Pandora

6 Nova vida.


Existem certas frases e certos sentimentos que são clichês, que são comuns de mais para serem expressos nesse tipo inovador de forma de contar uma história. Então eu sentei na frente do computador e procurei uma definição melhor que essa para poder dar a vocês.

E, infelizmente, eu não achei.

Então, àquele dia fora o primeiro dia da minha nova vida.

Não me levem a mal, eu passei uns bons dois dias organizando todo o meu apartamento, conversando com minha mãe no telefone e procurando empregos de meio período. Essa nova vida estava em andamento, mas ela precisava de um grande evento para que realmente se iniciasse.

Era como a virada do ano, que nunca realmente é a virada de algo novo, mas a festa, as cores e a comoção fazem dessa data... Nova.

E, ingênua, achei que o primeiro dia de aula, meus primeiros passos dentro do Campus da faculdade e as digitadas mal compensadas em meu pequeno computador de algo, que nem sempre é realmente necessário, seriam esta festa de cores e comoção.

Mas não foi.

Dentre esses mitos que nos contam meio que desde sempre, existe aquele de que a faculdade é diferente, é inusitada, é estimulante. E não é nada disso. É só mais do mesmo.

O Campus era grande, com o mesmo estilo Londres do entorno do meu apartamento. Pensei que fosse algo planejado, o que, sinceramente, fez com que a beleza do lugar perdesse a graça. A faculdade era cercada por um alto muro de metal, e cerca de quatro ou cinco entradas rusticas.

As salas eram pequenos teatros, com arquibancadas imensas, cinzas e desconfortáveis, além de mesas pequenas ao lado direito de cada cadeira. Um inferno para minha mente canhota.

Os professores ficavam distantes, usavam microfones. A burocracia entrou em minha cabeça no primeiro dia de aula. Não fiz amigos. Não aprendi nada. Eu apenas assisti uma ou duas palestras de professores entediantes, além de participar de uma daquelas aulas demonstrativas sobre a instituição maçantes.

Eu estava cansada do meu primeiro dia da vida nova, e, por conseguinte, pouco animada para ela.

No horário do almoço, horário em que eu deveria ir para meu pequeno apartamento, cozinhar e respirar, meu corpo reclamava. Então fiz o que não deveria fazer.

Atrás do Campus havia uma espécie de bosque que dava no parque da cidade. Metade do bosque era da instituição e metade pública, separados pelo mesmo muro de metal que eu já começara a ver como inútil. Ali, entre algumas mesas, uma quadra e vários adolescentes fumantes, haviam algumas vendinhas de comida. Comprei alguma coisa gordurosa, evitando a vendinha natural. Sentei-me em um desses bancos de madeira quase caídos e suspirei, alto, insatisfeita.

Coloquei minha bolsa ao meu lado, cruzei as pernas sob o banco, tirei meu telefone do bolso e mordi um pedaço daquela especiaria de frango com gordura. Ouvi um grunhido, um grunhido conhecido e levantei minha cabeça com calma.

A minha frente estava esta peça, esse anjo.

Ela tinha ambas as orelhas empinadas para cima, um olhar desajeitado e brincalhão, um sorriso enorme com a língua para fora, as patas meio embaralhadas, sentava-se sob sua calda. Sua pelugem densa branca estava suja, já que havia vivido, claramente, muito tempo nas ruas. Mas nada havia de me conquistar mais que as manchas de lama envolta dos olhos.

Ela parecia um panda, um panda magrinho em forma de cachorro.

E ela sorriu para mim.

Sorriu e latiu, irritada pela falta de compartilhamento de alimentos.

Ela me fez rir por juntar os olhinhos irritados, e eu parti um pedaço da minha comida para lhe dar na boca.

Enquanto sorria e a alimentava com calma, um guarda se aproximou:

—É seu cachorro?

—Não, acho que é de rua.

—Não o alimente, temos que reportá-lo.

—E se for meu cachorro?

—Então, peço que o leve para casa, não permitimos cachorros dentro do Campus.

Assenti. Esperando que ele houvesse entendido as minhas intenções.

Olhei para ela, olhei para a saída. Em poucas horas, eu tinha mais uma aula.

Sorri.

-Panda, você quer ir para casa?

Ela latiu, abanou o rabo e levantou.

—Então vamos, para sua nova vida.