Panem Et Circenses
22 Armadilha
Notas iniciais
O oitavo dia nos Jogos Vorazes é um dos mais tranquilos que tenho desde que entrei na arena.
Coriander parece ter apagado da mente dele a nossa conversa de ontem à noite, mas mesmo assim não age com a desconfiança com que estava agindo comigo ontem. Ele está começando a aceitar a minha presença por lá, o que é bom.
Nydia não está mais parando de cinco em cinco minutos para chorar por Hannes. Não que ela tenha superado, mas ela se conformou por ora. Como aconteceu comigo sobre Pine.
E o principal é que nada de negativo acontece neste dia: Nenhuma morte, nenhuma briga, nenhum encontro com os Carreiristas, nenhum susto.
Eu começo a me incomodar com o sistema dos meus aliados de ficarem acampados em um mesmo lugar, mas não me sinto à vontade para apontar o problema.
A única coisa que acontece que acaba cheirando como um problema é a nossa comida, que seria bastante para uma pessoa, o suficiente por um tempo para duas, mas pouco para três. O que comemos neste dia faz a nossa quantidade de comida ser reduzida drasticamente a uns poucos biscoitos.
E é por isso que no dia seguinte, o nono dia nos Jogos, decidimo-nos por sair para procurar comida.
— Melhor nos separarmos para ir mais rápido. – Pela primeira vez, ouso opinar sobre alguma decisão tomada.
Espero que Nydia fique quieta ou concorde comigo, porque é o que ela tipicamente faz, mas ela, invés disso, faz uma expressão estupefata e fala:
— Não, não, não. Péssima ideia. Não quero. – O que é como um balde de água fria na minha determinação.
— Tudo bem. – Falo, acanhada. Sou grata por não ter tendência a enrubescer. – Então vamos todos juntos, mesmo.
— Para ser sincero – Coriander intervém, para meu espanto –, eu gostei da ideia de nos separarmos. É bem prática. – E me lança um olhar de “só estou concordando desta vez. Não vá se acostumando”.
— Mas eu não quero ficar sozinha. – Nydia diz, de uma maneira entre reclamação e choramingo.
— Não precisa. – Ele a tranquiliza. – Vamos fazer assim: Você e a Edelweiss vão juntas e eu vou sozinho. Aí vamos poder nos separar sem que você fique desacompanhada. Mas o meu facão fica comigo.
— É um bom plano. – Digo, reassumindo minha posição agora que obtive algum apoio. – E nós duas podemos levar a corda.
— A corda? O que você pretende fazer com ela?
— Uma armadilha. – Essa ideia passou pela minha cabeça assim que vi o objeto pela primeira vez. Se realmente há algum animal nesta arena, e que se esconde com medo toda vez que um tributo aparece, pode ser que consigamos capturá-lo se armarmos uma armadilha e nos afastarmos por um tempo. A esperança é a última que morre.
— Eu não sei montar armadilhas. Não dei atenção a elas no treinamento. Mas se você souber, pode ser.
— Então está tudo resolvido. Nos encontramos aqui mesmo mais tarde. – Coriander pega a nossa mochila, tira o rolo de corda de dentro dela e o joga para mim. E ele não precisa se preocupar em pegar a faca também, porque ele só se separa dela para dormir, de modo que está com ela agora.
Pego a corda no ar, e faço sinal para Nydia me seguir. E nós saímos andando por um lado, enquanto Coriander vai pelo outro – após deixar a mochila no chão, para futuramente não haver dúvidas sobre onde combinamos de nos encontrar.
— Onde você quer montar essa armadilha? – Nydia logo me pergunta.
— Não muito longe e não muito perto. – Respondo. Parece vago, mas é a verdade. Tenho a impressão que se fizer perto do lugar onde estamos acampados, teremos problemas caso algo dê errado, porém também sinto que esses problemas acontecerão do mesmo modo se formos muito longe.
O lugar ideal fica entre o longe e o perto, e nós o encontramos depois de alguns minutos de caminhada. Também encontro por lá um galho em uma árvore que considero bom para armar minha armadilha.
Sinto uma pontada de insegurança quando começo a pôr em prática os nós que aprendi a fazer no Centro de Treinamento. Embora pareça que foi há tanto tempo, lembro nitidamente de como Pine era espetacular nesta atividade, e de como eu era medíocre. E fazer nós aqui na arena é bem mais difícil que lá, onde temos orientação e a corda não fica cortando nossas mãos devido ao frio.
Todavia, constato que meus nós acabam ficando bem firmes, o que me deixa incrivelmente satisfeita, mesmo que eles sejam apenas o básico de uma armadilha.
Em seguida, vou prender a corda nos pontos corretos da árvore que selecionei. Nydia, que até então estava somente observando, depois de mais um tempo indaga:
— Essa é uma daquelas armadilhas que prendem a vítima pelo tornozelo e a erguem no ar?
— Isso mesmo. – Quando ela faz a pergunta, já estou quase acabando. Estou ajoelhada sobre um galho alto da árvore, amarrando a ponta da corda no galho de cima, enquanto tento ignorar que o galho abaixo de mim está rangendo e balançando. Eu me recuso a descer daqui sem terminar isso.
— E você acha que vai funcionar?
— Espero que sim. – Dou um puxão na ponta para garantir que o nó não está frouxo, e ele se comprime ainda mais. Para mim isso basta para eu deixar tudo do jeito em que está e começar a descer da árvore antes que o meu galho se parta e eu caia, pois como estou a uns três metros do chão, o tombo seria feio. É por isso que mal consigo conferir tudo por uma segunda vez, para me assegurar de que a armadilha está realmente perfeita. – Está pronta. Agora vamos nos afastar um pouco e esperar. – Falo ao chegar ao chão. Nydia assente, e nós duas saímos de perto da armadilha, para supostamente procurar por comida, para nos prevenir caso não consigamos capturar algum animal com a minha obra.
É evidente que não podemos ir para muito longe, e que precisamos ficar de tempo em tempo conferindo a armadilha, mas a maneira como estamos fazendo isso está nos impedindo de prestar a atenção a uma verdadeira busca por alguma comida. Andamos sem rumo, fingindo uma para a outra e para nós mesmas que estamos procurando, por um tempo.
— Estou ficando cansada. – Ela diz uma hora, parando de andar.
Paro também.
— Vamos fazer uma pausa de cinco minutos? – Sugiro.
— Acho melhor irmos ver a armadilha de novo. Depois descansamos.
E é o que fazemos. Só não contávamos que, ao chegarmos, não encontraríamos a armadilha vazia, ou com um animal preso nela.
E sim com a garota do Distrito 8 lá.
Ela está de cabeça para baixo, há uma distância de mais de três metros do chão. Não parece estar assustada por estar na armadilha; é como se estivesse totalmente no controle da situação, apesar de que o galho que está sustentando seu peso seja frágil e esteja balançando, ameaçando partir-se. A Oito está se inclinando, tentando desamarrar o meu nó e se soltar, sem conseguir. Os braços dela não o alcançam.
Quando eu e Nydia chegamos, ela desvia os olhos da corda para nós, e enfim parece um tanto assustada, mas não muito. Talvez apenas surpresa.
Ela tira uma faca do bolso, e a empunha como se quisesse cortar a corda.
No entanto, é impedida por outra faca, bem maior, que neste momento voa em direção à cabeça dela. A arma se enterra no pescoço da Oito de um modo que me faz estranhar o fato de o canhão não ter soado instantaneamente.
E para coroar, o galho quebra.
É bem rápido, e a menina é só um borrão branco, marrom e amarelo caindo na neve. E ao bater no chão, o vermelho entra nesta composição, com o galho batendo com força na cabeça dela a fazendo sangrar muito, bem mais do que com só a facada. O baque surdo do seu corpo ao cair no chão, misturado com o canhão que anuncia a morte da Oito, também é algo que eu jamais conseguirei tirar de minha mente. A sensação que isso me passa me dá vontade de desmaiar.
Essa foi, sem dúvidas, a pior morte desta edição dos Jogos.
E o pior de tudo – provavelmente muito mais para Nydia do que para mim – é virar para trás para ver quem atirou a faca que desencadeou tudo isso e encontrar Coriander, não muito longe da gente.
— Foi você, Coriander! Você a matou! – Começa a berrar Nydia, horrorizada.
— Foi melhor assim. Nydia, você é cega? Ela estava com uma faca! Ia atirar em vocês...
— Ela só queria cortar a corda!
Eu também tive a impressão de que ela só sacou a faca para cortar a corda. Mas vendo por outro ponto de vista, talvez ela quisesse realmente nos matar com ela. Não dá para saber.
A garota do Distrito 8 é alguém que se foi sem que alguém possa afirmar com certeza suas verdadeiras intenções.
Mas a única coisa que eu, pessoalmente, consigo afirmar com certeza agora é a verdade incomodadora: A partir de agora os Jogos Vorazes são eu, Nydia e Coriander versus Aven, Kalle e Aster.
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