Pandora

2 A morte atrasada


A luz da tela do computador iluminava a pele pálida do rapaz, deixando-a com um aspecto meio azulado, enquanto ele se inclinava em sua cadeira, lendo o texto que preenchia a página aberta.

— Tommy...?

O garoto revirou os olhos ao ouvir a mãe o chamar pelo apelido, mas mesmo assim desviou os olhos da tela do computador e olhou para a mulher, que agora estava parada na porta de seu quarto, encarando-o. Ela não falou nada por um tempo, apenas tateou a parede a procura do interruptor de luz e, quando o encontrou, apertou o botão, acabando com a escuridão do cômodo.

— Você vai acabar com os seus olhos desse jeito – a mulher falou – E com a sua coluna também, sente-se direito, pelo amor de Deus.

O rapaz não reclamou, apenas se ajeitou na cadeira e olhou para a mãe. Doris Harper tinha os cabelos escuros presos em um coque e os olhos castanhos encaravam o filho como se estivesse tentando analisar o que ele estava pensando, mas logo ela perdeu essa postura de observadora e aproximou-se do filho, passando os braços ao redor dele num abraço carinhoso.

— Me prometa que você vai se comportar – Doris falou, afastando-se do garoto – Eu sei que você já tem dezessete anos e sabe se cuidar sozinho, mas...

— Mãe, se você quer que eu prometa que eu não vou fazer nenhuma besteira, pode ficar tranqüila – o rapaz sorriu calmamente – Olhe a minha cara de quem tem vontade de, por exemplo, dar uma festa enquanto os pais estão viajando.

— Eu confio em você – ela acariciou os cabelos escuros do filho – Só me prometa que não vai se meter em confusão.

— Eu prometo, mãe.

— Muito bem – Doris sorriu – Lembre-se: nós estaremos o tempo todo com os celulares, pode ligar se qualquer coisa acontecer... – a atenção do rapaz foi desviada da conversa da mãe quando ele viu o pai passar pela porta de seu quarto e espiar lá dentro, vendo que a mulher continuava lá — ... E não vá dormir muito tarde, não passe o tempo inteiro sentado aí na frente...

— Mãe.

— O que?

— O pai está esperando você – ela se virou e viu o marido parado na porta, apontando para o relógio, avisando-a de que eles estavam quase atrasados – É melhor vocês irem.

— É verdade, bom, então, até – a mulher deu um beijo estalado na bochecha do filho, antes de sair do quarto.

O garoto deu um rápido aceno para o pai, antes que o casal desaparecesse da porta de seu quarto e, assim que eles desapareceram, relaxou contra a cadeira, novamente estragando a sua postura. Quando ouviu a porta da frente bater, o rapaz levantou-se e foi até a janela, abrindo as cortinas e observando quando o carro dos pais saiu da garagem e se afastou pela rua até desaparecer na esquina.

Thomas Harper suspirou e se jogou na cama. Diferente de algumas pessoas que ele conhecia, o garoto não sentia a menor empolgação ao saber que seus pais estariam a quilômetros de distância nos próximos dias. Ele não era o tipo de adolescente que aproveitaria a ausência dos pais para dar festas ou ficar até de madrugada fora... O máximo que ele faria era ficar até de madrugada na frente do computador, vendo filme ou jogando videogame. Thomas, mais conhecido como apenas “Tom”, tinha a pele pálida devido ao fato de quase não ficar no Sol, olhos azuis claros e cabelos castanhos escuros. O garoto não tinha o melhor físico do mundo, já que não praticava esporte algum (na realidade, tinha uma certa aversão a esportes, já que sua coordenação motora não era das melhores, como ele gostava de dizer): era magro e parecia meio desengonçado.

O telefone tocou, fazendo com que Tom se sobressaltasse, pulando da cama e correndo até o criado mudo para atendê-lo.

— E aí, seus pais já saíram? – a voz feminina do outro lado da linha perguntou.

— Sim.

— Opa! Hora da festa!

— Audrey, você sabe que...

— Eu sei muito bem que você não vai dar festa nenhuma, meu amigo – a garota riu no telefone – Eu o conheço muito bem, sei como funciona a sua cabecinha, mas, de qualquer jeito, maratona de Harry Potter ai na sua casa hoje, que tal?

Tom riu e ouviu que a amiga o acompanhou na risada no outro lado da linha.

— Tudo bem, que horas?

— Hm... Lá por sete horas?

— Pode ser – a menina falou – Te vejo às sete!

Antes que pudesse falar algo, a amiga já havia encerrado a ligação. Colocou o telefone no gancho e sentou-se na cama, pensativo. Audrey Brown era sua amiga desde o começo do ensino médio, quando ela havia acabado de entrar na escola. Ele ainda se lembrava da primeira imagem que teve dela: uma garota baixinha de cabelos castanhos presos num rabo de cavalo frouxo e que usava óculos pesados que ajudavam a esconder o seu rosto. O garoto também se lembrava que ela estava segurando um livro aberto quase na altura dos olhos, mas o que atraiu a atenção do rapaz fora a camiseta que ela estava usando.

“Gostei da sua camiseta,” essa foi a primeira coisa que ele disse para a garota. A frase saiu da sua boca involuntariamente quando ele viu o desenho do Mario do jogo Mario Bros. estampado no tecido marrom da camiseta.

Não demorou muito para que os dois estivessem conversando como se já se conhecessem durante toda a vida e agora, depois de dois anos e alguns meses, eles eram melhores amigos.

Thomas suspirou e levantou-se da cama, decidindo que era melhor sair e comprar alguma coisa para eles comerem quando Audrey chegasse, afinal, era impossível para eles assistir a vários filmes sem ter um estoque de comida ao lado. Tendo isso em mente, o rapaz pegou o celular, conectando os fones de ouvido nele e depois colocando os fones em seus ouvidos, e enfiou-o no bolso do casaco azul escuro que estava usando, depois foi até a sua escrivaninha para pegar a cópia da chave de casa que seus pais haviam lhe deixado.

Assim que saiu de casa, o garoto não perdeu tempo e logo começou a andar na direção do mercadinho mais perto. Quando entrou na loja, lançou um olhar rápido para a mulher que estava sentada no caixa, prestando atenção em uma revista cheia de fotos de pessoas famosas, e depois seguiu para o corredor aonde ele sabia que estariam os produtos que ele desejava. Sorriu, tamborilando os dedos na própria perna ao ritmo da música que ouvia nos fones, enquanto decidia o que comprar... Pegou algumas barras de chocolate, pacotes de bala de goma e, é claro, saquinhos de pipoca. Depois, foi para perto dos freezers aonde as bebidas eram deixadas e pegou algumas latinhas de Coca-Cola e chá mate gelado.

Quando chegou no caixa e depositou todos os itens sobre o balcão, com cuidado para não derrubar nenhuma das coisas que estava equilibrando nos braços, a mulher finalmente ergueu os olhos e o encarou por um tempo, antes de deixar a revista de lado e começar a passar os itens, vendo o total que a compra daria. Tom tirou o fone de um dos ouvidos para poder ouvir se a caixa falasse com ele e esperou até que o preço total aparecesse no visor logo acima do computador dela. Quando os números azuis brilhantes indicando a quantia finalmente apareceram na telinha, o garoto tirou o dinheiro do bolso e entregou para a mulher, que encarou ergueu a nota contra a luz, estreitando os olhos para ver se ela era verdadeira ou não, e depois se virou para pegar o troco em moedinhas.

— Aqui está – ela murmurou, colocando as moedas na mão estendida do rapaz, antes de voltar a pegar a revista.

— Obrigado – ele sorriu levemente, voltando a colocar o fone de ouvido.

Thomas olhou para o relógio em seu pulso magro enquanto saía da loja. Cinco e quarenta da tarde... Logo Audrey estaria em sua casa, ele tinha que voltar rápido. Voltou a abaixar a manga do casaco sobre o relógio e voltou a andar, carregando as sacolas cheias de doces, pipoca e refrigerante.

Ele andou distraído pelas ruas, coisa que sempre acontecia quando ele estava com os fones de ouvido. A música evitava que ele escutasse qualquer barulho a sua volta e fazia com que ele ficasse totalmente alheio ao mundo ao redor. O garoto estava mexendo os lábios levemente, acompanhando a música silenciosamente, quando sentiu alguém agarrar o seu casaco por trás, puxando-o com força.

— O que...!? – ele resmungou, cuidando para não perder o equilíbrio e arrancando um dos fones de sua orelha. Assim que conseguiu se virar para ver quem o havia puxado, o rapaz sentiu todo o sangue do rosto se esvair.

— Me dê o negócio com o fone – era um homem que o havia segurado, mas agora ele já havia soltado o seu casaco, mesmo que aquilo significasse que o garoto agora poderia correr para longe dele... Ele sabia que o menino não faria isso, estava ocupado demais olhando para uma faca afiada que ele empunhava na mão direita.

— O-O que...? – a voz de Tom saiu trêmula.

— O negócio com os fones brancos, me dê! – o homem ergueu a faca, ameaçando o garoto, que logo puxou os fones e o celular de dentro do bolso.

Na hora de entregar o aparelho para o assaltante, as mãos trêmulas de Thomas acabaram deixando o celular escorregar por entre os seus dedos. O objeto bateu no chão com um estalo forte e o rapaz se encolheu, certo de que a tela já devia estar toda quebrada.

— Você está de brincadeira, pirralho!? – o homem se controlou para não gritar. A rua aonde eles estavam parados estava vazia, mas não era bom arriscar chamar atenção – Pegue essa droga de celular!

O rapaz engoliu em seco e se abaixou para apanhar o aparelho. Virou-o em sua mão e percebeu que a tela continuava inteira, mostrando uma foto do planeta Terra como plano de fundo.

— É bom esse negócio não ter quebrado – ele ouviu a voz do homem falar acima de si.

— N-Não quebrou... – ele mostrou o celular e deu um sorriso sem graça – Você ainda pode...Pode fazer sei lá o que vocês fazem com coisas roubadas...

— Está de brincadeira comigo, garoto?! – o assaltante levou a faca até o pescoço de Thomas – Você está muito falante, sabia?

— Des-Desulpe...

Nos minutos que se passaram, eles continuaram naquela posição e a primeira coisa que surgiu na cabeça do garoto foi a reação de Audrey quando ela chegasse em sua casa percebesse que ele não estava lá. O que ela iria fazer? Esperar um tempo, ele deduziu, e depois ficaria preocupada, ligaria para os seus pais... Ótimo, ele estragaria as férias dos pais logo no primeiro dia.

Enquanto pensava em todas as conseqüências que aquele encontro com o assaltante poderia ter, alguma coisa chamou a sua atenção. Pelo canto do olho, ele percebeu uma sombra que apareceu do nada a alguns metros deles. Tentou virar a cabeça para olhar melhor a forma escura, mas sentiu a ponta da faca cutucar o seu pescoço e preferiu ficar quieto. O homem percebeu que ele estava tentando ver alguma coisa e olhou para o lado.

— Que droga é essa? – Tom ouviu o homem murmurar, antes de afastar-se do rapaz, correndo para longe dele.

Thomas respirou fundo e sentiu os músculos de todo o corpo relaxarem ao ver aquele assaltante se distanciando dele. Sentiu uma pontada de dor no lugar aonde a faca estava sendo pressionada e levou uma mão até lá, tentando conter a dor. Quando afastou a mão, viu que os dedos estavam manchados de sangue... Quando ele se virou, a faca deve ter sido pressionada com mais força contra a sua pele, cortando-a, mas aquilo não era nada comparado com o que aquele bandido pretendia fazer.

— Nossa... – o rapaz sussurrou, percebendo um movimento ao seu lado e deduzindo que aquela sombra que ele havia visto era, na verdade, uma pessoa, talvez um policial, que havia assustado o assaltante. Decidiu que seria educado agradecer a pessoa por salvar a sua vida – Cara, muito obrigado por...

As palavras sumiram de sua boca assim que seus olhos encontraram o rosto da pessoa. Na verdade, não foi o rosto que ele viu, já que o desconhecido estava usando um capuz que lhe escondia as feições, mas ele podia ver um par de olhos azuis brilhantes no meio das sombras feitas pelo tecido... Não era um brilho normal, era uma coisa muito estranha, como se os olhos da pessoa fossem iluminados por uma luz azul intensa. Tom desviou o olhar do rosto do outro e analisou o resto de seu corpo. Ele estava uma calça e um casaco preto, os tênis também eram escuros, mas o que mais o assustou foi a mão da pessoa, ou melhor, o que estava na mão dela: uma faca cuja lâmina comprida e bem polida deixava a faca do homem que acabara de tentar assaltá-lo no chão.

“Mal me livro de um louco e já aparece outro!”, o rapaz pensou.

Antes que pudesse perceber, Tom já havia se levantado em um salto e já estava correndo a toda velocidade na direção de sua casa. Certo, ele estava levando o louco da faca direto para a sua casa, mas pelo menos lá ele tinha a chave para se trancar dentro do lugar e sabia que, se gritasse, alguém o ouviria. Quando já estava sentindo uma dor aguda logo abaixo das costelas, o garoto avistou a sua casa e, sem olhar para trás, acelerou a corrida.

Brigou com as chaves por um minuto ou dois, já que suas mãos se recusavam a parar de tremer, o que tornava o trabalho de colocar a chave na fechadura e a girar para abrir a porta bem mais difícil. Assim que conseguiu abrir a porta, entrou rapidamente e fechou-a com força atrás de si.

O peito do garoto subia e descia rapidamente com a sua respiração acelerada enquanto ele se apoiava na porta de entrada e deslizava até o chão. Isso nunca havia acontecido com ele! Ele nunca fora assaltado, ninguém nunca havia tentando o assassinar, nunca encontrou um louco na rua... Por que estava acontecendo aquilo agora?

— Nossa, você é rápido!

Os olhos azuis de Thomas se arregalaram quando ele ouviu uma voz soar a alguns metros dele, dentro de sua casa. Havia uma garota parada na sua frente. Uma garota usando roupas pretas e que tinha os cabelos negros caindo-lhe sobre o rosto, escondendo um dos olhos azuis brilhantes que haviam assustado tanto o garoto. Ele nem precisou olhar para saber que a faca também estava na mão da garota.

— Acho que você esqueceu a janela da cozinha destrancada, Sr. Harper.

A última coisa que Tom viu foram os lábios da adolescente sendo repuxados em um sorriso quase que maníaco, antes de tombar para o lado, vendo o mundo escurecer a sua volta.

Notas finais
N/A: Queria um amigo como o Thomas...

Reviews são lindos e sempre ajudam o autor a saber o que os leitores estão achando e o que eles querem ver na história

Dorea.