Notas iniciais
E eis o quarto capítulo. Espero que gostem!

Eu e minha maldita mania de falar sem pensar.

Mastt volta o olhar para mim novamente, me encarando como se eu não estivesse no meu juízo perfeito. E é então que eu reparo no que eu acabei de falar.

Nesse instante, me bate uma raiva de todos. De mim mesma, de Mastt, e até da Meggin Reed com seus apelidos bobos. Mas estou sendo injusta. O Mastt não tinha nem como saber que esse apelido existe, e a Meggin nunca esperou que um dia eu fosse sorteada para os Jogos Vorazes e que dissesse isso para ele. A única idiota dessa história sou eu.

Boa, Edelweiss.

A minha sorte é que eu não coro com facilidade, senão, meu rosto estaria indiscutivelmente vermelho agora. O que só me deixaria com mais vergonha.

- O que disse? – Ele pergunta. O seu tom não é bravo, e sim de quem fala com uma pessoa com problemas mentais. E eu devo ser isso, mesmo. Não tem outra explicação para eu tê-lo chamado de “Bombástico” em voz alta.

Eu não sei o que posso responder. Continuo olhando para ele com uma expressão bem estranha, sem conseguir formular uma explicação plausível em minha mente. E ele continua esperando a porcaria da resposta.

No final, eu vou acabar falando qualquer coisa, não importa quanto tempo eu demore pensando. Só estou adiando isso. E, gradativamente, me complicando mais. Abro a boca para falar algo. Mas não sei o quê.

- Oras! Onde está a Edelweiss? Já fui até o quarto dela, mas ela não estava lá! Eu preciso chamá-la para o jantar! – Nunca na minha vida eu fiquei tão feliz ao ouvir o sotaque afetado da Capital de Simary Loyel antes.

Essa é minha desculpa perfeita para desviar o olhar de Mastt para outro lugar, no caso, Simary. Ela está se aproximando pelo corredor em passos rápidos, e parece surpresa ao entrar no recinto e me ver aqui. Respira fundo, como quisesse me bater por tê-la feito andar pelo trem inteiro atrás de mim.

- Você estava aqui o tempo inteiro, Edelweiss? Por que não respondeu quando eu gritei o seu nome várias vezes?

- Você gritou o meu nome? Desculpa. Não ouvi. – Quisera eu ter ouvido. Se ela estivesse me chamando antes mesmo de eu chamar Mastt de “Bombástico”, eu teria ido ver o que ela queria e não teria soltado o apelido.

- Ah, bom, tudo bem. O importante é que não foi por mal. – Simary parece feliz com o meu pedido de desculpas. Acredito que seja algo raro de se ouvir de um tributo.

Pine chega logo depois dela. Noto que ele parece um pouquinho melhor, então suponho que ele não chorou mais depois de entrar no trem.

Agora é oficial: estou livre de dar uma resposta. Os dois vêm e se sentam conosco à mesa. Alguns instantes depois, o jantar começa a ser servido.

Ainda bem que eu disse que abriria uma exceção para a comida, porque eu não conseguiria evitar comê-la. É deliciosa. Como, repito, e ainda como a sobremesa. No final, estou me sentindo bem enjoada. Me contorço na cadeira, desconfortável.

Hoje com certeza não é meu dia.

Quando todos acabam de comer, nós quatro vamos para outro aposento, para assistir às reprises das colheitas.

Nesta sala, além da grande televisão, também tem uma série de cadeiras, poltronas, sofás e pufes, todos localizados em um lugar de onde você possa perfeitamente assistir. Não entendo esse exagero da Capital. Eu, Pine, Mastt e Simary somos em quatro. Ninguém, senão nós, vai utilizar essa sala. Então, para que tantos assentos?

Me acomodo na ponta de um grande sofá de couro branco, o maior de todos. Pine senta-se no mesmo sofá, só que na outra ponta, ficando um enorme espaço entre nós. Simary vai se sentar em uma cadeira cor de bronze, e Mastt senta-se entre eu e Pine, mas ainda bem longe de nós dois.

A reprise começa, e voltamos nossas atenções para a televisão.

Primeiramente, aparece o Distrito 1. Lá é muito chique, dá para ver pelo pouco que eles mostram. Como sempre, não há sorteio por lá, pois a garota e o garoto se voluntariam. No Distrito 2, é o mesmo esquema. Os tributos estão radiantes ao subir no palco. Estavam. Agora, estão em outro trem, a caminho da Capital, como eu.

Chega o Distrito 3, que é o que eu mais estou querendo ver. Assisto-me sendo chamada por Simary, e me dirigindo ao palco. Sinto orgulho ao ver que pareci firme e confiante enquanto ia, no máximo um pouco surpresa. Então ela chama Pine. Quando ele já está em seu lugar no palco, um comentarista fala algo sobre os tributos do Distrito 3 serem muito diferentes entre si. O que exatamente ele quis dizer com isso? Eu e Pine temos aparências muito diferentes, jeitos diferentes, idades diferentes. Nós somos diferentes nos mais diversos sentidos. Acho que as únicas coisas que temos em comum são que somos do mesmo distrito e seremos jogados para morrer na mesma arena. Tirando isso, nenhuma semelhança.

Não presto muita atenção às outras colheitas propositalmente, pois se eu parar para pensar que em breve alguma dessas pessoas talvez seja assassinada por mim ou até mesmo seja minha assassina, vou começar a entrar em pânico, e isso é algo que eu não posso me dar ao luxo de fazer. Mas mesmo assim a imagem de alguns tributos se instala na minha mente. Uma garota loura com um sorriso psicopata que foi voluntária do Distrito 4. Os dois tributos do Distrito 5: Uma garota de cabelos castanhos claros pouco mais nova que eu, talvez tendo uns quinze anos, e um garoto de doze anos. Doze anos. Eu odeio, simplesmente odeio com todas as minhas forças, quando é chamado um tributo de doze anos. Eles não têm chances nos Jogos Vorazes. Sempre perdem. Também me chama a atenção um garoto alto, forte e mal-encarado do Distrito 7. Ele parece ser capaz de quebrar tributos ao meio como se fossem lápis, o que é ruim, muito ruim.

A reprise acaba depois da colheita do Distrito 12. Simary bate palmas como se tivéssemos acabado de assistir a um espetáculo.

– Temos muitos tributos interessantes este ano! Esses Jogos certamente não serão entediantes!

Com “Jogos entediantes” ela quer dizer Jogos que têm pouca luta, que a maioria dos tributos morre de forma natural, como de frio, de fome ou de sede. Nada de sangue, nem de pedidos desesperados pela vida.

Entediante.

– Ahn, nós podemos ir dormir agora? – Pergunta timidamente Pine. Simary franze o canto dos lábios, nem um pouco feliz por ninguém ter aplaudido junto com ela, mas por fim responde:

– Naturalmente.

Pine se levanta imediatamente e corre para fora da sala. Ele realmente estava ansioso para sair daqui. Eu vou logo depois dele, mas sem me esquecer de antes de parar para desejar uma boa noite para Mastt e Simary. No entanto, saio antes que eles possam responder.

Volto para o meu quarto. Minha ideia inicial é me jogar na cama e dormir, de roupa e tudo. Penso mais sobre o assunto, e decido tomar banho primeiro.

Quando entro debaixo do chuveiro, tenho a intenção de tomar um banho rápido, apenas o suficiente para eu esfriar um pouco a cabeça, mas não consigo sair tão fácil assim. A temperatura da água está perfeita, e tenho muitas opções de produtos de banho, e não consigo experimentar um só. Depois que eu desligo o chuveiro, me enrolo numa toalha e saio do banheiro, vejo num relógio na parede do quarto que fiquei lá exatamente duas horas. Se eu decidisse tomar um banho de duas horas em casa, meu pai teria um ataque.

Abro uma gaveta onde eu lembro que encontrei pijamas, e começo a vasculha-la em busca de um que me agrade. Perco o fôlego ao encontrar uma camisola cor-de-rosa com sóis sorridentes desenhados. Penn tem uma camisola idêntica a essa. A diferença é que essa é do meu tamanho. Não sei o que pensar. Será que eles colocaram isso aqui de propósito? Sem chances. Não tinha como eles saberem que eu seria o tributo feminino do meu distrito esse ano. Foi só coincidência.

Me visto com a camisola, e apago a luz do quarto. Jogo-me na cama, e sinto a tensão me abandonar. É impossível ficar preocupada, tensa ou desconfortável de qualquer maneira deitada em um colchão tão macio. Adormeço no segundo seguinte.

Não tenho pesadelos. Ainda bem, porque já tenho muita coisa para pensar para também ficar me preocupando com sonhos ruins. Também não sonho com outras coisas. Tenho o sono que eu estava querendo, sem sonhos e nem pesadelos.

Acordo na manhã seguinte com batidas insistentes na porta do meu quarto.

– Quem é? – Pergunto, sem nem abrir os olhos. A cama é muito confortável. Nunca antes em minha vida tive tanta vontade de continuar dormindo.

– Eu! – Ouço a voz de Simary Loyel exclamar, abafada pela distância – Hora de acordar! Vamos logo!

– Mas já?

– Já, já e já! Vamos, acorde!

Ela vai embora, e me deixa despertando sozinha. Me sento na cama, e quase caio deitada de novo. Sono. Muito sono. Demoro vários minutos até me convencer a levantar.

Uma vez de pé, não olho mais para trás, senão vou tornar a deitar. Vou até o armário e escolher uma roupa, mas não estou com paciência para isso, então pego a primeira que vejo: Um conjunto básico de blusa e saia na cor bege. Troco de roupa, penteio meus cabelos, lavo o rosto, escovo os dentes. Quando estou pronta, saio do quarto e vou para o aposento onde está sendo servido o café da manhã.

Chegando lá, encontro o trio de sempre já comendo. Espio o prato deles. Fritura. Comida gordurosa. Nunca pensei em mim mesma como uma pessoa saudável, mas com certeza sou mais saudável do que esses três juntos.

Sirvo-me exclusivamente de frutas e cereais, e Mastt olha para o meu prato com uma careta.

– Você acha que vai conseguir se manter em pé comendo esse tipo de coisa? Hoje será um longo dia. Acho melhor você comer algo mais substancial.

Como resposta, também pego algumas torradas. Mastt bufa, irritado. Com “algo mais substancial”, ele não quis dizer “torradas”.

– Muito bem, então. Faça como bem entender. – Ele fala, voltando a atenção para a própria comida.

Geralmente quando alguém fala para eu fazer o que eu bem entender, entendo como: “Você quem sabe, mas eu estou certo e você vai se dar mal”, e volto atrás. Entretanto, não dessa vez.

Enquanto estamos comendo, o trem entra em uma espécie de túnel. As luzes do vagão acendem-se, para não ficarmos na escuridão absoluta. Eu e Pine olhamos pela janela, confusos por um instante. Então, entendo que nós estamos no túnel que divide a Capital dos distritos.

– Daqui a pouco a gente chega, né? – Pine pergunta, sem parecer animado com isso.

– Sim, sim! Daqui a pouquinho! – Simary responde com um sorriso ofuscante. Seus dentes são tão brancos que chega a doer a vista ficar olhando para eles por muito tempo.

Ficamos mais alguns segundos em silêncio, e então reparo que Pine está olhando fixamente para meu pulso esquerdo. Onde ontem estava a pulseira dourada da mãe dele. Tiro o braço de cima da mesa, e ele desvia o olhar, mas um clima estranho já se instalou entre nós.

– Hm, Edelweiss? Eu queria saber se ontem a minha mãe falou com você sobre...

– Falou. – Respondo antes mesmo de ele terminar a frase, o que soa meio antipático.

– Estou sem saber de algo? – Pergunta Mastt.

– A prefeita Vimberg. Ela me pediu para fazer uma aliança com Pine. – Explico. – Me deu uma pulseira como sinal de confiança.

– Aliança? – Mastt limpa a boa com um guardanapo – Claro. É uma boa ideia, sim.

Aliança. Uma boa ideia. Nosso mentor concorda.

– Ah, magnífico! Alianças antes mesmo do início dos Jogos! – Comemora Simary.

É. Magnífico. Formar aliança com um garoto que depois terei de matar. Yupi.

– E cadê a tal pulseira, Edelweiss? – Mastt indaga.

Com um suspiro, levanto-me e vou correndo para o meu quarto. Abro o porta-joias certo, e puxo o acessório de dentro. O coloco, e depois volto para o vagão-restaurante. Ao entrar lá novamente, vejo que o trem saiu do túnel, e chegou à brilhante e formidável Capital. Fico deslumbrada só de olhar pela janela.

– Uau.

– Bem, — Simary se levanta e gesticula em direção a janela – sejam muitíssimo bem-vindos à Capital!

Notas finais
Ah, que bom!
Sempre que eu coloco o texto de um capítulo aqui no Nyah!, o site deixa as frases confusas, separadas e embaralhadas, e eu perco um tempão mudando o formato do texto para ficar certo. Dessa vez, ele já veio no formato certo. Ganhei o dia XD.
Até domingo!