Panem Et Circenses
14 Banho de Sangue
Notas iniciais
... Ok, não.
Comunque, buona pasqua!
A contagem regressiva começa, partindo do sessenta. Mesmo que os Jogos já estejam oficialmente abertos, ainda é preciso esperar um minuto para podermos descer das plataformas e começar a matança ou fugir.
Se você desce da plataforma antes da hora, os Idealizadores te explodem. Isso só aconteceu uma vez, com um garoto do Distrito 6 há alguns anos. Mas ninguém quer ser o próximo a morrer por tamanha falta de atenção.
Coloco-me em posição de corrida. Quando a contagem regressiva terminar, vou sair correndo para a Cornucópia.
Meu coração está disparado, mas não estou mais com medo. Estou tão concentrada e a pressão é tanta que não tenho condições de ficar amedrontada também.
O que eu mais quero é pegar uma mochila. As mochilas estão empilhadas na metade do caminho entre as plataformas e o chifre, e cada uma delas está abarrotada de suprimentos. Se eu conseguir pegar uma, e uma boa, com bons itens dentro, vou ter chances bem maiores de viver por mais tempo nesta arena. Eu também gostaria de pegar uma arma, de preferência uma lança, mas já é querer demais. Raramente um tributo não-Carreirista consegue escapar da Cornucópia com vida e uma boa arma. Não, vou focar apenas em arranjar uma mochila, e me conformar com isso.
Vinte, dezenove, dezoito... Ou talvez seja melhor não fazer isso. Talvez o melhor seja sair correndo na direção oposta da Cornucópia quando formos liberados, para a floresta. Nesse caso, vou certamente escapar do Banho de Sangue, mas não vou ter equipamento de tipo algum para facilitar a minha sobrevivência, e vou ter de viver de dádivas de patrocinadores. E, apesar de tudo que Mastt me disse ontem à noite, eu não confio mais que tenho patrocinadores. Sem falar que, se eu for para a floresta, meio que estarei traindo minha aliança com Pine, que vai me encontrar na Cornucópia. É melhor manter o plano original.
Dez, nove, oito... Decidido, então. Eu vou me enfiar no meio do Banho de Sangue, pegar uma mochila, encontrar o Pine e dar o fora. Não é impossível. Banho de Sangue, mochila, Pine, dar o fora. Eu posso fazer isso.
Três, dois, um! Já é seguro descer da plataforma. E com “é seguro” quero dizer “não vou mais explodir”, porque nos outros sentidos não é nem um pouco seguro estar no chão, como não é seguro estar em canto algum desta arena. Eu praticamente salto da plataforma e saio correndo o mais rápido possível. Meus pés ficam afundando na neve conforme corro, o que me atrasa, mas todos os tributos estão com esse problema, e eu consigo ficar na frente.
Sim! Eu estou na frente! Vou alcançar as mochilas antes de todo mundo! Eu daria graças à minha sorte, mas ainda é cedo demais para tal feito.
Chego tranquilamente à pilha de mochilas, porém hesito quando vou pegar uma. Os itens que cada uma traz são diferentes dos das outras. Algumas terão coisas úteis, e outras só peso para eu carregar. Mas por fora, tudo o que as difere é a cor. Por isso, uso um critério nada recomendado para escolher a minha. Pego a alça de uma mochila de lona azul e a puxo. Escolho esta porque acho a cor bonita. Queria ter escolhido de uma maneira mais competente, mas os outros tributos já me alcançaram e estão fazendo seus inventários de artigos também, rapidamente, para poderem depressa fugir para a floresta e dos Carreiristas, que passaram ignorando a tudo e a todos, mas agora estão quase chegando às armas. E então, vão mostrar sua verdadeira natureza.
Pine enfim aparece ao meu lado, ofegante.
- Você pegou uma mochila! – Ele exclama.
- Pois é. – Não estou olhando para Pine enquanto falo. Estou olhando por cima de meu ombro, para as armas. Os Carreiristas já pegaram as de preferência deles, mas ainda são muitas. Se fosse feita uma distribuição justa, cada tributo ficaria com aproximadamente três armas. A dura realidade é que a maioria dos tributos fica com nenhuma.
Já temos mortos nesta arena. Estou vendo daqui o corpo do garoto do Distrito 10, caído no chão e meio-decapitado, a cabeça por pouco presa ao corpo. Isso é perturbador.
Viro-me para Pine e estendo a mochila a ele.
- Pegue isto. Fuja para a floresta e se esconda, mas não entre muito. Me espere, vou me encontrar com você daqui a pouco.
Pine não aceita a mochila.
- Onde você vai?
- Vou tentar arranjar uma lança.
- O quê?! Edelweiss, você enlouqueceu?!
- Confie em mim. – Coloco a mochila nas mãos dele, que já está abrindo a boca para argumentar comigo. Mas neste momento Junie, do Distrito 2, vem correndo em nossa direção, segurando um arco com uma flecha preparada e com uma aljava cheia pendurada em seu ombro esquerdo. Seus olhos azul-cinzentos brilham de empolgação, ansiosos para ver aquelas flechas perfurando nossas gargantas – Vá!
Nós saímos em disparada em direções opostas, Pine para a floresta e eu para as armas. E fazemos isso na hora certa, pois Junie acaba de atirar uma flecha que acerta uma das mochilas da pilha em cheio, logo onde a minha cabeça estaria se não tivesse corrido.
Ela agora tem de escolher. Ir atrás da garota ou do garoto do Distrito 3? Junie não pensa muito antes de sair no encalço de Pine. Foi uma escolha inteligente. Pine está fugindo com uma mochila, enquanto eu estou correndo em direção à morte, para onde os outros Carreiristas estão, e de mãos vazias. Ele é uma ameaça muito maior do que eu.
Olho ligeiramente para trás, sem diminuir o ritmo, e fico aliviada ao ver Pine se desviando extremamente bem das flechadas que se seguem. Ele pode ficar fazendo isso até a munição de Junie acabar. Sei que ele deve estar ficando cansado, mas tem de aguentar firme.
É tarde demais que eu me lembro de uma das dicas de Mastt para os Jogos: “Nunca olhe para trás durante o Banho de Sangue”. Acabo de entender o que ele quis dizer. Tropeço em um corpo estendido no chão e só não caio de cara na neve porque por reflexo ponho os braços à minha frente. Mas cair como um saco de batatas no meio do Banho de Sangue já é assustador o suficiente.
Apoio-me em minhas mãos e tomo impulso para levantar. A neve amorteceu minha queda, mas em compensação minhas mãos estão vermelhas e descascadas, e perdi a sensibilidade da ponta dos dedos.
Nos jogaram nesta arena congelante sem luvas para frio! Que ideia! Todos agasalhados e com as mãos descobertas. Enquanto eu corria para cá, vi vários pares de luva pelo chão, mas estes são itens da Cornucópia, e não fazem parte do uniforme. Provavelmente foi uma estratégia para obrigar os tributos a passarem pelo Banho de Sangue. Como por exemplo esta garota do Distrito 6, em quem tropecei e agora estou reconhecendo. Duvido que ela quisesse muita coisa ao vir para a Cornucópia. E o que ganhou? Uma lança no estômago. E deve ter doído muito, pois mesmo morta seu rosto está paralisado em uma expressão de sofrimento.
Quem a acertou é não somente um assassino frio como também um ignorante, por ter abandonado a arma no corpo. Talvez ele a tivesse deixado para trás pretendendo voltar para buscá-la mais tarde, sem esperar que outro tributo fosse lá e a removesse.
Tenho uma ideia, que embora seja totalmente pautável, faz-me sentir mal. Abomino a ideia de me aproveitar da morte de alguém, mas é bem mais prático arrancar a lança do estômago da garota a percorrer mais dez metros para pegar outra perto do chifre ou ficar sem. E no meu lugar, acho que ela faria a mesma coisa.
Quando se está assistindo os Jogos pela televisão, ver alguém removendo uma lança de um cadáver parece ser bem menos incômodo do que é de verdade. De certa forma, me sinto até um pouco culpada por não deixar o corpo da garota do Seis em paz. Mas apesar desses sentimentos ruins, sei que esta é a coisa certa a fazer. Ela já está morta, bem longe daqui, em algum lugar seguro. Não vai se importar.
Saia fácil, peço silenciosamente, fechando minhas mãos em torno da lança, que está dolorosamente fria, o que só piora este pesadelo. Saia fácil, por favor.
Evito olhar diretamente para o rosto da menina enquanto removo a arma com um puxão. A ponta, para minha gratidão eterna, desliza com facilidade para fora do corpo. O sangue da garota na lança ainda está quente e fresco, e respinga em seu agasalho e na neve.
Antes de retomar a corrida, olho em volta para ter certeza de que ninguém está se aproximando sorrateiramente de mim para me dar o golpe fatal sem que eu saiba o que me acertou. Não vejo alguém consideravelmente perto.
Volto a correr. Acho que não era para ser assim, mas fugir da Cornucópia me é milhões de vezes mais angustiante a ir. Eu cheguei tão longe, e a possibilidade de alguém chegar e me matar agora, depois de tudo, me parece tão injusta que o plano de morrer com honra, que eu tive pouco antes de entrar na arena, não é mais o suficiente. Eu quero mais que isso – pelo menos ao primeiro dia dos Jogos, eu quero sobreviver.
Mas, obviamente, os outros tributos não tem interesse em deixar-me escapar viva. Eu fui muito inocente ao pensar que a sorte garantiria que eu fugisse sem problemas, porque assim que eu chego novamente às mochilas tenho uma surpresa horrenda. O garoto Carreirista do Distrito 4 pula de detrás da pilha, segurando um tridente de aço, com sangue de algum outro tributo pingando de cada uma das três pontas afiadas. Ele está com as sobrancelhas erguidas e um sorriso de deboche.
- Aonde você pensa que vai, Três?
Acabou. A esperança de sobreviver ao primeiro dia já era. Vou morrer aqui e agora com um tridente enterrado no peito.
Como consolo, vou morrer com a honra que, até alguns segundos atrás, me era satisfatória. Não como uma garotinha assustada, mas como uma garota corajosa que teve várias conquistas nos Jogos antes de morrer, mesmo que só tenha estado na luta por pouco tempo.
Corajosa. Talvez “estúpida” seja mais apropriado. Pessoas estúpidas correm para o Banho de Sangue. Eu seria corajosa se tivesse me aventurado de mãos abanando pela floresta, nem cogitado em passar pela Cornucópia. Não iria permanecer viva por muito tempo, e acabaria morrendo de fome, frio ou sede, mas teria vivido um pouco mais, e morrido de maneira suave. Sem luta. Sem sangue.
Me preparo para o golpe. Tomara que seja rápido. Que me mate na hora, e eu não sofra muito. Posso suportar a morte, mas não a dor.
O garoto gira o tridente, num movimento exagerado. Então, ergue-o de forma que ele fique logo acima de minha cabeça, porém o objetivo dele não é rachar meu crânio com isso. Ele mergulha a arma de lado, fazendo-a refazer metade do caminho de volta, na exata direção de meu coração. O que ele estava fazendo até então era puramente exibicionismo, mas esse próximo gesto será para valer.
E, subitamente, a situação muda. O garoto arfa de dor e deixa o tridente cair, com um baque surdo. Uma faca. Alguém atirou uma faca que enterrou-se profundamente no braço dele, logo abaixo do ombro. Muito sangue começa a jorrar. Se ele não morrer de hemorragia ou infecção e não cuidar disso rápido, vai ter de amputar o membro.
- Você não vai matá-la, Bertil! – Grita a garota do distrito dele, em tom de repreensão. Ela está razoavelmente longe da gente, então se quisesse poderia mentir dizendo que queria me acertar e errou o alvo. Não entendo porque ela fez questão de deixar claro que o machucou de propósito, para ele sair perto de mim e ela poder me matar.
- Idiota! Droga, Aster! – Berra o garoto, Bertil, entredentes. Ele está segurando o braço e com o rosto retorcido de dor.
- Você é o único idiota aqui! Eu já disse um milhão de vezes que a Três é minha! — Ela rebate, e vem correndo para cá. O que dá a entender é que Aster vai socorrer Bertil, mas quando chega a ele, muda o caminho e vem correndo atrás de mim, que saí em disparada assim que tive chance.
Ela está segurando duas facas, uma em cada mão. Não parece muito, mas aposto que ela consegue me matar só com isso, quem sabe até com somente uma. Aster é uma assassina treinada.
Ainda é mais provável que eu morra do que sobreviva. Antes disso, queria poder reencontrar Pine, conferir se ele está vivo. Pode ter acontecido de ele ter conseguido chegar à floresta, e Junie ter achado que não valia mais a pena ir atrás dele. Que ele era desimportante e que podia cuidar dele mais tarde, e foi atrás dos outros tributos com as flechas que lhe restavam. Se eu ao menos soubesse que ele está bem, poderia morrer em paz.
Passo das plataformas. Eu comecei a correr bem antes de Aster, que já estava longe antes, então ela está muitos metros atrás de mim. Entretanto, não é por isso que ela ainda não atirou uma faca, e sim porque ela só tem mais duas, e não pode desperdiçá-las num arremesso aleatório. Ela quer, primeiro, ter certeza de que vai conseguir.
- Volta aqui! – Aster rosna.
- Me obrigue. – Respondo baixo. Acho que ela não ouviu, mas tenho certeza de que na televisão eles devem ter dado um jeito de aumentar o som para me ouvirem. Todos adoram comentários desse tipo.
O caminho até a floresta é maior do que parecia no começo dos Jogos. Quais seriam minhas chances contra Aster? Eu estou com uma lança. Posso parar e lutar.
Não. Eu perderia com certeza. Não posso contra alguém que dedicou a vida para treinar para os Jogos. E, além do mais, eu estou quase chegando à floresta. Quase lá. Se eu conseguir fugir, não vou precisar lutar. Não por ora.
Aster está perdendo a chance. Eu sei disso, e ela sabe disso. Ela precisa atirar uma faca de uma vez, senão eu vou me meter na floresta e vai ficar duplamente mais complicado me pegar, pois eu vou poder despistá-la entre as árvores.
Ela arremessa uma das facas. Inclino-me um pouco para o lado, desviando. A faca não entra na minha cabeça, como ela queria, mas não desvio rápido o suficiente, e ela pega a minha orelha.
Ai!
O sangue começa a escorrer pela minha bochecha, meu pescoço. O golpe não arrancou pedaço, mas o corte que deixou é, sem dúvidas, profundo. Está sangrando demais para ser um corte superficial. E está ardendo como se estivesse pegando fogo.
Entro na floresta. Aster atira a última faca, e vou para trás de uma árvore. A faca acerta o tronco. Aster grita uma série de insultos para mim e volta para a Cornucópia, buscar mais armas, matar outras pessoas.
Tento puxar a faca cravada no tronco da árvore. Ela não sai. Sem surpresas, Aster é muito forte, a faca entrou fundo.
Deixo-a ali. Só conseguiria recuperá-la se quebrasse a árvore, e não tenho a mínima intenção de fazer isso.
Todas as minhas intenções estão voltadas a encontrar Pine.
Começo a procurar. Ando para dentro da floresta, tentando localizá-lo.
Onde ele foi? Eu mandei ele ir para a floresta se esconder, mas não é natural que ele apareça para mim?
Pine. Apareça. Por favor.
Quero chamá-lo, gritar o nome dele. Mas não posso.
Algo está errado. Eu não o encontro. Ele devia estar por aqui, eu disse para ele não entrar muito.
Ele pode estar morto, me lembro.
Este pensamento faz minhas pernas travarem, e eu paro. De repente, a dor na orelha não é mais a maior.
Nos Jogos Vorazes, sempre que alguém morre, um canhão soa. Menos no primeiro dia. Como é o dia com mais mortes, todos os tiros de canhão acontecem ao anoitecer, um seguido do outro. Pine pode muito bem estar morto agora.
- Pine? – Arrisco chamar uma vez, bem baixo. Um sussurro.
Sem resposta.
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