Notas iniciais
Espero que gostem!

Não existem palavras para explicar o quão é chato abrir os olhos pela manhã e encontrar três pessoas paradas em volta de sua cama te encarando.

Mas é exatamente assim que eu acordo no dia da entrevista. Com a minha equipe de preparação no meu quarto me olhando fixamente como se perguntassem: “Ela está viva?”.

Uma surpresa nada agradável.

Em minha mente, palavrões trovejam e eu amaldiçoo a tudo e a todos. Fora dela, eu só me sento em minha cama e exclamo:

– Minha nossa!

– Estávamos esperando você acordar! – Diz Cabelo Rosa – Há quase meia hora!

Só pode ser brincadeira. Eles estão aqui me encarando enquanto eu durmo há meia hora?!

– Estávamos quase concluindo que você tinha entrado em coma, Edelweiss. – Careca Verde informa.

– É, eu tenho o sono pesado. Mas que inferno vocês estão fazendo aqui? – Não quis dizer a parte do inferno. Saiu sem querer.

– Nós estamos aqui para prepará-la para a entrevista, ora essa! – Responde Cabelo Rosa.

– Mas... agora? E o café da manhã?

– Ah, não se preocupe, você janta mais tarde. – Cara-de-Plástica tenta me tranquilizar.

Checo o horário no meu relógio-despertador.

– São nove horas da manhã.

– Um dia de jejum não faz mal a ninguém.

Falar é fácil. Duvido que um deles já tenha perdido uma refeição, quanto mais passar um dia em jejum.

– Mas...

– Querida, perdão, mas temos trabalho a fazer! – Careca Verde me corta. – Um dia inteiro sem interrupções é o mínimo para nós a deixarmos perfeita para hoje à noite!

Suspiro e me levanto. Não dá para discutir com eles.

– Façam o que têm de fazer.

Essa é a frase que eles estavam querendo ouvir. Eles me puxam para o centro do quarto, me despem e logo já começaram o serviço.

– Adivinhe a boa notícia. – Me fala Careca Verde.

– O quê?

– Dessa vez, Kallux nos deu permissão para tingir a sua by Text-Enhance\">pele!

Se essa é a boa notícia, eu sou infinitamente grata por não haver uma má.

Engulo em seco e concordo com a cabeça. Eles não ligam para a minha falta de animação. Careca Verde by Text-Enhance\">trabalha junto de Cara-de-Plástica na tarefa de pintar a minha pele, enquanto Cabelo Rosa se ocupa com algo mais normal, como pintar minhas unhas de branco.

Assombrosamente, quando eles acabam e eu me olho no espelho, vejo que não ficou ruim. Ficou legal. Eles não me tingiram de uma cor forte, chamativa e maluca. Eles pintaram minha pele de uma cor perolada que me faz cintilar sob a luz.

Cintilante. Também era como eu estava no desfile.

Edelweiss, a garota que cintila. É assim que Kallux e minha equipe de preparação estão me fazendo para a Capital. Como vão se lembrar de mim após a minha morte, quem sabe.

Mas ainda há muita coisa para eles fazerem além disso. Cabelo Rosa faz a minha by Text-Enhance\">maquiagem completamente branca, com exceção do batom transparente brilhante. O contraste que o branco faz com meus cabelos tão escuros é bem bonito, e mesmo meus olhos, que são de uma cor castanho clara que se aproxima do dourado, parecem favorecidos pela maquiagem. Careca Verde penteia meu cabelo tão furiosamente que me pergunto se ele pretende me deixar careca igual a ele. Meu cabelo já é liso, mas ele encontra nó até onde não existe e não para de pentear até meu couro cabeludo doer. Cara-de-Plástica prende uma fita de cetim branca do lado esquerdo da minha cabeça quando Careca Verde acaba.

– É, dessa vez nós nos superamos. – Diz Cara-de-Plástica com orgulho. – Vamos chamar Kallux.

Minha equipe de preparação sai de meu quarto conversando sobre como eles fizeram um ótimo trabalho comigo, suas vozes sumindo conforme eles se afastam pelo corredor.

E após pouco tempo, quem está no meu quarto para me aprontar para a entrevista é Kallux, que está segurando uma sacola.

– Pelo visto eles não exageraram quando me disseram que você estava ainda mais bonita hoje do que no dia do desfile. – Ele diz. – Mas a sua aparência assim de nada vale sem seu traje. Para sua sorte, eu sou o seu estilista.

Depois de um comentário desses, eu esperaria que o meu traje da entrevista fosse a coisa mais deslumbrante já criada. Mas quem falou foi Kallux. Ele é esnobe mesmo quando não há motivos para isso.

– Certo. Me surpreenda. — Lanço o desafio quase bobo. É lógico que Kallux vai, de alguma forma, me surpreender. O que seria realmente desafiador seria ele me surpreender da maneira positiva. Mesmo que ele não tenha me vestido com uma roupa muito esdrúxula no desfile, continuo tendo medo das roupas dele. Vejo tributos vestidos por ele desde que nasci, e sei muito bem a que nível a bizarrice das roupas dele é capaz de chegar.

Hoje é diferente do dia do desfile, em que ele teve de preparar a roupa e me vestir ao mesmo tempo. Dessa vez ele já tem minhas medidas, tiradas daquela vez, e pôde preparar minha roupa com calma nesses últimos dias, de modo que só tenho de vesti-la.

Ele tira uma peça completamente branca de dentro da sacola que está trazendo consigo.

– Se sinta privilegiada. Esta é uma roupa que eu não faria para ninguém senão você. – Ele fala. Antes que eu possa me decidir se agradeço ou não por isso, Kallux me veste com a peça.

Olhando para baixo, consigo ver que se trata de um vestido tomara-que-caia de veludo branco, que é justo até o meu quadril e que então se abre numa saia engraçada, formada por várias tiras de tecido intercaladas, como pétalas de uma flor.

Mas a surpresa mesmo é quando eu me viro para o espelho e, tendo agora uma imagem ampla de mim mesma, compreendo porque o vestido só serviria para mim e para mais ninguém.

A comparação com pétalas não tinha sido apenas uma metáfora. O meu vestido foi de fato feito para parecer uma flor. E não qualquer uma de muitas flores brancas. Uma flor edelweiss.

A edelweiss original, que deu origem ao meu nome, é uma linda flor branca. Meu pai me contava que ela crescia nos Alpes, um sistema de cordilheiras que costumava ficar numa região que antigamente chamavam de Europa. Mas isso foi há séculos atrás. Essa Europa coexistia com a América do Norte, que vivo ouvindo na aula de História que era a região onde ficava o país chamado “Estados Unidos”. E esses Estados Unidos hoje são Panem. Hoje, não há um continente chamado Europa, e nem nada que vá para além daqui. Nem Alpes e nem flores edelweiss. Tudo isso, hoje em dia, não passa de figuras que enfeitam as páginas dos livros de História.

Mas o encanto das edelweiss é algo atemporal. E Kallux reproduziu-o em um vestido.

Esta é uma roupa tão exclusivamente minha que me faz sentir um pouco privilegiada, como ele falou. É incrível, e totalmente inovador vindo de meu estilista.

Kallux me surpreendeu da maneira positiva.

– Tive a inspiração para esta roupa no momento em que ouvi seu nome sendo chamado na colheita. – Ele explica, orgulhoso.

Estou embasbacada demais para falar, e ele continua:

– Depois você me agradece. Devemos sair para a entrevista agora.

– Já está na hora? Impossível! – Enfim digo, assustada. Corro até a janela e afasto a cortina, para me deparar com o pôr-do-Sol. – A equipe de preparação... No dia do desfile, eles demoraram uma hora para acabarem de me produzir. Como pode hoje eles terem levado o dia todo?

– Tingir a pele leva horas, Edelweiss. E hoje você está bem mais bonita. – Kallux responde – Precisamos nos apressar. Vamos nos encontrar com o resto da equipe do Distrito 3 às... Bem, era para estarmos saindo exatamente agora. Vamos lá.

Ele me dá sapatilhas brancas para calçar, e, uma vez comigo completamente pronta, nós dois saímos do meu quarto e vamos rapidamente para o elevador, onde Simary, Mastt, Chareen e Pine estão nos esperando.

Pine está irreconhecível. Chareen o vestiu em um terno de seda azul celeste que parece a roupa de um daqueles bonecos caros que vendem nas lojas de brinquedo do Distrito 3. A equipe de preparação dele passou tanto pó em seu rosto que as sardas estão invisíveis. E, de algum modo, eles também conseguiram alisar os cabelos vermelhos dele e os pentearam para o lado, sob camadas e mais camadas de gel. Ele está passando uma impressão impecável de limpeza e arrumação.

Descemos para o andar térreo, onde os outros tributos já estão sendo organizados em fila para subir ao palco. Nos enfiamos entre os tributos do Distrito 2 e do Distrito 4. Simary, Mastt e os estilistas nos desejam boa sorte e vão para a plateia.

Enquanto espero que a fila ande, sinto-me como na colheita. Primeiramente, desejando que as coisas aconteçam mais rápido e essa tortura acabe logo. Mas, quando os pacificadores que estão organizando a fila dão o sinal verde para entrarmos no palco e começamos a andar, começo a desejar que o tempo pare.

E como aconteceu na colheita, o tempo não para e logo me encontro ao vivo para toda a nação.

A plateia explode em aplausos, assobios e gritos enquanto nós vinte e quatro entramos e sentamo-nos no grande arco que foi instalado justamente para os tributos ficarem enquanto os outros são entrevistados. Estou com um sorriso congelado no rosto por fora, e uma vontade sobre-humana de desmaiar de nervoso por dentro.

Acho que já era para eu ter me acostumado a estar na televisão. Afinal, esta é a terceira vez em sete dias, e a partir de amanhã, quando eu for para a arena, passará a ser todos os dias até o fim de minha curta e miserável existência. Mas estou muito nervosa, de todo modo.

Ava Cantall está no centro do palco, sentada na poltrona da entrevistadora. À sua frente há uma mesinha e outra poltrona. Ela está com sorriso tão exagerado que seus olhos estão apertados.

Este ano, o penteado dela está mais esquisito que o habitual. Se me contarem que ela raspou a cabeça e colocou um cachorro yorkshire terrier roxo com o pelo super crescido como peruca, vou acreditar imediatamente.

Assim que a plateia se acalma, Ava dá início aos cumprimentos. Primeiro para a multidão, depois para os telespectadores e por último para os tributos. É assim que ela começa todo o ano. Então ela conversa com o público por algum tempo, como também é esperado, antes de, sem mais delongas, chamar a garota do Distrito 1.

Na entrevista, as garotas precedem os garotos, ao contrário da apresentação aos Idealizadores. Como cada entrevista dura três minutos, no momento em que ela levanta, sei que são apenas doze minutos para chegar a minha vez.

Se eu estou bonita, a garota do Um está deslumbrante. Seu traje é um vestido bem simples, mas ela está usando tantas joias que isso acaba sendo irrelevante. Seus longos cabelos negros estão entrelaçados com fios de prata e ouro.

Ava inicia a entrevista com ela fazendo piadas sobre como o nome da garota, Aven, é bonito pelo fato de ser tão parecido com o da própria Ava. Aven ri muito vagamente. E é vaga durante toda a entrevista. Misteriosa a ponto de deixar a todos intrigados, e querendo saber cada vez mais e mais dela. Uma boa estratégia.

Depois de Aven, é a vez do garoto do Distrito 1, Adlex. A estratégia dele é ser divertido e engraçado, embora todos saibam que ele não será nem um pouco disso na arena.

Junie, do Distrito 2, não está interessada em falar sobre ela mesma, e usa todo o tempo da entrevista para elogiar a Capital. O garoto do Distrito dela prova que é bem inteligente, além de forte.

Os três minutos do garoto do Distrito 2 terminam, e a campainha que marca o final do tempo soa, com aquele “Pééé” irritante. Ava o dispensa. Ele está voltando para sentar com os outros tributos quando ela me chama.

Levanto-me, aumentando mais ainda meu sorriso, e desfilo até o centro do palco. Ava se levanta para apertar minha mão, e então senta de novo em sua poltrona. Me acomodo na poltrona do entrevistado.

– Edelweiss! Que bom que você está aqui! – Ela diz, exageradamente empolgada. Mas seus olhos não demostram empolgação. Eles são atenciosos, e avaliativos. Olham a minha alma e procuram por qualquer segredo obscuro que lá possa haver.

– Estou feliz por estar aqui. – Respondo, sustentando o olhar dela quase descontraidamente, como se não entendesse o que ela está fazendo.

– Fico contente em ouvir isso. O que está achando da Capital?

– Colorida. – Isso soa meio estúpido, mas Ava e a plateia riem, como se eu tivesse dito isso com o propósito de ser engraçada.

– E você gosta disso? – Ela pergunta em tom de brincadeira.

– Oh, sim. Não temos tantas cores vibrantes no Distrito 3.

Não temos mesmo. Ainda bem. Elas, na verdade, me dão dor de cabeça.

– Se você ganhar, vai ser difícil deixar a Capital para trás e voltar para seu distrito sem cores, então, não é? – O que é isso na voz dela? Parece pena. Não gosto disso.

– Não. Estou com saudades de casa. E vou continuar voltando para a Capital de tempos em tempos, então não terá problemas. E o Distrito 3 não é sem cores. Ele só não é... como aqui.

– Entendo. E como é lá?

Como é o Distrito 3? Mesmo morando a vida inteira lá, tenho de parar para pensar. Nunca precisei descrevê-lo para ninguém.

– É diferente daqui. Eu gosto muito do Três. Toda a minha família e meus amigos moram lá... E eu não os abandonaria nem por todas as cores do mundo.

– Sua família e seus amigos? Oras, mas não sendo por eles, você não pensaria duas vezes antes de trocar seu distrito pela Capital, não é? – Ava continua insistindo.

– Também não. Meu distrito tem um valor sentimental para mim. Gosto de lá. – Reforço.

– Hm... – Ela não parece feliz com a minha teimosia, e acaba desistindo e partindo para outro assunto. – E, você citou sua família, não é? Fale sobre ela.

– Moro com meu pai, minha mãe e meus dois irmãos, Peony e Kevan. – Paro um momento e depois me corrijo: – Penn e Kevan. Minha irmã odeia ser chamada de Peony.

– Eu gostei de Peony. – Ava fala – E de Kevan. Seus pais escolheram nomes lindos!

Gritos de concordância vêm de parte da plateia.

– Obrigada. – Agradeço para Ava, mas para não posso ignorar a multidão. Viro e mando um beijo para eles. Eles aplaudem meu gesto. — Kevan era nome do meu tio que morreu nos Jogos. – Acrescento para ela. Não desfaço o meu sorriso, mas meu tom é de “viu só o que vocês fizeram?”.

– Kevan Roxteed? Oh, bem que eu imaginava que já ouvi este nome em algum lugar. Em que edição ele jogou, mesmo?

– Décima. Você o entrevistou.

– Claro que sim. – Ela sabe que isso é óbvio, mas não se lembra dele. O garoto de treze anos que morreu sem alardes por culpa da maldade da Capital. Ninguém se dá ao trabalho de se lembrar dele. Se sentir mal por ele. – Eu estaria certa se dissesse que agora você vai querer vencer os Jogos para encobrir a derrota dele?

Uma onda de ódio me trava a garganta por dois segundos. Então, despejo, furiosa:

– Não. Eu vou querer vencer os Jogos pela minha família, meus amigos, meu distrito. E só por eles. O que a Capital faz é a coisa mais...

Pééé.

Notas finais
No livro Jogos Vorazes diz que o entrevistador, Caesar Flickerman, entrevistava os tributos a mais de 40 anos. Como o "Panem et Circenses" se passa 42 anos antes da história original, não vi problema em criar uma entrevistadora nova.

Até o próximo!