Notas iniciais
Chegamos à metade da história! Obrigada por terem acompanhado até aqui, e continuem lendo a segunda metade, lógico ;).
Capítulo dedicado à Noctolia. Ela não tinha comentado nenhum capítulo, por isso me foi uma incrível surpresa quando recomendou. Fiquei muito, muito animada! Obrigada!
Espero que gostem do capítulo!

Eu queria não ser tão ambiciosa.

Queria ter me conformado com uma mochila e não ter ido atrás de uma lança, e fugido da Cornucópia com Pine quando nos encontramos perto das mochilas.

Se assim fosse, como estaria a situação agora? Melhor? Pior? Eu saberia o paradeiro dele, no mínimo.

Eu não posso continuar aqui parada. A qualquer momento um tributo armado pode aparecer e me matar, se eu bobear. Mas e Pine? E se eu fugir agora e depois descobrir que ele não morreu? E não é só por causa da aliança. Eu realmente não quero sair daqui sem ele.

É quando cai a ficha.

Há tantos dias atrás, quando eu fui sorteada na colheita e a prefeita Vimberg pediu – implorou – que eu fizesse uma aliança com o filho dela, lembro-me de ter pensado algo como: “Por que eu faria isso? Ele só iria me atrapalhar na arena”. Certo que eu, na verdade, estava terrivelmente errada, mas não podia saber disso. Eu mal o conhecia.

Porém, meus sentimentos mudaram mais tarde no mesmo dia para “Eu não posso formar aliança, porque Pine lembra meus irmãos, então corro um grande risco de me apegar a ele e não conseguir matá-lo se chegar a hora”. E aí sim, eu estava muito certa.

Como eu previa, aconteceu. Eu me apeguei a Pine. Eu o amo como um irmãozinho.

O amo tal qual Penn e Kevan. O que não é pouca coisa.

Eu não posso ir embora se não há provas de que ele está morto.

Continuo vagando por perto, procurando qualquer pista dele. Esteja ele vivo ou não, não pode ter ido muito longe. Mas eu tenho tanto receio de achar o corpo dele. De achar sangue. Eu não posso lidar com isso. Pine tem de estar vivo.

– Edelweiss! – Ouço uma voz me chamar, sussurrando. Paro outra vez. Olho em volta, procurando. Só pode ser Pine. Não creio que algum outro tributo se tenha dado ao trabalho de decorar meu nome.

Mas como não acho alguém, creio que seja o vento me pregando uma peça. Uma brincadeira de muito mau gosto.

– Edelweiss! – De novo. Não, não pode ser o vento. Olho em volta novamente, com ainda mais atenção.

E o encontro. Ele subiu em uma das árvores, e lá está. Perto de mim, com a mochila, e não parece sequer ferido. Pine está bem.

– Pine! O que você está fazendo aí? – Pergunto, também sussurrando. Falar me incomoda. Não quero chamar a atenção, mas não posso tratá-lo com silêncio agora que o achei.

– Eu achei aqui em cima mais seguro.

– E desde quando você sabe subir em árvores?

– Uns cinco minutos atrás. – Cuidadosamente, ele pula para o chão, aproveitando que está em um galho baixo. Ele cai igual à uma pedra, mas a neve amortece a queda dele como amorteceu a minha quando tropecei no corpo da menina do Distrito 6. – Estou bem. – Pine se levanta.

Me aproximo e o abraço.

– Achei que você tinha morrido!

– Digo o mesmo. Você demorou séculos para pegar esta lança!

– Eu sei. Mas este é o lugar errado e a hora errada para conversarmos, Pine. Vamos sair daqui, está bem? – Seguro o braço dele, como se ele fosse uma criança pequena. É uma atitude exagerada, mas eu achei que o tinham matado. Não irei permitir que matem-no de verdade.

– Boa ideia. – Eu acho que neste momento ele pretendia olhar para o meu rosto, mas acaba detendo o olhar na minha orelha. – Ah, caramba. Como você...?

– Aster. – Respondo, e isso basta para Pine entender. – Está muito ruim?

– Não dá para ver. Está sangrando muito.

Sinceramente, eu estava tão desesperada para encontrar Pine que esqueci completamente da minha orelha machucada, do sangue, e de tudo. Mas quando ele me lembra, sinto minha orelha arder com o dobro da intensidade, como se quisesse compensar o tempo em que a ignorei.

Levo minha mão à área ferida, e depois olho para a palma. Está manchada de sangue. Se meu machucado não parar de sangrar ou se o sangue não parar de fluir com tanta intensidade, isso vai se tornar um grande problema. Por enquanto, se ignorar a dor, eu estou bem.

– Daqui a pouco para. Foi só um golpezinho a toa. Vamos, temos de sair daqui.

Ele concorda, e nós, sem tempo a perder, partimos no mesmo segundo.

Vamos correndo, para nenhum lugar em especial, só para mais dentro da floresta, para mais longe da Cornucópia. Não estaremos livres dos Carreiristas por muito mais tempo se continuarmos parados, pois a essa altura eles já devem ter matado todo mundo ao alcance deles no Banho de Sangue e já estão se preparando para seguirem atrás dos outros tributos.

Corremos o melhor que podemos por mais de uma hora. Se não fosse por toda esta neve, sei que poderíamos prosseguir por mais tempo, mas ela torna tudo mais difícil e cansativo. Então, paramos por um instante para tomar ar.

Uso a pausa conferir mais uma vez minha orelha. Parou de sangrar, mas a aparência que ficou deve ter sido nada bonita. E ainda está doendo muito.

Espero que não infeccione.

Bom, mas acho que não posso reclamar muito deste ferimento. Poderia ser pior, muito pior. Aster poderia ter acertado o alvo.

Encolho os ombros à ideia, e digo a Pine para retomarmos o caminho. Antes me concentrar no esforço físico que neste pensamento ou na dor.

Continuamos andando a passo rápido, pois não vemos mais necessidade de correr. Isso só iria nos esgotar com mais velocidade, e não conseguiríamos chegar muito longe. Mas ainda vemos a necessidade do silêncio, e procuramos não fazer barulho por quase a tarde inteira.

– Edelweiss? – Enfim Pine quebra a quietude, depois de horas.

– Sim?

– Você acha que morreu quantas pessoas no Banho de Sangue?

Nem pensei nisso. A média de tributos mortos anualmente no Banho de Sangue é dez, mas varia muito. Em edições-relâmpago dos Jogos, podem morrer quatorze ou quinze. Nas mais demoradas, seis ou sete.

Nesse segundo caso, todos costumam debochar da incompetência dos Carreiristas, que mataram poucas pessoas.

Mas em minha opinião, tudo é planejado pelos Idealizadores dos Jogos, até o número de mortes no começo. Claro que eles não podem decidir o número exato de quantas pessoas deverão morrer, mas as condições da arena e as armas que eles disponibilizam na Cornucópia os tornam influentes até nesta quantia.

– O normal. Umas dez.

Pine assente, e não nos falamos mais até o fim da tarde, quando nos resolvemos por parar para passar a noite.

Nós nos sentamos na neve, um em frente ao outro. Eu coloco minha lança ao meu lado, e ele põe a mochila – que carregara até então – entre nós dois. A encaramos por algum tempo, sem coragem de abri-la. E se encontrarmos algo bem idiota, como um monte de pedras ocupando o espaço inteiro? Certo que pedras podem ser mortíferas, se atiradas com força contra outro tributo, mas obviamente preferimos encontrar comida e remédios a isso. E quanto ao meu exemplo, não precisam ser necessariamente pedras. Na minha cabeça, consigo bolar uma lista enorme de coisas que eu odiaria encontrar aí dentro.

– Quer ter as honras? – Finalmente pergunto para Pine.

– Eu passo.

Concordo, em compreensão, embora adoraria que ele tivesse aceitado.

Pois é. Sobrou para mim.

Puxo a mochila para mais perto, e abro o zíper. Não tem sentido ficar adiando mais isso.

A primeira coisa que vejo, ocupando toda a metade superior da mochila e impossibilitando a visão do que quer que esteja embaixo é um saco de dormir nas coras preto e vermelho.

Bom. Eu e Pine podemos nos revezar para dormir nele. Dividir a noite em dois turnos, e enquanto um dorme, o outro fica de vigília. Tenho certeza de que ele vai gostar da ideia.

Tiro o saco de dormir para que Pine possa vê-la, e para que eu possa ver o que há embaixo.

E encontro comida! Sim, isso mesmo, há um saco de carne desidratada dentro da mochila. Procuro mais, e descubro não se trata de apenas um. São dois sacos de carne desidratada. Puxo os dois para fora e balanço-os no ar com vigor.

– Como você chama isso, Pine?

Ele sorri imensamente.

– Estou em dúvida entre “sorte” e “comida”. Mas no final acaba sendo a mesma coisa.

Sorrio de volta, e deixo os dois sacos pousados na neve ao meu lado.

Depois disso, imagino que não tenha mais nada, já que a mochila ficou bem leve. A viro de cabeça para baixo, só para garantir, e mais uma coisa cai de dentro.

Um tubo de pomada.

– Agora você tem algo para passar na sua orelha. – Pine dispara.

– Nem sabemos que tipo de pomada é. Não tem rótulo. – Examino o tubo atentamente. A embalagem é inteira branca, e não há nem uma mísera palavra escrita. Não veio dentro de uma caixinha, e, portanto, não tem bula. Desenrosco a tampa, tiro o pino de bloqueio, e ponho uma pequenina gota da pomada bege no meu dedo. Cheiro, mas o odor nada me diz. É só cheiro de pomada.

– Deve ser uma daquelas pomadas cura-tudo da Capital. – Ele parece estar tão certo disso que o “deve ser” não combina com seu tom.

Eu já tinha ouvido falar nestas pomadas, que além de servirem para qualquer ferimento – seja cortes, queimaduras, arranhões, coceiras e até picadas de inseto -, fazem o machucado sumir em pouquíssimos dias. Se não for muito grave, até em horas. Na Capital, eles compram muito este remédio, por ser bem mais prático que pomadas comuns. Nos Jogos Vorazes, eles liberam o produto em algumas edições, geralmente as que eles querem que dure mais. No Distrito 3, é caro demais para a maior parte da população. É caro demais para qualquer distrito, exceto, talvez, o Dois. O distrito da alvenaria é o queridinho da Capital, vencendo até o Distrito 1, que tem como função produzir artigos de luxo.

– Será? – Pondero, sem crer que nós conseguimos um remédio tão bom. Como pode? A minha má sorte resolveu dar uma trégua? Tirou férias? Tudo que posso afirmar é que ela vai voltar. Ela é muito apegada a mim para simplesmente ir embora.

– Acho que sim. E acho que você deveria passar a pomada no seu machucado agora mesmo, antes que infeccione, ou qualquer coisa.

– E se não for?

– Quem não arrisca não petisca.

Ele tem razão, naturalmente. Ou eu uso agora e testo, ou nunca mais uso. Espero infeccionar, ser tarde demais, e assim morro.

Espremo o tubo, deixando um punhado da pomada cair para a palma da minha mão. Então, lambuzo minha orelha ferida com ele.

Como num passe de mágica, o machucado para de latejar e arder. Eu mal sinto mais minha orelha, mesmo estando encostando nela. Como se ela estivesse anestesiada. A área da minha mão onde eu tinha colocado a pomada também está dormente. Arregalo os olhos, surpreendida.

– A aparência está melhor, Pine?

– Hm, aparentemente ainda não fez efeito, Edelweiss.

Eu deveria ter imaginado. Senti-me meio boba fazendo aquela pergunta para ele. O efeito é rápido, mas não instantâneo.

– Não está mais doendo.

– Não? Então, acho que esta é a pomada certa. – E isto encerra a conversa, porque neste momento o hino de Panem começa a tocar a todo volume, marcando o final do primeiro dia nos Jogos e a chegada da noite.

Nos Jogos Vorazes, o hino sempre toca ao fim de cada dia.

Todavia, o motivo pelo qual paramos de conversar não foi porque queríamos ouvir o hino, ou porque ele é alto demais para abafar nossas vozes, e sim porque estamos ocupados olhando para o céu, ansiosos para ver o que vai acontecer depois da música: Primeiro, os canhões soando, um para cada tributo que morreu no dia de hoje, e depois, as fotos dos ditos cujos, que vão ser acesas no céu noturno para que todos possam ver.

É horrível a sensação que se tem ao esperar os canhões. Mesmo que os tributos mortos no Banho de Sangue já tenham partido há algumas horas, é como se a morte deles não fosse oficial até o canhão soar.

Eu sei que eu deveria estar na torcida de que muitas pessoas tenham morrido, porque assim minhas chances de vencer aumentarão, mas sinto justamente o contrário. Eu penso no rosto de todos aqueles jovens inocentes que foram sorteados para vir para os Jogos e desejo que eles estejam vivos. Me parece tão injusto que algum deles tenha morrido...

O primeiro canhão é ouvido logo após o fim do hino. Seguindo ele, o segundo, o terceiro... Quarto. Quinto e sexto. Sétimo, oitavo e nono.

Nove canhões. Nove mortos.

E mais quinze tributos vivos.

Uma luz prateada se projeta no céu. É a imagem da garota do Distrito 6, em quem eu tropecei hoje na Cornucópia, viva e sorridente. Bem o contrário do que ela estava quando a vi pela última vez.

A foto muda para o garoto do distrito dela, e assim vai se alterando pela de todos os mortos do dia. O garoto do Distrito 8. A garota do Distrito 9. Os dois tributos do Dez e os dois do Onze. O garoto do Doze.

Então, a luz se apaga e a noite volta ao normal.

Eu e Pine discutimos sobre ir dormir agora, mas ambos estamos famintos. O argumento de que o melhor é esperar até amanhã para comermos alguma coisa, que devemos poupar bem a comida que temos, não convence os nossos estômagos, e decidimos comer um pouco da nossa carne desidratada.

Comemos quase o primeiro pacote todo. Quando eu estava olhando a mochila, dois pacotes pareceu muito, mas na prática isso significa quase nada.

E essa comida dá muita sede. Minha fome é saciada, mas minha boca fica completamente seca.

– Não temos água. – Geme Pine, como se pudesse ler meus pensamentos.

– Podemos beber neve.

Ele claramente não gosta disso, porém não temos opção, e seguimos meu plano. Até que não é ruim estar em uma arena com tanta neve. Pelo menos, nos garante água.

– Não temos mais o que fazer por hoje. – Digo, depois. – Eu faço a primeira vigília, Pine. Vá dormir um pouco.

– Certo. – Ele assente. Pega o saco de dormir, que eu tinha devolvido para a mochila, e começa a ajeitá-lo no chão.

Sento encostada em uma árvore, alguns passos longe dele, com minha lança sempre ao meu lado. Fico esfregando minhas mãos, tentando amenizar um pouco o frio.

Pine se acomoda no saco de dormir, e está dormindo e roncando suavemente pouco depois.

As próximas horas são silenciosas. Mesmo à noite, esta floresta não é tão escura. O brilho da lua é incomum, assemelhando-se a uma lâmpada. Fico bem quieta, observando meu aliado dormir, a lua, e principalmente, as árvores, tentando adivinhar que perigos elas escondem.

Não tenho coragem de acordar Pine de madrugada. Ele está dormindo, sonhando, bem longe dos Jogos Vorazes. A Capital pode trazê-lo para cá, mas não pode privá-lo de ter sonhos felizes. Vou deixá-lo dormir a noite toda.

E ele realmente dormiria, se não tivesse sido acordado por um grito agudo e angustiado que abalou a paz no meio da madrugada.

Notas finais
Pine tem um monte de fãs, cara... AUHASHUASHUA, que legal.
Até o próximo capítulo!