Notas iniciais
Esta é a minha última semana de aulas, e então terei uma semana em que só irei para a escola fazer provas e enfim, férias. Mas acho que nunca estive tão atolada em lição! Quinze exercícios de matemática para entregar amanhã, mais um trabalho de matemática, um trabalho de física, um trabalho de história e um trabalho de inglês todos para esta semana! Mesmo que eu já tenha grande parte dos trabalhos pronta, têm a apresentação ainda! Ah, caramba, ainda bem que toda essa dor de cabeça está para acabar... Tudo bem, desculpe, isso não tem nada a ver com o capítulo rs, é só um desabafo. Então, espero que gostem!

Sem poder me defender. Totalmente sem saída. Prestes a morrer sem sequer saber quem foi meu assassino. E com a boca tapada, de forma que estou impossibilitada de pedir que ele seja breve.

Espero a morte. É tudo o que me resta a fazer.

Mas antes que ela possa chegar, ouço outra voz, esta feminina e chorosa, ao meu lado:

— Não faça isso, C-Coriander. Não mate ela.

Isso é inacreditável. Mais de dois terços dos tributos já estão mortos, estamos quase nas finais dos Jogos, e alguém ainda vem em minha defesa. Mesmo sem ver quem o fez, e mesmo que o tal Coriander não se convença e não tire a faca do meu pescoço, sou grata a esta pessoa.

Graças a ela eu vou, pelo menos, morrer achando que ainda há um pouco de bondade neste mundo.

— Nydia, você está abalada por causa do Hannes. Não precisa assistir a isso. – Fala o rapaz. Algo na voz dele deixa claro para mim que ele se preocupa de verdade com ela, mas que também está abalado.

— Vai ser muito errado se você matá-la.

— Eu tenho uma boa noção de certo e errado, Nyd, mas as regras da sociedade não se aplicam aos J...

— Olhe, escute. No treinamento, os Carreiristas e-estavam implicando comigo e com o Hannes. – A voz dela parece mais torturada ao pronunciar o nome – E a Três, que mal conhecíamos, nos defendeu.

Coriander afasta dois centímetros o facão de minha pele. Mas ainda assim, não sinto que posso voltar a respirar tranquilamente. Qualquer movimento, e sei que ele não vai hesitar em enfiar a lâmina bem fundo na minha garganta.

— Pode até ser. Mas isso foi antes dos Jogos. Agora, se não a matarmos, pode ser que ela mate a gente.

— Como? Ela está desarmada.

A essa altura, eu obviamente já tinha descoberto quem a garota era. Nydia, tributo feminino do Distrito 5, aliada do garotinho que acabara de morrer, que aparentemente se chamava Hannes. E também deste Coriander, cujo nome não reconheço da colheita, nem da entrevista e nem de nada.

Irracionalmente, eu estou contente por ela estar aqui. Não é só por ela estar salvando a minha vida, e sim mais porque, por termos já passado por algo juntas, é como se ela fosse o mais próximo que eu tenho de uma amizade nesta arena.

Nydia entra no meu campo de visão. Ela está usando os cabelos castanho-claros amarrados em duas tranças, e um gorro amarelo, que deve ter pego na Cornucópia. Seus olhos estão vermelhos, e seu rosto está sem cor. Eu adivinharia que ela está abalada com a morte de Hannes mesmo que Coriander não houvesse dito.

— Qual o seu nome? – Nydia pergunta, forçando um sorriso.

Engulo em seco. Preferia que ela não me obrigasse a falar, porque tenho medo de que Coriander vá me matar se eu disser alguma coisa. Mas, uma vez com a pergunta feita, que outra opção eu tenho além de responder?

— Edelweiss.

— Obrigada por nos ajudar naquele dia, Edelweiss.

— Obrigada por me ajudar agora. Eu... sinto muito pelo Hannes.

— E eu sinto muito pelo menino do seu distrito. Vi quando ele morreu anteontem. V-Você era aliada dele, não era? Fiquei imaginando isso quando vi vocês juntos no treinamento.

— Sim. Eu era. – Respondo, tentando sorrir, mesmo que com tristeza, para impedir que lágrimas me venham aos olhos. Com sucesso.

— Nydia. – Coriander interrompe nossa conversa, parecendo receoso com alguma coisa. – Se não vamos matá-la, o que vamos fazer com ela?

Eu não entendo o porquê de ele ter assumido aquele tom até ela responder:

— Ela poderia ser nossa aliada.

— Não. – Ele fala, como se já soubesse que ela ia sugerir aquilo.

— Por que não?

— Já parou para pensar sobre o fato de sermos sete tributos na arena agora? Está na hora em que as alianças começam a se desmanchar, não a se formar.

— O que está insinuando? – A voz de Nydia passa de melancólica para ríspida nesta frase. E com razão, pois o erro de Coriander foi grave. Mesmo ele não tarda a reparar e a tentar se corrigir:

— Ah. Não, Nyd, não me leve a mal, eu não queria dizer aquilo. O que eu estava dizendo é que ela pode, bem, nos trair.

Faço uma careta. Eu nunca faria com alguém o mesmo que Flavia fez comigo. A explicação de Coriander me soa mais ofensiva até do que as coisas que Ava Cantall disse sobre minha família e meu distrito, na entrevista, e meu impulso natural é ir em minha própria defesa:

— Eu não trairia vocês. E não tente adivinhar o que eu faria e deixaria de fazer, tudo bem?

Ele volta a encostar o facão na minha garganta, ameaçadoramente.

— Bom, eu acredito na Edelweiss. E, Cory, sermos sete não passa de mais um motivo para formarmos uma aliança. Pense bem, os Carreiristas estão em três. Se ela se tornar nossa aliada, também vamos estar. Assim é mais seguro. – Nydia diz.

Eu não acho que vá fazer tanta diferença quanto à segurança. Os Carreiristas são bem mais treinados que nós, então estarmos na mesma quantidade que eles não significa muita coisa. Porém, eu gostei da ideia de uma aliança, porque não quero ficar sozinha, então não comento isso.

— Ainda acho melhor não. – Ele fala, inflexível.

— Você vai mesmo matar alguém a troco de nada. – Ela parece não estar conseguindo reconhecer o próprio aliado. Em outras palavras, está profundamente decepcionada.

— Como assim, “a troco de nada”?! Não é motivo o suficiente nós estarmos nesses Jogos de morte que...

— Eu sei bem onde estamos! Mas eu não aguento mais, Coriander! O meu priminho acabou de morrer! Ele se sacrificou por nós, porque sabia que naquela hora os Carreiristas iam nos achar se ele não desviasse a atenção deles! Eu não quero, além de tudo que já aconteceu, brigar com a garota do Distrito 3 que não ergueu um dedo contra a gente. E se você insistir em matá-la mesmo assim... a nossa aliança acaba por aqui.

Nós ficamos um bom tempo em silêncio depois disso. Eu estou olhando para Nydia, que está olhando para Coriander, e sinto que ele está olhando para ela também, apesar de eu ainda não ter conseguido vê-lo. Também sinto que ele não está mais segurando o facão com tanta determinação quanto antes.

— Eu pensei que nós fossemos amigos. – Por fim Coriander diz.

É essa frase que faz Nydia sair da pose e começar a chorar compulsivamente.

— Nós somos... nós somos, Cory. Eu só... eu só...

Coriander hesita, e depois tira a faca do meu pescoço. Eu continuo parada do mesmo jeito que antes, para mostrar para ele que vou ficar quietinha e que ele não precisa mudar de ideia.

O garoto, então, vai até Nydia e a abraça.

— Tudo bem, Nyd, tudo bem. Eu não vou matá-la. – Ele fica dizendo.

Eu posso vê-lo agora que ele não está mais atrás de mim. Coriander deve ter dezessete ou dezoito anos, cabelos castanhos – mais escuros do que os de Nydia, contudo –, e olhos da mesma cor. Ele é bem mais alto que eu, e maior ainda comparado à Nydia, que é meio baixinha. E o principal: ele é o garoto do Distrito 7.

— Você é o garoto do distrito de Flavia. – Pasma que estou por tal coincidência, digo sem pensar.

Coriander olha para mim com fúria. Mas este ódio parece ser mal direcionado, ou pelo menos a maior parte dele. Porque eu sei que ele não gosta de mim, porém com a expressão que ele faz, o que dá a entender é que ele detesta Flavia muito mais.

— Você a conheceu?

— Sim. – Respondo, sem-graça. Não queria interromper ele e Nydia. Tenho de aprender a parar de falar mais do que a boca. – Ela era minha aliada. Até a madrugada de hoje.

— Ouvimos um canhão hoje de madrugada. – Conta Nydia. Mesmo chorando tanto, a voz dela é normal e clara. No mínimo, mais do que a minha, que passa a impressão de que eu estou sendo estrangulada quando falo chorando. – Foi ela?

E ela também tem raciocínio rápido, para ligar o que eu falei com o fato de alguém ter morrido de madrugada tão rápido.

— Na verdade, foi.

A próxima pergunta que eu espero que um deles faça é “como ela morreu?”. Aí terei de contar o que aconteceu, Nydia irá dizer para Coriander que ele tinha razão e que eu, por ser uma assassina, mereço sim a morte.

Mas nada disso acontece. O que Nydia realmente fala é:

— Quais são os tributos que ainda estão vivos, mesmo?

— Aven, do Distrito 1. Kalle, do Dois. Eu, do Três. Aster do Quatro, você do Cinco, Coriander do Sete. E a garota do Distrito 8, cujo nome desconheço.

Penso na menina loura que flagrei ontem, me observando enquanto eu dormia. Imagino que ela tenha por volta de catorze anos, e se eu estiver certa, isso significa que ela é não só o tributo do distrito mais pobre (dos que ainda estão na disputa, quero dizer), como o mais novo. E, além de tudo, a Oito é a única que não tem alianças.

Aposto que ela também não está muito bem no quesito de patrocinadores, já que não consigo ver algo positivo a seu favor. Mas, bom, a Oito não é exatamente um tributo incompetente. Ela deve ter alguma coisa especial para estar entre os sete últimos.

— Também não sei o nome dela. – Diz Nydia, pensativa.

— Nem eu. Mas, Nydia, o que nós faremos agora? Voltamos para o nosso acampamento? Com ela? – Coriander muda bruscamente o assunto.

— Não há dúvidas de que devemos voltar com ela. A Edelweiss é nossa aliada agora. – Ela dá um sorriso fraco para mim.

E, Coriander querendo ou não, dentro de alguns segundos estamos a caminho do acampamento, que conforme Nydia me explica durante o trajeto, é um lugar onde eles deixam todas as coisas deles durante o dia e onde dormem durante a noite, mas não é um local fixo, pois conforme eles foram atravessando a arena, tiveram de ir mudando.

É diferente de Pine e eu, que só acampávamos durante a noite.

Pergunto para ela como foi que eles – Nydia e Hannes – formaram a aliança com Coriander, e ela responde que na cornucópia os dois estavam para ser mortos pelo garoto do Distrito 6, e que Coriander matou o tal tributo e os três fugiram juntos.

Esta espontaneidade com que a aliança foi formada me lembra de quando formei minha aliança com Flavia. Foi mais ou menos desse jeito, mas a nossa não deu certo, e a deles sim.

Para não deixá-la praticamente falando sozinha, também conto-lhe um pouco sobre Pine, e Nydia tem a delicadeza de não perguntar sobre a morte dele.

E Coriander está muito quieto. Mas não me sinto mal, porque dá para entender que ele não está fazendo isso como protesto por não querer ser meu aliado. Nem por ter algum tipo de dificuldade de interação social. É como se ele só precisasse de um tempo para poder pensar sem dizer algo em voz alta.

Eu e Nydia damos este tempo a ele.

No final das contas, quando chegamos ao acampamento, vejo que as coisas deles se resumem em um saco de dormir, uma mochila, uma corda bem comprida e um pacote grande de biscoitos. Eles tinham guardado o saco e o pacote dentro da mochila, e a amarrado com a corda em um galho de uma árvore. Coriander a tira de lá para que Nydia possa me mostrar as coisas.

Lembro-me apenas neste momento de que estou segurando um pote com comida desidratada. Não sei como, mas eu esqueci que estava segurando-o. Feliz por poder fazer algo por eles, já que eles já fizeram tanto por mim (não me mataram, principalmente), mostro o pote à Nydia.

— É comida desidratada. Podemos dividir.

— Vamos dividir tudo. – Nydia pega o recipiente de minhas mãos e o coloca também dentro da mochila.

Pode ter sido apenas impressão, mas acho que Coriander baixou um pouco a guarda em relação a mim depois que viu que eu havia entregado, sem hesitar, o meu único recurso para eles, ao invés de escondê-lo para ter algo comigo se eu estivesse planejando traí-los e fugir a qualquer momento.

Porém, embora ele tenha relaxado o suficiente para não ficar com o facão sempre estrategicamente apontado para mim, não foi o bastante para ele parar de me olhar como se eu fosse uma grande dor de cabeça.

Reconheço que não é recomendável que uma aliança seja formada a esta altura, mas isso sinceramente já está me dando nos nervos. Eu não cheguei a eles implorando para que se tornassem meus aliados, então não é de se esperar que eu esteja disposta a aceitar qualquer coisa sem, no mínimo, me incomodar.

Só o bom-senso me mantem calada. Não preciso de mais confusão.

Cuido também para não dirigir a palavra para ele até o anoitecer, depois que comemos alguns dos biscoitos, o hino toca, as imagens de Adlex, Hannes e Flavia se acendem no céu e decidimos dormir. Mas não aguento mais e tenho de falar algo depois que ele propõe:

— Você dorme primeiro, Nyd, enquanto eu e a Edelweiss fazemos o primeiro turno da vigília. Você precisa mais.

— Mas o certo a se fazer, com três pessoas, não é duas dormirem enquanto uma fica de vigília? Do jeito que você quer fazer vamos descansar muito pouco. – Digo, incrédula. Que plano mais besta!

— Só temos um saco de dormir. – Ele responde, rascante.

Não há argumentos contra isso, então deixo estar. Mas tenho quase certeza de que ele, na verdade, não quer me deixar acordada enquanto eles dormem por não confiar em mim, e aquilo foi só uma desculpa.

Nydia abre o saco de dormir, e se acomoda nele. Eu e Coriander nos sentamos um tanto à frente dela, de costas um para o outro, com mais ou menos uma distância de três metros nos separando.

Passamos aparentemente uma hora assim, sem falar. Nydia não demora a adormecer, então na prática, estamos só eu e Coriander aqui. Não há alguém para impedi-lo de me matar agora. Ele sabe disso, mas, felizmente, não tenta.

— Edelweiss? – Por incrível que pareça, ouço-o me chamando, depois de se assegurar de que Nydia está mesmo dormindo.

— O quê?

— Você disse que era aliada da Anna antes, não é?

— Anna?

— É, é. Anna Flavia. Todo mundo sempre a chamou de Anna, e de repente ela veio querendo ser chamada pelo nome do meio, mas para mim sempre será a Anna. Bom, isso não vem ao caso. Você era, não era?

Foi um instante de distração meu. Flavia realmente me contou sobre o primeiro nome dela, mas o que deu a entender era que ninguém a chamava de Anna, não que ela havia cismado com este nome, como agora Coriander revela.

E, porcaria. Eu estava torcendo para que ele tivesse esquecido este assunto.

— Era. – Pretendo deixar por isso mesmo, tornando a resposta o mais vaga possível, mas percebo que isso só dará a ele espaço para mais perguntas. Então, tento enrolá-lo. – Você a conhecia do seu distrito?

— Ela era um ano mais nova que eu. Estudava na classe da minha irmã, na escola. – Coriander responde, mas não se desvia do que queria me perguntar, e faz a temida pergunta em seguida: — Como ela morreu?

— Ela tentou me assassinar enquanto eu dormia. Mas eu acordei. E a matei. – Falo, num fio de voz.

Espero que Coriander agora queira me matar, por ter tirado a vida de uma pessoa. Mas ele compreende completamente:

— Ninguém gostava muito dela. Anna era manipuladora demais.

Pensando melhor, ele queria me matar, hoje mais cedo. E de acordo com Nydia, ele matou o garoto do Distrito 6 para proteger ela e Hannes. Eu não devia ter me preocupado tanto. É claro que ele ia entender.

Gosto mais de Coriander depois disso, mesmo que minimamente.

E então voltamos a ficar quietos até a hora em que ele vai acordar Nydia para trocar de turno. É a vez dele de dormir.

Coriander entrega o facão para ela, e vai para o saco de dormir. Nydia vem se sentar bem ao meu lado, e após alguns minutos sem dizer algo, depois de Coriander já ter adormecido, ela começa a chorar, do nada. Isso é o que eu mais a vejo fazer, para falar a verdade.

— Eu ainda não acredito que o Hannes esteja morto! – Desabafa ela.

Eu faço a única coisa que tenho a meu alcance para consolá-la: A abraço. Ainda mais porque, na realidade, Nydia não é a única de nós duas que precisa ser abraçada.

Ficamos um longo tempo assim. Até quase o final da noite, especificamente, quando finalmente chega a minha vez de dormir, e eu troco de lugar com Coriander.

Vou ter umas três horas de sono, então quero aproveitá-las bem. Mas não consigo de jeito algum dormir rápido, mesmo estando cansada do jeito que estou.

Afinal, como dormir com tanta coisa em mente, entre elas que gente que eu amava já morreu e gente que eu estou começando a gostar terá de morrer futuramente, se eu por acaso for a vencedora dos Jogos Vorazes?

Não sei nem porque ainda me dou ao trabalho de gostar das pessoas.

Notas finais
Até o próximo capítulo!