Pampean Chaos

7 The End was The Beginning


Notas iniciais
Esse capítulo estava escrito faziam alguns dias, estava hesitante em postá-lo. Bem, aí está!

Frederico Dent estava sentado perto da fogueira, assim como a maioria dos semideuses. O frio era rigoroso, até para quem vivia na Serra gaúcha e catarinense. O rapaz atlético, olhos azuis, cabelo negro e cheio de tatuagens estava com a Cuia Dourada de Dionísio, que se enchia de chimarrão ou outras bebidas. Assim como todos, o filho de Ares olhava para o fogo. Pensava ele em sua cidade natal, São Paulo, agora destruída. Passa a Cuia para a pessoa ao seu lado, Mikhaela Gilbert, uma filha de Apolo de pele morena, olhos castanhos e cabelos pretos, que apenas passou a bebida. A menina, geralmente animada, estava silenciosa. A próxima foi Laura Müller, uma nova-iorquina de cabelos castanhos com reflexos, olhos cor-de-mel esverdeados e com pele levemente sardenta. Ela provou, fazendo uma careta.

– Amargo!

Isso provocou algumas risadas fracas, sem emoção. Nenhuma vinda da liderança do Acampamento. Reyna e Frank eram os pretores in honoris, visto que pertenciam à Duodécima Legião Fulminata. Ela estava sentada com Aurum e Argentum, ele com Hazel, que olhava fixamente para a fogueira. Ao lado deles, estavam as pretoras de facto, eleitas pelos descendentes de romanos, da Décima Legião Gemina*, rebatizada por elas de Legião Riograndense: Primula Nocturna e Alyss Fairbrother. A primeira filha de Júpiter, a segunda uma graecus filha de Zeus, mas que sempre andara com os romanos. Isso desagradara os mais conservadores, mas votação era votação.

Junto a eles estava o Coordenador grego, eleito por estes, Gabriel Blake. O filho de Atena acumulava o cargo de Diretor do Acampamento enquanto Dionísio estava ausente. Estava ao lado de Jéssica de Mohr, a Oráculo do Acampamento, que naquele momento riscava o chão com um graveto, e de Camila Föld, a temida filha de Gaia. A maioria dos semideuses estava ali, ao redor da fogueira.

Haviam passado duas semanas desde o Apocalipse. O Sol não aparecera nenhuma outra vez desde então. O frio e a neve não pararam também. Os deuses não davam nenhum sinal de vida. Internet era inexistente, considerando que todos os servidores estavam destruídos. Apenas a TV a cabo funcionava, visto que os satélites estavam isolados pela camada de fuligem gerada pelas bombas, se é que ainda estavam operantes. Ligações telefônicas comuns funcionavam normalmente, e continuavam sendo painéis de neon que atraíam monstros. O caos predominava entre os mortais. O governador fora derrubado por outro, que logo foi trocado por uma ditadura, que ainda assim tinha dificuldade de controlar, pois a maioria dos militares estava na Guerra Mundial, agora mortos. Aviões não podiam decolar pela fuligem e navios não podiam navegar por causa do gelo que lentamente começava a dominar oceanos e lagos.

De repente, Jéssica solta um grito, sendo tomada pelo espírito de Delfos, que não fazia visita havia tempos. O brilho verde era fraco, mas ainda assim era o sinal dele. O que falou foi curto, a voz cansada e fraca:

– Destruição!

Todos os campistas ouvem uma sirene tocar na cidade. Toque de recolher de emergência. Gabriel levantou, deixando a oráculo se recuperando, e grita:

– Para dentro das Fronteiras, agora!

Semideuses que estavam fora do Acampamento voltaram rápido. No exato momento que o último entrou, o som da primeira explosão ecoou por toda a capital, seguido de mais outras consequentes. O som era ensurdecedor, assomado aos gritos dos mortais que não se recolheram a tempo. Um clarão cegou todos os campistas ao mesmo tempo em que o chão tremeu como nunca havia tremido antes. Alguns gritaram pelo barulho. Uma bomba caíra bem perto. Todos estavam inteiros apenas por causa do Velocino de Ouro e da Águia da Legião, que faziam a Fronteira proteger fortemente seu interior.

Assim que voltaram a enxergar, viram parado em cima de uma fogueira, agora apagada, um homem. Pelo menos três metros de altura, uma armadura negra cobria todo o seu corpo, inclusive seu rosto. As partículas ao seu redor visivelmente vibravam, a imagem ao redor dele estava distorcida, parecendo ser consumida, como se fosse um buraco negro. Os Sete se levantaram, recuando, murmurando em uníssono:

– Caos...

Todos então se afastaram, mas algo os impedia de se afastarem completamente. Um misto de explosões, metais rangendo e gritos saíram do capacete. Era sua risada.

– Bom que me reconheceram. Vocês deveriam se ajoelhar, mas prefiro que vejam o que está acontecendo.

Agitou uma mão. Uma cortina de fumaça se formou ao redor dos semideuses. Ela começou a formar imagens, nada agradáveis, incrivelmente reais. O Mercado Público fora substituído por um monte de poeira, o que fez Lourine Blake morder a parte interior da bochecha de ódio. O Arco da Redenção igualmente, o que explicava o impacto tão próximo. A Rodoviária. Vários prédios. O Campus do Vale e do Centro da UFRGS. Faculdades. Colégios, como o Julinho. Escolas Técnicas, como o Parobé. O Museu de Ciências. E muitos outros locais, todos bombardeados, completamente arruinados. Vários começaram a chorar, vendo os lugares onde passaram tanto tempo destruídos, muitos prédios de apartamentos também destruídos, tornando muitos dali órfãos. Todas as imagens sumiram, substituídas pela imagem da presidente argentina falando. Estava fardada como ditadora:

– A Argentina, com esse bombardeio, declara guerra total ao Rio Grande do Sul! Como se recusaram a se submeter ao legítimo governo do que restou da América do Sul, serão destruídos!

Loucura era visível em seus olhos. Atrás dela, apenas a Casa Rosada não pegava fogo, os semideuses conseguiam ver uma proteção brilhando ao seu redor, sem entender. O resto estava em chamas, parcial ou completamente destruído. A imagem mudou para o ditador gaúcho, que disse algo semelhante:

– O Império Riograndense, que inclui Rio Grande do Sul e Uruguai, declara guerra total à Argentina! Como retribuíram nossa proposta de submissão em paz com bombardeio aos nossos domínios, lhes dou minha palavra: antes do Inverno acabar, vocês estarão aniquilados!

Atrás dele, o Palácio Piratini, com o Olimpo resplandecendo acima dele, estava intacto. Os mais antigos então reconheceram quem ele era: completamente pilchado, tinha boleadeira, facão e revólver no cinto. Usava óculos escuros, o aro cor de sangue. Em seu peito, lia-se em grego “Ares”. Logo ao lado, em latim, “Marte”.

A fumaça baixou. Caos tomou a palavra:

– Apenas Ares acordou dos Olimpianos, por enquanto. Alguns menores também, os que têm força com a destruição e guerra, como Phobos. E vocês, querendo ou não, fazem parte dessa guerra. Existe um Acampamento em Buenos Aires, bem parecido com o de vocês. Antes do começo dessa maravilhosa era, todos os semideuses hispânicos migraram para lá. Para eles, o Olimpo é lá, não em Porto Alegre. A ditadora que vocês viram é uma filha de Belona. Nenhum de vocês tem escolha. Terão que lutar pela sobrevivência de argentinos ou gaúchos. Cabeças irão rolar, sangue será derramado. Vocês sobreviveram ao Apocalipse, mas seus problemas apenas começaram! – disse triunfante, levantando os braços, rindo seu riso caótico novamente.

A risada foi interrompida pelo som de uma espada sendo desembainhada. Antes que alguém pudesse impedir, Liessa Sapien correu com Guerreiro empunhada, gritando a plenos pulmões, enlouquecida. A filha de Ares fazia parecer que trezentos espartanos estavam correndo na direção do Deus Primordial. A lâmina atravessou a armadura negra, perfurando Caos. Ele se virou para a campista, sem esboçar reação de dor. A espada foi puxada para dentro da armadura, desaparecendo. Uma gota de sangue negra caiu no chão, corroendo o solo até desaparecer, deixando um buraco. O grito da semideusa morre, olhando para o rosto dele.

– Ousada, devo admitir. Se fosse contra seu pai, talvez tivesse adiantado de algo.

Caos levantou a mão, aberta. A campista foi erguida do chão, debatendo-se, xingando todo o dicionário de palavrões gregos. Os dedos dele começaram a fechar, o corpo dela começou a tremer e se distorcer em pleno ar, como se suas partículas estivessem lutando para continuar na estrutura original. A mão se fechou, Liessa colapsando em um grito sufocado de dor, deixando de existir, todos os seus átomos se separando.

Os semideuses olharam a cena, perplexos, enquanto o homem se virou e saiu andando. Ninguém ousou fazer algo semelhante ao que a filha de Ares fez. Olharam para seus líderes quando ele desapareceu, que olhavam para o chão, em sinal de luto. Pela semideusa, e por todos que morreriam. Sabiam que tinham uma guerra para lutar.

Notas finais
*A Décima Legião Gemina foi a principal legião romana que ficou na Península Ibérica (Portugal e Espanha) durante o Império Romano, por isso ela foi a escolhida para ser a legião da América do Sul. ____________________________________ Espero que tenham gostado! Estou entrando em férias daqui a alguns dias, talvez eu tenha mais tempo para escrever capítulos com mais frequência. Obrigado pelo apoio!