Notas iniciais
Boa leitura!

É rápido demais.

Meu primeiro pensamento é que Joy me ajudou. Mas é claro que Joy não me ajudou, ela está morta. Eu a vi morrer.

O que realmente me empurrou e se pôs no meu lugar, por não ter sido rápido o suficiente para sair da frente também, foi, para meu horror, Pine.

Foi como eu previa. Ele ouviu o canhão e achou que fosse meu. Precisou vir conferir, como eu precisei quando ouvi o grito de Joy.

E chegou na hora certa para me salvar, mas não podia tudo dar tão heroicamente certo.

Pine se feriu.

A besta não consegue se prender ao rosto dele, porque ele se lançou em cima de mim logo após me tirar do caminho. Contudo, ela deixa quatro enormes cortes na bochecha dele. Sangue começa a jorrar, com ainda mais intensidade do que quando eu levei uma facada na orelha.

Não tenho tempo para perguntar se ele está bem. O bestante caiu à nossa frente, e já está se colocando em posição de ataque novamente.

Saio de baixo de Pine. O garoto cai na neve, encolhido, as mãos no rosto ensanguentado, gemendo de dor.

Estou com a minha lança, já que não a soltei enquanto caia. Isso foi muito arriscado, pois a ponta poderia ter me perfurado quando cai em cima dela, mas isso não vem ao caso.

O bestante está com o olhar fixo em mim, ignorando Pine, que não representa tanta ameaça quanto eu. É bom de verdade vê-lo fora do perigo imediato, embora seja tão péssimo vê-lo se contorcendo de dor daquele jeito. Assim que eu tiver me livrado da besta, vou ajudá-lo. Agora é impossível, ao menos que eu queira piorar ainda mais a situação.

Tenho de assumir a defensiva contra o bestante, porque ele logo pula em cima de mim, antes que eu possa pensar em algo para fazer contra ele. Eu o rebato com a minha lança, fazendo-o cair ao chão. O bestante fica abalado por um segundo, que eu uso em meu favor para baixar a ponta da lança em direção ao corpo dele, visando atravessá-lo com ela.

Ele tenta fugir, como o natural, mas eu também fui veloz: Minha lança acaba entrando numa pata traseira dele, prendendo-o ao chão.

Deve doer muito. A besta guincha desesperada, um som não mais parecido com o de uma risada humana, e sim de um animalzinho ferido.

Não sinto piedade a ponto de me arrepender de ter feito isso, mas sinto a ponto de querer acabar logo com o sofrimento do bestante. Tiro a lança, e ele tenta se arrastar para longe de mim, porém não pode se afastar muito em suas condições. Quando abaixo a ponta de minha lança nele mais uma vez, perfuro o seu corpo por completo, para acertar o seu coração e garantir que isso vai matá-lo com certeza.

Ele para de se mexer.

Deixo a minha lança no corpo. Como o bestante é pequeno, ela acaba sendo mais pesada do que ele, e cai na neve, virando-o de lado também, mas nem olho.

Corro até Pine e me agacho em frente a ele. Ponho uma mão sob o seu queixo, tentando erguer sua cabeça, para que eu possa ver os arranhões.

Ele está respirando com dificuldade, tentando não chorar. A parte direita do rosto dele está invisível, coberta pelo sangue.

— Não está tão ruim, Pine, acalme-se, não está tão ruim... – Fico repetindo, para tranquilizá-lo, embora minha expressão preocupada me entregue.

Temos de voltar ao acampamento agora. A nossa pomada está lá, e Pine precisa urgentemente dela. Com horror, nos imagino voltando e descobrindo que todas as nossas coisas foram roubadas. É isso que ganhamos por abandonar tudo e vir para cá.

Me levanto, e retiro minha lança do bestante. Então, seguro o braço de Pine e puxo-o com delicadeza, para ele se levantar.

- Vem, Pine, precisamos voltar rápido. Você precisa da pomada.

Ele concorda silenciosamente, e nós dois voltamos correndo para o local onde estamos acampados. É meio angustiante ter de abandonar o corpo de Joy. Ela parece tão indefesa e só... Mas está morta, e não faz sentido permanecer por perto.

Assim que estamos razoavelmente longe do corpo dela, um aerodeslizador passa e o recolhe. Agora, ele vai ser mandado de volta ao Distrito 12, para que a família possa fazer o enterro.

Além da aflição que tive em deixar Joy, existem ainda duas preocupações bem maiores: A primeira, de nós não conseguirmos mais chegar ao nosso acampamento, por não termos um ponto de referência para voltarmos. E a segunda, de termos tido nossas coisas roubadas enquanto estávamos longe. Tudo bem, é improvável que tenha tributos acordados e roubando às três da manhã, mas muitos assumem hábitos improváveis nos Jogos. É uma questão de sobrevivência: Depois dos Carreiristas, os tributos que mais têm chances de vencer são os excêntricos.

A minha primeira preocupação não se torna realidade por um triz: Se tivéssemos nos afastado mais do acampamento, teríamos, com efeito, nos perdido. Quanto aos nossos pertences, não foram a lugar algum. Os encontramos no local em que deixamos.

Apenas um dia na arena e eu já estou ficando paranoica por causa de ladrões imaginários que atacam de madrugada. Muito legal.

Uma vez estando aqui de volta, vou até a mochila e pego o tubo de pomada de dentro. Eu realmente não sei o que eu faria se não o tivéssemos. Poderia eu ajudar Pine sem medicamentos? Bom, eu não pude fazer algo nem para mim mesma depois de ferir minha orelha, então duvido.

- Aqui, Pine. Isso vai fazer a dor parar na hora. – Lhe digo, e entrego o tubo a ele. Reparo que suas mãos tremem ao desenroscar a tampa, colocar a pomada na mão e passar no rosto.

Pine não reage como se a dor houvesse desaparecido magicamente como aconteceu comigo quando eu usei a pomada. Pudera. Ele pegou tão pouca.

- Usa mais.

- Não quero desperdiçar. – Ele está falando com a voz tão sofrida. Tenho de tomar o remédio de suas mãos, e passá-lo no rosto dele eu própria.

Preciso me segurar para não estremecer quando sinto os cortes, tão fundos e horríveis, na pele de Pine. O sangue já foi estancado (um milagre da pomada), e agora eles estão bem visíveis. Acho que não vou mais conseguir olhar para ele tanto quanto antes.

- E agora? Está melhor? – Pergunto, quando enfim acho que já foi o suficiente.

- Muito. – Admite, aparentando ainda muito abalado, mas não mais com tanta dor. – Mas você usou a pomada toda, Edelweiss.

Olho para o tubo vazio em minha mão. Isso não pode ser considerado um descuido. O recipiente é pequeno, não podia caber muita coisa.

- Não tem importância. É só passarmos a tomar o dobro do cuidado para não nos machucarmos. – Falo, como se não se machucar nos Jogos Vorazes fosse algo fácil. E, na verdade, não parece muito difícil, teoricamente falando.

Só que machucados nunca são teóricos.

Pine não se convence, e nem responde.

- Pine... Por que você não volta a dormir agora? – Sugiro. Também não estou com humor para conversar agora, e estou tão frustrada pelo bestante, pela Joy e pelo próprio Pine!

- Você já me deixou dormir a maior parte da noite. – Ele replica – E você também tem de descansar. É a minha vez de ficar de vigília.

Como negar a oportunidade de dormir, estando eu tão exausta? Aceito, aconselho o Pine a não sair daqui, me acordar se houver algo errado, por mais mínima que a coisa seja, e entrego minha lança para ele, dizendo para ele não sair de perto dela aconteça o que for.

E finalmente, vou dormir.

Descanso por aproximadamente seis horas, até Pine me acordar na metade da manhã.

O sol brilha no céu, sem, no entanto, trazer calor, assim como ontem. Talvez esteja até um pouco mais frio. Deve estar fazendo 14ºF, ou uma temperatura próxima desta. É uma questão de tempo até um tributo morrer congelado.

Eu e Pine comemos o que restou do primeiro pacote de carne desidratada no café da manhã. Depois, alarmados por termos consumido metade da nossa comida em um dia, mesmo tendo comido tão miseravelmente durante esse tempo, dedicamos o nosso dia a procurar por comida. Enquanto, é claro, nos afastamos mais um pouco para nos prevenir de ser alcançados por outros tributos.

Se bem que não teria sido tão ruim termos sido alcançados por Joy antes de ela ter encontrado aquele bestante. Ela poderia estar viva agora, e ter uma morte mais digna pela frente. Mas isso é apenas uma exceção que nem ao menos chega a ser válida. Em geral, não quero topar mais com tributo algum.

Hoje é bem mais tranquilo. Andamos em passo normal, sem precisar correr em momento algum. Também vamos conversando, ocasionalmente até parando para descansar. Não temos problemas ao longo do dia, tirando o de não encontrarmos comida, e visivelmente, o restante dos tributos também não, pois o canhão não soa mais.

Resolvemos que é melhor parar por hoje quando o hino nacional começa.

Comemos metade do nosso segundo, e último, pacote de carne desidratada.

Após o hino, se acende no céu a imagem prateada de Joy, a única morta do dia. Sei que ela faleceu na madrugada de hoje, mas tenho a impressão de ter sido ontem, por ter sido há várias horas atrás, e eu ter dormido depois disso. Se é que isso faz algum sentido.

Como ontem, eu fico de vigília primeiro, enquanto Pine dorme.

Sentada no chão, sem nada para fazer e em silêncio, deixo meus pensamentos vagarem soltos. Pensamentos sobre o Distrito 3 e minha casa. Penn e Kevan. Papai e mamãe. Meggin e Letice. Mastt.

Pensar em Mastt é diferente de pensar em meu lar, minha família ou em meus amigos. Porque, enquanto pensar nessas outras coisas me dá uma terrível sensação de nostalgia, pensar em nele me faz mais forte. Quase posso ouvi-lo dentro de minha cabeça, repetindo que está me esperando.

Isso me faz sentir um pouco melhor.

De madrugada, quando acordo Pine para trocar de lugar comigo, ele parece ter ficado contente por ter sido acordado por mim, e não por um grito desesperado como ontem. Acomodo-me no saco de dormir, mas demoro uns dez minutos para pegar no sono, tão incrédula de estar a tantas horas sem problemas que não consigo convencer meu cérebro de que não há algo, ou alguém, escondido na escuridão da floresta esperando para que eu apague para atacar. Só adormeço quando a fadiga, enfim, fala mais alto.

Devo dormir o mesmo do outra vez, seis horas. Mas por dormir mais cedo, consequentemente sou acordada um pouco mais cedo, pelas oito horas da manhã.

No café, consumimos tudo o que sobrou de nossa comida.

- E agora? – Pine alisa o pacote plástico vazio de nossa única e recém-terminada fonte de alimento.

- Temos de arranjar mais comida. – Falo, mas esta é a parte que ele já sabe. A pergunta dele, na verdade, foi “E agora? Como vamos arranjar mais comida?”. – Vamos usar o dia inteiro, o tempo que for preciso.

- Tipo o que fizemos ontem?

- Hoje será diferente. Estamos bem mais determinados.

- É um começo. – Pine suspira.

Com as mãos, ele cava um buraco na neve, coloca o pacote lá dentro e o tapa com novamente, para não deixar rastros de que estivemos por aqui.

Penso que agora, somente três dias após entrarmos na arena, o único item da Cornucópia que ainda temos é o nosso saco de dormir. E tudo o que adquirimos desde lá foi estresse e um punhado de cicatrizes.

Mas tem de haver algo comestível aqui em algum lugar, sem ser a comida da Cornucópia. Caso contrário, como os tributos que não passaram por lá podem estar vivos até agora?

Como se me respondendo que não podem, neste momento um canhão é ouvido. E algo me diz que a causa da morte deste tributo foi a fome ou o frio, e não um acidente ou um assassinato.

Tudo isso só pode ser uma piada de humor negro. Logo quando nossa comida acaba, alguém morre.

Ah, eu simplesmente odeio essas coincidências macabras.

E depois disso, nós procuramos nos esforçar de verdade, o dia inteiro. Mas como Pine disse, a determinação é só o começo.

O nosso dia é totalmente improdutivo: Não conseguimos um único grão de comida. E isso mesmo considerando que desta vez não tenhamos parado para descansar nem quando o hino começou, ou quando o rosto do garoto do distrito 9 – o tributo que morreu hoje de manhã — se acende no céu. Quando finalmente decidimos encerrar por hoje, já está no horário em que geralmente Pine já está dormindo faz tempo.

Trocamos algumas palavras de talvez amanhã tenhamos mais sorte, para consolo. Mas eu tenho minhas dúvidas sobre isso, e sei que Pine também tem.

Na manhã seguinte, a fome já está sendo muito incômoda.

Precisamente, estamos a um dia inteiro sem comer. De certo, nada que não possamos aguentar, porém nenhum de nós está acostumado com ficar tanto tempo sem se alimentar.

Nas raras edições dos Jogos em que tributos dos distritos pobres vencem, eu fico impressionada ao ver na televisão como eles aguentam, sem fraquejar, três, quatro dias sem comer. E enquanto isso, eu com a impressão de que se ficar assim por mais um dia, vou perder as minhas forças a ponto de não conseguir mais procurar pela comida.

Ou menos que um dia. Afinal, algumas horas mais tarde, para mim já está ficando complicado até para raciocinar.

No dia seguinte, então, eu sinto como se um buraco negro dentro de meu estômago estivesse me devorando de dentro para fora.

A fome sempre é relacionada à escassez, ao vazio, à falta. E tudo isso, agora, me parece uma definição tão fria, e que não a descreve nem um pouco bem. A fome não é um vazio. A fome é dor. Uma dor cheia, plana.

Eu e Pine também não estamos mais conversando. Estamos guardando as nossas últimas energias para encontrar comida, embora nossas esperanças estejam murchando mais a cada segundo.

Este é o nosso quinto dia nos Jogos. O quinto dia desde a nossa última refeição decente e o segundo sem comer. Segundo. Nós precisamos ser mais resistentes... Dois dias parece muito, mas podemos sobreviver por mais tempo que isso... Não podemos ser tão fracos. E ainda estamos de pé e andando, afinal de contas.

- Eu quero ir para casa. – Pine fala, tristonho, pela primeira vez no dia. E isso porque devem ser, grosso modo, duas da tarde.

- Eu também, Pine. – Digo, a voz amarga, tomada pelo tormento de saber que mesmo que eu implore para os Idealizadores dos Jogos para voltar para casa, que eu chore, que eu caia de joelhos na neve, não vou sair daqui se não vencer. E o mesmo vale para ele.

- Estou com saudades da minha mãe. – Os olhos dele se enchem de lágrimas. Por desespero? Desesperança? Saudades? Acho que tudo.

- Não chore... – Peço, e me detenho antes de completar com “Tudo vai dar certo”. Não posso mentir. Mesmo que algo dê certo, não será tudo. Será quase nada.

Contudo, é claro que esse tipo de papo de “pelo menos alguma coisa tem de dar certo” não acontece conosco. Quisera eu que algo terminasse bem, mas tenho a certeza absoluta de que isso não acontecerá quando, de súbito, ouvimos o barulho de passos abafados pela neve, risadas e conversas altas.

Um grupo grande está se aproximando de nós de maneira totalmente displicente. Eu e Pine trocamos olhares assustados, rezando para não termos sido vistos, e vamos para trás de algumas árvores, tentando nos esconder.

Porque, naturalmente, os únicos tributos que se comportam assim na arena são os Carreiristas.

Notas finais
Ei, fãs de Percy Jackson que leem a fic!
Eu seria muuuuuito grata se vocês pudessem ler a minha one-shot "Monomania". Segue-se o link:
http://fanfiction.com.br/historia/359842/Monomania
E, de qualquer modo, até o capítulo 18!