Pampean Chaos
4 Threats
Notas iniciais
Lourine suprimiu um grito quando a viga caiu ao seu lado, em chamas. Estaria com sono se não fosse a adrenalina. Mas não podia dormir, senão morreria. Tinha que estar atenta naquele inferno que era o Mercado Público incendiado. Lembrou-se de meses antes, quando estivera ali, em missão também, o incêndio provocado por uma flecha sua ter atingindo o painel de força de uma loja no segundo andar, tentando acertar o monstro que a perseguia. Acabou matando ele, mas foi uma dor de cabeça conseguir sair do prédio sem ser percebida pela imprensa que estava em massa vendo o desastre.
Ela estava sozinha ali dentro, seus dois companheiros impossibilitados de entrar por causa do fogo. Tom Grimbald mal conseguia olhar para o prédio, devido a sua fotofobia. O rapaz de olhos azuis, cabelos loiro-escuros, pele clara e visivelmente acima do peso tentava chamar os bombeiros sem usar um celular, para evitar mais monstros. Enquanto isso, Primula Nocturna estava suada até os ossos, protegendo o filho de Dionísio. Sua cartola continuava sobre seus cabelos negros até os ombros, os olhos cor-de-céu com as pupilas dilatadas pela adrenalina, a filha de Júpiter brandia Captus Nemo, sua gladius, contra os adversários. O rapaz teve uma ideia. Encostou nas chamas e, utilizando seu poder, transmutou-se no elemento, começando a lançar colunas altas de chamas para o céu, tentando chamar atenção de alguém que pudesse chamar a Brigada. Mas parecia que a Névoa estava conspirando contra eles, ninguém estava reagindo na cidade.
Enquanto isso, Lourine estava encolhida embaixo do balcão do ponto de recarga do TRI, no segundo andar. Ouvia o crepitar e o som que o elemental de fogo emitia. “Não tinha monstro pior não?”, pensou a filha de Atena. Era impossível ela vencê-lo sem uma mangueira de incêndio ou algo do tipo. Então só restava se esconder e torcer para as labaredas não a cercarem. Rezava para todos os deuses que conhecia, enquanto o prédio ardia cada vez mais.
***
Pablo Kaz estava atrás de uma árvore, fervilhando de vontade de fazer algo útil. O filho de Hefesto de cabelos encaracolados escuros e levemente alto segurava sua Espada Infernal, porém ainda sem as chamas cobrindo o bronze. Quando fez esboço de se mover para investir na direção da bandeira inimiga, ouviu seu meio-irmão murmurar, ríspido:
– Nem pense, Menino Parafuso.
O rapaz bufou, olhando para o dono da voz. Johnny Singer, cinco anos mais velho que ele. Segurava um martelo de batalha, o temido Quebra Ossos, além de estar vestindo uma belíssima armadura completa, melhor trabalhada do que a do mais novo, porém igualmente muito resistentes. Pablo respondeu:
– Está calmo demais. Vou lá ajudar a pegar a bandeira, Johnny.
Antes que o mais experiente tivesse chance de contestar, correu naquela direção. De fato, seus aliados estavam bastante avançados. Passou por Gabriela Mason, uma filha de Apolo de cabelos dourados completamente concentrada, o cordel de seu arco Qhüirenn retesado, a flecha pronta. Passou por uma meio-irmã dela, Camille Valence, de cabelos castanhos e visivelmente nervosa por estar a cinco metros de Gabi. Odiava estar sozinha, era perceptível.
Finalmente chegou ao front, em uma clareira, onde filhos de Ares e Marte, seus aliados, lutavam contra os filhos de Poseidon que estavam ali, fazendo-os recuar. Algumas batalhas se destacavam, entre elas a que Liessa Sapien atacava com fúria Bruna Souza, que se defendia bem, mas era forçada a andar para trás pela força dos golpes da filha do Deus da Guerra.
Pablo parou de observar ao ver uma arqueira mirando nele. Pulou por reflexo para trás de uma árvore, ouvindo a flecha passar onde ele estava instantes antes. Espreitou e viu quem era a atacante: Camila Föld. E mais um vinha em sua direção: Gabriel Blake, com sua espada de bronze Adélfos de cabo de prata com ornamentos de corujas e sua armadura completa, porém leve, de bronze com igual decoração. Dois experientes contra um, perderia com certeza, principalmente porque eles eram entrosados, visto o número de batalhas que lutaram juntos. Viu uma aliada próxima, Maya Blake. Sorriu com a sorte. Apontou para o filho de Atena.
Maya Alicia Blake era um exemplo de uma exceção dos deuses. Irmã gêmea de Lourine e meio-irmã de Gabriel, pelo que diziam os boatos, a filha de Afrodite e a de Atena eram fruto de uma relação improvável entre suas mães. Nenhum dos três falava sobre o assunto, mas nunca negaram os boatos. A semideusa andou até o irmão, que hesitou em lutar com ela. Esta sorriu, não perdoando o erro dele, utilizando sua habilidade. Olhou nos olhos dele, profundamente, fazendo-o ver a pessoa que ele mais amava na sua frente, ao invés dela. O rubor que subiu no rosto dele era perceptível. Isso o fez fraquejar, facilmente sendo desarmado e rendido pela mulher.
Isso abriu espaço para o filho de Hefesto avançar na direção da indefinida. Uma flecha dela cravou-se em sua armadura, não chegando a tocar em sua pele. Percebendo o risco, ela soltou seu arco e pegou sua adaga. O rapaz tinha vantagem, visto que tinha uma espada flamejante. Ainda assim, Camila era experiente, as lâminas dançaram, tinindo a cada vez que se encontravam. Até que, recuando, a semideusa tropeçou em um galho e caiu. O filho de Hefesto sorriu, atacando-a, que continuava a se defender, porém começando a vacilar.
Até que uma voz que parecia vir das profundezas varou o Acampamento:
– NÃO!
Um terremoto fortíssimo fez todos caírem. Exceto Camila Föld, que levantou durante o tremor. Acima de sua cabeça, um símbolo nunca antes visto por nenhum deles brilhava. Gabriel foi quem o reconheceu. Um forte calafrio percorreu seu corpo. O terremoto parou e ele anunciou, perplexo, ainda no chão:
– Camila Föld, você é... filha de Gaia.
Silêncio. Ninguém se atreveu a abrir a boca. A própria recém-reclamada estava chocada com quem era sua mãe divina. Todos ali sabiam o rico que ela representava para todos eles agora. O filho de Atena saiu da inércia ao perceber ela estava desmaiando. Correu até ela e parou na frente dela, acolhendo-a em um abraço enquanto a força se esvaía de seus músculos. Antes de ela perder a consciência, a campista o ouviu dizer, baixo:
– Não importa se você é filha da pior inimiga dos Deuses... e vou te proteger de quem quer que resolva pensar que isso importa.
A menina sorriu, e então desmaiou.
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