhos, vejo algo que me deixa tão boquiaberta que me põe sentada de novo: um paraquedas prateado caindo do céu. Pela segunda vez em dois dias.
Pelo visto, Mastt estava sim guardando o dinheiro do patrocínio para outra ocasião.
A dádiva dos patrocinadores aterrissa perto de mim, eu pego o pacote, desfaço o embrulho e tiro um pote térmico de dentro. Lá dentro tem alguma comida, mas não parece ser desidratada como na última vez. Desenrosco a tampa, e encontro lá uma sopa fumegante.
Não é mentira que eu estou completamente desanimada para comer qualquer coisa. O motivo pelo qual eu, imediatamente, levo e pote à boca e começo a tomar todo seu conteúdo o mais rápido possível é mais para me aquecer do que me alimentar.
Me faz sentir bem melhor, embora eu não achasse que isso era possível.
Depois disso, procuro o bilhete de Mastt no embrulho, e o que acho é um papel bem maior do que as tirinhas das outras duas vezes, dobrado várias vezes para ficar do tamanho de uma. Abro o papel para ler seu conteúdo.
Porém, não há algo para ser lido. Não é um bilhete. É uma foto.
Uma foto tirada no meu aniversário de quinze anos, ano passado. Uma foto em que estou vestida com as minhas melhores roupas e com um enorme sorriso no rosto em frente à minha casa, com uma Penn de doze anos à minha direita, acenando para a câmera, e um Kevan de sete, olhando para outro lado. Ele nunca gostou de tirar fotografias.
Esta foto estava num porta-retratos na minha escrivaninha. No meu quarto. Na minha casa, no Distrito 3. Como foi que Mastt a conseguiu para mandá-la para mim? E como foi que ele conseguiu enviar uma fotografia para mim, sendo que só são permitidos cartões bem curtos?
Quanto à segunda pergunta, é evidente que ele teve de enganar alguém para mandá-la. Mas a primeira é mais difícil. Eu sequer sabia que Mastt sabia da existência dessa foto.
Mas isso me anima, porque ter recebido esta fotografia agora foi algo bom e totalmente inesperado.
Mais uma vez, tenho vontade de vencer os Jogos. E então, quem sabe, saber onde ele conseguiu essa foto.
Um sinal de que coisas boas ainda podem me acontecer, afinal de contas.
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