Pandora
6 Hey, this is not hell, right?
Notas iniciais
"Eu e Rose nos levantamos apenas para ver que o homem desconhecido estava correndo na direção da casa dos Weasley com a varinha em mãos.
Apontou para a janela.
Me joguei sobre Rose e caímos no chão enquanto o feitiço atingia o teto, que começou a rachar. Nós duas gritamos quando a porta se abriu com um estrondo."
Talvez me jogar com Rose em cima de mim no chão não tivesse sido a melhor ideia. Com as duas mãos agarrando-a, não tive nada para apoiar e acabei recebendo o impacto todo na área dos ombros e um pouco na cabeça. Larguei Rose, tentando me levantar, mas parei quando percebi que aquele era Rony Weasley quem havia adentrado o quarto. Logo atrás estava Hermione, ainda vestida com a roupa do dia. Correram para a janela e pararam, apontando a varinha para fora. Quando consegui me apoiar na parede, olhei pela janela e lá fora não havia ninguém. Nenhuma sombra ou rastro. Nada que afirmasse que alguém havia corrido por ali na última hora.
Me sentei na cama, tonta e com uma terrível dor de cabeça, daquelas em que você prefere desmaiar a sentir aquilo. Rose, por outro lado, apenas parecia confusa, mas estava bem.
– Carter, você está bem? — ela perguntou — Nossa, que idiotice a minha. Claro que você não está bem! Você está machucada?
Neguei com a cabeça, porém continuei em silencio. Cabeça abaixada, mãos no colo.
– Rose, você está bem? — Hermione a abraçou. Eu não havia notado o quanto a mulher devia amar a filha. Me senti péssima vendo que eu era a causa daquilo, daquela preocupação, e me senti mais ainda ao ver o olhar dela para mim.
No começo, eu podia ver claramente a raiva direcionada. Depois era pena. E em seguida medo. De mim. Das pessoas que me procuravam. Do perigo que eu trazia àquela família.
Hugo me trouxe gelo para por na parte dolorida da cabeça. Eu tentava falar, mas nenhuma palavra saía. Hermione disse que eu estava em estado de choque. Que iria passar. Iria mesmo? Eu iria conseguir fingir que nada daquilo havia acontecido? Que eu não estava apavorada? Aquele homem era a prova viva do que já haviam me falado: eu era procurada. E pela violência que usou contra nós, eu podia ser levada viva ou morta.
Rose contou o que aconteceu. Eu apenas precisei ficar atrás, assentindo com a cabeça. Ela repetiu para os Potter, para alguns oficiais e especialistas do ministério da magia.
Eu estava sentada no sofá quando Harry Potter sentou e explicou que o bruxo havia passado por feitiços de proteção contra estranhos. Era alguém que ele conhecia. Que esse alguém poderia entrar quando quisesse. Disse que seria mais protegido se eu fosse para Hogwarts. Que eu seria vigiada de perto. Eu faria novas amizades!
Eu não contei tempo. Quando tomei consciência, minha mala estava nas minhas mãos e eu estava seguindo para King's Cross.
***
Estava usando os jeans velhos da Rose e uma blusa azul com uma música de uma banda bruxa que haviam me dado de presente. Cabelo amarrado em um rabo de cavalo, sem maquiagem ou pertences próprios. Claro, haviam comprado um material novo para mim e a farda, mas era apenas aquilo.
A despedida foi rápida e quando entrei, achei uma cabine vazia facilmente, já que havia chegado cedo. Observei os Weasley se despedindo pela janela e notei que Hermione chorava ao abraçar Hugo e Rose. Eu queria muito ter um pouco daquilo, mas sabia que era pedir demais. A ruiva entrou no trem, mas em vez de se sentar na minha cabine, adentrou em uma alguns metros a frente. Não fiquei magoada, pois sabia que ela tinha que ficar com seus amigos.
Fiquei lendo até que o trem começou a se deslocar. Muita gente abria a porta da minha cabine, mas ninguém entrava. Fiquei me perguntando se elas estavam procurando alguém específico ou sabiam sobre mim. Ou talvez estivessem se perguntando quem diabos eu era.
Finalmente um garoto entrou. Ele se sentou na minha frente e ficou me encarando por alguns minutos e quando eu estava prestes a perguntar algo, ele saiu da cabine sem mais nem menos. Uns cinco minutos depois, bateu na porta e ficou em pé encostado na parede com as mãos para trás. Ele era moreno com olhos azuis parecidos com os meus. Devia ter cerca de onze anos.
Diferente de mim, ele me olhava diretamente nos olhos sem desviar. Estava vestindo uma camiseta vermelha por cima e uma listrada de manga comprida por baixo.
– Não quer se sentar? — perguntei.
– Você se chama Carter, não é? — ele perguntou ainda de pé. Nem parecia ter escutado a minha pergunta.
– Sim, como sabe?
– Sou Sam.
– Oi, Sam. Como sabe meu nome?
– Ele apareceu no jornal.
E apressadamente o tirou da mochila que carregava, me mostrando a manchete:
"CARTER, A GAROTA PROBLEMA: ESTAMOS CORRENDO PERIGO?"
Fechei meus olhos, respirando fundo. Ao lado do título estava uma foto minha saindo do St. Mungos totalmente desorientada com Hermione. No texto eles haviam apenas resumido que eu fui achada em Hogwarts já desacordada. Não deram uma localização nem nada muito preciso.
"De acordo com a psicóloga Dianna Richman, Carter — adotada pela família Weasley — pode causar sérios problemas com a comunidade bruxa ajustada. A garota, apenas por ter aparecido, causou muito trabalho para o diretor de Hogwarts, Neville Longbottom. Apareceu em um banheiro feminino da escola, já inconsciente. De fato, já foi comprovado que está sendo procurada pelos seqüestradores e na noite de 27 de Agosto, a casa dos Weasley foi atacada por um.
Sem conhecimentos sobre o mundo bruxo ou feitiços, Carter Weasley decidiu cursar o sexto ano de Hogwarts. Esta será uma decisão que deixará seus filhos em segurança? Quando será o próximo ataque?"
– Rita Skeeter adora fofocar. Sinto muito. — Sam baixou a cabeça.
– Não é culpa sua. — as lágrimas ameaçavam cair e eu só queria um abraço da minha mãe — se eu tivesse alguma.
– Você não me parece perigosa. — ele tentou me confortar — E não sabe lançar nenhum feitiço, então tecnicamente eu sou mais perigoso.
Eu não consegui ficar séria.
– Você consegue guardar um segredo? Eu nem sei como é que a escola é. Na verdade, tirando os Weasley, os Potter e você, acho que não conheço mais ninguém.
– Ah, mas você sabe como fazer alguns feitiços simples sem a varinha. Eu acho isso incrível!
– O que? Como você sabe?
– Bom, eu acho que eu tenho que te proteger.
– Sam, isso não responde a minha pergunta. Como sabia?
– Eu apenas sei, Carter.
E então, sem mais nem menos ele saiu da cabine, me deixando novamente confusa. Alguns garotos da minha idade passaram pelo corredor, me observando pela porta aberta. Mas eu já sabia que eles deviam me achar uma piada. Pelo menos aquilo ia mante-los longe de mim. Longe do perigo.
***
Depois de um tempo sentada sozinha na cabine, eu me acomodei e dormi por algum tempo. Quando acordei, decidi vestir a farda e saí. Todos da minha idade tinham o emblema da sua casa e eu era a única que ainda não sabia, então ainda estava usando o da escola.
Corri de volta para a frente da cabine, querendo me matar por ter aceitado estudar em Hogwarts, quando a minha porta se abriu e um garoto saiu estressado. Ele era muito bonito, loiro de olhos castanho-claro, rosto recém-barbeado e uma camisa em gola V preta. Mas a sua expressão não era nada agradável, ele me olhou como se quisesse me socar e saiu pelo corredor. Entrei timidamente na cabine, que estava com gente. Um garoto, uma garota do lado esquerdo e outra do lado direito. Todos com o emblema da Sonserina estampado em suas fardas.
Eles ficaram em silêncio e fiquei muito constrangida. Me sentei no cantinho ao lado da janela e quando ia pegar meu livro, alguém perguntou:
– Como é que é?
Levantei o olhar em direção a voz. Era um garoto. Ele não tinha músculos, mas também não era magricela. Era normal. Estava usando óculos escuros e uma roupa trouxa descolada, então mesmo que não fosse o mais bonito, definitivamente não era nada feio.
– O quê? — perguntei.
– Nick, você não pode ficar perguntando essas coisas! — ralhou a menina na frente dele.
– Como é que é acordar sem memórias? — Nick a ignorou, me observando. Eu fiquei constrangida com todos os olhares voltados para mim, mas não com a pergunta.
– Bom... É horrível, sinceramente. Me disseram que talvez alguma coisa voltasse, mas eu não sei. É como se toda a sua vida dependesse das lembranças que você não tem mais, e, sei lá, todo mundo me olha como se eu fosse atacá-los com um garfo de plástico.
Eles riram. Me senti bem mais confortável pra continuar:
– Bom, eu não pretendia vir pra cá. Mas depois do que aconteceu aos Weasley, eu não tive muita escolha...
– O que aconteceu lá? — Nick perguntou, mas eu não queria contar. Fiquei calada.
– Acho que chega de interrogatório, sim? — a garota ao lado de Nick falou. — Vamos comprar alguns doces, Caroline?
– Não, Georgie, acabei de sentar! — Caroline reclamou.
– Vamos, sua gorda. — Georgie a puxou para fora da cabine.
– Olha quem fala, a garota que só levanta pra comprar doce! — Caroline retrucou.
E então as duas se foram, fechando a porta ao saírem.
– Então... — Nick começou.
– Então...?
– Você é muito bonita, sabia?
Eu corei. Queria enfiar a minha cabeça debaixo da terra e gritar bem alto, mas eu fiquei parada enquanto ele sentava do meu lado. Pôs o braço ao redor dos meus ombros, de um jeito como se já me tratasse como alguém bem íntimo. De uma certa forma, é muito mais fácil se sentir atraída por ele do que um cara lindo que vive te afastando. Por outra, você também podia sentir como se ele fosse seu melhor amigo. Era meio difícil explicar.
– Obrigada, Nick. Você é da Inglaterra? Seu sotaque...
– Sim, eu sou do Brasil. Mas eu morei aqui praticamente a minha vida toda e ficou definitivo quando meus pais me largaram. Mas o sotaque ainda é meio puxado.
– Ah, sinto muito.
– Não, sério. Eles sempre viajavam. Ficavam dias e semanas fora e só voltavam para me dar grana pra mantimentos e cuidar da casa. Quando completei onze anos, recebi a maldita carta de Hogwarts, e essa foi a desculpa perfeita pra que eles nunca mais fossem me visitar. Agora eu moro com a Caroline, que não aguentava os pais adotivos. Batiam nela, sabe? E a Georgiana (não a chame assim, ela detesta) sempre me apoiou. Amigos de infância, sabe como é. Quando as coisas apertam pra o meu lado ela está sempre lá pra ajudar. Muita gente acha que somos uns idiotas que não ligam pra nada. São uns pamonhas metidos a besta. A gente sabe como é quando as pessoas ficam olhando feio. Mas a gente também aprendeu a não ligar. Se quiser ser nossa amiga, não vai se sentir sozinha.
Fiquei olhando para ele, sem resposta. Dei um meio sorriso e sentei no estilo borboleta. Naquele momento eu percebi que nós viraríamos grandes amigos, mas o olhar que ele me dava não tinha sentimentos. Na verdade, quando eu olhei para os seus olhos, eu só conseguia ver um vazio eterno na sua alma. Talvez a falta dos seus pais tivesse efeito sobre ele.
Georgie e Caroline voltaram com as mãos cheias de doce e jogaram tudo na mesa. Passamos a conversar normalmente e a minha tarde ficou muito agradável. Comíamos e ríamos como se as nossas vidas fossem perfeitas, e pelo menos naquele período eu consegui relaxar. Esquecer de tudo ao meu redor.
Quando chegamos ao nosso destino, a realidade me atingiu como um soco. Eu ia descobrir a minha casa. Sinceramente, estava torcendo para cair na Grifinória ou Sonserina. As outras duas não me pareciam tão convidativas. Quando chegamos, eu suspirei. Meu coração estava á mil e minhas mãos estavam geladas.
A vice-diretora June chegou perto de mim, sorrindo. Ela não parecia tão velha, talvez tivesse uns 25 anos.
– Olá, Carter. Sem formalidades, está na hora! — me empurrava em uma outra direção para dentro do castelo, mas parecia nos fundos. Eu estava desorientada, então apenas ia aonde mandava. Entramos em uma sala pequena, onde ela me sentou em um banco e pôs o chapéu seletor na minha cabeça.
"Interessante... Sem memórias, não é? É muito confusa, mas aprende rápido. Corajosa, também. É fiel aos amigos, mas tem muito medo e tristeza acumulada aí."
Não tenho culpa da minha vida– pensei.
"Sim, é verdade. Você procura as coisas boas nas pessoas e espera ter um futuro onde as pessoas a reconheçam como alguém em que possam confiar. Sim, você se encaixaria em qualquer casa. Mas há algo aí dentro, algo inexplorado, algo tão..."
Antes que eu pudesse pensar qualquer coisa, o grito:
– SONSERINA!
Eu sorri, pensando em Nick, Caroline e Georgie. Se eu não tinha família, podia criar uma. Corri e discretamente entrei no grande salão principal. Por alguns minutos eu fiquei encostada na parede, apenas observando. Então os portões se abriram e os novatos do primeiro ano começaram a entrar. Com o olhar encontrei Caroline, com seus lindos cabelos loiros. Me sentei ao seu lado e Georgie me deu um abraço, dando parabéns por ter entrado na Sonserina. Nick sorriu sem mostrar os dentes, logo se voltando para observar algum canto do salão. Quando me virei, não vi ninguém naquela direção e desconfiei, mas logo esqueci.
Ao contrário dos meus amigos, muita gente me olhava de cara feia e muitos comentavam. Suspirei, sabendo que não seria um conto de fadas, mas toda Cinderela tem uma madrasta má, não é? Não, péssima comparação. Todo Harry Potter sofre em Hogwarts quando ainda não matou Voldemort. É, aquilo era mais minha cara.
O diretor Longbottom chamou atenção de todos e começou a ditar algumas regras, avisos do zelador Filch, cumprimentou os alunos novos e os antigos e então a seleção das casas começou. Não prestei muita atenção até que eu reconheci um nome:
– WINCHESTER, SAM.
O garoto era baixinho, até mesmo para a idade dele. No meio do caminho ele tropeçou e alguns garotos riram, mas ele seguiu seu caminho e se sentou, pondo o chapéu. Admito, suas expressões eram engraçadas. Ele parecia estar discutindo com o chapéu.
– GRIFINÓRIA!
A mesa inteira explodiu em aplausos, mas Sammy parecia desesperado. Ele olhou pelo salão a procura de alguma pessoa, e em algum momento seus olhos encontraram os meus. Ele parecia estar pedindo socorro, mas eu não entendi bem o por quê. A casa dele era ótima.
Ele foi ao lado de um garoto mais velho, que lançou um olhar significativo para o moreno. A vice-diretora June chamou atenção para si, pigarreando.
– E claro, vamos dar as boas vindas a Carter Weasley, que foi escolhida para a Sonserina.
"Grande surpresa!" alguém gritou e a maior parte do salão deu uma risadinha. Exceto, obviamente, minha casa, que se recusou a me olhar.
– Detenção, senhorita White! — June exclamou. Estava com cara de poucos amigos. — Alguém mais quer acompanhar a Srta. White em uma detenção de uma semana limpando os banheiros?
Silêncio.
– Ótimo. Se eu ouvir algo a respeito de alguém pegando no pé da srta. Weasley, o sortudo vai ter uma pena bem pior que esta, sim? Boa refeição.
E a comida apareceu na minha frente num passo de mágica. Mas naquele ponto eu já não estava tão afim de comer. Belisquei uma salada, mas a minha boca estava com um gosto horrível. Decepção, talvez. Eu pensava que talvez, apenas talvez, Hogwarts me apoiasse e desse forças. Mas parece que eu teria que achá-las sozinha.
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