Pandora
5 Mãe.
Não poderia dizer que arrumar meu quarto e levantar-me da minha cama me fez feliz, porque acho que nada me faria feliz. Mas ajudou, em muito.
Levantei-me todos os dias que se seguiram, lavei meus cabelos sempre que precisava, desci e tomei café da manhã com minha mãe, arrumei minha cama, deixei de seguir muitas pessoas em todas as redes sociais, apaguei números, mensagens e notificações. Eu não tinha nada a dizer, muito menos o que fazer.
Passei a maior parte do meu tempo na sala, na grande sala de estar da nossa pequena casa. Vi e revi vários programas de televisão, comecei e acabei diversas séries da Netflix, suspirei incansavelmente.
Eu estava sozinha, pela primeira vez em toda a minha vida.
E, a coisa mais difícil a se fazer, é gostar de estar sozinha, é aprender que a sua companhia basta.
Então, não, eu não estive feliz em nenhum dos dias que precederam a minha mudança, mas eu estava melhor, muito melhor.
Eu coloquei roupas bonitas e tomei sorvete sozinha. Busquei documentos, fui aos correios, fiz compras para minha mãe. Eu vivi, fora de casa.
E, agora, precisaria aprender a viver em minha nova casa, onde a solidão me acompanharia, mas novas oportunidades surgiriam.
Shila fez vários biscoitos, me deu caixas com todas as comidas que eu gosto, chorou toda a noite e arrumou as minhas malas. Ela estava convencida de que eu daria conta, da forma mais “que eu não daria conta” possível. Ela me ensinou tudo que podia, de novo. Ela parou e comprou mais vasilhas, mais biscoitos e macarrão e essas coisas de casa. Ela parecia constantemente preocupada.
Chegamos ao que seria a minha versão de uma cidade grande. Bem “não tão grande assim”.
A duas ruas a pé do meu campus havia esse pequeno bairro cheio de flats, apartamentos de dois quartos e cafezinhos de esquina. O meu prédio era o primeiro, com uma dessas entradas de escada estreitas, já que havia uma lojinha de livros bem embaixo. Era tudo Londres, com tijolinhos vermelhos, sacadas e pilastras vermelhas.
Subimos com a ajuda do dono da livraria, colocamos todas as milhões de caixas perto das outras milhões de caixas que já tinham no minúsculo apartamento estúdio que ficava no terceiro andar.
Sentamos no chão, as duas. Reviramos algumas caixas e achamos alguns pacotes de biscoito que ela havia comprado na viagem não tão longa de ida. Comemos em silêncio.
—Você consegue estar mais nervosa do que eu achei que estaria. – Sorri.
—Eu passei por isso.
—Grávida, indiana, com 15 anos. Você passou por coisas muito mais difíceis pegando todo o dinheiro que sua família havia guardado para sua educação e se mudando para o subúrbio para me criar. Eu vou ficar bem, mãe.
—Eu sei que vai.
—Mas também sabe que não vou.
—E é com isso que eu me preocupo.
—Não deveria, porque você está meia hora daqui e eu nunca coloquei fogo na nossa casa.
—Então eu posso ir?
—Não, mãe, você nunca pode ir.
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