Pandora
4 Uma versão renovada da velha.
Acordei na manhã seguinte da mesma forma que acordaria no dia seguinte, na semana seguinte e no mês seguinte.
Tudo era inteiramente vazio e estático em um cinza nublado meio mórbido, meio triste, meio muito demais para que eu pudesse sentir e meio muito de menos para que eu quisesse sentir.
Se você já teve o seu coração partido, sabe exatamente como é essa fase. Aquela que você acredita que nada nunca vai fazer com que você se sinta do mesmo jeito, nada nunca vai te completar daquele jeito.
Podia me ver naquela cena de Crepúsculo, com a Bella sentada na mesma posição em sua janela enquanto se passam os meses, se trocam as estações. No meu caso, porém, não se trocaram todas as estações, mas se passaram os tão esperados dias antes do Natal, e eu continuei deitada em minha cama, sem mover um músculo.
Minha mãe me acordou na manhã de Natal com um café na cama, um sorriso no rosto e uma violenta abertura das cortinas.
Eu não queria me sentar na cama e olhar para o vazio que era a caminha de Félix ao lado da minha mesa de estudos. Mas não podia negar que estava morta de fome ou aquelas panquecas feitas na hora da senhorita Shila — a única mãe indiana daquela parte do subúrbio.
Sentei-me com as pernas cruzadas e ela se sentou a minha frente, nós duas comemos as panquecas que estavam no mesmo prato, com garfos diferentes, sem trocar olhares. Ela sabia o quanto aquilo era difícil para mim, e eu sabia que aquilo também era difícil para ela, ainda mais, quanto eu estava assim.
—Sajni, você precisa fazer alguma coisa. – Ela suspirou, colocando seu garfo em cima da mesinha em que trouxe a comida.
—Eu sei.
—Então você vai limpar seu quarto.
—Porque? – Bufei, naquele tom típico de criança mimada.
—Você confia em mim?
—Sim, mãe.
—Então faça. Precisando de ajuda, eu estou lá embaixo. Vou te chamar quando o almoço estiver pronto. Mas você só ganhará seus presentes depois que acabar, tudo bem? – Seu sorriso iluminou meu quarto, abrindo um caminho entre o escuro e o nublado que estava ao meu redor.
Não havia mais porque pestanejar, mas o fiz mesmo assim. Assim que minha mãe saiu do quarto, cobri-me e deitei entre as cobertas que já estavam bagunçadas em minha cama.
Não estava confortável, principalmente, sabendo que havia ordens para que cumprisse. Tentei me arrumar na cama, entre as cobertas e os travesseiros, apenas para atingir meu pé em meu telefone.
Não havia ligado meu telefone desde o dia em que Félix morreu, assim como meu senso de amizade. Era provável que ele estava jogado naquele mesmo lugar há uma semana.
O liguei na tomada e ele acendeu. O vi vibrar incessantemente durante uns bons 10 minutos. Fiquei o observando sem me mover, e todas as vezes que eu achava que ele ia parar, subia mais uma notificação.
Arrependi-me e resolvi levantar.
Segui até o banheiro, e, pela primeira vez em algum tempo, vi meu reflexo. Meu cabelo colado ao couro cabeludo, oleoso. Minha pele escura e marcada em espinhas. Minhas unhas malfeitas. Meu sorriso que desaparecera.
Não pensei duas vezes e entrei no chuveiro quente. Chorei jogada ao chão do box pelo que seria a primeira vez, senti-me derrotada. Levantei-me com o ultimo sopro de força que havia em meu corpo e me lavei, realmente me lavei. Passar os dedos entre os fios de cabelo para retirar o shampoo ou acariciar a minha pele ensaboada me soou como outra fonte de energia.
Saí do banho nova, ou uma versão renovada da velha.
Enrolada na toalha, entrei no quarto. E, talvez pelo que fosse a primeira vez desde o ocorrido, o vi.
As paredes rosas do amplo quarto pareciam encardidas. Tudo fedia por estar fechado por muito tempo. O ar era empoeirado. Todas as minhas coisas estavam jogadas ao chão. Aquilo era mais do que um reflexo da minha mente e do meu coração, era um ambiente tóxico.
Abri as janelas, coloquei alguma calça de moletom confortável e uma blusa quentinha. Sequei meu cabelo no banheiro e prendi-o em um alto rabo de cavalo. A luz e o ar corrente já haviam melhorado alguma coisa.
Joguei tudo que ainda tinha algum lugar designado no chão. Fiz montes e montes com presentes de amigos falsos e namoradas traidoras. Iria tudo para o lixo. Redobrei minhas roupas e reorganizei minhas gavetas. Joguei fotos fora. Coloquei a caminha de Félix em um lugar especial em meu guarda-roupa, um local designado para suas coisas.
Já era noite, mas eu era nova.
Ou uma versão renovada da velha.
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