Panem Et Circenses
16 Bestantes
Notas iniciais
Espero que gostem!
Pine acorda imediatamente e senta no saco de dormir, olhando para os lados, confuso e assustado. Quando me vê na sombra de uma das árvores, levanta e vem correndo sentar ao meu lado. Ele está tremendo e com lágrimas nos olhos.
- E-Edelweiss, foi você q-quem gritou? – Pergunta ele, baixinho.
- Não. – Estou em alerta, olhando para a direção de onde o grito que o acordou veio. Caso contrário, estaria abraçando Pine. Ser acordado pela sua equipe de preparação ou seu estilista (ambas situações já vividas por mim, experiências que achei nem um pouquinho agradáveis) não se compara a acordar como ele acordou agora.
No entanto, o que exatamente acaba de acontecer? Quem gritou? Parecia um grito de criança. Uma criança em perigo, perto daqui? E ela ainda está viva, porque o canhão não soou. Será que ela se encontrou com os Carreiristas? Se for isso, porque eles estão acordados e matando a essa hora? São muitas perguntas. E, o ponto principal: Se a questão for os Carreiristas, eles estão próximos.
Sei que o melhor é reorganizar a mochila, pegar minha lança e fugir com Pine o mais rápido possível. Contudo, minha enorme vontade de ir ver o que aconteceu fala mais alto. Talvez essa vontade seja devida ao meu cansaço. Eu prefiro ir conferir o que aconteceu e ter certeza de que há um perigo de que devemos fugir a fugir só para prevenir.
- Pine, não saia daí. – Falo, me levantando com a arma e batendo a neve da roupa.
- Não! – Ele se agarra ao meu braço, tentando me impedir de ir. Detenho-me, surpresa com a reação infantil dele. Apesar de Pine ser inocente como uma criança, ele não costuma agir como uma. – Por favor, fica aqui!
De súbito, me parece tão errado deixá-lo. Mas eu já tomei minha decisão, e agora eu não vou só por pura preguiça de fugir. Eu me importo com Pine milhares de vezes mais do que me importo com a indisposição.
Lastimavelmente, também comecei a pensar que a criança que gritou ainda está viva, e precisando de ajuda. Ninguém grita daquele jeito ao menos que esteja em um grande perigo. E eu não aguento imaginar que estou de mãos atadas enquanto a vida de alguém pode ser salva por mim. Eu preciso ir ver o que aconteceu.
- Está tudo bem. Eu já volto. – Sorrio tranquilizadoramente para ele. Pine está quase começando a chorar, e não me solta. – Está tudo bem. – Repito, me livrando a força da mão dele. Quando vejo que ele não tenta me segurar de novo, me sinto livre para começar a ir na direção de onde veio o grito.
- Se você vir eles, não enfrente! Volte na hora! – Ele diz, quando estou quase sumindo de sua vista.
“Eles”. Os Carreiristas. Não fui a única a pensar neles.
- Tudo bem. Vai dar tudo certo.
Com isso, sumo entre as árvores. Tenho medo de me perder de Pine como da última vez, no Banho de Sangue, mas sinto que ele ficará mais seguro se permanecer onde está. Por isso preferi me separar dele a trazê-lo comigo.
Procuro não me importar muito pelo fato de não haver um ponto de referência para me guiar quando eu for voltar. Tudo nessa floresta até agora é tão absolutamente idêntico: As mesmas árvores, as pedras com os mesmos tamanhos e formatos.
Como nada disso já estava naturalmente aqui antes de os Idealizadores dos Jogos resolverem transformar esta área numa arena para os Jogos Vorazes (o céu, o clima, a neve, as plantas, é tudo artificial e planejado), não posso sustar um pensamento sarcástico:
A criatividade de vocês dessa vez foi absolutamente fantástica, Idealizadores.
Pensamento que eu sou esperta o suficiente para não expressar em voz alta.
Preocupando-me com o problema mais imediato, eu não encontraria a responsável pelo grito se não ouvisse um choro após alguns minutos de caminhada.
Não digo um choro escandaloso, mas um baixo e de cortar o coração. Parece que, seja lá quem esteja chorando, me viu e está tentando se controlar para não chamar minha atenção. Não é de se espantar: A última coisa que eu devo estar parecendo, carregando essa lança, é amigável. Todavia, o som não está muito longe, e não tardo a encontrar, encostada em uma árvore, uma menina de doze anos, com o rosto vermelho e manchado por lágrimas, e pressionando com as mãos a lateral de seu corpo. Dá para ver que ela está tapando um ferimento pelo sangue que fez uma enorme sujeira em seu agasalho branco. E é sem dúvidas um machucado enorme.
A menina começa a chorar desenfreadamente quando eu a descubro, sendo que ela estava tão obviamente desejando ser invisível.
- Por favor – Ela pede, a voz engasgada e suplicante – Por favor, não me mate.
- Eu não vou te matar.
Não mesmo. Não vou e não quero. Ainda mais porque estou chocada demais para isso: Acabo de reparar em quem ela é.
Ela é a garota do Distrito 12, com quem gritei depois das entrevistas pelo simples fato de estar olhando para mim. Acho que eu encontrá-la foi o modo do destino de me dizer: “Viu só? Você tratou essa pobre garotinha como lixo. Assista-a morrer agora”.
Ou, quem sabe, uma chance de eu me redimir.
Vou até ela e me ajoelho à sua frente. Com ternura, pergunto:
- O que foi que aconteceu com você?
Ao que ela não responde, possivelmente achando que eu vou embora se ela ficar bem quieta.
- Quem te machucou? Foram Eles? Os Carreiristas? – Minha voz desce um ou dois tons na última frase. Ninguém gosta da palavra “Carreiristas” senão os próprios.
A menina nega com a cabeça. Então, com o queixo, aponta para um árvore alguns metros atrás de mim. Olho por cima de meu ombro, e tenho de forçar a vista para distinguir em meio às sombras, esparramado em um dos galhos, um animal parecido com um macaco, só que menor, de pelagem alva e espessa, olhos amarelos cintilantes e longas garras afiadas e ensanguentadas.
Um bestante.
“Bestante” ou “besta” são os nomes dados aos inúmeros seres criados em laboratório pela Capital. Eles são feitos, geralmente, baseados em uma possível mistura entre dois ou mais animais, ou em um animal já existente modificado. São as coisas mais cruéis criadas pela Capital, depois dos próprios Jogos.
O bestante solta um guincho agudo que se assemelha a uma risada humana muito estridente, como se caçoando da desgraça da menina do Doze.
- Esta besta te atacou? – Eu e o ser praticamente travamos um duelo de quem consegue sustentar o olhar do outro por mais tempo. Pode parecer idiota fazer esse tipo de coisa, mas certamente não é brincadeira. Alguns bestantes são quase tão inteligentes quanto os humanos, e farejam medo e insegurança de longe. Ele está me testando. Quer ver se eu me intimido.
- A-A culpa não foi dele. – A menina o defende, sem parar de chorar.
Isso me pega de surpresa. Ela acabou de apontar para o bestante. Por que está voltando atrás agora?
- Foi de quem, então? – Finalmente desvio os olhos da besta, para olhar para a garota. Ouço o bestante guinchar de vitória, mas ignoro. Ela não responde, e pretendo insistir, mas antes faço uma pergunta mais importante: — Qual o seu nome?
- Joy.
Joy. Significa “alegria”. Bem no fundo, não deixo de imaginar como esse é um nome bonito, mas por fora eu estou enojada demais com a ironia por trás dele para achá-lo agradável.
Esta menina inocente está morrendo, lenta e cruelmente, depois de ser tirada de seu lar e de sua família e ser jogada em uma arena ridiculamente fria. Ouvir sobre alegria, principalmente que este é o nome dela, deixa tudo ainda mais parecido com uma piada sádica.
- Escute, Joy. Se você me contar quem te machucou, posso matá-lo. Conte comigo para isso. Mas você precisa ser franca. – Não estou me reconhecendo. Não dá para acreditar que uma promessa de que eu vou matar alguém ou alguma coisa saiu de minha boca com tanta naturalidade. Entretanto, essa é a mais pura verdade. Se ela me contar, tomarei uma providência.
- Foi o bestante. – Joy explica, entre soluços. Está, outra vez, tentando conter o choro. – Mas não foi culpa dele. Foi culpa minha.
- Como assim?
- Eu estava com f-fome. Não passei na Cornucópia, então não tenho comida alguma. Mas por mais que eu andasse, não encontrava animais, nem frutas nem n-nada! Quando eu vi a besta, ela estava no chão, de costas para mim. Peguei uma pedra e fui golpeá-la... Ela percebeu, virou com suas garras e-enormes, me arranhou e subiu na árvore. Você chegou uns minutos depois.
Preciso de um segundo para digerir a história. Isso foi uma das coisas mais tristes que já ouvi na minha vida. Não a parte do ataque do bestante, pois todos os anos temos casos do tipo nos Jogos, mas a parte de ela achar que é culpa é dela, por tentar matá-lo primeiro. Se fosse eu morrendo, nunca pensaria assim.
E não é como se o bestante a tivesse atacado por legítima defesa. Esses seres são maldosos: A suposta motivação dele não passou de uma desculpa esfarrapada.
- Não é culpa sua. – Digo, me encostando à árvore ao lado dela. – Você só estava com fome. Não é culpa sua.
Mais uma vez ela fica em silêncio, mas parece mais calma, como se minhas palavras a consolassem. Joy se encosta a mim, deita a cabeça no meu ombro e fecha os olhos. É algo ousado de se fazer, pois nada prova para ela que eu não estou esperando para nocauteá-la, senão minha palavra.
Mas, pensando bem, o que ela tem a perder? Vai morrer de qualquer jeito, com este machucado.
Olho para o céu. Agora deve ser quase três horas da madrugada. O que me leva a outra questão que não quer calar:
- Por que você estava acordada há esta hora?
- Porque eu não conseguiria descansar antes de encontrar comida.
Eu a entendo. Dormir com qualquer preocupação em mente é difícil. Mas teria sido muito melhor para Joy ter deixado isso para lá e tentando descansar um pouco. Ela estaria bem agora.
Não vou contar isso a ela. A desgraça já aconteceu, e não adiantaria dizer “Você não deveria ter feito isso”. Sem falar que, por mais que Joy vá morrer por causa disso, a determinação dela ao ficar acordada até esta hora para encontrar comida é louvável.
- Me desculpe por ter falado com você daquele jeito anteontem. – Falo, quase sussurrando. Eu me sentia na obrigação de me desculpar, mas agora sinto é que minhas palavras foram em vão. Olhando para o rosto dela, a impressão que se dá é de que ela está dormindo. Não está morta ainda, mas já deve estar longe. Não deve ter escutado.
- Não tem problema. – Joy responde, num fio de voz.
Ela escutou, afinal.
Dois segundos depois ouço um tiro de canhão. Joy está oficialmente morta.
Continuo parada, com ela encostada a mim, por mais algum tempo. Uma melancolia desanimadora se instala em mim. Só tomo vontade de partir quando lembro de Pine, esperando por mim, desarmado e à mercê dos outros tributos e dos bestantes que já provaram morar nesta floresta. Ele deve ter achado que o canhão foi meu, com a minha demora a voltar.
Deixo o corpo apoiado no tronco da árvore, e me levanto com a minha lança. Por estar de madrugada, muito provavelmente a família de Joy está dormindo, achando que ela ainda está viva. Só quando eles acordarem pela manhã vão descobrir o fim trágico dela.
Como será a sensação de acordar um dia e receber a notícia de que sua filha, ou sua irmã, foi morta por uma besta na noite anterior, e que mesmo que você não tenha assistido a cena ao vivo, será obrigado a assistir à reprise depois?
Já estou me virando para voltar para o acampamento quando escuto o bestante que matou Joy soltar aquele guincho de deboche mais uma vez. Paro para fuzilá-lo com o olhar, mas ele apenas guincha mais alto, me provocando. Ele não está mais me levando a sério. Naquela hora em que estávamos nos encarando e eu desviei o olhar, ele considerou que eu fui intimidada, e que por isso sou fraca.
Isso me deixa muito, mas muito irritada.
Sem pensar duas vezes, corro até a árvore onde ele está, brandindo minha lança ameaçadoramente, visando acertá-lo. O bestante se põe em posição de ataque, mas não foge. Para um ser tão pequeno, ele é bem orgulhoso.
Ao chegar perto dele, ele salta em cima de mim. Se alcançar o meu rosto, vai fatiá-lo por inteiro com suas garras.
E seria o que ia acontecer se nesse momento alguém não tivesse me empurrado para o lado e eu tivesse caído na neve, saindo da frente do ataque.
Notas finais
Então, é isso.
Comentem, por favor, e até o próximo capítulo!
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