Pandora
5 O Mundo Inferior
Pandora não estava feliz. Ela realmente havia subestimado a ousadia daquele rapaz. Aonde já se viu alguém tratar uma garota daquele jeito? Praticamente a jogando para fora de sua casa! A adolescente nem teve tempo de chegar à cozinha, aonde ele havia deixado a janela aberta mais cedo naquele dia, pois o garoto parecia ter percebido que ela tentaria entrar na casa por lá novamente e se adiantou para fechar a sua única entrada. Certo, aquela não era a sua única entrada... Ela era uma ceifadora, pelo amor de Deus! Se quisesse, poderia se materializar no meio do quarto do rapaz a qualquer momento, mas sabia que aquilo só iria fazer com que Thomas ficasse ainda mais aterrorizado com ela.
A garota estava agora parada do lado de fora da casa dos Harper, analisando a construção com os olhos e tentando entender o que estava tentando fazer. Ela queria falar com aquele mortal, mas, por quê? O que ela realmente deveria fazer era entrar lá e ceifar a alma daquele adolescente de uma vez por todas, como qualquer ceifador que se preze faria! Então por que ela havia deixado o rapaz escapar? Por que ele continuava vivo?
— Porque você é uma idiota – ela murmurou para si mesma – Quer ser amiga de um mortal. Ha-ha!
Deu as costas para a casa e levou uma mão até o pescoço, segurando um pingente que pendia em uma corrente prateada em seu pescoço.
— Descendere — a voz da garota saiu baixa enquanto ela apertava o pingente com força e fechava os olhos.
Quando abriu os olhos, Pandora não estava mais no quintal dos Harper, mas sim em um lugar totalmente diferente. Parecia uma caverna enorme com as paredes feitas de rochas cinzentas bem altas, mas, ao invés de haver um teto também de pedra, o céu estrelado se estendia por cima de tudo. No chão, havia uma espécie de cidade onde várias construções se erguiam, misturando vários estilos de variadas épocas... De um lado havia uma igreja gótica, no outro, um casarão vitoriano, mas se você andasse um pouco mais a frente, veria um antigo templo grego.
A garota suspirou e começou a andar na direção da cidade, onde várias pessoas se reuniam. Assim como as construções, as pessoas pareciam ter saído de variadas épocas: uma mulher andava apressadamente pela calçada, quase tropeçando no pesado vestido vitoriano que estava usando, um homem observava tudo calmamente, usando uma toga romana, e alguns jovens conversavam animadamente em um canto, todos usando uniformes do exército da União Soviética da época da Segunda Grande Guerra, algumas poucas pessoas usavam roupas atuais... Se é que alguma época poderia ser chamada de “atual” naquele mundo.
— Pandora! Onde você estava?
A moça se virou para ver um rapaz alto com cabelos escuros que iam até os seus ombros e olhos cinzentos se aproximando dela. Ele também usava roupas mais “normais”: calças jeans, tênis e camiseta azul escura e, assim como a garota, tinha uma faca embainhada no cinto de rebite que estava usando.
— No mundo dos mortais, é claro – Pandora deu de ombros – Onde mais eu estaria? Jogando paciência no purgatório? Não, muito obrigada.
— Não precisa vir para cima de mim com todo esse mau humor – o rapaz soltou um muxoxo – É só que você demorou mais do que o normal.
— Demorei o mesmo de sempre, Than.
— Sei – ele revirou os olhos, mas preferiu não argumentar – Então, ouvi dizer que você só tinha um garoto hoje, como foi?
— Não foi – a adolescente continuou andando pela rua, sem olhar para o outro, e só parou quando se viu em frente a uma casa que aparentava ser da década de 30.
— Não foi? Um mortal conseguiu enganar você? – os olhos cinzas do garoto se arregalaram e ele soltou uma gargalhada quase que sombria – Eu gostaria de ter visto isso.
— Ele não me enganou! – Pandora cuspiu as palavras, mas logo que se virou para olhar o rapaz, preferiu ter ficado quieta.
— Quer dizer que você o deixou sair vivo? – o ar divertido que estava em seu rosto finalmente sumira – Você é louca?
— Ah, Thanatos, não é como se eu fosse causar o apocalipse por deixar o garoto viver – ela revirou os olhos, adentrando o jardim da casa – Todo mundo já deixou um mortal escapar uma vez na vida.
— Sim, mas você nunca deixou.
— Tudo tem uma primeira vez, não é mesmo? – ela empurrou a porta da frente, que se abriu sem problemas, e adentrou a casa.
O hall de entrada tinha um ar antigo, mas bem cuidado. Toda a decoração remetia a um cômodo da década de 40 de uma casa de família, já que podiam ser vistos inúmeros porta-retratos com fotografias de um casal e duas crianças espalhados pelas paredes e em cima de um aparador que ficava logo abaixo de um grande espelho.
— Eu não entendo você, Dora – o rapaz de cabelos escuros falou – Gosta tanto dos “dias de hoje”, mas vive numa casa antiga.
— Eu gosto de manter tudo do jeito que era – ela suspirou – Meu quarto é “atual”, isso é o suficiente.
— Sem contar que essa casa é enorme, nós poderíamos nos mudar para um lugar menor e mais organizado...
— Esse lugar é organizado.
— Mas ele exige muito esforço para ficar organizado – Thanatos revirou os olhos – Bom, não podemos reclamar, imagine se nós tivéssemos que viver em um daqueles castelos medievais do fim da rua? Eles são horríveis, nada confortáveis.
— Não entendo como aqueles caras conseguem viver lá – a menina falou enquanto subia as escadas e sendo seguida pelo rapaz – Quero dizer, deve ser um frio, não? Tudo feito de pedra...
— Deve ser – o outro deu de ombros, parando de andar e olhando para um retrato que estava pendurado na parede – Precisamos limpar isso.
Pandora olhou para o amigo e o viu deslizando um dedo pelo vidro do retrato e depois olhando para a ponta deste, vendo uma fina camada de poeira o cobrindo.
— Vivemos no mundo dos mortos e ainda temos que fazer faxina – Thanatos soltou um muxoxo – Isso é deprimente.
— Pare com isso – a garota bagunçou os cabelos negros do outro e riu – Bom, eu vou tentar dormir um pouco, estou cansada.
— Cansada? Você nem trabalhou direito! – o ceifador observou enquanto a amiga continuava a subir as escadas e sumia na virada de um corredor, ignorando-o completamente – Ah, tanto faz.
Pandora deu um risinho enquanto continuava andando pelo corredor da casa, divertindo-se com a indignação do outro. Assim que chegou ao seu quarto, fechou a porta e ficou parada no meio do cômodo, observando-o.
Quem entrasse ali, acharia que era um quarto comum de uma adolescente qualquer. Nunca desconfiaria que quem vivia ali era uma pessoa que não estava nem viva e nem morta, cuja ocupação era tirar vidas. Tudo parecia tão normal... A cama bem arrumada, as prateleiras com livros, a penteadeira com escovas de cabelo, perfumes e maquiagens, as fotos penduradas nas paredes...
Suspirou baixinho, ela foi até a penteadeira, sentando-se no banquinho que havia ali. Fixou os olhos no espelho, analisando o seu reflexo: pele pálida, cabelos escuros e olhos azuis brilhantes.
— Olhos esquisitos – a garota piscou inúmeras vezes, vendo as íris brilhantes desaparecem e reaparecerem por detrás de suas pálpebras.
Pandora ainda conseguia se lembrar de quando chegara naquele mundo. Ela havia ficado aterrorizada ao ver como todo mundo era terrivelmente pálido e tinha aqueles olhos estranhos... Aquilo podia ser bem assustador, mas, com o tempo, ela se acostumara.
Na realidade, a garota se considerava sortuda, pois, logo no começo, já encontrara alguém que poderia considerar como “amigo”. Thanatos havia chegado ao Mundo Inferior apenas alguns anos antes dela, mas já conhecia bastante coisa daquele lugar e, logo que a encontrou, pareceu ter criado um tipo de afeto pela jovem.
Fora com ele que Pandora aprendera a maioria das coisas sobre o Mundo Inferior e do trabalho dos ceifadores. Imagine a surpresa da menina quando o rapaz a informou que o trabalho dela, daquele dia em diante, seria ceifar almas? Pandora quase teve um ataque histérico, não parava de repetir que queria ir para casa e que ela era muito nova para estar morta...
— Acalme-se.
— Me acalmar? – a garota virou-se para encarar o rapaz de cabelos escuros que estava encostado na cerca de uma casa vitoriana que se erguia imponente no fim da rua cinzenta – Como você quer que eu me acalme? Você acabou de me dizer que eu estou morta! Eu tenho dezessete anos, pelo amor de Deus! Dezessete! Eu não deveria ter morrido!
— Eu tenho dezoito – o garoto deu de ombros – Ou será que eu devia dizer que eu tinha dezoito? Não sei... Bom, mas você acha que é justo eu ter morrido aos dezoito anos?
— N-Não, claro que não – a menina parou de andar e suspirou, sentindo os olhos se encherem de lágrimas – Mas... Eu não posso morrer! Tenho tantas coisas para fazer ainda, tenho que cuidar...
— Você tinha muitas coisas para fazer – o outro a interrompeu – Você tinha que cuidar de sabe-se lá o que, mas agora acabou, garota, sua vida mortal acabou, não existem mais obrigações mortais para você.
— Mas...
— Você está no Mundo Inferior agora, ou seja, a sua vida... ahm... não sei como dizer... “imortal” começou.
— Vida imortal?
— Sim, sua vida imortal – o garoto sorriu – Não é a palavra correta, mas foi a única que me veio a cabeça.
A moça abraçou a si mesma e olhou em volta, observando as coisas ao redor. Parecia uma rua normal, mas ela ficava dentro de um tipo de caverna cujos altos paredões de pedras se erguiam até uma altura que a garota não conseguia enxergar, pois eles simplesmente pareciam desaparecer no céu estrelado que se estendia pelo teto da caverna.
— Qual o seu nome? – a voz dela saiu fraca e seus olhos ainda não haviam desviado do céu.
— Thanatos.
— Thanatos? – ela fez uma careta – Que tipo de nome é esse?
— Ora, é um nome interessante – o rapaz sorriu e empinou o nariz – Sabia que, na mitologia grega, Thanatos é o nome da figura da Morte?
— Combina com você – ela resmungou – Mas seu nome não pode ser Thanatos! Quero dizer, quem tem um nome desses?
— Tem razão, esse não é o meu nome verdadeiro – ele deu um sorriso meio triste – Meu nome é Frank, é só isso que você precisa saber – o garoto deu uma piscadela para ela – Mas todo mundo me chama de Thanatos aqui no Mundo Inferior.
— Por quê?
— Acho que nós gostamos de cortar os laços que temos com o mundo dos vivos, sabe? Por isso escolhemos outros nomes. Eu escolhi Thanatos porque achei que combinaria com o fato de eu ser um ceifador.
— Quer dizer que eu posso escolher outro nome? — a menina perguntou.
— Claro, não há nada que a impeça de fazer isso – Thanatos sorriu – Tem alguma idéia em mente?
Ela tinha alguma idéia em mente? Cruzou os braços na frente do peito e voltou a olhar para o céu. Qual nome ela gostaria de ter? “Um nome diferente,” a garota pensou, “um nome que não seja muito usado.”. Olhou para o rapaz parado a sua frente. Ele havia escolhido um nome da mitologia grega, talvez ela também pudesse escolher um nome que viesse dos mitos da Grécia, não é mesmo? Afinal, o único nome que lhe vinha à cabeça naquele momento era o nome de uma personagem mitológica.
— Na verdade, tenho – pela primeira vez nas últimas horas, ela permitiu que um sorrisinho tímido aparecesse em seus lábios.
— E será que eu posso saber qual é?
— Pandora – a garota gostou de como o nome soou assim que saiu da sua boca – Meu nome vai ser Pandora.
****
Thomas soltou uma risada quando abriu os olhos pela manhã e observou o seu quarto bagunçado. Ele havia tido um sonho tão engraçado... Era sobre uma garota que dizia ser um tipo de criatura que ceifava a vida das pessoas. É, ele devia estar assistindo filmes de ficção demais, talvez fosse inteligente seguir o conselho de sua mãe e começar a deixar de lado tantos filmes e livros de ficção e fantasia.
O rapaz se espreguiçou e levantou-se da cama. Ele teria que arrumar o quarto mais tarde, aquele lugar estava uma bagunça, mas agora ele só queria descer até a cozinha e comer alguma coisa para o café da manhã, depois ligaria para Audrey para ver o que ela faria naquela tarde, talvez eles pudessem fazer alguma coisa juntos.
Desceu as escadas e foi até a cozinha sem se preocupar em pentear os cabelos escuros, que mais pareciam um ninho de passarinho de tão desarrumados, e nem em trocar de roupas, afinal, não havia ninguém ali para reclamar de que ele estava andando de pijamas pela casa. Pegou uma tigela em um dos armários, encheu-a com um cereal qualquer, o primeiro que ele havia visto, e leite e sentou-se na mesa da cozinha para comer.
Era estranho tomar café da manhã sozinho, sem seu pai sentado do outro lado da mesa, lendo o jornal ou algum livro, e sua mãe andando de um lado para o outro, arrumando-se para ir trabalhar enquanto conversava com o marido e fazia vários lembretes para o filho. Sem os seus pais, a casa ficava terrivelmente calma, ele chegava até a sentir falta de ter a sua mãe sempre pegando no seu pé para que ele se arrumasse direito ou se apressasse para o colégio.
Assim que terminou de comer o cereal, Thomas colocou a tigela na máquina de lavar louças e voltou para o seu quarto. Assim que chegou ao cômodo, pegou o celular que estava em cima da escrivaninha e discou o número de Audrey.
— Alô?
— Oi, Drey – o rapaz sorriu. Por que diabos ele estava tão feliz naquele dia?
— Hey, Tom! – a menina riu do outro lado da linha – Como está?
— Bem, e você?
— Ótima – Audrey falou — Você parece estar melhor... Que bom, eu estava preocupada.
— Ah, sim – agora ele se lembrava de ter agido esquisito com a amiga na noite anterior, talvez por causa do cansaço.
— Ah, aliás, eu comecei a pesquisar aquelas coisas que você pediu e...
Coisas que ele pediu? Que coisas?
— Audrey, do que você está falando? – o garoto franziu a testa enquanto se sentava em sua cama.
— Aquela pesquisa que você me pediu ontem por telefone – a garota explicou – Sabe, sobre ceifadores...
Ceifadores? Por que ele pediria uma pesquisa sobre ceifadores?
— Drey, por que eu precisaria saber sobre ceifadores?
— Sou eu quem deve perguntar, Tom. Ontem você parecia tão perturbado quando falou comigo e pediu a tal pesquisa.
— Certo – o garoto murmurou – E o que você descobriu sobre eles?
— Nenhuma novidade. Eles são um tipo de figura que as pessoas inventaram para representar a morte... O mais comum são aqueles que são uns esqueletos, usam capas negras e carregam uma
foice para lá e para cá – Audrey riu baixinho – Tipo o Fantasma do Natal Passado.
— Sim, mas... Não descobriu mais nada?
— Não, Tom, só isso, mas eu vou tentar procurar mais coisas – a menina falou – Mas não prometo nada.
— Tudo bem, Audrey – o rapaz sorriu – A gente se vê.
— É, tchau.
Thomas desligou o celular, colocou-o em cima da mesinha de cabeceira e deitou na cama. Tudo aquilo que a amiga lhe dissera não eram novidade para ele, mas, por que ele pedira a maldita pesquisa? Aquilo não fazia sentido... Lembrou –se de seu sonho, da garota que dizia ser “a morte”... Será que?
“Se nós andássemos por ai usando uma capa negra e carregando uma foice gigante as pessoas iriam se assustar, não acha?”
— Ah, Deus! – os olhos azuis do jovem Harper se arregalaram – Não foi um sonho.
As imagens da noite anterior voltaram a sua cabeça: a jovem de cabelos escuros e olhos brilhantes, a faca que ela carregava, a conversa que tiveram, a cara de Audrey quando ele praticamente a chutou para fora de casa, a pesquisa que ele pedira para a amiga fazer e...
— Pandora Grim...
O nome da garota, da ceifadora. O mesmo nome da mulher que libertara os males do mundo ao abrir uma caixa. Será que alguma coisa boa poderia vir de uma garota com um nome daqueles?
Thomas Harper queria poder não admitir aquilo, mas era impossível não fazê-lo: ele estava com medo daquela moça, mas, ao mesmo tempo, estava curioso... Queria saber quem ela era, o que ela era, o que ela poderia fazer, quem ela fora antes de virar uma ceifadora e porque ela não o matara na noite anterior. O rapaz queria falar com Pandora, mas...
— Os homens temem aquilo que não conhecem, Tom – ele murmurou para si mesmo – Ela não deve ser tão terrível.
Assim que disso isso, ouviu uma vozinha sussurrar em sua cabeça:
“É bom que você esteja certo, Thomas Harper.”
Notas finais
Descendere: do latim, "descer".
Todas as vezes que eu escrevo "Mundo Inferior" eu me lembro do filme do Hércules... D:
O que acharam? (:
Dorea.
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