Pandora
3 Uma alucinação real
As idéias em sua cabeça estavam confusas. Ele se lembrava de ter falado com Audrey, alguma coisa sobre fazer uma maratona de Harry Potter na sua casa, lembrava-se de ter saído para comprar comida e... Havia uma faca. Uma faca pressionada contra o seu pescoço. Havia também um homem, era ele quem segurava a lâmina contra a sua pele. Mas o pior não era isso, o pior era a aquela figura estranha que o perseguira até em casa, armada.
O rapaz sentiu que estava deitado em uma superfície macia, talvez fosse a sua cama, mas... Ele não se lembrava de ter subido até o seu quarto. Na verdade, a última coisa da qual ele se lembrava era de estar sentado na porta de casa, olhando para uma garota. Uma garota com uma faca. Uma louca.
“Foi um sonho, é claro,” Thomas pensou, rolando na cama, ainda de olhos fechados.
— Você finalmente acordou.
Os olhos azuis do garoto se arregalaram quando ele ouviu a voz feminina que pertencia à adolescente louca do seu sonho. Sentou-se na cama rapidamente, fixando o olhar na figura que estava sentada na outra ponta do colchão. Era, realmente, a garota com a qual ele havia sonhado... Certo, pelo jeito não era bem um sonho.
— Acho que assustei você – ela falou, cobrindo a boca com a mão, como se estivesse assustada – Não se preocupe, Sr. Harper, não vou machucá-lo.
Tom ficou quieto, apenas olhando para a garota. Os cabelos negros dela estavam jogados para detrás de seus ombros, mas algumas mechas continuavam caindo sobre o seu rosto. Os olhos azuis continuavam brilhantes demais e um sorrisinho se formava em seus lábios.
— V-Você... O que é você? – Thomas perguntou quando finalmente achou forças para puxar a voz de sua garganta.
— O que faz você perguntar “o que” eu sou e não “quem\" eu sou? – ela inclinou a cabeça para o lado.
— Você ainda pergunta? – sua voz falhou no final da pergunta, fazendo com que as palavras se perdessem no ar – Você... Tentou me matar! Entrou na minha casa e... Aquela faca!
— Ah, isso? – a garota perguntou, erguendo uma mão que segurava a faca que aterrorizara o garoto antes. Ela riu baixinho ao ver como os olhos do rapaz se arregalaram ainda mais e como a pouca cor que havia no seu rosto sumiu completamente – Não fique assim, isso aqui – ela balançou a lâmina – Não vai machucá-lo.
— Não vai me machucar? Como é que isso não vai me machucar? – Thomas olhou em volta, vendo se seu celular ou se o telefone de seu quarto estava por perto. O celular não estava, mas o telefone sim... Ele só precisava esticar o braço para alcançá-lo.
— Ah, ela não chega a cortar, sabe? – ela abriu uma mão e, com a outra, conduziu a ponta da faca até a palma. Tom esperou ver o sangue saindo da mão da adolescente quando a lâmina a cortou, mas ao invés disso, viu o metal atravessá-la sem causar nenhum dano.
Não agüentando mais ver as bizarrices daquela moça, o rapaz esticou o braço e pegou o telefone com uma rapidez incrível. A garota levou um tempinho para assimilar o que estava acontecendo, mas quando viu o jovem Harper com o telefone na mão, digitando os números rapidamente com os dedos finos e compridos, pulou para cima dele, prendendo-o contra a cama e arrancando o telefone de sua mão.
— Você acha que alguém vai acreditar no que você diz? – ela perguntou, largando o telefone no chão e guardando a faca em uma bainha que havia em seu cinto – Eu sei que você está assustado, mas não precisa ficar... Eu já disse: não tem razão para ficar com medo.
— Você é louca – o garoto murmurou – Louca...
— Você que sabe – ela afastou de Thomas, mas não saiu de cima dele.
— O que é você?
— Você só sabe perguntar isso?
— É só o que eu quero saber no momento! – ela sorriu ao ouvir a resposta.
“Pelo menos ela guardou a faca,” o rapaz pensou, observando a garota. Os olhos brilhantes dela continuavam fixos nele e aquele sorriso maroto não havia deixado os seus lábios.
— Então?
— Ah, sim! – ela balançou a cabeça, fazendo os cabelos negros esvoaçarem a sua volta – Meu nome é Pandora, portanto, pare de me chamar de “louca”.
— P-Pandora? – alguma coisa no nome da garota deixou-o inseguro.
— Pandora Grim – ela falou e depois cutucou a bochecha do garoto. Tom sentiu um arrepio quando o dedo pálido da adolescente o encostou... Era frio feito gelo – E você é Thomas Harper, tem 17 anos e, supostamente, deveria ter morrido hoje.
— O que? – os olhos do rapaz se arregalaram... Se é que era possível eles se arregalarem ainda mais.
— Aquele homem, o nome dele é John, iria matá-lo se eu não tivesse me atrasado – Pandora falou tudo aquilo com a maior naturalidade – Eu realmente não deveria ter me distraído naquele sebo...
— Não deveria? É ótimo que você tenha se distraído! – Tom resmungou e tentou se levantar, mas a garota jogou o seu peso ainda mais sobre o abdômen dele – Caso você tivesse “chegado na hora”, eu não estaria mais aqui!
— Esse era o planejado, entende? Aquele homem iria se irritar com o seu nervosismo e aquela faca iria fazer um belo estrago... – a adolescente murmurou, passando a unha sobre o machucado que a lâmina havia feito no pescoço do garoto pescoço. Thomas tentou se afastar do toque quando sentiu o machucado arder — ... Bem aqui.
Um momento de silêncio. Nenhum dos dois disse uma palavra sequer, apenas trocaram olhares. Tom ainda estava com medo, é claro, mas não pôde deixar de ficar curioso... Quem era aquela garota? O que ela era? E como ela sabia tudo aquilo sobre ele?
— Eu vou... Vou perguntar mais uma vez – ele tentou fazer a sua voz soar o mais ameaçadora possível, mas não tinha certeza de que havia funcionado – E dessa vez quero uma resposta boa: o que você é?
— O que você acha que eu sou?
— Uma louca!
— Não, não, eu já disse: meu nome é Pandora Grim – ela sorriu, dando ênfase ao sobrenome.
— Grim... Pandora Grim... Eu nunca ouvi falar de voc-OH!
Thomas viu o sorriso da menina se alargar ainda mais quando ela viu que ele finalmente percebera o que ela estava tentando dizer.
— Grim... Ceifador.
— Não foi tão difícil, não é mesmo? – Pandora deu uma piscadela.
Aquilo não melhorou a situação, pelo contrário, piorou. Tom não sabia se acreditava ou não no que havia acabado de deduzir. Fazia sentido... O jeito como ela falou do seu possível assassinato fora convincente, quase como se ela fosse uma especialista no assunto. O jeito esquisito da garota também poderia ser explicado pelo fato de ela não ser humana, mas, mesmo assim, tudo parecia muita loucura! Ceifadores! Essas coisas não existiam, apenas dentro dos filmes de terror que ele e Audrey assistiam de vez em quando, e ele não estava com muita vontade de descobrir que a sua vida era um filme de terror.
— Olha, moça – o rapaz murmurou, erguendo as mãos como se quisesse pedir uma brecha – Pandora... Essa sua história é muito interessante, mas é impossível – novamente, ele tentou parecer sério, confiante – Agora, saia de cima de mim ou...
— Ou o que? – ela riu – Vai chamar a polícia? – a garota se inclinou para alcançar alguma coisa no chão e, quando se levantou novamente, estava segurando o telefone que ela havia jogado no chão antes entre o polegar e o indicador – Com o que?
Thomas soltou um muxoxo e fechou os olhos. Ele não iria se livrar daquela louca tão cedo, teria que fazer alguma coisa, mas o que? Jogá-la no chão e sair correndo para a delegacia mais próxima? Primeiro que o rapaz duvidava que teria força suficiente (e coragem) para jogar Pandora no chão e, segundo, ele tinha certeza de que não agüentaria correr até o posto de polícia mais próximo... A garota iria alcançá-lo e Tom não tinha a menor vontade de vê-la com raiva por ele a ter derrubado da cama.
— Está pensando em que?
— Nada – a resposta saiu de seus lábios sem que ele se percebesse.
— Mentira, você está com cara de alguém que está pensando sobre alguma coisa – ela riu baixinho – Está tentando decidir se eu existo mesmo ou se sou apenas invenção da sua cabeça? Está querendo saber se eu vou te matar?
— Bom, seria interessante saber se você vai me matar ou não... – o rapaz começou a falar, mas foi interrompido por Pandora.
— Ou está tentando achar um jeito de fugir?
Certo, aquilo o estava assustando cada vez mais. Engoliu em seco e virou a cabeça, tentando evitar os olhos brilhantes da garota.
— Vão perceber que alguma coisa está acontecendo – ele murmurou e depois apertou os lábios um contra o outro.
— Quem vai perceber?
— Ora, você não sabe de tudo sobre a minha vida? – Thomas riu sarcasticamente. Audrey costumava dizer que se divertia quando ele ficava sarcástico.
— Na verdade, eu sei tudo sobre a sua morte, Sr. Harper – ela deu um sorrisinho inocente – Sou uma ceifadora, não detetive.
— Não acredito que você seja uma ceifadora – Tom decidiu que seria melhor se ele tentasse prender a atenção da garota até que a campainha tocasse... E ela iria tocar, afinal, Audrey estaria chegando em sua casa para assistir Harry Potter dali a pouco tempo. Cruzou os braços e encarou a adolescente – Você não parece a Morte.
— Bom, se nós...
— Nós?
— Ceifadores – ela revirou os olhos.
— Existem mais de vocês? – o rapaz perguntou, aterrorizado com a idéia de talvez encontrar outra dessas criaturas durante um passeio.
— Claro! Você acha que só eu faço o serviço de ceifar almas? Pelo amor de Deus! Como é que eu viajaria ao redor do mundo para coletar tanta gente? – Pandora jogou a cabeça para trás e riu – Mas, como eu estava dizendo, se nós andássemos por ai usando uma capa negra, carregando uma foice gigante, as pessoas iriam se assustar, não acha?
— E você acha que não me assustou com essa coisa? – ele apontou para a bainha no cinto da garota aonde a faca estava presa.
— Bom, geralmente os vivos não nos vêem... Certo, eles vêem, mas não percebem – novamente, a adolescente segurou o cabo da faca com os dedos pálidos e puxou-a da bainha – Nós apenas passamos perto dele e ZAP! – ela ergueu a arma e transpassou a lâmina pelo seu próprio punho. Thomas não pôde fazer nada a não ser observar como o metal, novamente, atravessou a carne da garota sem causar nenhum machucado – Ceifamos a alma. Bem rapidinho e indolor.
Virou o rosto para o lado novamente, olhando para o rádio-relógio que descansava em sua mesa-de-cabeceira, vendo que já eram sete horas. Audrey já devia estar bem perto.
— Ter o pescoço aberto por um louco não parece indolor – ele sussurrou.
— Eu não disse que a morte era indolor, disse que o processo de “ceifar a alma” era – Pandora falou – E, sabe de uma coisa? Eu não entendo a razão de vocês, vivos, temerem tanto a morte... Certo, ela é meio assustadora, mas quando ela finalmente chega, você percebe que não é tão ruim assim.
— Você já foi viva?
— Claro que sim – ela respondeu isso como se fosse a coisa mais óbvia do mundo – Todos nós já fom-...
Antes que Pandora pudesse terminar de falar, o barulho da campainha soou pela casa. Pandora se empertigou em cima do garoto e ergueu a cabeça, virando-a para o lugar da onde o som vinha. Thomas viu os olhos da adolescente se estreitarem enquanto ela tentava descobrir quem poderia estar chegando na casa de Harper naquela hora.
O rapaz aproveitou o momento de distração da garota para fazer alguma coisa. Rolou o corpo no colchão, fazendo com que a outra perdesse o equilíbrio e caísse de cima dele, indo parar direto no chão. Ele pôde ver a expressão de indignação que tomou conta do rosto pálido de Pandora enquanto ela ainda estava tentando entender o que havia acontecido, antes de pular da cama e sair correndo na direção da porta. Já estava no corredor quando sentiu alguma coisa cair sobre as suas costas, fazendo com que ele caísse de cara no chão.
— Isso não foi legal – a voz da garota veio de algum lugar acima de si e ele percebeu que ela agora estava sentada nas suas costas – Nem um pouco.
— Olhe, chega disso...! – Thomas se calou ao sentir a lâmina da faca da adolescente roçando logo abaixo do seu queixo – N-Não precisa... Me d-desculpe...
— Eu desculpo – ela murmurou, mas não afastou a faca – Com uma condição!
— Diga.
— Você vai abrir aquela porta – a garota sussurrou ao seu ouvido, fazendo com que o rapaz sentisse um arrepio atravessar o seu corpo – E vai falar para seja lá quem for que esteja batendo que está tudo bem e que ela deve ir embora.
— Mas...
— Nada de “mas” – ela riu baixinho, afastando a lâmina – Agora, vá atender a porta.
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