Pandora
7 Morte confusa
— Eu adoro essa parte.
Thomas virou o rosto para olhar Audrey, que estava sentada ao seu lado no sofá da sala com toda a sua atenção voltada para a imagem de Daniel Radcliffe que aparecia na tela da televisão.
— Gosta de ver o ruivinho ser quase esmagado por uma peça de xadrez gigante? – o rapaz fez uma careta.
— Gosto de ver a partida de xadrez bruxo – ela riu – E, ah, é legal ver o Ron se sacrificando pelos amigos...
— Você é louca – o garoto murmurou.
— Você também – Audrey deu um soco de leve no braço do amigo – Acho que é por isso que agüentamos um ao outro.
— É, acho que sim...
Havia se passado um dia desde que vira Pandora pela última vez e, desde então, não havia mais tocado no assunto “ceifador” com Audrey, não querendo envolvê-la em toda aquela história. Por sorte, a garota ainda achava que a pesquisa que ele pedira a ela era apenas mais um surto de curiosidade por um assunto aleatório que ele tivera e não desconfiava do que havia acontecido.
— Tom?
— Hm?
— Você parece meio aéreo nesses últimos dias – a menina franziu o cenho, finalmente tirando os olhos do filme e olhando para o outro – Desde aquele dia que eu vim aqui e você agiu esquisito.
— Eu só estou preocupado – ele murmurou.
— Preocupado com o que, Thomas Harper? – Audrey fez uma expressão séria, mas logo começou a rir.
— Com... o colégio?
— Tom – a garota revirou os olhos – Nós estamos de férias, você não pode estar preocupado com o colégio! Você, por acaso, está com saudades dos seus pais?
O rapaz fez uma careta ao ouvir a pergunta. Eram raras as vezes que seus pais viajavam e o deixavam sozinho, e, todas as vezes que isso acontecia, o garoto se sentia meio perdido, apesar de gostar do sentimento de liberdade que sentia ao se ver longe dos olhos de Doris e William Harper. E depois de tudo o que havia acontecido depois que seus pais foram viajar, Thomas estava com ainda mais saudades deles.
— Sim, mas não é por isso que eu estou assim, pode acreditar.
— Você sabe que pode contar comigo sempre que precisar, certo?
Ele olhou para a amiga e sentiu um nó se formar em sua garganta, como se toda a história sobre os ceifadores estivesse entalada ali, querendo sair o mais rápido possível... Mas ele não podia contar! Sabe-se lá o que Thanatos podia fazer caso descobrisse que ele havia contado a Audrey sobre eles! Ele não tinha nada contra o ceifador, até havia simpatizado com ele, mas morria de medo que o rapaz achasse que fosse necessário “dar um jeito” nele e em sua amiga por eles saberem coisas demais.
— É claro que eu sei, Drey.
— Que bom, Tommy.
— Ah, não esse apelido – ele riu, seguido pela garota – Minha mãe me chama assim.
— Own! Mas é porque você é o nosso Tommy – disse Audrey enquanto erguia uma mão e apertava a bochecha do amigo.
— Pare com isso – o garoto balançou a cabeça, livrando-se da mão da amiga, e riu – De vez em quando eu me pergunto quem e pior, você ou a minha mãe.
— Sua mãe é um amor, Tom – a menina sorriu – Oh, aliás, eu gostaria de perguntar: eu sei que você deve estar se sentindo terrivelmente solitário nessa casa, sem os seus pais – ela riu ao ver o amigo revirar os olhos e soltar um muxoxo – Então eu decidi ver se você não gostaria de ir no aniversário do meu avô comigo.
— Aniversário do seu avô? – o rapaz ergueu uma sobrancelha, estranhando o convite da outra.
— Sim, ele vai estar fazendo setenta e dois anos – ela sorriu – E eu sei que vou ficar meio isolada naquela festa... Então, que tal nos isolarmos juntos?
— Pode ser. Quando vai ser a festa?
— Então – Audrey riu – Eu não me lembro o dia direito, vou falar com a minha mãe hoje e te aviso depois, certo?
— Certo – o garoto sorriu e apontou para a televisão – Olhe, seu namorado, Voldemort, vai aparecer.
****
Thanatos ergueu a cabeça para olhar a cena que se desenrolava a alguns metros dele. Uma garota estava caída no meio da rua com várias pessoas ao seu redor, incluindo alguns paramédicos que tentavam reanimá-la. O ceifador sabia que não havia mais nada que aqueles mortais poderiam fazer para salvar a vida daquela moça, afinal de contas, a hora dela já havia chegado.
— Eu não gosto de tirar almas de jovens – ele murmurou.
— Eu não gosto de trabalhar com crianças.
O rapaz se virou para ver sua amiga, Pandora, parada logo atrás de si. Os olhos azuis dela estavam presos no corpo da garota que continuava estirado no asfalto.
— Mas não podemos fazer nada, certo? – Thanatos deu ombros.
— Certo – ela suspirou, dando as costas para a cena bem a tempo de não ver um dos paramédicos abaixar a cabeça e murmurar alguma coisa parecida com “Nós a perdemos”.
— Quer comer alguma coisa?
— Não estou com fome, Than – a ceifadora deu um sorriso sem graça enquanto se afastava.
— E eu posso saber a razão da senhorita estar tão tristonha? – o rapaz colocou uma mão no ombro da amiga, tentando animá-la.
— Eu não estou tristonha.
Thanatos deixou-se observar a menina com cuidado. Pandora estava estranha nos últimos dias... Quase não saía de seu quarto quando eles estavam no Mundo Inferior, não ficava muito tempo no mundo dos mortais e falava cada vez menos com ele. O rapaz a conhecia a muito tempo para ter certeza de que havia alguma coisa incomodando a amiga.
— Não me diga que é o mortal – ele sussurrou.
— Droga, Than – Pandora chutou um pacote de bolachas que estava jogado no chão – É ele sim.
— Pandora, minha cara – o ceifador suspirou fundo e deu um sorriso meio triste para a outra – Você devia saber que ele está fora do seu alcance. Você é uma ceifadora e ele é um mortal... Um mortal que um dia será ceifado por um de nós.
A garota não falou nada, apenas continuou andando de cabeça baixa e mãos enfiadas nos bolsos. Os dois não atraíam muita atenção no meio da multidão de Londres, apesar de seus olhos nada peculiares e suas aparências pálidas, o que deixava muito mais fácil a tarefa de ir atrás das vítimas naquela cidade. Para os ceifadores, quanto mais gente, melhor. Fica mais difícil de alguém o notar quando há muitas pessoas em volta.
— Ele é legal e tudo mais, mas ele é um mortal – o rapaz murmurou – Um mortal que tem uma vida toda pela frente.
— O que você quer dizer? – Pandora parou de andar para encarar o amigo.
— Thomas Harper não vai abandonar a vida dele para ficar com alguém que não pode viver no mesmo mundo que ele para sempre, Dora. Eu sei que é difícil aceitar isso, mas vocês dois vivem em mundos diferentes...
Os dois adolescentes ficaram em silêncio por um tempo, encarando um ao outro, até que a garota suspirou e deu as costas para o amigo.
— Aonde você vai?
— Vou visitar ele.
— O que? Pandora! – Thanatos correu até ela e a agarrou pelos ombros, virando-a para encará-lo – Você ouviu ao menos uma palavra do que eu falei, sua louca!?
— Ouvi todo o seu discurso, Than.
— E mesmo assim você vai atrás do mortal?!
— Thanatos – a garota revirou os olhos e esquivou-se das mãos do outro – Quem disse que eu estou apaixonada pelo Thomas? E o que você sabe sobre se envolver com mortais? – o rapaz não falou nada, apenas ficou encarando a amiga com seriedade – Então, por favor, deixe-me tomar conta disso do meu jeito.
— Pandora...
— Volte para casa, Than – disse a garota – E, por favor, não bagunce a casa, eu a arrumei hoje cedo.
Thanatos não tirou os olhos da figura da ceifadora até que ela desaparecesse no meio da multidão que estava na rua. Quando Pandora finalmente sumiu de seu campo de visão, o rapaz respirou fundo e fechou os olhos, não querendo pensar no que a amiga havia acabado de lhe dizer.
***
Tom esticou as pernas sobre o sofá enquanto mudava de canais da televisão. Audrey havia acabado de sair de sua casa, logo depois deles terem assistido os dois primeiros filmes da série de Harry Potter, e agora ele estava sozinho em casa e sem nada o que fazer.
Um sorrisinho apareceu nos lábios do rapaz enquanto ele se lembrava do dia que havia tido com a amiga. Ficar ao lado de Audrey sempre o animava, não importava o que eles fizessem... E isso sempre fora assim, desde que eles se conheceram no primeiro ano do ensino médio.
O sorriso do garoto se alargou quando ele se lembrou do convite que a adolescente havia feito a ele. Certo, talvez o aniversário do avô dela não fosse o melhor passatempo que existisse, mas aquela era a primeira vez que Audrey o convidava para conhecer o resto de sua família. Aquilo era uma coisa importante, não? Ele conhecia os pais da amiga, Agatha e William Brown, mas nunca havia visto outro parente dela. A mesma coisa se aplicava a garota: ela conhecia os seus pais, mas não sabia mais coisas sobre o resto de sua família.
— Bom dia.
Thomas levantou-se do sofá com um pulo ao ouvir uma voz feminina chamar o seu nome.
— V-Você... De novo!
Parada no canto da sala estava Pandora Grim. Seus cabelos negros estavam presos em uma trança frouxa e sua franja cobria parte de seu rosto pálido, os olhos azuis brilhantes olhavam a sala de cima a baixo, tentando absorver todas as informações que o lugar podia oferecer, e seus lábios estavam pressionados um contra o outro, como se ela estivesse tensa.
— Eu, de novo...
Tom franziu o cenho ao perceber como a voz da garota estava sem aquele tom brincalhão que ele sempre ouvira nos seus encontros prévios.
— O que você quer? Pensei que tivesse voltado para o seu Mundo Interior...
— Inferior.
— O que?
— Mundo Inferior, não Interior – ela revirou os olhos – E, sim, eu voltei para lá, mas estou sempre volto ao mundo dos mortais.
— E você decidiu me visitar de novo? – o rapaz estreitou os olhos.
A ceifadora fechou os olhos e respirou fundo. Realmente, a garota parecia perturbada. Principalmente quando ela abriu os olhos e o encarou com olhar sério.
— O que você fez comigo, Thomas Harper? – a voz de Pandora saiu baixa e com um tom de tristeza.
— O que eu fiz? Do que você está falando, Pandora?
— Você se lembra do meu nome – um sorrisinho apareceu no rosto da adolescente, antes que ela sacudisse a cabeça, desfazendo parte de sua trança, e continuasse a falar – Não! Pandora, controle-se! Você – o rapaz arregalou os olhos quando ela voltou a olhá-lo – Você é o meu trabalho que deu errado! Você deveria estar morto se não fosse por um erro meu! Você, Thomas Harper, é um erro meu...!
— O-Olhe, o seu erro não foi tão ruim assim, Pandora – o garoto deu ênfase ao nome dela, esperando que a ceifadora se acalma-se ao ouvi-lo sendo pronunciado por ele – Se não fosse por isso, eu não...
— Então por que eu sinto essa vontade estúpida de ficar perto de você?
Aquelas palavras foram um tapa no rosto de Tom. Pandora sentia uma vontade estúpida de ficar perto dele? O que isso queria dizer? Que ela estava apaixonada por ele? Que ela estava frustrada por tê-lo deixado viver?
— Quero dizer, eu nunca senti isso quando estava viva – a ceifadora segurou a cabeça com as mãos e fechou os olhos – E nunca nos meus sessenta e seis anos de ceifadora eu senti essa... essa coisa.
— Q-Que coisa? – Thomas estava até com medo da resposta, mas a curiosidade falou mais alto.
— Eu quero ficar perto de você, Thomas, quero saber como você está, quero que você fique seguro e que não fique triste – ela voltou a abrir os olhos e observá-lo – Eu preciso ter certeza do que eu estou sentindo, caso contrário isso vai me deixar louca!
Tom pensou em dizer “Mas você já não é?”, mas achou melhor ficar quieto.
— Você não me conhece – o rapaz sussurrou – A única coisa que sabe sobre a minha vida é que eu deveria ter morrido naquele assalto...
— Eu sei que você é filho de uma psicóloga e de um dentista – Pandora o interrompeu – Você sempre morou em Londres, mas já viajou para a Irlanda, França e Estados Unidos, sem contar outras cidades da Inglaterra, acompanhando seus pais em congressos, mas gostaria de poder viajar sozinho pelo interior do país – os olhos do garoto se arregalaram enquanto ouvia o que a outra dizia – Você adora ficar no computador, ver filmes e ler livros com enredos fantasiosos. Um dos seus livros favoritos é Harry Potter e você adora o Voldemort, apesar dele ter matado alguns de seus outros personagens favoritos...
— Como é que você...?
— Sua família é pequena, tem apenas os seus pais e alguns tios e tias. Você não tem avós, todos já morreram e você sempre fica se perguntando como seria a sua vida caso eles ainda estivessem vivos – Pandora parou de falar um pouco para tomar um fôlego antes de continuar – E você tem medo de dirigir porque sua avó morreu num acidente de carro.
Agora Thomas não tinha mais o que dizer, ou melhor, não conseguia dizer mais nada. Tudo o que a ceifadora havia dito era verdade e o fato dela saber de tudo aquilo era terrivelmente assustador. O rapaz abriu a boca para tentar arquitetar uma resposta, mas voltou a fechá-la ao perceber que, se falasse, sua voz sairia trêmula.
— Você sonha em se tornar animador de algum estúdio importante, mas acha que isso é quase impossível de acontecer, por isso nunca falou isso aos seus pais – a adolescente mordeu o lábio inferior e olhou para o outro – Eu sei mais coisas sobre você do que qualquer outra pessoa viva, então, não venha me dizer que eu não sei nada sobre você, Thomas.
— Como...?
— Tenho meus meios – ela deu um sorrisinho.
Tom observou enquanto a garota finalmente se movia do lugar aonde estava parada desde que chegara em sua casa e ia em sua direção. Ele queria poder sair dali, correr o mais rápido possível, mas suas pernas pareciam ter virado chumbo de tão pesadas que elas pareciam estar, impedindo que ele se movesse.
— Pandora...
— Sim? – ela murmurou, parando apenas quando seu rosto estava apenas a alguns centímetros do rosto do outro.
— O que você...?
A sua frase foi interrompida pelos lábios da garota, que se fecharam sobre os seus com delicadeza. Thomas sentiu um arrepio ao sentir o toque de Pandora: era como estar beijando uma pedra de gelo, uma pedra de gelo macia, mas não menos gelada. Os dedos pequenos da ceifadora acariciaram o seu rosto delicadamente, arrepiando-o ainda mais.
Quando a garota afastou os lábios do dele, Tom abriu os olhos para ver que a ceifadora parecia tão confusa quanto ele.
— Eu... – ela começou a falar, mas, ao invés de terminar a frase, levou a mão ao pingente prateado em seu pescoço.
— Não, espere um pouco! – disse o rapaz, sabendo o que iria acontecer e segurando o pulso da outra.
— Descendere – a palavra saiu tão baixa dos lábios da menina que Thomas quase nem a escutou.
Como esperado, Pandora se dissolveu em sombras, fazendo com que a mão do rapaz se fechasse no ar assim que seu corpo sumiu. Tom ficou olhando para o nada a sua frente, antes de respirar fundo e passar uma mão pelos cabelos negros, tentando entender o que havia acabado de acontecer.
Pandora Grim o havia beijado. Uma ceifadora o havia beijado. Uma pessoa morta o havia beijado... Mas aquilo não era o mais assustador para o garoto Harper, não, o que o realmente assustava era o fato daquela moça saber de coisas sobre a sua vida que ninguém sabia, coisas que ele nunca havia contado aos seus pais e nem a Audrey.
Audrey... Pelo menos a ceifadora parecia ter concentrado as suas “pesquisas” em Thomas e não em seus amigos. Ele se perguntava o que aconteceria se Pandora descobrisse sobre a sua amiga. Será que ela iria ignorar a existência da menina? Ou iria ficar com ciúmes por Tom ter uma amiga tão íntima quanto Audrey?
Tom tinha que fazer alguma coisa. Pandora podia parecer uma garota doce, mas ele tinha a pequena impressão de que a moça poderia se tornar perigosa quando queria, e ele não queria arriscar ver a fúria da ceifadora direcionada a ele ou a sua amiga.
Notas finais
Sejam fofos e deixem reviews dizendo o que acharam, okay? *3*
Beijos ;*
Dorea.
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