Pandora
6 Mais da morte
A enfermeira observou o garotinho adormecido na cama. Desde que ele chegara ali, a mulher sempre tirava um horário do dia para observá-lo, de preferência quando os pais não estavam por pero. Ela não gostava de ver os rostos tristes do casal.
O menino se remexeu em seu sono, fazendo com que a mulher se aproximasse, lentamente, de seu leito. Os pais dele haviam saído e ele estava sozinho ali. Caso ele acordasse, não encontraria o pai nem a mãe, apenas ela... A enfermeira desconhecida. Deveria ser ruim, não? Ficar desacordado por dias e, quando finalmente voltar a consciência, não saber aonde está e não encontrar ninguém conhecido por perto... Por isso ela decidiu que tentaria ser o mais simpática possível com o menino, para que ele não se desesperasse.
Os olhinhos azuis dele se abriram lentamente e observaram o local por algum tempo. A jovem enfermeira pôde ver o peito do pequeno começar a subir e descer com mais freqüência a medida que ele percebia que não estava mais em casa e que seu pai e sua mãe não estavam ali...
— Olá.
A cabeça do garoto virou na sua direção rapidamente e os olhinhos assustados se fixaram nela.
— Seus pais saíram, mas já devem estar voltando – ela sorriu – Você está em segurança, querido.
— O que aconteceu? – a voz dele estava cheia de medo e ela teve que se conter para não correr até ele e o abraçar com força para confortá-lo.
— Eu não sei se eu deveria... – a mulher começou a murmurar, mas ficou quieta assim que ouviu o barulho de saltos altos batendo no chão do corredor. Os pais do pequeno haviam voltado.
— Querido... – a voz da mãe saiu meio esganiçada quando ela finalmente viu o filho acordado pela primeira vez em um bom tempo. A enfermeira não queria interromper a família naquele momento, então se ocupou em arrumar os papéis do prontuário do garoto, mesmo que eles já estivessem arrumados.
— Ma-Mamãe, o que...?
— Ah, meu bem – ela se permitiu espiar o encontro dos três por um tempo. A mulher bem arrumada abraçava o pequeno quase que com desespero enquanto o homem apenas observava com uma expressão dolorida – Eu pensei que iria perdê-lo também...
— Mamãe, onde está a Agatha? – o menino perguntou, erguendo a cabeça do peito da mãe.
A expressão de tristeza do rosto da mulher se agravou ainda mais quando ela ouviu o nome que o filho pronunciara. O garotinho desviou o olhar da mãe e olhou para o pai, que havia abaixado a cabeça e tinha o rosto contorcido em uma careta triste.
— Papai? – os olhinhos do menino se encheram de lágrimas enquanto ele interrogava os pais.
— Daniel, sua irmã... – o homem começou a falar, mas parou no meio da frase, cobrindo os olhos com uma mão e respirando fundo.
O garotinho parecia assustado ao ver a mãe chorando desesperadamente, ainda agarrada a ele, e o pai parado no meio daquela sala, cobrindo o rosto e soluçando baixinho... Seu pai nunca parecia frágil daquele jeito.
— Minha filha, minha filhinha... – a voz da mulher estava totalmente embargada enquanto ela murmurava contra os cabelos negros do filho.
— A bomba – Daniel murmurou, lembrando-se do que havia acontecido – Agatha não quis ficar no abrigo, ela quis sair... Ela saiu! Mamãe, Agatha saiu do abrigo! Ela saiu e a explosão...!
A enfermeira, que ainda estava no quarto, apenas abaixou a cabeça e voltou a reler o prontuário. Talvez não tivesse sido uma boa idéia ficar no quarto.
***
Pandora abaixou a cabeça enquanto saía do quarto o mais rápido possível, para que, quando os médicos chegassem lá, ela já estivesse longe. A garota se espremeu contra a parede quando viu uma enfermeira e um médico passarem correndo por ela e entrarem no quarto de onde ela havia acabado de sair. Mais um trabalho cumprido.
— E aí? – ela ergueu os olhos para ver Thanatos sentado em uma das cadeiras da sala de espera, lendo uma revista sobre cinema.
— Pronto, e você?
— Já fiz faz tempo, quando entramos no prédio – o rapaz fechou a revista e a colocou sobre a mesinha de centro da sala – Passaram com o sujeito bem na minha frente, o estavam levando para uma cirurgia.
— Entregaram-no para a morte numa bandeja, praticamente.
— Numa maca, para ser mais exato – o ceifador se levantou e alongou os braços – É tudo por hoje?
— Por enquanto, sim – a garota falou, enquanto se dirigia para a saída do hospital, seguida pelo amigo.
— De volta para o Mundo Inferior – Thanatos soltou um muxoxo dramático enquanto levava a mão até um pingente prateado que ele tinha pendurado em um cordão negro ao redor do pescoço.
— Encontro você lá daqui a pouco – a outra ignorou o olhar curioso que o amigo lançou em sua direção quando ela não seguiu o seu exemplo.
— Opa, como assim? Aonde você vai agora, Dora?
— Preciso... visitar alguém?
Thanatos largou o pingente e seguiu a garota, mesmo percebendo que ela não parecia muito feliz de que ele o estivesse fazendo.
— Ah, não – Pandora resmungou – Você vai ficar me seguindo?
— Eu vou acompanhá-la, minha cara – o rapaz sorriu – Não quero que você se meta em confusão.
— Eu não vou me meter em...
— Uma confusão em forma de mortal – ele continuou – Mortal cuja vida você não tirou por razões que ainda me são desconhecidas.
— Até quando você vai me atormentar por causa disso?
— Não sei – o ceifador soltou uma risada gostosa, vendo como a amiga estava andando com as mãos nos bolsos, ombros erguidos e cabeça meio abaixada. Ele nem precisava olhar para saber que ela estava fazendo uma careta de desgosto – Dora, adoro quando você se irrita... A casa dele é muito longe?
— Ninguém está pedindo para você ir junto.
O rapaz deu de ombros e murmurou alguma coisa sobre “Mas eu quero ir,” e continuou a seguindo. Thanatos não se irritava com facilidade, então conseguiu agüentar o mal humor da ceifadora durante todo o trajeto até a casa do mortal que havia chamado tanto a atenção dela... Bom, talvez a sua curiosidade o estivesse ajudando a superar a irritação da garota, já que era muito raro ver uma pessoa escapar das garras de Pandora com vida. Ele queria saber quem era o sortudo.
— Bonita casa – o rapaz murmurou quando os dois finalmente pararam na frente da casa dos Harper – Você vai bater a campainha!?
— Não quero assustá-lo, Than – a menina falou enquanto se adiantava para a porta de entrada.
— Se não quisesse assustá-lo, nem estaria aqui – ele murmurou, mais para si mesmo do que para a outra – Aliás, qual é a ficha desse aí?
— Thomas Harper, dezessete anos, filho de Doris e Adam Harper – Pandora se virou para encará-lo, esquecendo de apertar a campainha – Ele deveria ter sido morto por um assaltante ontem, depois de quase ter um ataque nervoso durante um assalto...
— Interessante... E como ele escapou?
— O homem se assustou comigo e saiu correndo – ela soltou um muxoxo – Fala sério, eu não sou tão assustadora, assim, não é?
O rapaz observou a amiga dos pés a cabeça. A figura de Pandora era amável, seu rosto parecia gentil e brincalhão, mas o fato de que, na maioria das vezes, ela carregava uma faca de todo tamanho presa na cintura e que ela conseguia sorrir de um jeito quase maníaco as vezes poderia assustar algumas pessoas.
— Claro que não, Dora – Thanatos deu um sorrisinho sem graça – Você é um doce...
— Acho que foi a faca que o assustou.
— Pode ter sido. Não entendo a razão de você usá-la sempre nessa forma, é meio... intimidante demais?
— Eu gosto intimidar as pessoas.
— Sim, mas você deveria saber que os mortais piram quando vêem alguém andando por aí com uma faca de açougueiro presa no cinto.
O rapaz soltou um muxoxo ao perceber que a amiga não havia dado a mínima atenção ao que ele havia dito. Pandora agora encarava a porta da casa a sua frente, como se tentasse decidir o que fazer. Não demorou muito para que ela erguesse a mão e tocasse a campainha.
****
Thomas havia procurado pelo nome “Pandora Grim” na lista telefônica umas três vezes já, mas a busca provou-se sendo inútil. O rapaz sabia que as chances de encontrar a moça na lista eram mínimas, mas queria tentar mesmo assim, afinal, vai que ele tinha sorte de achá-la?
— É um pseudônimo, Tom – ele resmungou para si mesmo – Você já devia ter percebido isso... Ela não usaria o pseudônimo na lista telefônica.
“Se é que ela está na lista telefônica,” o rapaz pensou, fechando a lista com força e soltando um muxoxo, “Se Pandora é o que diz ser, ela nem vive neste mundo.”
O rapaz suspirou e deitou a cabeça sobre a escrivaninha, fechando os olhos e respirando fundo. Ele deveria estar ficando louco... Por que diabos ele iria atrás da própria Morte? O que ele iria dizer se a encontrasse? “Olá, gostaria de me falar um pouco sobre o seu trabalho?”.
Quando o som da campainha ecoou pela casa vazia, Tom endireitou-se na cadeira rapidamente e olhou para a porta de seu quarto. Quem será que era? Não poderia ser Audrey, ela teria ligado para avisar que passaria ali em sua casa... Talvez fosse a vizinha da frente, Sra. Tillis, querendo perguntar que ele vira o seu gato, Harry, por algum lugar, já que ele sempre fugia de casa e se escondia no seu quintal.
Levantou-se e saiu de seu quarto com a preguiça invadindo os seus membros. Se realmente fosse a Sra. Tillis atrás de Harry, ele teria que revirar o quintal atrás do gato, e ele não estava com a mínima vontade de fazer tal coisa. Quando chegou no hall de entrada, olhou-se rapidamente no espelho, para ver se não estava com aquela cara de louco que sua mãe sempre dizia que ele tinha quando não arrumava o cabelo e, após constatar que só estava com cara de “não-dormi-direito-essa-noite”, foi até a porta.
— Olá, Sr. Harper!
Thomas quase engasgou com a própria saliva ao ver, parada no batente da porta, Pandora Grim. A jovem tinha um sorriso animado nos lábios enquanto olhava para ele e acenava, mas o que chamou a atenção de Tom foi um rapaz que estava parado atrás da garota, encarando-o com curiosidade. O rapaz era alto, tinha cabelos escuros e mal cortados que caiam até quase os seus ombros, usava roupas escuras, assim como Pandora, e tinha olhos cinzentos brilhantes.
— Deus... – aquela fora a única coisa que o garoto conseguiu pronunciar naquele momento.
— Podemos entrar? – a ceifadora perguntou, mas não esperou para empurrar Tom para o lado e entrar na casa – Venha, Than, não seja tímido.
O tal de “Than” resmungou alguma coisa, antes de olhar em volta com cuidado e entrar na casa. Thomas realmente não sabia o que fazer. Ele queria reencontrar Pandora, mas aquela visita fora uma surpresa... Por que ela viera até ele? E quem era aquele outro garoto?
— O que vocês... – o garoto forçou as palavras que pareciam estar presas em sua garganta – O que vocês estão fazendo aqui?
— Queria ver como você estava, sabe... Depois que você me botou para fora ontem a noite — a ceifadora sorriu gentilmente.
— Quem é ele?
— Ah, esse é o Thanatos – Pandora revirou os olhos e ele pôde ver o rapaz abrir a boca para falar alguma coisa, mas logo desistiu e continuou quieto – Ele insistiu em vir até aqui.
— Ele também é um... ceifador?
— Espera! – era a primeira vez que o amigo da garota falara, e ele não parecia muito feliz – Você falou para ele o que nós somos? Pandora, você é louca!
— Já me chamaram disso muitas vezes, Than.
— Mas dessa vez é sério! Ele é um mortal, pelo amor de Deus, ele pode sair por aí contando o que sabe! – Thanatos parecia realmente estar preocupado – Precisamos dar um jeito nele...
— Não! – Thomas e Pandora praticamente gritaram em uníssono.
— Eu não vou sair falando! O que eu ganharia com isso? – o olhar frio que o ceifador lançou na sua direção poderia matar caso olhares matassem – N-Não vou contar a ninguém sobre isso! Não precisa... ahm... “dar um jeito” em mim.
Thanatos o encarou por um tempo, antes de suspirar e perder a postura ereta que ele tinha, como se dissesse “eu desisto” com o próprio corpo. Tom sentiu um alívio o invadindo, mesmo sabendo que ele não estava realmente seguro, afinal, tinha dentro de sua casa duas pessoas que poderiam simplesmente arrancar a alma de seu corpo num piscar de olhos.
— Acabamos com a chatice, Than? – Pandora perguntou, cruzando os braços na frente do peito. O outro ceifador apenas resmungou alguma coisa, o que fez a garota sorrir – Ótimo! Então, este é Thomas Harper.
— É um prazer conhecê-lo, Thomas – Thanatos tentou dar um sorriso, apesar de achar que seus sorrisos sairiam todos meio antipáticos naquela hora – Quero dizer, realmente, é a primeira vez que eu encontro alguém que escapou da lâmina da Dora.
— Ahm, o prazer é meu, Tan-Tané-...
— Thanatos.
— Thanatos...
— Isso mesmo – o rapaz sorriu e viu o mortal fazer a mesma coisa, mesmo que muito sutilmente.
— Por que vocês vieram aqui?
— Eu já disse, queria ver como você estava – Pandora murmurou – Acho que eu talvez o tenha assustado um pouco ontem.
— Um pouco? – Thomas não pôde conter a risada sarcástica que deixou os seus lábios – Não sei se você se lembra, mas você não parava de me ameaçar com aquela sua faca! Ah, e você me fez praticamente expulsar Audrey da minha casa...
— Audrey é sua namorada? – Thanatos perguntou, mas se arrependeu de o ter feito ao ver como o rosto do mortal ficou vermelho e como a amiga lançou-lhe um olhar irritado – Acho que não.
— Ela é minha amiga.
— Ela chegou num momento importuno – Pandora falou – Foi bem feito ela ter que voltar para casa.
— Não, não foi... Ela deve ter achado que eu fui rude com ela!
— Na verdade, ela achou que você estava, ahm, como vocês dizem? – a garota coçou o queixo enquanto tentava escolher as palavras certas – Ela achou que o havia interrompido em um momento meio delicado.
— Como você...!?
— Eu ouvi a conversa de vocês, Thomas.
— Você não tinha o direito de ficar ouvindo e também não tinha o direito de invadir a minha casa e...
— Os dois pombinhos podem parar de brigar por um segundo? – Thanatos, que havia se sentado no sofá da sala de estar, perguntou e revirou os olhos – Pandora, você viu que ele está bem, está feliz agora?
— Na verdade...
— Sim, você está radiante de felicidade – o rapaz falou sarcasticamente – Aliás, você não tinha um trabalhinho para fazer, tipo, lá na França? – ele riu ao ver a careta que a outra fez – Você tinha esquecido, não? É melhor voltar para o Mundo In... – Thanatos olhou de relance para Tom, antes de continuar – Voltar para o Mundo e ir correndo para Lyon, onde há alguém a esperando... Não queremos mais acidentes... – ele apontou para o mortal — ... Como este.
— Cale a boca – a garota resmungou – Tchau, Thomas.
O jovem Harper já estava abrindo a boca para perguntar do que eles estavam falando quando Pandora levou a mão até o seu pescoço e murmurou alguma coisa que ele não conseguiu entender o que era... Isso antes de praticamente se dissolver em sombras e sumir do campo de visão dele.
— Mas o que...?
— Ela voltou para o nosso lugar – olhou para o lado e viu que Thanatos ainda estava ali na sua sala – A partir de lá ela pode seguir para a França e fazer o que precisa fazer.
— Você quer dizer... matar alguém?
— Ceifar a alma de alguém – o ceifador pareceu irritado – Não matamos, apenas retiramos a alma.
— E isso não é matar?
— Ahm... mais ou menos, mas é uma coisa necessária. Você, por exemplo, se tivesse sido morto por aquele assaltante e sua alma não tivesse sido ceifada... Bom, seu corpo iria morrer, mas a sua alma ainda estaria lá dentro, entende? Vocês morrem, se matam, são mortos ou sei lá o que... Nós retiramos a alma do corpo.
— Mas vocês podem matar? Por exemplo: uma pessoa que não está com a morte marcada para tal hora tem a alma ceifada, o que acontece? – Thomas perguntou, começando a se sentir mais a vontade com a presença do outro.
— Aí a pessoa morre – Thanatos explicou. Tom percebeu que o rapaz gostava de gesticular enquanto falava – Quando nós ceifamos alguém, a alma não sai imediatamente, ela demora um pouco.
— Quanto tempo?
— Depende da pessoa e do tipo de morte – o ceifador falou, vendo o outro garoto finalmente se sentar no sofá, mesmo que fosse a uma boa distância dele – Mas quando um ceifador tira a alma sem que fosse uma coisa programada, bom, a pessoa acaba morrendo.
— Morrendo do que?
— O coração simplesmente para de bater – Thanatos deu de ombros – Sem alma não há uma coisa que impulsione o corpo, entende? O coração para e a pessoa morre.
Tom engoliu em seco, imaginando com deveria ser estar bem em um instante e, no outro, ter todas as funções vitais sendo desligadas de repente, tudo por causa de uma pessoa que arranca a sua alma de seu corpo.
— E... isso ocorre com freqüência?
— Um ceifador matar um mortal sem mais nem menos? Não, quero dizer, não temos razão para acabar coma vida de um mortal sem razão aparente – o rapaz fez a melhor cara de inocente que conseguia enquanto olhava para Thomas – Somos criaturas pacíficas, Tom... Posso te chamar de Tom?
— Pode.
Tom desviou o olhar do ceifador e ficou olhando para o nada enquanto processava todas as informações que havia recebido nos últimos minutos. Era incrível pensar que a menos de um dia atrás ele nunca havia se preocupado com a morte e agora ele estava totalmente envolvida com criaturas que eram a morte em pessoa.
— Thanatos?
— Diga – os olhos cinzentos do rapaz estavam presos em um pote cheio de balas de gomas que descansava em cima da mesinha de centro da sala – Posso pegar uma?
— Fique a vontade – Thomas contei uma risada enquanto respondia – Vocês, ceifadores, não nasceram assim, certo?
— É claro que não – o garoto falou enquanto pegava algumas balas e as analisava – Adoro as azuis... De qualquer maneira, nós já fomos pessoas normais, entende? Mortais.
— E como vocês ficaram... assim? – Tom encarou a figura sentada no sofá de sua sala.
— Nós morremos.
— Então, você e Pandora já estão mortos?
— Isso mesmo.
— E... posso perguntar como vocês morreram? – o garoto mortal perguntou, tomando cuidado com como ele fazia aquela pergunta, não querendo ofender o outro.
O olhar de Thanatos deixou as balas de goma em sua mão e se perdeu no nada. Era como se ele não estivesse na sala,na presença de Thomas, e sim contemplando alguma outra cena que se passava em sua frente.
— Pandora não gosta de falar da morte dela, por isso não irei falar, certo? – Tom concordou com a cabeça – Quanto a minha pessoa... Eu lutei na Primeira Guerra Mundial, nas trincheiras.
— Entendo – o garoto murmurou – Olha, se não quiser...
— Um dia uma granada explodiu perto de onde eu estava. A maioria dos outros rapazes que estavam comigo conseguiu escapar, mas eu não consegui me proteger a tempo – o ceifador soltou uma risada baixa ao ver os olhos azuis do outro se arregalarem — Você deve estar achando que eu explodi em um milhão de pedacinhos... Bom, não foi assim. Eu estava a uma distância segura para não explodir junto com a granada, mas um estilhaço me acertou bem aqui – ele ergueu o braço e tocou a sua própria nuca – Nem percebi que havia morrido.
Thomas não sabia o que falar, então apenas ficou encarando o rapaz a sua frente, que havia se inclinado para alcançar o pote de balas e agora estava a procura de uma bala de goma azul, tentando imaginá-lo vestido com uniformes dos soldados da Primeira Guerra. Depois de um tempo, decidiu que era melhor não tentar imaginar o outro com aquelas roupas, pois todas as vezes que tentava, acabava formando a imagem do garoto caído no chão, morto, com um pedaço de granada enfiado na nuca.
— Seu nome, Thanatos, não é verdadeiro, certo?
— Claro que Thanatos é um nome verdadeiro.
— Quero dizer que não é o seu nome de batismo.
— Ah, não – o ceifador riu – Você tem que ser mais específico nas suas perguntas, Tom.
— E qual é o seu nome?
O rapaz ergueu os olhos cinzas para encará-lo com um sorriso divertido no rosto.
— Pandora me perguntou a mesma coisa quando me conheceu. Meu nome era Frank, mas prefiro Thanatos... Frank era muito comum – ele comeu as balas que restavam em sua mão, antes de erguer a manga do casaco preto que usava e olhar para consultar o relógio de pulso que estava usando – Olhe a hora... Foi bom conversar com você, Tom, mas o trabalho me chama.
— Para onde você vai? – Thomas perguntou ao ver o outro se levantar do sofá.
— Nova York – ele deu uma piscadela – A cidade que nunca dorme... Alguém vai dormir para sempre lá.
— Ahm, aproveite a viagem? – o mortal deu um sorriso nervoso.
— Pode deixar – assim como Pandora havia feito, Thanatos segurou um pingente prateado que estava usando, antes de sorrir para o garoto – Até mais ver, Thomas.
E, ao dizer isso, murmurou alguma coisa e se dissolveu
Notas finais
1- Morte do Than: o estilhaço da granada acertou ele no bulbo [ http://tinyurl.com/26foh3r ], que se localiza no centro respiratório :B Lesões no bulbo são perigosas... imagine um estilhaço de metal perfurando o negócio com aquela força da explosão. Ui.
2- omg, eu quase chorei escrevendo o começo do cap. ):
Espero que tenham gosto (:
Beijos ;*
Dorea.
Fale com o autor