Pampean Chaos

8 Meeting the Enemy


Notas iniciais
Após bastante tempo sem escrever, finalmente consegui criar esse capítulo. Espero que gostem!

Daniel Cott e Anne White, dois filhos de Hermes, estavam em Buenos Aires, a mando de Gabriel Blake. Sua função era bastante simples: colher informações e retornar a Porto Alegre com vida, preferencialmente sem serem notados. O rapaz de olhos verdes dirigia o carro que tinham roubado após conseguirem passar pela fronteira. Não dirigia bem, mas se virava. Deram sorte de pegar um carro com gasolina, item escasso e caríssimo depois do Apocalipse. Provavelmente não teriam o mesmo luxo para voltar.

– Como está seu espanhol, Anne?

– Podia estar melhor, mas creio ser suficiente, ¿no? – o sotaque dela tinha um toque francês, pelo tempo que vivera em Paris.

– Tomara que seja mesmo, hermana, ou estamos ferrados.

Suspira, orando em silêncio para os deuses, por costume. A menina era mais novata que ele. Primeira missão dela, segunda dele. Mas eram tempos de guerra. Precisavam infiltrar-se, e ninguém melhor que filhos do deus do roubo para isso. Sentem o carro parar, a gasolina acabando. Teriam que prosseguir a pé.

***

O Acampamento de Buenos Aires era na Plaza de Mayo, uma histórica praça argentina, encravada no centro da cidade. Era menos densa que a Redenção em relação a árvores e menor em área. Entretanto, a morada dos semideuses argentinos ocupava grande parte da praça. Estava bastante destruída, visto que não tinham defesas mágicas como a gaúcha no momento das bombas. A área dos chalés e o centro estavam bem reconstruídos e com guarnições semelhantes as que os romanos estavam montando em Porto Alegre.

Quando os espiões gaúchos chegaram, já no final da tarde, foram abordados por dois homens altos com camisa roxa. Ouvem, traduzindo mentalmente:

– Alto! Quem são vocês e de onde vêm?

Os dois se entreolharam. Já sabiam o que responder. Daniel falou, em espanhol carregado:

– Viemos lá dos lados de Misiones... As bombas dos malditos brasileiros atingiram nossa casa, onde vivíamos... Vi em sonho, quando estávamos dormindo na rua, esse lugar. Então eu vim de mala e cuia para cá com minha prima. Não temos onde ficar, não comemos nada há uma semana porque acabou o dinheiro...

Os guardas responderam que os levariam até a líder deles, ela decidiria o que fazer com eles. Sem escolha, assentiram, andando entre os argentinos, olhando em volta.

A organização era eminentemente grega, porém visivelmente estavam vivendo sob técnicas romanas. Os semideuses estavam reunidos naquele momento em filas por chalé e coortes. O estandarte romano carregava o nome de X Legio Argentina. Mesmo número da Legião Riograndense.

Na frente deles estava uma menina de altura mediana. Utilizava uma armadura de bronze sem elmo. Seus cabelos castanhos com californianas iam até a clavícula. Segurava uma lança de bronze celestial e um escudo do mesmo material. Seus nomes respectivos eram Hastam Bellum e Caelestia Indigus. Os pelos da nuca dela se eriçaram. Parou de falar. Daniel percebeu que estavam em risco, pois o olhar lançado para eles não era amistoso. Filha de Ares, reconheceu só pelo olhar. Falou, em espanhol:

– Que fazem aqui? – o olhar dela brilhava. A sua capa roxa esvoaçava atrás, presa por presilhas na armadura. O silêncio que segue deixa Anne nervosa, a fazendo segurar a adaga dentro do bolso. Isso não passou despercebido. – Nem pense. Se és semideusa, não tem nada a temer aqui. Sou Victoria Kinnaird, Coordenadora e Pretora do Campamento Mestizo.

O semideus percebeu a tensão na meio-irmã e interveio, elevando a voz:

– Somos de Missiones, as bombas gaúchas destruíram nossa casa e viemos... – Antes que terminasse a frase, a líder argentina bate com o cabo de Hastam atrás de seu joelho, fazendo-o cair ajoelhado. Um guarda faz o mesmo com Anne.

– Brasileiros! Reconheço o sotaque quando ouço. Sou de São Paulo. Bem senti que alguma coisa estava errada. Levem-nos para a sala de interrogatório.

Nesse momento a filha de Hermes perdeu qualquer controle que restava. Sacou Víbora, sua adaga, e fez com que a adaga de um legionário viesse para sua mão esquerda com seu poder único. Pulou na direção da filha de Ares gritando de raiva, que se defendeu de seus golpes sucessivos com o escudo, sorrindo. Os dois guardas colocaram as espadas na frente da garganta do gaúcho, impedindo que ele ajudasse de qualquer forma, desarmando-o. As duas lutaram intensamente, porém a menina não estava de armadura e recebia os golpes de lança com severidade, cada um mais doloroso que o anterior. Até que, num grito de Victoria, a lança vara a perna de Anne. O som de osso quebrando é ouvido, a ponta do osso ficando exposta junto com a ponta de Hastam. A mesma cai no chão, Daniel gritando.

– Vá para o Tártaro. – Diz a pretora, atravessando sua cabeça com a lança. Um silêncio mortal se segue, a filha de Ares retirando a sua arma de dentro da adversária, cheia de sangue e restos mortais. O filho de Hermes estava abismado com tamanha violência e por não poder fazer nada. Desmaiaram-no com um golpe com a empunhadura na sua têmpora.

***

Daniel acordou algum tempo depois, sentindo a cabeça latejar. A imagem de Anne brutalmente assassinada na sua frente persistia em sua mente. Estava escuro. Sentia as cordas prendendo-o com firmeza na parede, a mordaça o impedindo de falar. Uma luz foi acesa, sem aviso-prévio, fazendo seus olhos doerem. Quando consegue enxergar, percebe que estava em uma sala comum, sem grandes detalhes, porém perceptivelmente no subsolo. Estava quente e ouvia o som de metal contra metal de longe. Por uma porta que não estava em seu campo de visão entrou a pretora, dessa vez sem armadura, porém ainda com a capa. Vestia uma camisa laranja do Campamento Mestizo e calça jeans. Parou na frente dele, a lança em mãos, já impecavelmente limpa. Pareceu ler sua mente, pois disse exatamente o que ele estava se questionando mentalmente. Dessa vez, falou em português:

– Nasci em São Paulo, mas fiz minha nacionalidade argentina um ano antes do Apocalipse. Pode facilitar e contar as vulnerabilidades do seu Acampamento? – Cortou a mordaça com a ponta da lança, deixando um rasgo fino na bochecha do rapaz. Sangue começa a escorrer, mas ele se limita a cuspir o pano e ficar em silêncio. – Ah, que pena.

Cravou a lança em seu braço direito, bem mais profundamente que o corte anterior. Daniel não segurou o arquejo de dor involuntário. Corajosamente, fala:

– Não vai arrancar nada de mim, “hermana”. Gabriel me preveniu de que provavelmente seria torturado se fosse capturado.

Victoria abaixou a lança e estreitou o olhar. Inquere:

– Gabriel? Quem é, seu líder de chalé? Conselheiro de guerra?

– Não. Gabriel Blake, filho de Atena, diretor do Acampamento Meio-Sangue de Porto Alegre.

O olhar dela se estreitou ainda mais. Bateu duas palmas e dois brutamontes romanos entram. Ela ordenou em espanhol, antes de sair:

– Esmurrem-no, cortem-no, façam o que quiser para arrancar informações, até ele quase apagar. Me chamem quando acabarem.

Fechou a porta, subindo as escadas, ignorando os gritos que começaram a ecoar da masmorra. A pretora estava pensativa. Foi buscar um dracma em seu quarto. Brincou com ele entre os dedos até que finalmente a chamarem de volta.

O estado de Daniel era deplorável. Muitos hematomas e sangue escorrendo por seu corpo, principalmente saindo da boca e de um corte no supercílio.

– Vai falar? – Ela pergunta, recebendo a negativa. Bufou e abriu a torneira que tinha no canto da sala. Abriu uma janela que tinha no topo, que dava ligação para a superfície, um feixe de luz solar iluminando o local e gerando um arco-íris com o fio de água. Falou, em espanhol: – Oh, Íris, deusa do Arco-Íris, gostaria que acordasse de seu sono e me conectasse a Gabriel Blake, no Acampamento Meio-Sangue de Porto Alegre. – O arco-íris tremula, bem lentamente. Mas, após um tempo, a imagem começou a se formar.

O escritório que antes era de Quíron. O filho de Atena estava olhando na direção da mensagem. Levantou uma sobrancelha ao ver o estado do espião. Estava controlando suas emoções, não as externando. Só externou a surpresa de ver Victoria na expressão. Perguntou:

– Onde está Anne? – Apoiou o queixo no punho esquerdo.

– Sendo preparada para queimar em uma pira, Gabriel. – disse, seca. – E esse aqui não está muito melhor. Por que mandou espiões em vez de vir você mesmo? — disse, mordendo o lábio inferior.

O diretor coçou a nuca. Daniel percebeu que alguma coisa tinha ali.

– Devolva-me ela. Você já fez seu jogo de “pretora boa, pretora má” com ele, deve ter descoberto algo. – Estava blefando para irritar ela, pois sabia que ele não abriria o bico. – Já pode mandar ele em um pégaso. Sem explosivos, por favor, seria previsível demais.

– Não vai ser fácil assim, docinho. – Ela fechou os olhos. Quando os abriu, estavam brilhando como só os olhos de filhos de deuses da guerra brilhavam. – Daqui a duas semanas, em Bagé. Leve um filho de cada deus grego ou equivalente romano. Você liderando. Quem ganhar a batalha ganha a Guerra.

Gabriel sacou Adélfos, olhando a lâmina, pensativo. Voltou a olhar para o arco-íris, tendo nos olhos cinzas um brilho similar ao dela.

– Prepare-se para morrer então, Victoria. – Passou a mão na água, encerrando a mensagem.

Notas finais
Espero escrever mais rapidamente o próximo capítulo, mas tudo depende de quanto tempo a universidade vai me dar.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.