Notas iniciais
Vou começar a postar uma vez por semana, ou quarta-feira ou domingo. Talvez poste nos dois dias... Desculpe. O que eu disse nas notas iniciais da história não é mentira: Tenho mais da metade da história pronta. Mas minhas aulas voltam na segunda-feira, e vou ter menos tempo para escrever, e talvez, se eu continuar no ritmo atual, chegue uma hora em que eu me atrase. Mas, de jeito algum, diminuirei a atual qualidade.

Na escola, sempre que um professor nos manda fazer trabalhos que depois deverão ser apresentados para a turma, no dia da apresentação, não importa o quão bom meu trabalho esteja, eu me sento numa carteira bem no fundo da classe, esperando que não me vejam lá tão cedo e eu seja uma das últimas a ser chamada, ou se eu der sorte, que a aula acabe antes de chegar a minha vez.

Mas no desfile de abertura dos Jogos Vorazes, não dá para me esconder, ou desejar não ser vista.

A música alta. As luzes. As câmeras. Os residentes da Capital em volta da passarela, super empolgados, gritando e aplaudindo. Por mais que eu não goste de atenção em excesso e não goste de estar aqui, seria mentira se eu dissesse que não estou animada.

Meu sorriso logo deixa de ser forçado e se torna real. Ao meu lado, Pine ri como se tivesse acabado de ouvir a piada mais engraçada do mundo.

Algumas pessoas da multidão apontam para nós. Provavelmente acharam nossas roupas diferentes, e aprovam isso. Para essa gente, quando mais brilhante melhor.

- Edelweiss! Edelweiss! – Ouço não só uma como várias vozes gritarem. Viro a cabeça na direção que vem o chamado, e vejo no meio da plateia um grupo de mais ou menos uma dúzia de adolescentes da minha idade, garotos e garotas, gritando meu nome com as mãos ao lado da boca. Ótimo. Todo tributo que se preze precisa de um fã clube mesmo antes de os Jogos começarem.

- Edelweiss, casa comigo! – Berra um dos garotos, fazendo os outros rirem. Por que será que eles já decidiram torcer por mim? Eles me viram na colheita, gostaram e resolveram me tornar o ídolo deles, mesmo que haja garotas bem mais fortes e mais bonitas que eu?

Dou uma piscadinha para o garoto, e ele joga uma rosa para mim. Tento apanhá-la, mas não sou rápida o bastante, e ela cai no chão. Todos riem, inclusive eu.

Conforme a carruagem segue seu caminho, continuo pensando neles. Se eu tivesse nascido na Capital, poderia ser amiga deles. E eu seria uma garota sem preocupações, que acharia os Jogos Vorazes apenas um entretenimento que eu jamais teria de participar. Por um segundo desejo ser da Capital. Mas é só por um segundo mesmo, pois no segundo seguinte eu me repreendo. No fundo, sei que não gostaria de ser daqui. Eu desprezo essas pessoas ingratas e sem-noção da Capital. Se eu fosse daqui, provavelmente odiaria a mim mesma. E a minha família? Quem ajudaria Penn a estudar e leria histórias para Kevan todas as noites? Meus pais estão sempre muito cansados por conta do trabalho, e mesmo que eles não me peçam diretamente, essas pequenas coisas acabam sobrando para mim. Apesar de que eu gosto tanto de meus irmãos que nem me importo. Mas em minha ausência, quem faria isso? E se eu morrer nos Jogos, quem fará isso? A resposta é uma só: Ninguém.

Ei, cuidado com o ego! Penn e Kevan se viram muito bem sem você!, me diz a parte mais petulante de meu cérebro. E o pior é que ela tem razão. Eles não precisam de mim, assim como eu não precisei de um irmão mais velho. Eles precisam de mamãe e de papai. Mas eu preciso urgentemente de uma motivação para lutar com unhas e dentes para ganhar os Jogos, uma motivação além de minha vontade de viver. Portanto, vou continuar acreditando que meus irmãos precisam de mim, e lutar por isso. E por meu pai, também. Os Jogos Vorazes já lhe tiraram o irmão mais novo. Não posso permitir que eles lhe tirem também a filha mais velha. E até por minha mãe. Apesar de ela ser tão fria comigo às vezes, sei que ela me ama. Tenho de vencer por todos eles. E se tudo der certo... Quem sabe em algumas semanas eu volto para casa?

Durante o percurso de carruagem, mais pessoas gritam meu nome. Não muitas, mas se todas elas investirem um pouquinho de dinheiro em mim podem me manter viva durante meus primeiros dias na arena, então creio ser o suficiente por enquanto. E eu terei mais oportunidades de conquistar o público. Acho que patrocinadores não serão problema para mim.

As carruagens vão parando, assumindo posições uma ao lado da outra, formando um semicírculo em frente à mansão do presidente, que logo aparece com um sorriso afetado para nos dar as boas-vindas e toda essa conversa mole. Quando ele termina, o hino de Panem começa a tocar, e as câmeras passam dando close em cada dupla. Sorrio ainda mais, e com ainda mais brilho, na hora em que vejo eu e Pine em uma telona. Está decidido. Essa será minha estratégia nos Jogos. Serei tão alto-astral e tão encantadora que farei com que as pessoas me queiram viva.

O hino acaba, e as carruagens contornam a mansão uma vez, para depois entrarem no Centro de Treinamento, onde iremos morar até irmos para a arena. Aceno em despedida durante essa última volta. Algumas pessoas acenam de volta, e mais algumas flores são atiradas para mim, mas não tento pegar alguma, porque se novamente eu não conseguir, minha fama passará de encantadora para desastrada, o que é uma fama péssima de se ter. Limito-me a olhar com gratidão para todos.

Quando entramos no Centro de Treinamento, estou rindo tanto quanto Pine. Kallux e Chareen já estão aqui nos esperando. Eles devem ter chegado antes da gente vindo de carro, ou de qualquer transporte mais prático que o nosso.

Chareen dá a mão para Pine, para ajudá-lo a descer da carruagem. Eu desço sozinha, e ela se apressa para me abraçar, após abraçá-lo. Chareen é bem simpática. Queria que ela tivesse sido minha estilista.

- Vocês dois foram muito bem. Estavam adoráveis. – Ela diz. Eu e Pine agradecemos ao mesmo tempo.

- Bem, meus queridos, eu sinto muito, mas não posso dizer com certeza como vocês estavam. Só consegui olhar para as roupas. – Fala Kallux. Incrível a consideração dele.

- Oh, eu e Kallux fizemos um bom trabalho os vestindo, mas os sorrisos de vocês tiraram todo o brilho das roupas. – Afirma Chareen. Por que ela está sendo tão amigável? O trabalho dela é apenas vestir Pine. Vai ver ela é assim mesmo. Mas, honestamente, eu não consigo entender o propósito de alguém como ela trabalhando nos Jogos Vorazes. Sou incapaz de acreditar que haja alguém bom por trás de tudo isso.

E não há. Ela só quer causar uma boa impressão, mas na verdade quer ver o sangue dos tributos ser derramado como todos os outros moradores da Capital. Ou eu que sou chata demais, e desconfiada demais, e Chareen é uma pessoa boa de verdade.

Outra vez, eu e Pine agradecemos. Então Simary Loyel chega, sorrindo entusiasmada para nós. Espero ela nos elogiar pelo desfile, mas ela só nos cumprimenta e pede para que a acompanhemos até o elevador. Fico um pouco envergonhada por esperar elogios, mesmo não tendo dito isso em voz alta.

O Centro de Treinamento é um prédio de doze andares, tendo cada distrito um andar inteiro para si. Nós entramos em um elevador de vidro, e Simary aperta o número 3. Disparamos pelos ares até o terceiro andar.

Lá, sou apresentada a um novo quarto, maior do que o do trem, que já era enorme. Simary me diz que posso ficar aqui e me acomodar, que mais tarde ela me chama para o jantar. Não é má ideia, mas depois da animação do desfile a última coisa que eu quero é ficar só em um quarto silencioso. Recuso a oferta e vou para a sala de estar, onde Mastt está assistindo televisão. Me junto a ele. Mesmo sem estar interessada no programa, é bom estar perto do som da TV.

- Parabéns. – Mastt fala, após algum tempo. Estou distraída, então olho para os lados, procurando a pessoa com quem ele está falando. Como não vejo alguém, volto a olhá-lo, confusa.

- Falou comigo?

Mastt revira os olhos.

- Falei com a porta. É claro que falei com você! – Ele responde grosseiramente, e depois suaviza o tom. – Parabéns pelo desfile.

- Obrigada. – Sorrio.

Ele dá de ombros. Desliga a televisão, e se vira para me olhar nos olhos.

- Vai tentar ganhar a Capital com simpatia. Certo ou errado?

- Certo. – Confirmo – É uma má estratégia?

- Não mesmo. Mas para você, eu sugeriria outra coisa.

Franzo a testa. Ele acabou de dizer que eu não sou simpática?

- Tipo o quê?

- Sabe, eu gostei muito de quando nós conversamos ontem e você disse que não queria ficar no quarto por causa das coisas da Capital. Todos os outros tributos que eu já treinei, depois da colheita, se recolheram no quarto para chorar. Você se sairia bem melhor sendo arrogante.

- Isso dá certo?

- Depende da pessoa. Daria certo com você. Soube disso depois daquela conversa. Não disse por que achava que já era sua estratégia desde o começo.

Ele não está exatamente me repreendendo, mas eu sinto, por algum motivo, como se eu o tivesse decepcionado. Ele achava que eu, por mim mesma, tomei uma decisão que nem se passou pela minha cabeça.

- Desculpa.

- Por que você está se desculpando? – Ele dá risada, o que me deixa mais tranquila. – Tudo bem, agora já foi. Vamos criar uma Edelweiss super simpática para a Capital, então.

- Não quero mais isso. Quero usar a estratégia que você falou. Ser arrogante.

- Você já fez a sua cama, agora durma nela. Você vai se sair bem sendo simpática, também. Só não é o esperado. E eu espero muito de você.

Mastt espera muito de mim. E de repente, percebo que eu odiaria decepcioná-lo acima de tudo. Ele verá que eu consigo. Vou tentar vencer.

Nessa hora, Simary vem nos chamar para o jantar. Que droga. Logo agora que eu e Mastt estamos tendo uma conversa tributo-mentor?

- Falamos disso mais tarde. – Ele declara, se levantando. Concordo, e vamos com Simary para a sala de jantar.

Kallux e Chareen estão sentados diante à mesa cheia de comida, conversando e rindo alto, quando chegamos. Quase pergunto o que eles estão fazendo aqui, mas acho que vai soar arrogante e fico quieta. Eu não sabia que os estilistas ficavam o tempo inteiro com os tributos. Eu achava que eles só apareciam para vesti-los, às vezes.

- Vou chamar Pine. – Avisa Simary, saindo de novo. Eu e Mastt sentamos. Estou tentada a começar a comer, mas ninguém está comendo ainda, e resolvo esperar.

Fico escutando a conversa dos estilistas para passar o tempo. Eles estão falando sobre a última festança que frequentaram. Kallux fala de uma mulher que tingiu a pele com as cores do arco-íris para o evento, e mordo a língua para não rir. Como essa gente é sem-noção! De onde eles tiram tantas modas estranhas?

Simary volta com Pine, que está claramente muito empolgado com alguma coisa.

- Ei, vocês sabiam que aqui servem comida nos quartos? – Ele fala. Eu sou a única surpresa com isso.

- Que legal! – Digo. Simary dá uma risadinha. Deve estar pensando em como pessoas que nunca tiveram comida servida no quarto são hilárias. Isso me deixa um pouco irritada, mas Pine não se abala, e vem sentar ao meu lado. Ele nem parece o mesmo garotinho assustado da colheita.

Finalmente os outros começam a comer, e me sinto liberada para me servir também. Chareen e Kallux encerram a conversa sobre a festa, mas não comemos em silêncio, pois ela está disposta a não deixar o clima na mesa ficar pesado e faz alguns comentários sobre o tempo. Não sei como a conversa prospera, mas na hora da sobremesa estamos falando sobre o desfile novamente. É bom conversar sobre ele, visto que ainda não consegui parar de pensar nisso. Não gosto de não poder falar de algo que estou pensando. Porém Mastt não parece estar tão interessado, e só abre a boca para comer. Quando Chareen tenta estender a conversa até ele, ele a ignora completamente. Se Mastt fizesse isso com qualquer outra pessoa da Capital, eu iria entender, mas Chareen é legal, e o amaldiçoo mentalmente por fazer isso com ela.

- Mastt, a Chareen fez uma pergunta. – Informo.

- Ah, está tudo bem. Mastt está concentrado em comer, eu não deveria tê-lo interrompido. – Chareen disfarça, com um sorriso amarelo. E volta a atenção para a própria comida.

- Na verdade – Mastt larga a colher -, eu estou pensando em outras coisas e nem ouvi a pergunta. – Não sei se isso melhora ou piora a situação. Mas ele está sendo arrogante. Era assim que ele queria que fosse minha estratégia. É como se ele estivesse me mostrando como seria, e agora eu realmente quero ser simpática.

- Quer compartilhar seus pensamentos conosco? – Incentiva Simary.

- Somente com Pine e Edelweiss. – Ele responde, e volta-se para nós. – Vocês já fazem ideia do que vão treinar amanhã?

Os próximos três dias por aqui serão de treinamento. Oficialmente, era para os tributos não terem mais que isso de treino antes de irem para a arena. Nove distritos obedecem esta regra, três não estão nem ligando. Os distritos 1, 2 e 4, cujas crianças treinam para os Jogos desde bem pequenas. Lá é uma honra enorme ser um vitorioso, e geralmente é um tributo desses distritos que vence. O que reduz muito as minhas chances de vitória.

- Nem parei para pensar nisso. – Confesso. Pine concorda.

- Para começo de conversa, vocês vão treinar juntos?

- É claro. Vamos ser aliados, não é? – Respondo, mas também nem parei para pensar nisso.

- Isso não tem nada a ver. – O tom de Mastt é sombrio, e não me sinto bem ouvindo isso.

- Mas nós vamos treinar juntos. – Pine reforça, bem mais decidido que eu.

- Tá. E algum de vocês sabe alguma coisa sobre armas?

Não respondo por que preciso pensar. Eu nunca cheguei perto de uma arma, mas não quero admitir isso. Pine se pronuncia primeiro:

- De arma mesmo, não, mas se tiver algo tecnológico na arena, sei que nós podemos nos virar.

- Grandes probabilidades de não haver algo tecnológico na arena. – Mastt empurra o prato para longe, para demonstrar que já está satisfeito, e se levanta. – Reflitam sobre o que vão treinar com cuidado, porque três dias é pouquíssimo tempo. E não se iludam. Esperem pelo pior na arena.

E com essas palavras agradáveis, ele se retira.

Notas finais
Ah, gente, respondam, por favor... Quando vocês leram o capítulo 2, os travessões estavam aparecendo? Perguntei para um amigo, que respondeu que estavam, mas eu entrei no link de novo e não estavam... Não sei se só deu erro para mim. Se a resposta for "Não estavam", já corrigi.