Pandora
4 Colocando a morte para fora
Audrey Brown coçou o nariz com a ponta do dedo e empurrou os óculos que estavam insistindo em escorregar em seu rosto, virando-se nos calcanhares para olhar a rua vazia atrás de si. Voltou a olhar para a porta da casa de seu amigo, perguntando-se o que Thomas poderia estar fazendo, já que ele nunca demorava tanto para atender a porta. Ela já estava estendendo a mão para apertar o botão que soaria campainha irritante novamente quando ouviu um barulho vindo de dentro da casa. Thomas descendo a escada, com certeza. Correndo.
— Achei que você não fosse aparecer – Audrey riu quando a porta foi aberta, mas logo se calou ao ver a expressão de seu amigo.
Tom parecia mais pálido do que o normal, tinha os lábios comprimidos em uma linha fina e quase incolor e seus olhos azuis estavam arregalados. A garota franziu a testa enquanto mil idéias do que poderia ter acontecido com o rapaz surgiam em sua cabeça.
— O que houve? – o garoto piscou e balançou a cabeça, como se tivesse acabado de acordar de um transe.
— N-Nada – a voz saiu trêmula, traindo a sua resposta – Está tudo bem.
— Eu sou míope, não cega – Audrey apontou para os próprios óculos e depois colocou as mãos nos quadris, encarando o outro com um olhar sério – Aconteceu alguma coisa e eu quero saber o que foi – ela suspirou – Você está com uma cara horrível!
— Eu... Não dormi direito esta noite.
— Nós nos falamos mais cedo e você estava ótimo – a garota viu o rapaz erguer a mão e coçar a cabeça. Ela sabia que ele fazia isso quando começava a ficar sem jeito – Tom – ela sentiu o rosto esquentar — Eu o interrompi em alguma... coisa?
— Ahm? Ah! Não! – o rosto do amigo finalmente ganhou alguma cor, mesmo que fosse um intenso vermelho que tomou conta das suas bochechas – Ah, Audrey! – ele fechou os olhos e deu um soco de leve no batente da porta – Não! Como é que você...?
— Bom, você demorou para atender a porta e, quando apareceu, apareceu desse jeito! – ela apontou para Thomas.
— Desse jeito?
— Olhe para você! Está parecendo um louco!
— Talvez eu esteja ficando louco...
— O que? – a garota estreitou os olhos – Certo, olhe, vamos fingir que nada disso aconteceu – ela deu um risinho sem graça – Que tal entrarmos e começarmos a ver os filmes?
O rapaz mordeu o lábio inferior e olhou em volta, parecendo receoso. Audrey revirou os olhos e deu um passo em frente, pronta para entrar na casa, mas foi impedida de entrar pelo braço do amigo, que entrou no seu caminho bem na hora em que ela fora passar pelo batente da porta.
— Tom? – ela ergueu os olhos para encarar o amigo – Você realmente está estranho hoje.
— Me desculpe, Drey – ele murmurou – É que... Eu não estou me sentindo muito bem, podemos deixar a maratona para outro dia?
— Ah... – a adolescente tentou esconder a expressão desapontada que ela sabia que havia tomado conta do seu rosto – Bom, então trate de descansar, não vire a noite naquele computador! – ela riu – Sério, Tom, descanse, você está com uma aparência horrível.
— Tudo bem – o rapaz deu um sorrisinho miúdo – Boa noite.
— Boa noite, Tom.
Assim que a porta se fechou e o amigo sumiu atrás dela, Audrey suspirou pesadamente e deu as costas para a casa. Quando chegou no fim do jardim dos Harper, virou-se novamente para lançar um último olhar na direção da janela que ela sabia ser a do quarto de Thomas.
— Você é esquisito – ela riu – Acho que é por isso que nos damos tão bem.
No hall de entrada da casa dos Harper, Tom estava escorado à porta, com os olhos fechados e tentando entender o que estava acontecendo. Audrey era a chance dele se ver livre daquela louca que dizia ser uma ceifadora e ele a havia dispensado! Sem contar que a amiga devia estar achando que ele era um idiota por tê-la feito ir até a sua casa e depois simplesmente ter dito que era para ela ir embora.
— Você é um idiota – sussurrando para si mesmo, o rapaz bateu a cabeça de leve na porta – Um grande idiota.
— Não, você só está com medo.
Dessa vez o adolescente não se assustou quando viu Pandora parada do outro lado do hall. A garota estava sorrindo – será que ela nunca parava de sorrir? – e tinha a sua faca guardada no cinto, mas isso não fazia a sua figura parecer menos sinistra.
— Por que você ainda está aqui? – o garoto perguntou com a voz baixa.
— Acontece que eu gostei de você, rapaz mortal – ela começou a andar em sua direção. Thomas pôde perceber que os seus passos eram quase inaudíveis, o que o fazia ficar ainda mais desconfortável perto dela — Não é sempre que isso acontece, acredite.
— Quer dizer que eu não desperto a sua louca vontade de matar? – o garoto perguntou e esfregou o rosto com a mão, temendo a resposta da outra.
— Eu não tenho uma louca vontade de matar – ele pôde sentir que ela estava bem perto de si – Mas é que, geralmente, quando eu perco uma morte, como foi o seu caso, eu fico meio frustrada, sabe? É um serviço mal feito.
— Eu sou um serviço mal feito? – Thomas arqueou uma sobrancelha, vendo a ceifadora sorrir.
— Ah, pense assim – ela deu um tapinha amistoso em seu braço – Isso que eu quis dizer, eu não estou pensando em você como um serviço mal feito.
“Sinto-me honrado,” o garoto revirou os olhos com esse pensamento.
— Ótimo, então, que tal você ir embora? – a expressão de Pandora ficou séria – Volte para... Sei lá da onde vocês vêm...
— E se eu não quiser? – ela cruzou os braços na frente do peito e o encarou, fazendo bico.
— Olhe, Pandora – Tom se desencostou da porta e deu alguns passos até chegar na garota – Eu não conheço você e você não me conhece, certo? – ele colocou as mãos nos ombros dela e a guiou até a porta – Eu sou um serviço mal feito, okay? Então, que tal você sair e... – abriu a porta e andou com a adolescente até o lado de fora — Tentar ir fazer um serviço bem feito?
Pandora abriu a boca para replicar, mas antes que pudesse falar alguma coisa, o rapaz praticamente a empurrou para longe e voltou correndo para dentro de casa, trancando a porta atrás de si.
— Pronto – ele sorriu para si mesmo e saiu correndo para a cozinha para fechar e trancar a janela pela qual a ceifadora havia dito que havia entrado antes – Agora você não pode entrar.
Suspirou aliviado enquanto voltava para o seu quarto, decidindo o que iria fazer. Ele teria que ligar para Audrey e dar uma desculpa um pouco mais convincente para o fato de ele praticamente a ter expulsado de sua casa... E, claro, ele iria fazer algumas pesquisas no computador para tentar descobrir alguma coisinha sobre aquela criatura que havia invadido a sua casa mais cedo.
Jogou-se na cadeira na frente do computador de um jeito relaxado que faria a sua mãe ter um ataque de nervos e, com os pés, empurrou a cadeira de rodinhas até perto de sua escrivaninha. Ligou o monitor e abriu a internet assim que a tela se tornou visível.
— Vamos lá – ele digitou o nome do site que queria com os dedos finos e ágeis, antes de apertar o “Prosseguir” – Droga, o que a gente procura para saber mais sobre aquelas coisas?
Suspirando, o rapaz voltou a se encostar na cadeira, os olhos azuis fixos na tela do computador. Ele tinha que pesquisar sobre aquela garota, mas não sabia o que pesquisar! Tom ainda nem tinha certeza de que Pandora era realmente o que ela havia dito que era... Uma ceifadora? Essas coisas realmente existiam? Se existiam, será que havia pessoas que tomavam conhecimento delas e continuavam vivas depois, como ele? Ou será que todos que conheciam um ceifador acabavam mortos?
Sacudiu a cabeça e esticou os dedos para o teclado novamente.
— Morte – Thomas murmurou enquanto digitada a palavra no campo de busca.
Assim que apertou o botão “Pesquisar”, vários links apareceram na tela. O garoto não pôde deixar de revirar os olhos ao ver alguns links como “Descubra o dia da sua morte” e coisas do gênero, mas continuou olhando a página até encontrar um site no qual confiasse.
— No ocidente, a morte é representada como uma figura esquelética que sempre usa uma capa preta e carrega uma foice – o rapaz leu – Em inglês, geralmente é conhecido com “Grim Reaper”... Pandora Grim... Na mitologia grega, Thanatos era a personificação da morte... Certo, muito interessante, mas não ajuda muito.
Soltando um muxoxo, Tom voltou a se encostar na cadeira e jogou a cabeça para trás, encarando o teto de seu quarto. Tudo o que ele havia lido eram coisas que ele já sabia, não eram muito úteis. Ele teria que pesquisar mais para conseguir achar um jeito de se livrar daquela garota.
“Audrey pode ajudar.”
— Eu acabei de mandá-la para casa sem explicação – ele resmungou – Ela não vai querer me ajudar tão cedo.
Olhou para o telefone que estava caído no chão de seu quarto aonde Pandora o havia jogado. Talvez a amiga não estivesse tão irritada com ele, não custava nada tentar falar com ela, não é mesmo?
Levantou-se da cadeira e atravessou o cômodo, abaixando-se e alcançando o aparelho que descansava ao lado da cama. Digitou o número da amiga e levou o telefone até a orelha e esperou.
— Alô?
— Audrey, sou eu, o Tom... – o rapaz falou, meio sem graça.
— Eu sei que é você – a garota respondeu – Não me diga que você melhorou e agora quer que eu volte para a sua casa! Eu acabei de chegar...
— Não, não se preocupe, eu só... – “Só queria a sua ajuda para descobrir se a Morte pode ser uma garota da nossa idade.”
— Você só...?
— Queria a sua ajuda para fazer uma pesquisa.
— Tom, você tem um computador em casa, não? – ele ouviu a amiga rir do outro lado da linha – Sua internet caiu, por acaso?
— Não, é só que eu queria um pouco de ajuda – Thomas sentiu o rosto esquentar – Mas, não se preocupe, vou dar mais uma olhada aqui e...
— Hey, não faz mal, eu ajudo – a voz de Audrey saiu com um tom amigável – Está pesquisando sobre o que?
— Ahm, não me chame de louco,mas.... ceifadores.
Fez-se silêncio do outro lado da linha e o garoto já estava esperando a risada da amiga soar a qualquer minuto.
— Ceifadores? Você quer dizer... a Morte? Capa escura e foice na mão? Estilo Fantasma do Natal Futuro?
— Isso mesmo.
— Pra que você quer isso? E não me diga que é trabalho! Eu faço as mesmas aulas que você e sei que não há nenhum projeto sobre mitologia ou coisas desse tipo para as férias.
— Não é pro colégio – o jovem Harper suspirou – Eu decidi pesquisar porque estou... curioso, só por isso.
— Você é estranho, Thomas Harper – ele ouviu a voz da amiga falar baixinho.
— É, eu sei...
— É por isso que eu gosto tanto de você – Audrey deu uma risada gostosa – Pode deixar que eu vou tentar achar alguma coisa aqui.
— Muito obrigado, Drey.
— De nada, Tommy – o rapaz pôde ouvir a amiga se afastar do telefone e falar alguma coisa com alguma outra pessoa, antes de voltar a falar com ele – Hey, tenho que ir, minha mãe quer que eu vá jantar.
— Tudo bem, boa noite.
— Boa noite.
Assim que a ligação foi encerrada, Tom largou o telefone em cima da mesa de cabeceira e se jogou em sua cama. Levou uma mão até a cabeça e massageou as têmporas... Desde que acordara, sua cabeça não havia parado de latejar, e sair correndo dentro de casa para depois ser derrubado no chão por outra pessoa não ajudou a melhorar a sua dor de cabeça. Ele precisava comer alguma coisa, tomar um banho e ir dormir, era a única maneira de se sentir melhor.
Gemendo baixinho, o garoto se levantou da cama lentamente, chutou os tênis para longe, ficando apenas de meias, e saiu do quarto, indo até a cozinha. Se a sua mãe descobrisse tudo o que havia acontecido com ele naquele dia, ficaria louca... Aliás, se ele não telefonasse para os pais, Doris ficaria histérica, ele sabia disso.
Abriu a geladeira e pegou uma caixa de comida congelada. Enquanto ia até o forno para colocar o prato ali dentro, pegou o telefone da cozinha e digitou o número do celular dos pais.
— Eu achei que você não fosse ligar!
Ele estava esperando uma coisa mais no estilo de “Filho, estava com saudades” ou “Como você está?”, mas não deu muita importância a isto.
— Estou ligando agora, não estou, mãe? – o garoto riu, colocando a caixa dentro do forno e fechando a porta – Como vocês estão?
— Estamos ótimos, o único problema é que o celular estava fora de área até pouco tempo atrás, por isso não consegui ligar para casa – a mulher remungou – Eu sei que ele já tem idade para se cuidar, mas eu quero ter certeza de que ele está bem! – Thomas riu ainda mais ao ouvir a mãe brigando com o pai, que provavelmente deveria ter passado as últimas horas ouvindo a mulher reclamar do fato de não poder se comunicar como filho por causa da falta de sinal do celular – Então, o que você está fazendo?
— Estou preparando jantar – o rapaz se sentou na mesa e olhou o forno, esperando dar o tempo necessário para a refeição ficar pronta.
— Que bom que você se lembrou de comer — Doris falou – E o que você fez hoje? Se encontrou com Audrey, por acaso?
— Na verdade, não, mãe. Fiquei em casa...
— No computador?
— Sim.
— Eu deveria ter adivinhado.
— Mãe, não se preocupe, eu não vou mofar no meu quarto – Tom sorriu – Prometo.
— É bom mesmo... Ah, pare ali! Eu preciso comer alguma coisa – ele ouviu a mãe falar com o pai –Tommy, querido, vou desligar agora.
— Tudo bem, boa noite.
— Boa noite, nós ligaremos assim que for possível.
— Só não liguem de madrugada.
— Como se você não fosse estar acordado de madrugada.
— Acredite, mãe, hoje eu irei dormir cedo – o garoto deu um riso sem graça.
— É bom mesmo... Bom, boa noite, querido – pelo tom de voz da mulher, ele sabia que ela estava sorrindo – Seu pai mandou boa noite.
— É, mande um boa noite para ele também.
— Certo, tchau.
Thomas encarou o telefone quando a voz da mãe sumiu do outro lado da linha. Olhou para o relógio na parede da cozinha e viu que já podia retirar a comida do forno.
***
Audrey Brown estava acostumada a ajudar o seu amigo com pesquisas, mas, geralmente, eram pesquisas que tinham alguma lógica. Dessa vez, ela não tinha idéia de qual era o motivo de Thomas decidir que queria saber mais sobre “ceifadores”... Aliás, o que diabos eram ceifadores? Figuras sombrias que arrancavam a alma das pessoas com uma foice? Pelo que tudo indicava, era alguma coisa assim.
— Thomas, Thomas, você é meio louquinho – a garota riu enquanto empurrava os óculos para cima do nariz e lia o conteúdo da página da internet que ela havia aberto em seu notebook – O que ele quer saber sobre essas criaturinhas?
Tudo o que ela havia achado se referia a religião ou mitologia, nada muito confiável. Várias imagens mostrando a conhecida figura encapuzada e armada com uma foice ou alguma personalidade da mitologia grega, como Hades, Thanatos e Charon, .
Suspirando, a menina percebeu que tudo o que ela estava achando na internet já devia ser conhecido por Thomas. Ela teria que ir atrás de outras fontes se quisesse achar alguma coisa que o amigo ainda não sabia.
— Em plenas férias de verão, você me faz ir atrás de pesquisas – ela murmurou para si mesma enquanto fechava o notebook e o colocava de lado – Só você mesmo, Tom.
Deitou-se na cama e encarou o teto, onde algumas estrelas fluorescentes estavam coladas. Ela estava preocupada, pois o jeito como Thomas havia se comportado quando ela chegara em sua casa fora muito estranho, ela nunca o havia visto tão perturbado.
“Ele sabe o que está fazendo,” Audrey pensou, rolando no colchão para conseguir sair da cama, “Ele pode parecer louco, mas sabe o que está fazendo.”
Notas finais
Charon: Caronte, o barqueiro que levava os mortos através dos rios Styx e Acheron, que dividia o mundo dos vivos do mundo dos mortos.
Hades: o vilão de "Hércules", não! Hahaha XD *idiota* ok, deus do "Mundo Inferior" na mitologia grega [seu equivalente na mitologia romana é "Pluto"/"Plutão"]
O Fantasma do Natal Passado: do livro A Christmas Carol de Charles Dickens.
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