Notas iniciais
O primeiro capítulo! Boa leitura.

Como qualquer outro dia, meu despertador toca exatamente às 06:00 AM.

Abro meus olhos e desligo o alarme, mas não me levanto imediatamente. Fico deitada na minha cama, encarando o teto.

Hoje vai ser um grande dia. Pela 32ª vez, teremos a colheita, o evento em que uma garota e um garoto de cada um dos 12 distritos deste país, Panem, serão escolhidos para ir para os Jogos Vorazes, os Jogos em que 24 tributos, de idade entre doze e dezoito anos, terão de ir para uma arena para lutar e matar até sobrar apenas um. E eu tenho cinco chances de ir para a arena. Afinal, a cada ano que se passa, eles acrescentam mais um papel com seu nome na bola de vidro onde eles sorteiam o nome dos tributos. E como eu tenho dezesseis, esse ano meu nome aparecerá cinco vezes lá. Sinceramente? Eu não quero ir para a arena. Eu não quero morrer.

Tento me manter calma. Muitas garotas do meu distrito também terão seus nomes na bola. A chance de eles me sortearem não chega a 0,1%. Mas mesmo assim, é impossível para mim não ficar nervosa.

Ouço um barulho de porta se abrindo, e um feixe de luz vindo do corredor se projeta para dentro de meu quarto, sobre a minha cama. Viro a cabeça na direção da porta e vejo, parado na soleira, um menino louro, vestindo pijama azul marinho, coçando os olhos, sonolento.

— Edelweiss, a mamãe mandou eu te acordar que é para você ir ajuda-la com o café da manhã. – Ele diz, bocejando no final da frase. Suspiro. Nem no dia da colheita posso ficar mais alguns minutinhos na cama?

— Diga para ela que eu já estou indo, Kevan. – Peço para o garotinho, que assente e em seguida sai, deixando a porta aberta.

Levanto-me. O meu maior desejo é poder voltar para baixo das cobertas e não sair de lá até amanhã, mas não posso. Olho pesarosamente para a cama uma última vez, e então vou para a cozinha.

Ao chegar lá, encontro toda a minha família já acordada. Minha mãe está com sua camisola amarela, que é definitivamente o seu traje de dormir preferido, e os curtos cabelos louros e embaraçados presos em um pequeno rabo de cavalo. Ela está fritando ovos para ela, meu pai e meus irmãos. Não para mim, porque se tem algo que me enoja, é comer fritura logo depois de acordar.

O meu pai está sentado diante à mesa da cozinha, encarando a madeira, completamente desolado. Ele sempre fica assim no dia da colheita. E tem motivo, afinal, na 10ª Edição dos Jogos, seu irmão mais novo Kevan, de treze anos, foi chamado para jogar e morreu. Meu pai diz que, se pudesse, teria se oferecido como tributo e ido no lugar dele, mas não pôde, pois tinha dezenove anos, e já tinha passado da idade. Quando ele teve um filho homem, deu a ele o nome de Kevan em homenagem a esse irmão.

Minha irmã de treze anos Penn está também sentada em frente à mesa. Ela é a única que já tirou o pijama, e está com um vestido roxo com um elefante dourado desenhado na frente. Ela é loira como a maior parte da minha família – Só eu e meu pai temos cabelos negros – e está com uma faixa no cabelo da mesma cor do vestido. Ela parece assustada. Está com medo da colheita, talvez até bem mais do que eu. Como essa será a segunda colheita dela, ela terá seu nome na bola de vidro só duas vezes, mas está morta de preocupação. Inclusive parece que vai chorar. Reparo que ela está com olheiras. Será que conseguiu dormir esta noite?

Meu irmão Kevan está praticamente dormindo em cima da mesa, com os braços cruzados sobre ela e a cabeça apoiada neles. Ele tem oito anos, então não precisa ainda se preocupar com colheita, nem com Jogos Vorazes, e nem com nada do tipo. Sortudo.

— Bom dia. – Digo, ao entrar na cozinha. O clima está tão feliz que ninguém responde.

— Edelweiss, você pode ir pondo a mesa? – Pergunta a minha mãe, sem tirar os olhos dos ovos.

— Claro. – Respondo, abrindo a gaveta do armário da cozinha onde ficam todas as toalhas de mesa. Pego uma com desenho de girassóis, que na verdade é a primeira que eu vejo, e me viro para Kevan. – Kev, levanta a cabeça. Senão o monstro toalha vai comê-la. – Brinco. Ele obedece, mas não parece muito feliz com isso.

Estendo a toalha por sobre a mesa. E então vou pegar os pratos, copos e talheres no armário.

Eu termino de arrumar as coisas e pego uma caixa de cereal e uma de leite. Prefiro mil vezes comer isso de café da manhã do que ovos fritos.

Sento entre Kevan e Penn, e despejo o conteúdo das duas caixas numa tigela. Começo a comer, e a minha mãe termina de fritar os ovos e começa a colocar dois em cada prato.

— Não, mamãe. Eu não quero. – Diz Penn quando vai receber seus ovos. Mamãe não discute, e coloca a comida em seu próprio prato.

Fico irritada. Será que ela não percebe que Penn está sem fome por estar apavoradíssima com os Jogos, e que provavelmente nem dormiu hoje? Ela não pode ser uma mãe atenciosa e conversar com ela? Convencê-la a comer alguma coisa?

— Penn, quer cereal? – Pergunto, gentilmente.

— Ah, não. Estou sem fome. – Ela nega outra vez.

— Você não pode simplesmente ficar de barriga vazia. – Declaro, me levantando e indo pegar outra tigela. Substituo o prato de Penn por ela e a encho com o resto de cereal que tem na caixa e leite. – Coma. Só um pouquinho, pelo menos.

Ela concorda, pega a colher e começa a comer, desanimada. Não está com forças para discutir comigo.

Todos estamos muito melancólicos, e não falamos enquanto comemos.

Ao final do café, eu me ofereço para lavar a louça, apesar de ser a vez de Penn. Ela me agradece e vai para seu quarto. Espero que tente dormir um pouco antes da colheita.

Meu pai e Kevan vão para a sala assistir televisão, e minha mãe fica para me ajudar a tirar a mesa.

—Hoje será um dia complicado. Está preparada? – Ela pergunta, uma hora, e eu fico receosa, pois já sei aonde ela quer chegar.

— Sim. – Dou de ombros, apesar de que estou com medo, realmente, de ser sorteada. Mas o que eu posso fazer? Se eu me desesperar agora, não vou deixar de ser chamada, se é para as coisas serem assim. Então, disfarço. – Por que não estaria?

— Edelweiss, olhe só, eu só quero dizer que se for você a sorteada... – Ela começa.

— Mãe, você se importaria em não falar neste assunto? – Eu a interrompo. Mamãe parece ficar ofendida. Me encara por um instante como se eu tivesse acabado de lhe dar um soco, e depois abandona em cima da mesa os talheres que estava levando para a pia, e sai da cozinha.

Em minha defesa, eu não queria briga, mas ano após ano minha mãe vem com essa mesma história de que, mesmo que me chamem para os Jogos, todo mundo estará torcendo por mim, e que eu tenho chances de vencer, e coisas do tipo.

Parece que ela quer que eu vá, embora não seja verdade.

Termino de tirar a mesa sozinha, abro a torneira e começo a lavar a louça. Percebo que minhas mãos tremem enquanto ensaboo um prato. Não adianta disfarçar o medo: Sempre algo me entrega.

Ao acabar com a louça, vou tomar banho. Fico alegre ao ver que o banheiro está desocupado. Não tenho a impressão de demorar muito, mas devo demorar, pois depois de um tempo meu pai bate na porta e me manda sair, que o resto da família também precisa tomar banho. Desligo o chuveiro, me enrolo na toalha e saio do banheiro. Vou diretamente para o meu quarto.

Visto-me com meu melhor vestido: Um verde, com flores coloridas desenhadas nas mangas e na saia, e alguns babados. Não quero parecer mal vestida em frente às câmeras da Capital, que filma todo o evento. E nunca se sabe. Quanto aos meus cabelos, faço igual à Penn: Deixo soltos e coloco uma faixa combinando com meu vestido. Calço sapatilhas prateadas, e me olho no espelho. Nada mau, mas... Tanto faz.

Eu não estou com sono – na verdade, eu sequer estou cansada – mas mesmo assim volto a deitar em minha cama e a adormecer, simplesmente para fugir um pouco de meus pensamentos perturbadores sobre a colheita e os Jogos.

Mas não dá tão certo. Até em meus sonhos tudo isso me persegue, e eu acordo mal, desejando não ter dormido.

Me levanto da cama e miro meu reflexo no espelho do meu quarto, assim como fiz antes de adormecer. Xingo baixinho. Eu não posso nem me deitar por algum tempo que meu cabelo vira um ninho de ratos. Passo a escova nele rapidamente e vou para a cozinha, pois meu estômago já está roncando novamente. Acho que dormi a manhã inteira. Odeio isso.

Meus pais e irmãos já estão terminando de almoçar quando chego. Eles nem esperaram por mim.

— Edelweiss, o que você estava fazendo? Daqui a pouco já vamos sair! – Exclama a minha mãe, ainda parecendo zangada comigo, apontando o relógio. Confiro que ele marca 12:45.

— Eu estava dormindo! Por que ninguém foi me acordar?! – Pergunto, aborrecida.

— Eu queria ir te acordar, mas a mamãe não dei... – Penn tenta contar, mas mamãe a corta, dizendo:

— Quieta, Penn! Ninguém tem a obrigação de ir acordar a Edelweiss.

Tenho de me segurar para não gritar com ela. Muito legal. Terei de ir para a colheita com fome. Mas não, eu não vou deixar isso me chatear.

— Ótimo, então. Vou esperar vocês terminarem de comer na sala. – Digo, e cumprindo com minha palavra, vou até lá e me sento no sofá, cruzando os braços. Penso em assistir um pouco de televisão para passar o tempo, mas logo em seguida mudo de ideia. Afinal, agora deve estar passando alguma coisa sobre os Jogos Vorazes, e eu não quero ver. Então fico encarando a tela apagada.

Em pouco tempo Kevan vem me chamar, dizendo que está na hora de irmos, e vamos juntos até a porta da frente, onde os outros nos estão esperando.

Nós trocamos alguns abraços e palavras de apoio, e depois vamos os cinco para a praça, que já está começando a se encher. No centro dela há um palco, e nele estão três pessoas, sentadas em cadeiras. A primeira, a representante do Distrito 3 – meu distrito -, Simary Loyel, com os cabelos em um tom artificial de amarelo e vestido dourado, sorrindo como se tivesse esperado pela colheita o ano inteiro. Ao lado dela, a prefeita, elegantemente vestida em um terninho preto, mas tragicamente sem-graça ao lado da extravagante Simary. Na última cadeira está Mastt Smartville, o mentor dos tributos do Distrito 3, um cara de quase trinta anos que parece sempre bravo.

Despeço-me de meus parentes e vou fazer minha inscrição. Depois, vou para junto dos outros adolescentes da minha idade, esperar a colheita começar.

Quando dá o horário, o evento começa. A prefeita conta a história de Panem, conta sobre os dias escuros e sobre o surgimento dos Jogos Vorazes. Ela lê a lista de vencedores do Distrito 3. Por fim, ela anuncia Simary Loyel. Percebo que, antes de voltar para o seu lugar, ela olha aflita pela plateia, procurando alguém, provavelmente o filho dela, que está na segunda colheita. Dá para ver nos olhos dela o quanto ela teme por seu único filho, e o quanto ela preferia estar com ele a no palco.

Então, Simary Loyel começa a tagarelar sobre como ela está feliz por nos representar, e toda essa conversa que eu não presto atenção. Só quero que ela sorteie os tributos de uma vez e acabe logo com essa tortura. Mas, quando chega a hora do sorteio e ela se dirige à bola com os nomes das garotas, passo a desejar que o tempo pare. Mas, é óbvio, ele não para.

Simary mergulha a mão naquele mar de papeizinhos. Estou tão nervosa que sinto como se pudesse desmaiar a qualquer momento.

Ela pega um papelzinho, abre, lê, e então volta para o centro do palco. Olha para nós com os olhos brilhando, como se tudo fosse uma grande brincadeira, mas duvido que tenha alguém se divertindo. Ela limpa a garganta. O suspense está me matando. Mas, enfim, ela anuncia o nome, e eu sinto meu estômago afundar quando ela chama:

— Edelweiss Roxteed.

Notas finais
Obrigada por lerem! Mas, e aí, de que distrito vocês são?