Panem Et Circenses
5 Centro de Transformação
Notas iniciais
Boa leitura!
Pessoas com roupas absurdamente coloridas e perucas extravagantes, que estão na porta da estação de trem assistindo a chegada dos tributos à Capital, acenam para mim e para Pine, que nos debruçamos na janela para ver melhor a cidade. Pine acena de volta, sem jeito, mas eu estou admirada demais para acenar também. É tudo tão grandioso e diferente que minha mente não consegue processar de uma vez só tudo o que meus olhos captam.
- Edelweiss. Cumprimente-os. – Mastt manda, como se eu fosse uma lunática total. Parece que saio de um transe ao ouvir a voz dele. Acho que tantas cores me subiram a cabeça. Pisco uma vez, e em seguida aceno para a multidão, que parece satisfeita. Então o trem entra na estação, e tudo aquilo fica para trás.
- Essas pessoas são normais? – Pergunto, olhando como se elas ainda estivessem ali.
- Me pergunto isso todo o ano, desde a primeira vez em que vim para cá. – Responde Mastt, arrancando uma risada de mim e de Pine. Simary não vê graça, e nos fuzila com o olhar.
- É, é, engraçado. – Ela diz, mais séria do que eu jamais a vi – Tudo bem. Vamos logo desembarcar, vocês dois tem coisas melhores para fazer a ficar rindo dos comentários peculiares de Mastt.
Hoje vamos passar o resto do dia no Centro de Transformação, onde uma equipe de preparação e um estilista serão selecionados para cada um de nós, para nos deixar irreconhecíveis para o desfile de tributos que haverá hoje à noite, onde seremos oficialmente apresentados ao público. Honestamente? Não acho isso melhor do que ficar rindo dos “comentários peculiares de Mastt”. Não mesmo. Mas não vou contrariá-la.
Alguns minutos mais tarde já estamos fora do trem, a caminho do Centro de Transformação. Fico pensando em como será a roupa do tributo feminino do Distrito Três este ano. Estou torcendo para que não seja nada esdrúxulo, mas geralmente é. Principalmente por causa do nosso estilista, um homem chamado Kallux, que finge ter vinte anos, mas na verdade tem mais de setenta. Lembrando que não é nem um pouco coerente que ele tenha a idade que quer ter, já que ele trabalha como estilista nos Jogos Vorazes desde a primeira edição. Quando entrou, era estilista do Distrito 11. Depois foi transferido para o 8. E agora, é estilista do Distrito 3 há treze anos. Todo ano, ele se tinge completamente de uma cor – cabelo, olhos e pele -, e todo ano é uma cor diferente. Ano passado foi vermelho. Retrasado, verde. E todo ano ele inventa algo mais tosco do que no anterior para vestir o tributo que é deixado em suas mãos. A coisa é tão grotesca que, quando eu era pequena, não tinha medo de que houvesse um monstro debaixo da minha cama. Tinha medo de que Kallux estivesse lá.
Por sorte, quando entro na sala que me é designada, só encontro lá uma mulher de cabelos rosa-shocking, um homem com uma careca tingida de verde, e uma pessoa que eu não entendo se é homem ou mulher, de tão desfigurado por plásticas que é seu rosto. Minha equipe de preparação. Nada de Kallux. Mas sei que mais cedo ou mais tarde serei obrigada a vê-lo. Só espero conseguir me controlar e não rir quando ele chegar, parecendo que mergulhou em uma piscina de tinta.
- Estávamos esperando por você! – Diz, alegre, a mulher de cabelo rosa. Ela se aproxima de mim, pega minha mão e me puxa para o centro da sala. Careca Verde fecha a porta. Então, os três me cercam e começam a arrancar minhas roupas e arremessá-las longe. Queria que alguém tivesse contado a eles que eu sei me despir sozinha.
Os três não param de trabalhar nem por um instante. Eles me lavam, depilam, maquiam, e torturam de um milhão de maneiras diferentes.
Leva aproximadamente uma hora para eles se convencerem de que podem parar. Então se afastam um pouco e me observam, inseguros.
- Foi rápido demais. Acho que esquecemos alguma coisa. – Comenta Cara-de-Plástica.
- Ano passado levamos mais de três horas! – Cabelo Rosa concorda, assentindo freneticamente com a cabeça.
- Oh, mas convenhamos que esta menina chegou em melhores condições do que a do ano passado. – Intervém Careca Verde.
A garota do ano passado não era feia ou malcuidada, mas por algum motivo que eu desconheço, ela não deveria parecer atraente para a Capital. Eu não conhecia a garota pessoalmente, mas quando Careca Verde fala que ela estava em más condições, fico com uma vontade tremenda de defendê-la. Mordo a língua para não dizer algo muito malcriado. Quem eles pensam que são para falar de uma pobre menina de meu distrito que morreu graças a eles, da Capital?
Eles permanecem me olhando em silêncio por mais algum tempo, e então Cabelo Rosa fala:
- Talvez nós ainda possamos mudar uma coisa ou outra. Aliás, acho que ela ficaria divina com a pele violeta!
Ah, não.
- Definitivamente! Muito glamorosa. Mas não podemos tingir a pele dela sem o consentimento de Kallux. – Cara-de-Plástica lamenta.
- Se não podemos fazer mais nada, vamos lá chamá-lo! – Conclui Cabelo Rosa.
- Você vai adorar seu estilista! – Careca Verde diz para mim, dando ênfase em adorar. Ele fala como se eu não o visse todo ano na televisão.
Os três saem correndo da sala, e eu fico só esperando Kallux. Se alguém me contasse que um dia ele seria meu estilista, dez ou onze anos atrás, eu teria começado a chorar. Não vou fazer isso agora porque não tenho mais seis anos, mas estou tão alegre em conhecê-lo quanto ficaria naquela época.
Não quero estar sem roupa quando ele chegar, então visto um roupão que está dobrado sobre a mesa. Recolho a camiseta e a saia bege que eu estava usando antes de chegar, dobro as peças cuidadosamente e ponho-as no lugar onde estava o roupão. Eu não preciso fazer isso, mas mantém minhas mãos ocupadas, o que me ajuda a relaxar um pouco. Não aguento ficar parada. Começo a ajeitar meu roupão, outra atividade desnecessária.
E finalmente a porta começa a se abrir, e eu paro quieta.
Entra na sala um homem alto, magro, e inteiramente azul. Índigo, para ser mais clara. Cabelos, olhos, pele, roupa... É Kallux. E ele é ainda mais esquisito pessoalmente. Se alguém pedisse minha opinião eu diria que, se ele quer tanto ter uma marca registrada (como mudar de cor todo ano, como um camaleão maluco), que seja algo menos anormal.
Kallux está falando com alguém com um pequeno aparelho preto, que eu reconheço como sendo o mais novo equipamento ultramoderno de comunicação que começou a ser fabricado em meu distrito há apenas duas semanas. As coisas realmente chegam rápido à Capital.
Apesar de eu morar no distrito encarregado de produzir eletrônicos e coisas de alta-tecnologia, não posso ficar com alguma das coisas que fabricamos lá. Tudo é levado diretamente para a Capital. Se algum morador do Distrito 3 tenta ficar com algo, é um crime hediondo, e a pessoa é punida com a morte. Assim, embora eu conheça e saiba todas as funções daquele telefone, nunca o vi sendo utilizado.
- Não, não, não! Isso é horrível! O que você tem na cabeça para achar que eu gostaria de algo do tipo?! – Kallux grita com a pessoa que está do outro lado da linha – Espere. Agora estou trabalhando. Depois cuidamos disso. E é melhor você ter resolvido isso quando eu retornar a ligação! – Com este ultimato, ele desliga o celular e o enfia no bolso. Murmura alguns palavrões e depois olha para mim, como se tivesse acabado de me notar aqui. – Você é o tributo que eu vou vestir este ano, então. – Ele comenta, pensativo, a irritação de sua voz evaporando-se.
- Ahn, oi. – Digo a primeira coisa que me vem à mente. Que por acaso, não deve ter soado muito inteligente.
- Eu vou deixá-la bem impressionante para o desfile, como deixo todos os tributos que passam por mim. É uma promessa. – Talvez Kallux esteja sendo gentil, mas se pudesse eu responderia “Não, muito obrigada. Não precisa se preocupar comigo”. Ultimamente estou pensando muito neste universo paralelo em que posso dizer o que quero às pessoas. Mas sei que, se as coisas fossem assim, nada seria diferente, tirando a opinião das pessoas sobre mim. Mas também não vou agradecê-lo por sua promessa de me deixar impressionante como todas as outras coitadinhas que tiveram de vestir as roupas dele. Então só concordo.
Ele se aproxima para me avaliar melhor. Levanta meu queixo, endireita minha postura, mexe no meu cabelo. Para ele, não devo ser muito diferente de um manequim.
- Você está com fome? – Me surpreendo com a pergunta dele. Vai ver então que ele não me acha uma boneca de vestir. Ou, quem sabe, ele tem o hábito de perguntar para objetos inanimados se eles estão com fome, mesmo. É uma hipótese. Nunca devemos duvidar da loucura de um homem que gostar de se tingir de azul. – E então? Responda! Essa é sua última oportunidade de ir comer. Se não for agora, irá só depois do desfile.
Eu não estou com fome. Tomei o café-da-manhã há pouco tempo. Mas aceito ir comer, pois sei que até a hora do desfile eu já vou estar com fome de novo, e que a próxima refeição ainda vai demorar horas para ser servida.
Kallux me leva para outra sala, ao lado desta.
- Odeio que sejamos obrigados a oferecer almoço aos tributos. – Ele se queixa, enquanto aparentemente programa a mesa que está no centro da sala para se abrir e revelar outra, com um prato de comida sobre ela. – Nos faz perder muito tempo.
Obrigado? Certo. Explicado.
- Vou começar a arrumar a sua roupa do desfile. Pode ir comendo. – Kallux fala, voltando para a sala de antes e me deixando aqui.
Como meu almoço em silêncio. Mastigo a comida muito lentamente, por dois motivos: O primeiro, para aproveitar bem o sabor. O segundo, para demorar mais para ter de voltar para a outra sala. Mas mesmo assim acabo a refeição antes de me sentir preparada para a roupa que Kallux vai me obrigar a vestir, e dou um tempo andando pelo aposento, pensando nas outras trinta e uma garotas que ele já vestiu. E em como nenhuma delas venceu os Jogos. Mas, é claro, ele tê-las vestido não tem nenhuma relação com elas terem perdido. Eu devo estar muito paranoica para pensar que vou perder por causa de Kallux. Por que isso é um pensamento idiota, certo?
... Certo?
Balanço a cabeça com força tentando esquecer isso. Não é um método muito convencional para apagar pensamentos, e tampouco efetivo, mas parece refrescar um pouco minha mente. E decido voltar para a sala de preparação.
Quando abro a porta, encontro meu estilista andando para lá e para cá, e gritando. No começo acho que ele está falando sozinho, mas logo vejo que ele está mais uma vez ao celular. “Vou começar a arrumar a sua roupa do desfile”, disse ele. É, estou vendo como ele está concentrado na roupa.
Dessa vez, ele não interrompe a ligação por minha causa, mesmo estando claro que ele já me viu. Fico uns dez minutos aqui até ele desligar o telefone. Parece furioso, bem mais que na última vez, e atira o aparelho no chão como se ele fosse lixo. No meu distrito, nós trabalhamos como escravos para produzir cada um destes celulares. Muitas vezes as aulas das escolas são suspensas para as crianças e os adolescentes irem ajudar nas fábricas, normalmente quando a Capital nos dá um prazo muito curto para entregar uma nova linha de aparelhos e os trabalhos dos adultos não bastam. Nesses dias (que acontecem com frequência, já que a Capital sempre quer mais coisas em menos tempo), todo mundo do distrito trabalha pesado, do amanhecer até tarde da noite, e para quê? Para poucos dias depois os moradores da Capital os atirarem ao chão, quebrá-los em um ataque de fúria. Simples assim. Por que eles também não aproveitam para pisoteá-los, cuspir neles?
- Qual é o seu problema?! Faz ideia do quanto demorou para almoçar?! – Kallux pergunta, parando de andar e me encarando fixamente. Mas ele não pode brigar comigo por isso, pois eu também duvido que ele faça ideia do quanto demorou ao telefone.
- Desculpe.
- E o que você está fazendo aí parada?! Entre! Tenho apenas uma tarde para te arrumar!
Entro, fecho a porta e vou até ele. Kallux imediatamente começa a me vestir. Eu achava que ele estava exagerando quando falou que uma tarde seria pouco tempo para me arrumar, mas me provo equivocada, pois realmente leva horas para eu estar completamente vestida.
O tempo todo olho para frente, para a parede. Tenho medo de olhar para baixo. Não sou corajosa o suficiente para ficar vendo Kallux me vestir com o que eu sei que será a peça mais bizarra que jamais usei. Porém, se eu fico muito quieta, os meus pensamentos atordoantes sobre o desfile e sobre os Jogos decidem vir à tona, e não posso permitir que isso ocorra. Então tento me concentrar em outra coisa, como o quanto a parede é perfeitamente branca.
- Voilà. Está pronto. — Por fim avisa Kallux, se afastando um pouco, e me viro para o grande espelho preso à parede atrás de mim, torcendo para que eu não esteja ridícula, ou pelo menos não tão ridícula quanto creio estar.
E o que vejo é, de certa forma, bem melhor do que o que eu estava esperando.
A roupa que estou vestindo se trata de um vestido longo e negro, de alcinha. Até aí, tudo bem. O que garante a extravagância dela são os detalhes.
O vestido é inteiramente desenhado com botões prateados, como o teclado de um computador. De longe, não dá para ver o esquema de botões, e parece apenas que o vestido foi traçado com linhas prateadas cintilantes que parecem estrelas em um céu escuro, e que combinam perfeitamente com o xale prateado que foi enrolado em torno de meus ombros. Eu mesma parecerei uma estrela, quando for colocada sob as luzes ofuscantes do desfile. É um estilo exagerado, que implora por atenção, mas o jeito como a função do meu distrito foi colocada na roupa (o teclado, tecnologia) foi bem criativo.
- O que achou? Não, não responda. Não temos tempo. E ainda temos de cuidar do seu cabelo... – Kallux diz saindo da sala, para depois voltar com minha equipe de preparação. Ele dá algumas ordens e os três começam a trabalhar no meu cabelo.
Eles fazem tudo rapidamente, mas a transformação é radical. Meus cabelos estão ligeiramente mais curtos, repicados e brilhando como nunca.
- Arrase no desfile! – Diz Cabelo Rosa, sorrindo. Careca Verde e Cara-de-Plástica também dizem algumas coisas gentis para mim, entretanto ainda parecem chateados por não terem tingido minha pele de violeta.
Agradeço, e saio da sala com Kallux. Nós vamos nos encontrar com Pine, que está com um terno no mesmo estilo do meu vestido, com desenhos de botões e o paletó prateado. Ele está com uma mulher que se apresenta como Chareen, a estilista dele.
Nós quatro seguimos juntos para o piso inferior do Centro de Transformação, onde estão os outros tributos, os outros estilistas e as doze carruagens presas à cavalos, enfileiradas, que vão nos levar ao desfile.
Caminhamos até a terceira carruagem, e Pine e eu subimos.
- Sorriam! Todos adoram tributos que sorriem! – Fala Chareen. Automaticamente forçamos sorrisos.
A música de abertura começa. Sinto borboletas no estômago. A carruagem do Distrito 1 parte. Pine está murmurando “Vai começar, vai começar, vai começar...”, o que só me deixa mais apreensiva.
A carruagem do Distrito 2 vai atrás da do Um. Pine cala a boca. Os cavalos negros e prata da nossa carruagem começam a trotar.
E então, somos puxamos para as luzes da linda e cruel Capital.
Notas finais
Até o próximo! Domingo ;D
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