Notas iniciais
Espero que gostem!

No café da manhã do dia seguinte, Mastt pergunta para Pine e eu se temos certeza de que vamos querer ensaiar juntos para a entrevista de amanhã. Confirmamos com veemência, e então ele nos explica como o ensaio funcionará:

Depois do café, nós teremos quatro horas de ensaio com ele, até o horário do almoço. Feita a refeição, teremos quatro horas de ensaio com Simary Loyel. Ao menos que queiramos fazer ao contrário, primeiro com ela e depois com ele.

— Gosto da primeira opção. – Me apresso em dizer.

Pine concorda.

Fico com receio de que Simary se sinta ofendida com isso, mas ela só empina o nariz e diz:

— Naturalmente. O melhor é sempre por último.

Acho que é culpa da pressão de estar apenas dois dias antes dos Jogos, mas acho isso algo hilariante, e abafo uma risada. Minha reação também deve ser engraçada, pois Pine ri baixinho. Ou talvez ele também só tenha reagido assim pela pressão. É como se estivéssemos aproveitando para rir enquanto podemos.

Simary não percebe, ou pelo menos finge que não.

Ao terminarmos de comer, Mastt nos leva a uma sala na qual nós nunca tínhamos ido antes, que fica perto dos quartos, mas que eu até então não tinha visto. Tudo por aqui parece ser tão maior do que aparenta.

Eu e Pine sentamos lado a lado em um pequeno sofá de veludo de um roxo- berinjela que chega a cansar a vista. Mas por incrível que pareça, estou me acostumando um pouco com as cores berrantes que infestam a Capital. Não tenho visto muita coisa além delas, ultimamente.

Mastt senta em uma poltrona à nossa frente, e não demora dois segundos para começar, olhando para Pine com seriedade e perguntando:

— Pine. Nós não conversamos a sós nem uma vez, não é?

Entendo isso como uma indireta, e me levanto para me retirar, mas Mastt faz gesto para que eu sente.

— Edelweiss, não precisa.

Torno a me sentar.

— Não. – Pine lhe responde.

Mastt já falou comigo a sós diversas vezes, e nenhuma com Pine. Instantaneamente me sinto um pouco injusta, mas a culpa não é minha. Nem de Mastt ou de Pine. Foi apenas um deslize.

Mastt assente em compreensão.

— E você pensou em alguma coisa sozinho?

Pine parece surpreso.

— Pensar em quê?

— É, vejo que não. – Ele conclui, com um suspiro. – Sobre a entrevista. Como pretende conquistar a Capital?

— Sendo eu mesmo? – Arrisca. Vendo que o mentor fica quieto, ele suspira e admite: — Eu sei que não.

— Não, não é uma má ideia. – Mastt diz, enfim. – Mas mesmo sendo você mesmo, vai ter de ensaiar. A entrevista é algo bem mais complexo que parece.

Pine balança a cabeça.

— Não. Eu tinha falado sem pensar. Não quero fazer isso.

— Por que não? Ser você mesmo pode dar certo. – Mastt franze a testa.

— Não é isso. É que... – Ele faz uma pausa, mas o resto vem de uma vez só: — Eu não quero me expor. Expor minha vida. Não na entrevista. Não para eles.

Tenho certeza de que Pine ganhou pontos com Mastt ao dizer isso, assim como eu ganhei no dia da colheita, ao dizer para ele que não queria ficar no quarto por conta das coisas da Capital lá presentes.

— Eu entendo perfeitamente o que você quer dizer. Mas aí, sinto informar que você vai ter de mentir durante a sua entrevista. – Ele não parece impressionado como eu esperava. Mas, de súbito, está parecendo mais interessado no ensaio.

— Depois vai alguém ao Distrito 3 confirmar o que quer que eu diga?

— Não.

— Então, acho que não tem problema. – Ele fala, mas parece meio hesitante, como se fosse difícil escolher entre se expor e mentir. Eu também entendo Pine perfeitamente. Uma opção é pior que a outra.

— Decidido?

— Sim.

— Ótimo, então. Vamos ensaiar algumas mentiras.

E durante metade do nosso tempo da primeira etapa de ensaios, ou até mais que isso, assisto aos dois inventando mentiras sobre a vida de Pine e fazendo simulações de entrevistas. Mastt se sai muito bem no papel de entrevistador, mas os rumos que as perguntas dele tomam no ensaio não são muito realistas.

Quero dizer, sim, são realistas. Ou no mínimo seriam, numa realidade comum. Mas não há algo “comum” no padrão de perguntas que Ava Cantall costuma fazer aos tributos.

Ava Cantall é a entrevistadora desde a primeira edição dos Jogos Vorazes. E ela é o maior terror dos tributos antes dos Jogos. Não que seja maldosa, ou inconveniente, mas sim porque ela faz o que bem quiser. As entrevistas delas são caixinhas de surpresas. É impossível adivinhar o que vai perguntar para quem.

O fator surpresa é muito desagradável. Não dá para saber exatamente o que devemos ensaiar. É como estudar para uma prova de uma matéria de que você não tem conhecimento.

Mas posso afirmar que as perguntas de Mastt são diferentes das dela. São menos... graves.

Ele daria um entrevistador melhor do que Ava. Quem sabe ele seguisse essa profissão se fosse morador a Capital?

Não gosto deste meu pensamento. Acho engraçado imaginar como seria alguém da Capital tendo de seguir a rotina de um distrito, mas não acho nem um pouco agradável imaginar alguém de um distrito – principalmente sendo ele Mastt – como morador da Capital. Mas, assim sendo, pensando melhor eu não acho que ele gostaria de ser um entrevistador. Ele seria... qualquer outra coisa. Algo que não tenha a ver com os Jogos. Afinal, ele só trabalha como mentor porque é obrigação dele como vitorioso. Aposto que ele não faria isso de outro modo. Para se oferecer de livre e espontânea vontade para ser mentor, você tem de ser uma pessoa muito ruim, para querer ver os tributos morrendo, ou uma muito boa, para querer ajudar. São as duas faces da mesma moeda.

Eu não consigo olhar para Mastt e imaginá-lo como uma pessoa má. Não o Mastt que tem me ajudado tanto. Pensar que vidas já foram ceifadas por suas mãos, embora uma verdade óbvia, é muito estranho para mim.

Quando Mastt acaba com Pine, ele se dirige a mim pela primeira vez em horas:

— Tudo bem, agora você.

— Eu? Ah. – Pisco. Meus olhos ficaram secos depois de ficar tanto tempo assistindo-os. Mudo de posição, sentando mais corretamente, já que fui afundando no sofá inconscientemente enquanto estava parada.

— Então, Edelweiss. Simpática. Já tem ideia de como quer fazer isso?

— Bom... Eu consegui ser simpática no desfile. Meio como um improviso.

— “Meio como”? – Ele repete num tom que me faz repensar se isso soou idiota. Então ele sorri. – Não vale. No desfile é fácil, porque você não precisa falar. Você conseguiria fazer algo “meio como” um improviso na entrevista? – Isso soa como uma provocação.

— Não sei. E não quero descobrir. – Dou de ombros.

— Sábia escolha. E você vai contar a verdade durante a entrevista ou mentir?

— Pode ser nenhum e nem outro? Posso tentar enrolar a Ava Cantall durante os três minutos da entrevista.

Três minutos nunca antes me pareceu muito tempo. Mas na entrevista, sei que eles vão passar devagar como se fossem três horas. Já ouvi residentes da Capital criticando o tempo das entrevistas na televisão, dizendo que não conseguem conhecer suficientemente bem seus tributos favoritos em três minutos. Frescura. Ava consegue arrancar a essência de um tributo muito bem neste tempo, e não há motivos para reclamar. Na verdade, agora eu bem que gostaria que Simary Loyel entrasse na sala declarando que acabou de ser avisada que a duração das entrevistas foi reduzida.

E é claro que eu falei brincando quanto a enrolar Ava. É impossível.

— Você pode tentar. Vai certamente ficar na história se conseguir. – Mastt diz.

Sorrio.

— Acho que prefiro o método convencional, na verdade. Deixo enrolar a Ava para os outros.

— Outra sábia escolha.

Por fim, decido que vou contar a verdade. A minha vida nunca foi muito emocionante, e eu não tenho algo a esconder. Eu sou apenas a típica garota do Distrito 3, sem tirar e nem pôr. Eu frequento a escola todos os dias. Durmo sempre nove horas da noite, e acordo às seis. Quando necessário, passo o dia inteiro trabalhando numa das fábricas do distrito, e simplesmente odeio isso.

Os adultos sempre têm de trabalhar. No Distrito 3 não há muitos empregos que vão para além das fábricas, então noventa por cento da população trabalha lá. Inclusive os meus pais. Os adolescentes e crianças maiores de nove anos trabalham somente nos dias em que o prazo estipulado pela Capital para a entrega de determinado produto fica apertado. Mas aí depende muito. Às vezes é necessário apenas um dia de trabalho para depois só sermos chamados de novo depois de um ou dois meses, e às vezes as aulas têm de parar por uma semana inteira porque temos de trabalhar todos os dias dela, e depois somos convocados novamente dias depois.

Mas, é claro, como há as exceções de adultos que não trabalham nas fábricas, também há a exceção de jovens que não o fazem. Mas são realmente muito poucos, pois é necessário pagar uma taxa altíssima para se livrar do trabalho. E se você não comparecer no trabalho, não pagar a taxa e não estiver morrendo com uma doença gravíssima, você é preso.

Penso que Pine nunca deve ter precisado ajudar numa fábrica. Mas mesmo assim a vida dele deve ser mais interessante que a minha. Ser filho da prefeita parece ser legal.

E para ser sincera, não há algo verdadeiramente interessante no trabalho nas fábricas. É chato. Cansa. O único ponto positivo é que nos rende mais experiência em tecnologia, embora isso talvez nem deva contar como ponto positivo. Esses conhecimentos podem ser adquiridos até na escola, já que no Distrito 3, além das matérias básicas, temos matérias extras obrigatórias sobre diferentes tipos de tecnologia. E mesmo as outras matérias acabam se relacionando com esta de uma maneira ou de outra.

É o que eu tenho de especial. Nenhum tributo poder entende mais de tecnologia do que eu.

Mas essa não é uma habilidade que possa ser apresentada na entrevista. E, como nada demais acontece na minha vida além disso, posso falar sobre ela tranquilamente na televisão. Sem causar polêmicas, nem boatos e sem me expor por demasia.

Porém, descubro que usar a técnica “Minha vida é parada. Não deem importância para mim” é igualmente ruim, pois assim que falo para Mastt que vou falar a verdade e respondo as primeiras perguntas que ele me faz no ensaio, ele sugere para eu falar diferente. Não mentir, mas aumentar as coisas. Me fazer mais atraente para a Capital.

Assim o faço, e o nosso ensaio acaba durando até o horário do almoço.

Durante a refeição, Pine pergunta para Simary como funcionará o nosso ensaio com ela. Também estou curiosa sobre isso. Que tipo de coisa essa mulher tem para nos ensinar?

— Para que responder a isso agora? Vocês vão descobrir daqui a pouco. – Ela responde. Acho válido. Mas termino meu almoço imaginando o que ela vai fazer conosco por quatro horas inteiras. Vindo dela? Tenho medo de saber.

Entretanto, Simary está se comportando profissionalmente hoje. Percebo isso pela falta de assuntos fúteis no almoço, e porque ela não está cantarolando e nem implicando com a gente. Só quando eu distraidamente apoio os cotovelos na mesa, ela reclama. É mais forte que ela.

— Acho que ela está se sentindo importante porque vai fazer algo além de nos chamar para comer e nos levar para os lugares. – Pine sussurra no meu ouvido.

— Bem observado. – Digo no mesmo tom.

— Muito bem, Edelweiss e Pine. – Fala Simary de repente, e nós dois, assustados com a possibilidade de ela ter escutado, fixamos nossos olhares nas nossas sobremesas comidas pela metade. – Já acabaram? Podemos ir para o ensaio? – Ufa. Ela não escutou. Eu e Pine trocamos um olhar cúmplice antes de respondermos à ela que sim, acabamos.

Nós voltamos com Simary para a sala de ensaio, e não tarda para eu me arrepender amargamente de ter levantado da cama hoje.

Ela usa contra mim e Pine tudo que nós já fizemos perto dela que lhe pareceu deselegante, desde o momento em que caminhamos até o palco após sermos chamados na colheita até o em que caminhamos da sala de jantar para a sala de ensaio com ela agora há pouco. Começo a achar que ela manteve uma agenda durante esse tempo todo onde ela anotava tudo que nós fazíamos para depois usar hoje.

Ela corrige a nossa postura. Nos ensina a sentar “corretamente”, e não adianta nada eu lhe dizer que não é porque nós sentamos esparramados no sofá da sala que vamos sentar assim na poltrona do entrevistado. Ela briga com Pine diversas vezes por ele ter mania de andar olhando para o chão. Briga comigo por ter mania de cruzar os braços toda hora. E, como se não bastasse, ao final do tempo do ensaio (que deveria se chamar “aula de etiqueta” e não “ensaio”) ela ainda comenta, em tom de lamento:

— Espera-se que os tributos do Distrito 3 sejam mais educados que vocês.

— Nós somos educados. – Pine diz. Ele ficou obviamente mal-humorado depois dessas últimas horas. Nunca tinha visto antes suas feições tão retorcidas de raiva. E mais uma vez se comprova que ele é um menino muito bonzinho, pois nem assim ele levanta a voz.

— Não aos padrões da Capital. – Simary retruca.

— Mas nós não somos da Capital. Como você mesma disse, nós somos do Distrito 3.

— Sim, vocês são. E eu sou da Capital, e estou aqui justamente para impedir que vocês dependam somente do charme do Distrito 3 de vocês para a entrevista. – Ela olha para ele pensativamente e depois acrescenta: — Pine, acho que a sua convivência com a Edelweiss está te deixando briguento.

Rio um tanto quanto sarcasticamente. Ela deve ter ouvido sobre a minha briga com os Carreiristas. Não sou briguenta, e certamente não influenciei Pine em nada. É estranho o ponto de vista de Simary das coisas. Nós estamos somente cansados, famintos e mal-humorados.

— Não é culpa da Edelweiss. É culpa do meu “charme do Distrito 3”. – Pine diz, também com ironia.

— Chega. – Simary bufa, irritada. – Jantar. – E sai da sala, sem sequer esperar a gente, mas esperando que nós a sigamos, como usualmente.

Não o fazemos, e em menos de um minuto quem entra na sala é Mastt.

— Foi um inferno? – Ele pergunta, e nós assentimos. – Vocês irritaram ela. De novo. Pensei que eu tinha falado ontem para não fazerem isso. – Ele não fala em tom de repreensão, entretanto.

— Não foi culpa nossa. – Sou eu que saio em nossa defesa desta vez. – Foi culpa do nosso charme do Distrito 3. – Digo para fazer graça. A história do “charme do Distrito 3” foi tão patética que chegou a ser engraçada.

Não há charme algum em nascer no Distrito 3. Quisera eu que houvesse. Aí, eu já teria pontos na entrevista, sem precisar me esforçar muito. Mas não.

Amanhã, serei eu por minha conta.

Notas finais
Até o próximo!