Notas iniciais
Boa leitura!

Edelweiss Roxteed.

Sim, este é meu nome. E sim, eu acabei de ser sorteada para ser o tributo feminino do Distrito 3 na 32ª Edição dos Jogos Vorazes. E não, eu não estou exatamente dando pulos de alegria por isso.

Vou até o palco com passos firmes, mas não estou me sentindo nem um pouco firme por dentro. Estou me sentindo arrasada. Exatamente como aposto que tio Kevan estava se sentindo, há vinte e dois anos atrás.

Subo os degraus com o coração na mão. Paro em meu lugar, e meus olhos correm pela plateia em busca de minha família.

Primeiro encontro Penn, me fitando horrorizada, como se eu já estivesse morta e com as tripas para fora. Não aguento esse olhar, e vou atrás dos outros.

Mamãe me olha inexpressiva. Se ela ficou triste, brava, aborrecida, desesperada ou qualquer coisa do tipo, simplesmente não dá para saber. Já papai me olha tão infeliz e arrasado que me faz sentir pior ainda. Kevan está parecendo confuso, fazendo perguntas para papai que ele não responde. Imagino que sejam perguntas do tipo: Pai, a Edelweiss vai morrer?, Pai, a gente nunca mais vai ver a Edelweiss?.

Muito bem. Agora vamos ao garoto. Diz Simary Loyel, caminhando até a bola de vidro com os nomes dos garotos do distrito, pegando um dos papeizinhos e voltando ao seu lugar. Dessa vez, ela não faz mistério. Ela lê diretamente em voz alta:

– Pine Vimberg.

Pine Vimberg, também conhecido como o filho da prefeita.

O garoto vai para o palco de cabeça abaixa e fica ao meu lado. Ele tem treze anos, eu sei, mas se encolhendo da maneira como está fazendo parece ter uns dez.

Ele não é muito alto, mas também não é baixo. Tem fartos cabelos ruivos, olhos cinzentos, sardas. É magricelo. Não tem porte de garoto que vence os Jogos.

A prefeita começa a ler o Tratado da Traição, como é obrigada a fazer, mas sua voz está tremendo, e de vez em quando ela olha rapidamente para Pine. Me pego pensando em como as chances de ele ser escolhido eram quase nulas. Quero dizer, o meu distrito não é pobre, o que significa que ninguém por aqui pede tésseras, que é quando você troca grãos e óleo por ter seu nome mais vezes no sorteio, e a família Vimberg deve ter ainda mais dinheiro, por ser a família da prefeita. Então, é certo que o nome de Pine não estava em mais de dois papeizinhos. E tinha muito mais de dois papeizinhos lá dentro, e gente cujo nome aparecia até sete vezes. Ele também parece estar pensando em como o que aconteceu foi improvável, e o quanto ele é azarado. Sei que piedade é um sentimento que, por questões de sobrevivência, não podemos sentir de jeito algum nos Jogos Vorazes. Mas não consigo deixar de sentir pena dele.

O discurso termina, e eu e Pine apertamos as mãos. A mão dele está gelada como a de um cadáver. Tento passar o máximo de confiança possível no cumprimento, mas acho que não consigo muito, pois eu mesma não estou confiante.

Depois disso, finalmente chegamos à parte final do evento, quando nos viramos para a plateia e o hino de Panem começa a tocar. Mas para mim, daria no mesmo de eles tivessem colado para tocar uma marcha fúnebre.

Quando o hino termina, aparece um grupo de Pacificadores para levar eu e Pine para o Edifício da Justiça, onde somos direcionados para salas diferentes, e me encontro sozinha num aposento rico e chique, esperando que minha família chegue para que eu possa vê-la uma última vez. A próxima hora será assim: Despedidas e lágrimas. E eu tenho de me preparar para os minutos mais sentimentais da minha vida. Me sento em uma poltrona de veludo azul, encarando meu próprio colo. Tento me preparar emocionalmente para o que vem a seguir, mas é impossível.

Logo a porta da sala se abre e entram mamãe, papai, Penn e Kevan. Papai é o primeiro a vir correndo em minha direção. Me levanto e nós nos abraçamos. Tenho vontade de começar a chorar, de gritar e de dizer algo do tipo: Papai, por favor, não deixe que eles me levem!, mas não adiantaria nada, então permaneço em silêncio.

– Primeiro eles levam o meu irmão. Depois, minha filha. Ah, malditos sejam. — Ele murmura, e não tenho certeza se com eles meu pai está se referindo aos Jogos ou à Capital, mas acho que ele está realmente é amaldiçoando os dois.

– Eles ainda não me levaram. — Eu o lembro.

– Mas vão levar daqui a pouco. Ao menos que você tenha um plano de fuga... — Pelo tom dele, parece que ele está desejando fervorosamente que eu responda algo como: Ah, mas é óbvio que eu tenho um plano. E fugir dos Pacificadores nem é tão difícil assim!, mas eu dizer isso e dizer que uma morsa galinha vampira vai me ajudar nos Jogos é a mesma coisa. Mentira gravíssima.

– Pode ser que eu ganhe. — Digo, mais para mim mesma do que para ele.

– Claro. — Acho que ele não tem a intenção de ser sarcástico, mas está tão desesperançado que acaba soando assim.

Separamo-nos. Então Kevan é o próximo a me abraçar. Ou melhor, se atirar no meu pescoço e se pendurar de uma forma que quase que nos dois vamos ao chão.

– Você não vai morrer, vai? — Ele pergunta, quando conseguimos recuperar o equilíbrio. É, eu tinha razão quando pensei que era isso que ele estava perguntando para nosso pai na colheita.

– Eu não vou mo... — Começo a falar, mas não termino. Não quero dar falsas esperanças para ele. — Eu vou tentar sobreviver, tá? — Me corrijo.

– E vai conseguir?

Sinto um bolo se formar em minha garganta.

– Eu... Eu não sei. Admito.

– Você vai conseguir sim. Eu sei que vai. — Diz Penn. Sua expressão horrorizada de antes foi substituída por um sorriso, mas eu sei que é só para não me deixar mais apreensiva. Sou grata a ela por isso. Sorrir só para me acalmar apesar de estar morrendo de medo por mim é o maior ato de consideração que eu podia esperar.

– Penn... — Tento retribuir o sorriso dela, mas não consigo, e ao invés disso acabo fazendo uma careta de tristeza. Sinto uma lágrima me correr a face.

– Não chore, Edelweiss! Terão mais câmeras lá fora! — Exclama Penn, desfazendo seu sorriso e franzindo a testa, preocupada. Ela está certa. Se eu sair do Edifício da Justiça chorando, ou com cara de choro, vou parecer fraca na frente de toda a nação. Uma presa fácil para os outros tributos.

– Tem razão. — Me livro do abraço de Kevan para enxugar os olhos quando mais duas lágrimas caem. Minha voz está embargada pelo choro reprimido.

Penn se aproxima e me abraça. Ficamos alguns minutos assim, sem coragem de fazer mais algum comentário, até que eu reparo que ela está soluçando, e a afasto ligeiramente para ver seu rosto.

Ela parece estar em uma guerra perdida contra as lágrimas, e seu rosto está vermelho. Eu já consegui me recompor, mas assim que a vejo desse jeito tenho vontade de desistir de tudo e voltar a chorar. Mas como eu sei que se eu fizer isso será pior, faço o contrário. Sorrio.

– Ei, Penn, não chore você também. Não vou conseguir ficar em paz comigo mesma sabendo que te deixei chorando ao partir. — Peço, carinhosamente.

– C-Certo. — Ela fala, tentando secar os olhos com a costa das mãos. — Mas... Eu vou sentir tanto a sua falta! — E Penn volta a me abraçar, bem mais apertado.

– Também vou. — Respondo, retribuindo o gesto. Depois nos separamos, e chega a vez de minha mãe me abraçar, o que me deixa surpresa, pois imaginava que ela ainda estivesse brava.

– Edelweiss, tome cuidado na arena. Me prometa que vai tomar cuidado. — Ela diz. Sua voz está estridente, como sempre fica quando ela está nervosa ou preocupada. E, considerando as circunstâncias, acho que ela está os dois.

– Eu vou dar o meu máximo para vencer. — Garanto.

– Bem, talvez não seja o suficiente. — Ela retruca. Ouvir isto me dá a mesma sensação de ter levado um tapa.

– Mãe! — Penn a reprende.

Saio do abraço de mamãe, a encarando indignada.

– Me deixe terminar de falar, pelo menos! — Minha mãe também parece indignada, no caso por eu ter me afastado dela. — Eu ia dizer que você precisa dar mais do que seu máximo na arena. Lute com unhas e dentes. Ouça o seu mentor. Crie uma estratégia. Não é tão impossível assim que você vença.

Por que eu ainda não estou gostando dessa conversa?

– Obrigada. Eu acho. — Digo, mas não quero tornar a abraçá-la. E nem preciso, pois nesse momento um Pacificador abre a porta para avisar que o nosso tempo já acabou.

Minha família se despede de mim, talvez para sempre. E em seguida, todos saem.

Desabo mais uma vez na poltrona de veludo azul. Se vier mais gente agora, pelo menos sei que a pior despedida já passou. A pior, mais complicada, e mais dolorosa despedida, que apesar de todos esses adjetivos ruins, eu não trocaria por nada deste mundo. Somente, quem sabe, pelo cancelamento dos Jogos, o que com certeza não vai acontecer.

A porta da sala se abre novamente, e entra ninguém mais ninguém menos que a prefeita.

A prefeita Vimberg, fisicamente, lembra muito o filho. Ela é ruiva como ele, e tem os cabelos cacheados e volumosos, embora eles pareçam comportados, de tanto gel, grampos e presilhas que ela usa. Ela também tem olhos cinzentos, embora os dela cintilem com certa arrogância, enquanto os de Pine mostram um garoto que não faria mal a uma mosca. Até os traços da prefeita lembram o menino.

Vou me levantar para cumprimenta-la, mas ela fala:

– Não se incomode. Continue sentada.

Então, ela caminha até outra poltrona, em frente à que estou sentada, e se senta nela elegantemente. E é só então que eu percebo que a minha postura está horrível, por eu ter me jogado no assento de qualquer jeito, e imito a pose da prefeita. Mas ela não está olhando para mim. Ela está olhando para o teto, como se estivesse refletindo sobre como me dizer certa coisa.

Eu espero, e por fim ela dá um longo suspiro e finalmente olha para mim.

– Bem, como vai, Srta. Roxteed?

Não respondo. Que espécie de pergunta é essa? Eu acabo de ser escolhida para lutar com outros jovens até a morte e ela me pergunta como estou? O que ela acha?

Nós ficamos alguns segundo assim, em silêncio, enquanto ela ainda acha que vou responder, mas depois ela desiste, e continua:

– Tudo bem, já entendi. Pergunta errada. Eu estava tentando começar uma conversa normal, mas dá para ver que você não está interessada, então vamos direto ao ponto. Eu quero te pedir um favor.

Um favor. Claro. Por qual outro motivo a prefeita do Distrito 3 iria falar com a garota que talvez seja, futuramente, a assassina de seu filho?

– Estou ouvindo. — Falo, mesmo não estando disposta a fazer favores para alguém. Essa pode ser minha ruína.

– Quero que você cuide de meu filho na arena.

– E eu faria isso por que...?

– Veja bem. Eu não estou pedindo para que você o proteja, nos sentidos tradicionais da palavra. Só estou pedindo que você forme uma aliança com ele. Vocês são do mesmo distrito, e você não encontrará aliado melhor que Pine. E, você sabe, ter companhia na arena no começo dos Jogos é vantagem. — A prefeita desanda a falar. Ela parece estar convicta a me convencer. Mas eu ainda não entendo a vantagem de ter um aliado de treze anos, sem nenhuma vantagem física aparente, nos Jogos Vorazes.

– Acho que não. Sinto muito.

– Edelweiss... Posso te chamar de Edelweiss?

– Obviamente.

– Então, Edelweiss, eu vou te dar um presente.

– Um presente?

Ela assente, e puxa de um dos bolsos do terninho algo como uma correntinha dourada. Do jeito que ela olha para o objeto, suponho que seja algo que ela realmente dá valor. Então, a prefeita se levanta, vem até mim, pega o meu pulso e prende a corrente nele.

É uma pulseira de ouro, e é bonita, além de simples. Admiro-a por um instante, e depois volto meu olhar para a prefeita Vimberg, desconfiada.

– Está me dando essa pulseira?

– Estou sim.

– Por quê?

Ela me fita como se eu fosse uma papelada cansativa que ela não está com vontade de ler, ou simplesmente a garota mais chata do mundo, mas depois começa a explicar, com a voz cansada:

– Eu ganhei essa pulseira da minha mãe, no ano da minha primeira colheita. Usei-a todos os anos, até me tornar velha demais para os Jogos Vorazes. Então guardei, para dá-la de presente para uma filha minha que estivesse indo para a primeira colheita. Mas eu não tive uma filha. Eu tive um filho. E não seria conveniente dar a pulseira para ele. E ela continuou guardada. Mas agora acho que você é a pessoa ideal para receber isto. É importante para mim, então aceite.

– Não entendi. Eu me recuso a formar aliança com o seu filho e você me dá uma pulseira?

– Eu estou implorando. Está pulseira é muito especial para mim, e eu não a entregaria a você se não estivesse implorando. Edelweiss, por favor. Pelo menos no começo dos Jogos, faça uma aliança.

O Pacificador abre a porta de novo, para encerrar a segunda visita. A prefeita Vimberg me lança um último olhar desesperado, e está saindo, quando eu digo, surpreendendo até a mim mesma:

– Espere!

Ela para e vira e para mim, com expectativa.

– Sim?

– Talvez... Talvez eu faça aliança com Pine. Mas não será por você, e nem pela pulseira. Será por ele.

– Entendo. Obrigada. Ela sorri. — Então, o Pacificador a apressa e ela sai.

Fico olhando para o presente, repassando os últimos minutos em minha mente de novo e de novo, até que mais alguém entra na sala. Ergo meu olhar para ver quem é, e me deparo com Letice, uma menina da minha classe.

Quando éramos menores, eu e Letice éramos melhores amigas. Fazíamos tudo juntas, e eu a adorava. Mas com o passar dos anos, fomos nos separando, falando com outras pessoas, até chegar ao ponto de nosso conversa ser apenas oi e tchau. Por isso, fico genuinamente surpresa quando a vejo ali, para se despedir de mim.

Deve ser por que a irmã dela morreu nos Jogos, dois anos atrás.

– Letice!

– Oi, Edelweiss! — Ela responde, sorrindo. Mas está inquieta, como se estar ali falando comigo a incomodasse. Ela faz menção de sentar na poltrona onde antes a prefeita estava sentada, mas depois muda de ideia e prefere ficar de pé ao lado do assento.

– Mas que surpresa! — Falo, tentando soar empolgada. Mas a verdade é que eu não faço ideia do que falar para ela.

– É! Eu, ahn... Vim desejar boa sorte. Vou estar torcendo por você, não se esqueça.

– Ah, obrigada...

Letice vem na minha direção, e eu me levanto. Ela me dá um rápido abraço.

– Mate eles sem dó. — Ela diz, e em seguida dá as costas e sai da sala com passos rápidos.

Espero que mais alguém venha, talvez alguns dos meus amigos atuais, mas não. A visita de Letice foi a última. Então, chega a hora de eu me despedir do Distrito 3, e ir, juntamente de Pine, Simary Loyel e Mastt Smartville, para o trem que nos levará para a Capital.

Quando saio do Edifício da Justiça, encontro mais câmeras, mais Pacificadores, e o carro que vai nos levar para a estação de trem. Entro no carro, e imediatamente ele parte.

Eu já estou me sentindo mal por conta de tudo que está acontecendo, mas não consigo evitar que um pensamento me venha à mente enquanto me afasto:

Isso ainda está apenas começando.

Notas finais
Terceiro capítulo no domingo :3