Pandora
7 Do You Believe in Magic?
Notas iniciais
Depois de um tempo, Caroline conseguiu transferir uma garota para o quarto que eu havia sido designada e eu pude ficar no delas. Juntamos as camas e ficamos conversando por horas, até que uma monitora chegou reclamando do barulho.
Os sonserinos eram muito frescos e idiotas. Grande parte das meninas eram ridículas, se preocupando com o cabelo e roupa apenas. Poderíamos ser divididos em quatro categorias: inteligentes arrogantes, burros arrogantes, os excluídos e as excessões. Eu era a mistura dos dois últimos.
Mas eu estava feliz. No dia seguinte eu já tinha a minha farda, mas eu precisava saber quais aulas iam me fazer mais bem. Conversei com June, a vice-diretora, e contei como queria mudar as pessoas, fazer a diferença. Ela me deu uma lista de aulas e nove livros do primeiro ano. Quando eu terminasse com aquilo, deveria procurá-la para buscar os do segundo ano, assim por diante.
Minha primeira aula foi de poções com um professor velho e baixinho. Não consegui decorar o nome, mas ele me convidou para jantar com ele e mais alguns alunos. Disse que para uma primeira aula aquilo foi praticamente impossível, minha poção estava quase perfeita. Eu fiquei me perguntando por que tanta surpresa, eu apenas fiz o que o livro pedia de um modo um pouco mais simplificado. Nada demais.
June me aconselhou a não ir para nenhuma aula que envolvesse feitiços até que eu conseguisse fazer sem dificuldades. Eu logo percebi que tinha memória fotográfica, o que para mim era uma piadinha sem gosto. Dei graças a Deus, porque eu estava lidando com muitos feitiços para pouco tempo. Estava superlotada, então precisava falar com ninguém.
Ficava na biblioteca até a hora de fecharem e me esforçava para compreender as aulas. Em uma aula junto com a Grifinória, James se ofereceu para me ajudar a fazer feitiços de verdade, sem mais livros, sem me esconder. Aceitei e nos encontraríamos no final de semana.
Enquanto isso, eu corria contra o tempo para tentar me igualar com a minha turma. Estava cheia de olheiras no rosto, mas estava valendo a pena. A cada livro que lia, mais eu conhecia sobre o mundo bruxo, as guerras e os filósofos. Fiquei impressionada ao ler a história de Harry Potter e fiquei decepcionada ao perceber que estive com ele sem saber que era um herói de verdade:
Na sexta-feira da minha segunda semana em Hogwarts, após as aulas, eu estava seguindo na direção da biblioteca quando eu vi um grupo de Grifinórios rindo, no canto. Estava prestes a voltar para os dormitórios quando uma mão tocou meu ombro e me puxou. Eu desequilibrei um pouco, mas logo me recompus e tentava me afastar. Não reconhecia ninguém, mas não podia dizer o mesmo deles.
Na verdade, eu me lembrei de um deles, que parecia ser o líder. Sim, era o garoto que eu havia visto quando estava entrando na minha cabine lá do trem. Estava com uma cara de poucos amigos e raivoso. Ele parecia com raiva no trem, mas quando me viu o sentimento pareceu aumentar mil vezes. Estava com ódio de mim?
– Se não é a nossa nerd favorita! — disse um deles.
– Estávamos falando de você nesse instante, querida. Fique conosco!
– Com licença, eu tenho que ir — eu repliquei, tentando sair daquele circulo que estava me encurralando.
– Carter, eu tenho uma pergunta. — o cara do trem falou — Eu acredito que você é esperta. Você devia saber que um dia isso ia acontecer. Por que você veio para Hogwarts? Pra se proteger dos caras que você tá fugindo? Já pensou que com isso, estamos todos correndo perigo? Não ande sozinha, Carter — ele sorriu — Você não sabe o que pode estar se escondendo nas sombras.
– Chega, Sebastian — James chegou me agarrando para fora do circulo. — Já falou o que queria com ela, então nunca mais chegue perto, estou sendo claro?
– Quem é você pra me impedir? — Sebastian sorriu e alguns de seus amigos riram.
– Sou James Potter, imbecil. — e com um feitiço, Sebastian já estava no chão. Não havia se machucado e não acho que aquele tinha sido o propósito.
Rapidamente corremos para o parque, que estava cheio de gente. Suspirei aliviada, me sentando na frente de uma árvore. James sentou ao meu lado. Eu tinha que admitir, ele não estava nada mal. Seu cabelo estava desarrumado, como da primeira vez que o vi. E estava usando um jeans e uma camisa preta em gola V. Eu fiquei com vergonha de mim mesma, já que não estava cuidando tão bem da minha aparência como ele. Meus cabelos negros, antes lindos e cheios de vida, agora viviam amarrados em um coque mal-feito e assanhado. Minha pele adotou uma cor doentia, já que não saía para tomar vitamina D a não ser que fosse obrigada.
Estava usando um moletom enorme, talvez coubessem umas quatro Carter lá dentro. Eu estava emagrecendo muito rápido, não estava comendo muito, e estava começando a ficar com vergonha do meu corpo. Decidi que assim que me separasse do James, me fartaria de comida na cozinha para ganhar os quilos que havia perdido.
– Carter — James chamou minha atenção — pode me explicar por que diabos você estava com o grupo do Sebastian? Eles te odeiam e nem sabem por quê. Esse é o tipo mais repugnante de pessoa, o tipo que não sente remorso e só pensa em si mesmo. Nunca chegue perto deles, ok? Onde você estava com a cabeça, Carter? — era mais uma pergunta retórica.
– Eu estava indo pra biblioteca, não me culpe, James! Eu estou ralhando para me igualar a vocês e a única coisa que eles pensam é que eu sou louca. Vocês tiveram seis. Seis anos! Seis anos para poder estudar o que eu tenho estudado em duas semanas. Está vendo como vocês estavam praticamente de folga? Eles estavam no caminho e ELES me puxaram!
Ele bufou e parecia com raiva, mas eu não entendi o por quê.
– Ainda vamos ter a nossa aula amanhã, não é? — perguntei.
– Sim, claro — ele parecia imerso em pensamentos.
Observei o campus e notei um moreno encostado em uma árvore isolada das outras. Pedi com licença e me levantei, seguindo naquela direção.
– E Carter — James chamou. Eu me virei em sua direção e me impressionei como a sua expressão, antes despreocupada, naquele momento parecia mais velha e cansada — Não ande sozinha, okay?
Revirei os olhos. Andei na direção que estava querendo e me sentei ao lado do garotinho.
– Oi, Sammy.
– Oi.
Ele ficou em silêncio, lendo o seu livro. "As incríveis aventuras de Billy James". Eu reconheci o livro e parte de mim queria chorar, mas eu não entendi bem o por que.
– Quer ler comigo? — ele perguntou, esperançoso.
– Adoraria.
Ele voltou para o começo e pediu para que eu lesse em voz alta. Ele parecia um irmão mais novo para mim e eu estava começando a gostar daquele sentimento.
– Uma história nunca tem fim. — comecei — Por que quando se começa uma história, nunca se começa do começo. Há o inicio, que sempre será difícil de contar. Como contar uma história que não está começando do começo? Como será possível? Há a história antes da escrita, a que começou tudo. Talvez fosse mais fácil contar a história dos seus pais antes da sua. Mas também haverá a história dos seus avós, que intervirá na dos seus pais.
"Os humanos são seres incrivelmente complicados. Somos eternos. Quando o "Fim" em uma caprichada caligrafia terminar este livro, saiba que não será mesmo um fim. Será o começo da próxima história. Mas, por ora, vamos nos contentar com a história de Billy James, um garotinho de uma rua pobre de Londres".
Eu li alguns capítulos com ele, mas alguns amigos seus o chamaram e ele se foi. Já estava escuro e só haviam alguns alunos espalhados no campus. Fiquei uma meia hora observando as estrelas e ajeitei minhas coisas. Ouvi um barulho dentro da mata e larguei minha mochila para dar uma olhada.
– Tem alguém aí? — perguntei, mas quando ia entrando por entre as árvores, ouvi uma voz me chamando lá de longe.
– Carter! O que você está fazendo? Está louca? — Nick pegou a minha mão e me puxou para longe dali.
– Eu ouvi alguém lá dentro.
– Se você está ouvindo alguém que não está te chamando, ignore. Não corra atrás! E se for um aluno querendo fazer com que você se perca dentro da floresta proibida? Sabe qual é a punição para entrar aí?
– É, você tem razão. — balancei a cabeça em um gesto de afirmação.
E fomos jantar. Georgie estava sentada com o seu namorado na mesa da Corvinal e Caroline ficou no dormitório, estudando.
Como eu tinha prometido a mim mesma, comi até não aguentar mais. Nick pediu com licença depois do jantar e desapareceu nos corredores. Fui dormir cedo naquela noite e concluí que podia dormir até tarde do dia seguinte. Mal me deitei e o cansaço me dominou e dormi.
***
Ao contrário do que planejei, meu sono foi inquieto. Não parava de sonhar com o homem que havia destruído a casa dos Weasley.
"Eu me levanto e sinto que há algo de errado. Olho a janela e ele está lá. Retira o capuz, mas não o reconheço. Tento fugir, mas meus pés estão presos no chão. Ele saca a varinha e lança um feitiço que me atinge, e então eu acordo"
Porém algo aconteceu comigo, porque não acordei. Fui puxada para outro sonho.
"Minha visão estava embaçada e eu estava tonta. Tinha um garoto ruivo na minha frente, me empurrando.
– Eu te dou cobertura, fuja!
– Não, Fred! Eu não vou sem você!
– Vá, sua idiota! Fuja e me encontre!
Ele se apoiava nas barras, como se estivesse drogado, mas se levantou com todas as suas forças e se jogou sobre os homens de preto. O mundo rodava ao meu redor e quando pisquei, estava em uma sala branca com o homem de quem eu tinha mais medo.
– Olá, Carter. Vamos começar a fase um.
E enfiou uma agulha no meu pescoço."
Acordei toda suada, respirando pesado. Eram cinco da manhã e eu não queria mais dormir, mas eu estava esperando dormir até pelo menos dez da manhã, como minhas companheiras de dormitório. Tomei banho e pus uma camiseta de manga comprida azul, para combinar com os olhos, e um jeans confortável. Quando fui tomar café, não havia ninguém por lá e eu tentei comer as coisas mais calóricas, para ganhar alguma gordura.
Não aguentei e botei tudo para fora, comendo apenas uma fatia de bacon e um copo de água. Carreguei meus livros para a biblioteca e fiquei até umas seis da noite. Eu tinha totalmente me esquecido de almoçar e corri para jantar cedo, assim estaria mais confortável para as minhas aulas com o James.
Pedi informações a Rose, que também estava jantando na mesma hora que eu, e ela falou que ele estava no salão comunal da Grifinória. Quando estava seguindo em direção ao local, encontrei o pequeno Sammy que caminhava distraído. Pedi que ele por favor chamasse o James por mim e ele correu. Da porta não saíram apenas os dois morenos, mas também Dominique, a namorada do mais velho.
Eu havia me incomodado um pouco no começo porque tinha achado que nós tinhamos um lance, mas nada passava da amizade. Aquilo não me impediu de ficar desconfortável. Mesmo assim, eu ainda não gostava da personalidade da loira, que me olhava com uma careta.
– A gente combinou das minhas aulas, não é? — perguntei, impaciente.
– Oh, sim. Claro! Pode me dar apenas mais um minuto? — ele pediu.
– Á vontade. — e eu saí dali, mas continuava escutando o estalo dos beijos e Dominique reclamando:
– Eu estou cansada de ouvir falar dessa Carter. Todo mundo só fofoca sobre ela. Hoje é o nosso dia, Jay! Fica comigo... — estava dando beijos em sua nuca.
– Hey, Dominique. Ela é minha amiga. Quando vir, eu já tô de volta.
– E o que vocês vão...
Eu já não aguentava tanto drama. Segui até o fim do corredor e fiquei esperando lá. Quando ele chegou, sorriu para mim.
– Pensei que estava levando sua namorada junto. — revirei os olhos.
– Ah, não enche — pôs um braço por cima do meu ombro e me puxou para mais perto.
Seguimos em silêncio até o local onde ele me daria aulas. Chegamos ao sétimo andar e paramos em frente a uma parede.
– Você tá de brincadeira comigo, ô James.
E uma porta apareceu do nada na minha frente.
– Bem vinda à Sala Precisa.
***
Primeiramente ele me dava definições e eu dava os feitiços, só para ele ver se eu estava sabendo mesmo. Então ele sacou a varinha e eu saquei a minha. Ele me deu os movimentos de varinha e me mandou praticar "lumus". Eu passei meia hora tentando, mas ainda não havia conseguido.
– Não consigo, James. É impossível!
Ele chegou perto de mim e segurou a minha mão que agarrava a varinha. Ele atrás de mim, segurando a minha mão, me ensinando a movimentar a varinha corretamente. Mas eu não estava conseguindo me concentrar totalmente com aquele cheiro dele perto de mim.
– O truque não é movimentar corretamente. É ter fé que vai conseguir.
Sussurrei "lumus", sentindo sua respiração na minha nuca. A varinha logo se iluminou e ele me soltou.
– Consegui. Consegui! — exclamei e o abracei. Foram apenas alguns segundos, mas eu me senti no paraíso. Por que eu estava pensando assim? O cara tinha acabado de agarrar uma garota e eu estava pensando em como ele era incrível.
– Agora diga "nox".
Eu obedeci e a luz da minha varinha se apagou.
Ele passou a pedir feitiços cada vez mais complicados e eu empaquei no "expectro patrono". Ele me disse que muita gente não conseguia fazer, mas eu não estava aceitando um não. Mas este feitiço se tratava de lembranças. Lembranças felizes. Eu não tinha muitas destas, mas pensei em quando estava com Nick, Georgie e Caroline no trem. Eu havia me divertido lá, não havia? Mas quando eu disse o feitiço, nada aconteceu.
Me lembrei de Sammy e eu, sentados lá na árvore, lendo seu livro favorito. Mas a lembrança não me fazia feliz, me deixava com um vazio no coração e a única coisa que eu queria fazer era chorar. E então eu fiquei pensando nos braços de James ao meu redor, me ensinando a fazer o feitiço. Me lembrei da gente conversando no dia em que eu acordei no hospital e quando eu estava quase adormecendo, ele me cobriu com o lençol e sussurrando no meu ouvido "te vejo em breve".
– Expectro Patrono.
E com um clarão de luz, apareceu um...
– Um leão? — James exclamou.
Um grande e majestoso leão. Ele observou os cantos da sala precisa e soltou um rugido. Aquilo era tão... tão grifinório! Então ele desapareceu.
– Você é mesmo uma garota impossível, Carter. Sabe o quão difícil é fazer um expectro patrono? E ainda mais sendo da casa das cobras e fazer um leão. É como se...
– Se eu tivesse algum poder muito maior do que o de vocês. — sussurrei.
– ...se você tivesse treinado isso a vida toda! — ele não pareceu me escutar.
E as máquinas na minha mente já estavam trabalhando, a resposta já se formulando. Se eu tinha tanto poder e força de vontade... tinha que dar certo. Larguei a minha varinha no chão e apontei a minha mão para o manequim, que segurava uma varinha. Era só um experimento, podia ser só minha imaginação:
– Expelliarmus!
E a varinha do adversário foi arremessada para o outro lado da sala. Minha cabeça estava fervendo de perguntas. Me lembrei de quando eu estava com o cabelo molhado e assim que quis, ele ficou seco. Eu conseguia mesmo fazer feitiços sem varinha.
– Mas o que...? — James começou.
Andei até outro boneco, sem apontar a mão. Apenas o olhei.
– Bombarda!
E o manequim explodiu em pedaços. Me lembrei de quando eu estava no St. Mungos, e ficava riscando a parede com a mente. Por que eu não havia achado aquilo estranho?
– Carter. — James sussurrou.
E no terceiro alvo, eu nem precisei falar.
O boneco diminuiu seu tamanho até ficar do tamanho de um rato. Eu tinha conseguido. Eu estava fazendo feitiços com a mente. Mas eu não achei aquilo nada bom. Eu, sendo apenas eu, já era estranha o suficiente lá em Hogwarts. Muita gente ainda me olhava como se eu fosse matá-las. Aquilo era demais para mim.
– Carter! — James chamou minha atenção.
Eu me virei para ele e finalmente pude ver o quanto eu o tinha assustado.
– Seus olhos...
Corri para me observar no espelho e pude ver como meus olhos passaram de um azul puro para algo mais escuro.
– James...
– O que você é?
– O que eu...
– Não minta. Chega de mentiras. Pra mim já chega!
– Eu não sei, James! Não sei! Eu tinha notado que eu conseguia fazer pequenas coisas sem varinha, mas eram pequenas coisas! Hoje foi só um experimento que deu certo. Não sei o que eu sou e...
Ele se sentou no sofá e parecia cansado. Me sentei na sua frente.
– Desculpa. — pedi.
– Não tem nada pelo que se desculpar. Eu que peço, se isso é tão novo para você quanto é pra mim. Eu não sei o que você está pensando, mas eu estou aqui pra te ajudar. Talvez fosse por isso que você foi sequestrada. Porque você tinha esse... esse poder que ninguém mais tem. Talvez seja por isso que estejam querendo tanto te pegar de volta. Nenhum de nós dois sabe o limite para... para isso.
Me sentei do lado dele e pus a minha cabeça em seu ombro. Ele segurou minha mão, e quando ele fez isso eu não aguentei. Chorei. Chorei como uma criancinha, jogando tudo o que havia acontecido comigo pra fora. Chorei pelos Weasley, que estavam em perigo por minha culpa. Chorei pelas pessoas que gostavam de mim, por Sammy, por tudo.
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