Panem Et Circenses
18 Carreiristas
Notas iniciais
Não, não, não. Por favor, isso não.
Por que de todos os outros tributos que nós poderíamos esbarrar, tinha de aparecer logo o grupo dos Carreiristas?
A árvore na qual Pine e eu nos enfiamos atrás é fina demais para esconder nós dois. Quem passar em frente a ela prestando atenção vai com certeza ver meu braço, que ficou para fora mesmo que eu o tenha apertado contra o meu corpo o máximo que consegui.
Os Carreiristas ainda estavam longe quando nós os ouvimos pela primeira vez, mas estão se aproximando rápido. Eu e Pine, desde que saímos da Cornucópia, seguimos o caminho mais básico possível: Sempre em frente, nunca voltando ou indo para uma de nossas laterais, visto que elas nos fariam andar por um caminho horizontal sem que estivéssemos nos afastando, o que era nosso maior objetivo. Portanto, me parece muito estranho que os Carreiristas estejam vindo da nossa lateral esquerda, mas já tenham chegado tão longe quanto nós. Se eles estavam usando um caminho vertical e depois dobraram, não deveriam ter demorado mais para chegarem aqui? Haveria um atalho? Não dá para entender. Ao menos que eles tenham andado mais rápido do que a gente.
De qualquer maneira, o único modo de eles nos verem, tirando por meu braço, está impossibilitado pelas árvores aos nossos lados. Então, se eu ficar bem quieta, talvez eles passem por aqui e nem percebam.
É uma pena que Pine não tenha pensado assim também quando percebeu que eu não estava completamente escondida.
Ele passa para trás de mim, para termos mais espaço para os lados. Eu, surpresa com o gesto, me viro, ficando de frente para ele e de costas para o caminho pelo qual os Carreiristas vão passar dentro de segundos. Passo meu braço para dentro do esconderijo, também, e congelo, lançando a Pine um olhar de “não se mova mais”.
Agora estou olhando diretamente para o rosto coberto de cicatrizes causadas por ataques de bestantes de Pine, e não posso mais ficar de olho em nossos inimigos. Mas ele ainda pode vê-los pela visão periférica, e baseada em sua expressão eu diria que eles ainda não entraram no seu campo de visão.
Contudo, eles logo vão, pois suas vozes já estão altas e claras como se estivessem bem perto:
- Kalle, você quer parar com isso? – Ouço dizer Aster, a garota do Distrito 4, irritada.
Eu sei que os tributos do Distrito 1 se chamam Adlex e Aven, que a garota do Distrito 2 se chama Junie, e que os tributos do Quatro são Aster e Bertil. Então, este tal Kalle só pode ser o garoto do Dois. Ele responde, com sarcasmo:
- Não, não quero. Mas obrigado pela preocupação.
E nisso ocorre o som de algo caindo no chão, seguido por uma explosão de Aster:
- Kalle, quantos anos você tem? Nove?
- Dezoito. – Ele diz, em tom de provocação, já que a pergunta era retórica.
- Então o seu mal deve ser retardamento mental! Qual o objetivo de ficar jogando uma espada para cima igual a um desmiolado e depois pegando de volta?!
- Aster, você que está parecendo uma desmiolada gritando desse jeito. Você não pode calar a sua boca grande demais nem por um segundo? Já está me dando dor de cabeça. – Escuto dizer Aven, no mesmo tom sério e controlado que ela estava usando na entrevista.
Alguém bota mais lenha na fogueira com um “Ui!”, e Pine, à minha frente, encolhe os ombros e fecha dos olhos, o que eu entendo como um sinal de que ele os avistou.
Começo a pensar se nos escondermos atrás de uma árvore foi um bom plano. Sabendo que os Carreiristas vão passar por nós em questão de segundos, eu me sinto completamente exposta, com tão pouca coisa entre nós.
Briguem, peço silenciosamente, Se distraiam com uma briga e não olhem para os lados.
Como se atendendo minhas preces, Aster responde a Aven:
- Pouco me importa. Que sua cabeça exploda. Se você morrer agora, pelo menos os telespectadores não ficarão entediados, já que ninguém morreu ontem.
O pior é que é verdade. Ninguém morreu ontem. Mas se ela não tivesse comentado, isso teria passado em branco para mim, visto que ontem eu estava – e hoje estou até mais — faminta demais para pensar na vida de alguém, senão na minha e na de Pine.
- Vale lembrar que somos um time. – Fala, com certo mau-humor, Bertil.
- Isso não será para sempre. – Aster retruca.
- Tampouco acabará hoje.
- Ah, todos vocês, calem a boca. – Junie encerra.
Eles ficam milagrosamente em silêncio. Daria para acreditar que foram embora, se ainda não fosse possível ouvir seus passos na neve.
Os Carreiristas estão precisamente na nossa direção agora, posso sentir.
Eu não estou aguentando não olhar, não saber o que está acontecendo. Por que eles ficaram quietos? Não é possível que seja só por que Junie mandou. Será que nos viram? Se sim, o melhor a ser feito é tentar fugir. Eu preciso saber.
Discretamente, viro minha cabeça para olhá-los. E vejo na cena algo diferente do que eu esperava:
Não seis Carreiristas. Sete.
Andando na frente, está Aster, como sempre emanando um ar de arrogância extrema.
Logo atrás dela, Aven, que por sua vez parece fria, séria e estável, e Kalle, que parou de lançar a espada que tem em mãos para cima, como sei que ele estava fazendo pela bronca que Aster lhe passou.
Atrás dos dois, Junie caminha olhando para baixo, como se não estivesse com paciência para olhar para nenhum dos aliados a sua frente, sua aljava nas costas e o arco em mãos, pronta para o que der e vier.
Então, Adlex, que claramente não está ligando para nenhum dos outros, e pela maneira com que olha o céu, está preocupado com os próprios problemas. Por exemplo, terá ele se lembrado de avisar a mãe que ela deveria dar comida para o gato dele enquanto ele estivesse nos Jogos?
O Bertil é quase o último da “fila”. O braço em que ele levara uma facada de Aster, quando ele ia me matar no primeiro dia dos Jogos, está enrolado por um tecido grosso, por cima de seu agasalho branco.
E por fim uma última pessoa, que não deveria estar com eles: A garota do Distrito 7. Qual é mesmo o nome dela? Eu me lembro de ter ouvido na reprise da colheita. Fulvia, ou algo parecido com isso.
Que nota terá ela tirado, ou o quê ela terá dito para eles para convencê-los a aceitá-la no grupinho altamente seletivo dos Carreiristas? E não é como se eles só a estivessem usando para carregar as mochilas que eles pegaram na Cornucópia, em troca de não a matarem por enquanto, como fazem com alguns tributos em alguns anos. Ela está segurando uma mochila, quero dizer, mas isso é tanto quanto eles estão. E ela também está com uma espada. Eles devem ter aceitado a garota do Sete como uma deles, sem mais, para ela ter até acesso a armas.
E é ela quem está olhando exatamente na direção desta árvore quando eu decido olhar para eles.
Nossos olhares se cruzam. Ela deve ter a minha idade, o meu tamanho, mas é claramente mais forte do que eu. E me viu.
Meu coração dispara. Eu estraguei tudo. Eu estraguei tudo mesmo.
Se eu tivesse alguma comida no estômago nesse momento, vomitaria de tanto nervoso.
Ela vai me entregar. E, quando os Carreiristas vierem me matar, também encontrarão Pine. É muito pior do que se fosse apenas eu aqui. Por que eu tive de me virar naquela hora? Como eu fui idiota!
E o pobre Pine, de olhos fechados à minha frente, ainda nem sabe da burrada que eu fiz.
Ainda assim, espanto maior do que encontrar a garota do Distrito 7 olhando para cá, é o causado pelo que ela faz a seguir:
Muito rápido e sem hesitar, ela avança um passo e enfia sua espada na nuca de Bertil.
O canhão soa quase ao mesmo tempo que o sangue começa a jorrar, com mais intensidade que qualquer outro sangramento que eu já tenha visto. Os outros cinco Carreiristas se viram, e Junie é quem exclama, chocada:
- Bertil!
- Flavia, sua traidora nojenta! – Adlex fala, olhando para o corpo, e não para ela.
- O estão esperando? Matem-na! – Kalle diz, impaciente.
Mas Flavia não é boba, e não perde tempo tentando recuperar a espada. Deixando-a no corpo, sai correndo para o meio das árvores — na direção que Pine e eu estávamos seguindo antes de nos escondermos — antes que algum deles possa tentar matá-la.
Sinto Pine pegar a minha mão desocupada e apertá-la com força – se bem que eu quase me esqueci de que estou segurando minha lança com a outra mão, enquanto ele como sempre está com a nossa mochila. Me volto para ele. Pine abriu os olhos depois que ouviu o canhão, como é o normal.
Todos os Carreiristas saem correndo atrás de Flavia, o que quer dizer que agora é um ótimo momento para fugirmos. Mas como fazer isso? Ela possibilitou a nossa fuga estando completamente ciente disso, matou Bertil e agora está sendo perseguida por nos ajudar. Talvez ela tenha alguma motivação oculta, mas na prática, o que ela fez foi para o nosso bem. Flavia podia ter avisado os aliados de que havia gente escondida por perto, e ainda ganhar mais crédito com eles.
Nada faz sentido. Tirando que estamos devendo uma para ela.
- Temos de ajudar a garota do Sete. – Faço, movendo os lábios. É algo heroico demais para ser dito por alguém com o rosto tão retorcido de medo e apreensão como o meu, sem falar que o que eu mais quero é não ter problemas, e não ajudar alguém que está a ponto de ser morta por cinco assassinos treinados. Mas não seria justo se eu deixasse estar. É minha obrigação retribuir o favor que ela nos fez.
Todavia, Pine não viu quando ela nos ajudou, e, portanto, não enxerga o porquê de termos de ajudá-la. Para ele, Flavia pode muito bem ter matado Bertil por que sentiu vontade, e não porque me viu aqui e tentou impedir que os outros Carreiristas também vissem. Ele faz:
- Por quê? Só vamos sair logo daqui, Edelweiss... Por favor...
Olho dele para o ponto onde Flavia e os Carreiristas desapareceram entre as árvores, e então para o corpo de Bertil, que continua sangrando muito, formando uma poça no chão ao redor dele. Minha imaginação, sem minha autorização, substitui Bertil por Pine na cena, o que é totalmente horrível, mas extremamente necessário para eu entender que não posso abandoná-lo para ir ajudar Flavia. Sou muito grata a ela, porém minha vontade de proteger Pine é maior.
- Tudo bem... Vamos.
A verdade nua e crua é que eu me sinto uma covarde enquanto nós saímos correndo na direção em que os Carreiristas estavam seguindo antes de Flavia desviá-los. Quanto mais tento me convencer de que eu aceitei fugir para a segurança de Pine, mais ouço uma voz na minha cabeça respondendo Pode até ser, mas você também estava com medo. Isso é injusto. Eu posso ser culpada por sentir medo, nesta situação?
Mas é decerto impossível para mim fugir de um problema, porque mesmo quando eu deixo a ética de lado para salvar a minha pele e a de Pine, ele me segue, me obrigando a resolvê-lo. Uma prova disso é quando nós estamos correndo, e Flavia – que deve ter dado uma volta enorme para despistar os Carreiristas e agora nos achar, mesmo que só estejamos fugindo há poucos segundos – surge na nossa frente, por pouco não nos fazendo colidir com ela.
Pine não pensa duas vezes antes de tentar voltar a fugir pelo outro lado, e sou eu quem o impede, o segurando.
- Edelweiss, precisamos ir!
- Você está do nosso lado? – Pergunto, apressada, para Flavia.
Ela assente.
- Por quê?
- Você quer mesmo que eu explique agora? Quero dizer, os Carreiristas estão chegando, você sabe, não é? – Flavia me responde, o que soa meio grosseiro, mas isso é apenas devido ao nervoso.
- Mas nós nem a conhecemos direito! – Pine fala, exasperado.
Continuar sozinha o caminho com ele ou irmos junto com a Flavia? Eu nunca estive em dilema maior.
- Eu acho melhor que... Hm... – Mordo o lábio inferior.
Pine abre a boca para falar algo, mas eu nunca saberei o quê. Nesse instante uma flecha crava-se nas costas dele, entrando profundamente em seu pulmão, seus olhos se arregalam e ele empalidece.
Pine!
Ele cai na neve.
Meu choque é tamanho que não me desespero instantaneamente. Olho para Pine no chão e me posto em sua frente tentando protegê-lo de outra flecha. E quando consigo olhar para outra coisa, é para Junie, que está parada na nossa frente e preparando mais uma flecha, esta para mim.
- Sua infeliz! – Grito, com toda força. Se os Carreiristas se separaram para nos procurar e agora todos os outros vão nos encontrar também, não estou nem aí. Pine caiu. Pine está morrendo. Junie acaba de tentar matá-lo. Eu a odeio.
Movida por este pensamento, antes que ela possa atirar-me a flecha, atravesso a distância que nos separa com passos largos e cravo-lhe minha lança no seu estômago.
Eu não solto a arma, então ela não desaba. Mas deixa cair sua flecha e o seu arco e olha dentro de meus olhos como se eu fosse a vilã da história.
Removo a lança com um puxão, sangue respingando para todos os lados, e Junie cai no chão como uma boneca de pano. Como ela ainda não está morta, vou enfiar a ponta mais uma vez no corpo dela, agora no coração, mas Flavia vem correndo e segura meus braços para eu não fazer isso.
- A Junie já vai morrer. Não precisa fazer isso. Nós temos mesmo de fugir. Depois do seu grito, todos vão nos achar.
E é aí que o desespero me invade de verdade. Lágrimas enchem meus olhos e logo transbordam.
- O Pine! Pine!
- Quem é este? – Flavia pergunta, impaciente. – Ah, o garoto do seu distrito? Ele já era também. Você não tem de se preocupar. Vamos!
Eu permaneço parada. Minhas pernas não funcionam, e eu estou começando a chorar de verdade. Olho para Pine que está inerte, com sangue escorrendo de sua boca, manchando a neve a sua volta.
- Ei! Olhe elas aqui! – Ouço Adlex, em algum ponto entre as árvores perto de nós, dizer.
- Ah, muito legal... – Bufa Flavia.
E, sem mais se preocupar em me consultar, ela pega meu pulso e sai correndo, me puxando para longe dos Carreiristas, ao mesmo tempo em que os sons de dois canhões são escutados em toda a arena.
Notas finais
Até o próximo capítulo!
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